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segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Deus e nossas compreensões a seu respeito


[…] Na vida, na morte, na vida além da morte, Deus está conosco.
Não estamos sozinhos. Graças a Deus.”


Recentemente, fui convidado a participar dum debate promovido por uma emissora de rádio acerca daquilo que chamaram de “fundamentalismo” religioso. Ao aceitar, já imaginava o possível caminho seguido pelo facilitador do debate, uma vez já havia sido entrevistado por ele antes. Assim mesmo, resolvi aceitar.

É engraçado como, em alguns pontos, alguns que se declaram como “ateus” se assemelham a alguns daqueles que se declaram como “crentes bíblicos”. A visão de Cristianismo que defendem ou recusam é exclusivista e engessada – ou seja, para que seus argumentos façam sentido, têm de reprovar e negar todas as outras possíveis expressões da fé cristã, mesmo aquelas com uma longa história.

Tratamos sobre Deus e Jesus, obviamente. Não tenho muita certeza da razão pela qual um cristão unitarista, como eu, seria convidado a um diálogo se os demais participantes, incluindo o próprio facilitador, excluem da identidade cristã aqueles que não abraçam uma visão teontológica (i.e., sobre Deus) e cristológica (i.e., sobre Jesus Cristo) ortodoxa. Para meus companheiros de debate, só seria possível “ser cristão” se você entende Deus como uma entidade pessoal que habita algum lugar no espaço (o “Céu”). E, para ser cristão, eu deveria crer em Jesus como “Deus em carne, que morreu” por mim!

Esse tipo de perspectiva, devo enfatizar, esperaria da maioria dos cristãos – afinal de contas, a maioria dos cristãos se declara “trinitarista”. Mas ela também foi defendida por um “cientista” que se declarou como “ateu”!… Lá estavam eles, talvez sem perceber, coparticipando – no mesmo lado – dum antigo e contínuo conflito epistemológico.

Expliquei aos meus colegas o sentido delimitado que atribuo ao termo “fundamentalismo”. Expliquei que o termo, para mim, não deveria ser utilizado da forma pouco clara e generalizada como o é pela maioria das pessoas que o utilizam. Expliquei que, apesar de eu ser um opositor do “fundamentalismo” (enquanto tradição teológica cristã), não utilizo o termo com um sentido pejorativo. Ser “fundamentalista” não é ser “intolerante” em si; mas, sim, as bases ideológicas daquela tradição são exclusivistas – mas “exclusivismo” e “intolerância” não são necessariamente sinônimos! [O ambiente político é o que tem sinonimizado os termos.]

Sim, também irritei os demais – especialmente o facilitador e o declarado “ateu”. Disse-lhes que era uma incoerência que atacassem o “fundamentalismo” ao mesmo tempo em que utilizassem a base mais importante da tradição para criticar as minhas posições: a ideia de que só há uma forma válida de crer.

Foi, ademais, interessante como se referiam a mim. Os demais – com exceção do “cientista” – eram “pastores” e “padre”. Eu era o “teólogo”.

Essa distinção poderia parecer irrelevante aos leigos, mas sob ela se escondia um preconceito acerca de minha fé. Obviamente, enfatizei isso. Disse aos demais que fora convidado àquele debate como um “Ministro cristão” – o que eu sou e o que era reconhecido por escrito no convite que recebera. O uso que faziam do termo “teólogo”, que creio ser inapropriado para se referir a mim – já que minha formação ou minhas atividades pastorais ou teológicas não me tornam um “teólogo” per se –, reforçava sua crença exclusivista de que minha fé não era cristã, minha comunidade de fé não era cristã e eu, por isso, teria menos dignidade ministerial que os demais. Mais uma incoerência para um evento que se apresentara como um debate sobre os riscos do “fundamentalismo religioso”.

Como já tenho dito e escrito há muitos anos, tendo a ter um grande cuidado no uso que faço de certos termos. Penso, por exemplo, que dizer “Deus existe” seja menos que apropriado para falar sobre minha fé. A existência é uma qualidade atribuída a entidades materiais, físicas, objetivas/mensuráveis. Deus, em minha compreensão não é nenhuma delas. É por isso que não proclamo a “existência” de Deus – mas meus colegas de debate foram, aparentemente, incapazes de compreender isso!

Em vez de falar em “existência” de Deus, prefiro proclamar sua “realidade”. Utilizo, inclusive, o nome “Realidade” para me referir ao Divino. Recorrendo à minha herança judaica, gosto de usar “o Nome”, “o Eterno”, “a Realidade” para me referir a Deus.

Deus, para mim, é mais que uma entidade pessoal. Deus enquanto “pessoa” é apenas uma metáfora para que possamos começar a compreender o Mistério Eterno. Se Deus fosse uma “pessoa”, estaria limitado pelo tempo e pelo espaço, já que a qualidade de pessoa é finita e condicional. Então, claramente, a “personalidade” (a qualidade de pessoa) de Deus seria apenas uma metáfora para que pudéssemos humanizar nossa relação com o Divino – da mesma forma como fazemos com nosso uso do termo “Pai”.

Assim, não posso dizer que tenho esperança de encontrar Deus ao fim de minha vida temporal. Não poderia ter esperança disso porque, para mim, Deus não é uma pessoa como você e eu. Deus não está num lugar específico do cosmo; o cosmo é que está em Deus – incluindo você e eu (Atos 17:28). Minha esperança não se centra num destino final; centra-se, antes, num encontro na jornada: ou seja, minha esperança é encontrar Deus no processo de viver minha existência. Assim, Deus, de fato, está comigo – porque O encontro no dia a dia.

Isso, contudo, é minha compreensão presente de Deus. Minha compreensão e todas as demais compreensões da Divindade não são o mesmo que Deus – se o fossem, seríamos todos idólatras, ao menos para a tradição cristã (já que estaríamos idolatrando nossas próprias compreensões). Deus é Deus. E Deus, que é Deus, é Eterno – e minha mente não consegue compreender plenamente a Eternidade, já que estou condicionado pelo tempo e pelo espaço.

E é exatamente por isso que me basta declarar que confio em Deus.

+Gibson
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