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sábado, 17 de outubro de 2015

Minicurso “O Fim Está Chegando: Dois Milênios de Mitos Escatológicos” – respondendo às provocações que encerraram o minicurso

Esta semana, facilitei um minicurso, no IRWEC, chamado “O Fim Está Chegando: Dois Milênios de Mitos Escatológicos”. Como contamos com a presença de membros de outras instituições teológicas ou outras comunidades de fé, os debates foram acirrados e gratificantes. Para mim, como facilitador e autor daquele minicurso, aquela foi uma excelente oportunidade para discutir aquelas ideias com alunos, participantes e leitores, mesmo que com a aparente limitação de tempo (vinte horas distribuídas ao longo de cinco dias) para a abordagem dum tema tão importante à maioria dos cristãos.

Agradeço a todas e todos pelas provocações, questionamentos e ampla contribuição. Abaixo, responderei, como prometido, àquelas provocações às quais não pude responder, ontem, por falta de tempo.

Sou um cristão liberal. Minhas tradições e comunidades de fé me ensinaram a questionar, a duvidar, a buscar. Não a temer. O questionamento, em minha experiência, não destrói a fé. Muito pelo contrário. O questionamento a fortalece sobre bases sólidas, capazes de enfrentar a experiência da vida adulta.

Creio ser uma infantilização da fé – perdoem-me a linguagem – encará-la como algo que deva ser “defendida”, “protegida”, etc, quanto à sua relação com a cultura contemporânea. Esse tipo de asserção ao mesmo tempo personifica e coisifica a fé. Eu, pessoalmente, rejeito essa atitude. A fé, para mim, é a língua que utilizo e reconheço para articular minha compreensão do Mistério, para participar do diálogo espiritual do qual todos – mesmos os formalmente descrentes – participamos neste mundo. A fé, como as línguas que falamos, possui uma gramática própria, um vocabulário característico, uma melodia poética. Ademais, cada um de seus “falantes” possui seu próprio idioleto.

Obviamente, a comparação é metafórica, mas a metáfora se reveste de verdade para minha experiência humana.

Se alguns veem a “religião” – que chamo de “fé” – como uma “[re]ligação” com o Divino, eu a vejo como a língua através da qual articulamos a compreensão do e nossa relação com esse Divino. E essa língua independe duma ligação formal com uma “comunidade de fé” específica, por exemplo. Da mesma forma como ocorre com falantes de línguas minoritárias em países onde essas línguas não são oficiais ou não são faladas pela maioria.

Em minha relação com a Dimensão Misteriosa – que chamo de Deus –, “falo”, além da “língua” oficial ou majoritária da minha comunidade de fé, meu próprio idioleto espiritual, que pode ser estranho a outros membros daquela comunidade. E creio que isso ocorra com todos nós.

E já que tratamos de Teologia Histórica, é importante enfatizar que aquela atitude – o da “defesa da fé”, nos termos que foram levantados por um dos participantes – tem uma origem histórica específica no pensamento teológico ocidental: a Reforma Protestante. É a partir das diferenças que emergem na Reforma entre os variados grupos “protestantes”, e entre esses e os católicos romanos, que a “fé” passa a ser sinônimo, quase que exclusivo, de “crença”. Ela deixa de ser uma ação divina na alma humana e passa a ser uma ação intelectual do próprio homem. Ter fé, a partir de então, é acreditar na doutrina certa – e, obviamente, o que é “certo” (ortodoxo) para alguns, será “errado” (herético) para outros. Com isso, obviamente, não estou querendo dizer que as noções de “ortodoxia” e “heresia” só passaram a existir a partir da Reforma; o que estou afirmando é que a noção de “fé”, no Cristianismo ocidental, foi reduzida e determinada por aquelas duas outras noções!… É por isso que ouço, por exemplo, pessoas me chamando de “descrente”, “ateu” etc, por não compartilhar de suas compreensões. Como não acredito no que elas acreditam, então – para essas pessoas –, não tenho fé alguma, estou longe de Deus! [Não foi exatamente isso que foi dito pelo participante que me questionou?!]

[O questionamento, a propósito, não me ofendeu por inúmeras razões. A primeira delas é o simples fato de eu acreditar plenamente que o questionamento seja essencial ao aprendizado e que esse só é possível num ambiente de liberdade intelectual – como quero acreditar que tenha sido o nosso ao longo do minicurso. A segunda é o também simples fato de eu saber exatamente a origem daquela dúvida – conhecendo o background do questionador, ficou fácil entender a raison d'être de sua questão, e que eu tinha de respondê-la a partir de sua perspectiva (isto é, colocar-me em seu lugar). Então, por mais que ele pudesse ter sido menos agressivo em suas colocações, entendo suas razões, e por isso não me sinto ofendido!]

O grande problema em se definir a fé como “assensus” – isto é, como “crença” – é o de lidar com o tipo de conhecimento que nos estão disponíveis hoje em dia. Um exemplo: um cristão, do século XXI, lê os relatos da Criação no Gênesis – sim, porque não há apenas um, há dois relatos distintos da Criação (a mais antiga começa em Gênesis 2:4 e se estende até o fim do capítulo 3; a segunda narrativa aparece entre Gênesis 1:1 – 2:3) – e percebe que há um grande “conflito” entre aqueles relatos e o que sabemos sobre a origem de nosso Universo e da vida aqui. O que faz?… Bem, se ele acredita que a Bíblia seja um escrito divino em sua origem, no qual não há erros, sua única opção – de acordo com os que ensinam essa perspectiva – será rejeitar o que a ciência ensina. Ou, como alternativa, poderá abandonar sua “fé”. Mas, novamente, esse é um caso extremo em dois aspectos: sua compreensão do conceito de “fé” é exclusivista; assim como também o é sua compreensão do conceito de “ciência”.

O mais interessante é que isso é defendido não apenas por pessoas religiosas. Muitos “cientistas” também abraçam uma visão exclusivista tanto da fé quanto da ciência! [Correndo o risco de fazer certas asserções equivocadas acerca da fé religiosa como as feitas por Christopher Hitchens num famoso livro seu, “God is not great”.]

Pessoalmente, não penso que haja contradição entre fé e ciência, pela simples razão de as duas lidarem com distintas dimensões da realidade. Deus, espírito, etc, são conceitos que utilizamos para lidar com a dimensão Misteriosa de nossa realidade. Os terremotos, a evolução, os tsunamis, as doenças, etc, são todos temas que dizem respeito à dimensão objetiva de nossa realidade. E há aqueles temas que se dividem entre os dois: o nosso tema de estudo no minicurso a Escatologia – é um exemplo disso.

Preocupações escatológicas, a propósito, não se restringem apenas a tradições religiosas judaicas, cristãs e islâmicas, já que também adentraram, até certo ponto, as filosofias políticas que emergiram entre judeus, cristãos e muçulmanos (Marx e Engels sendo, para alguns, um exemplo disso no Ocidente judaico-cristão; Sayyid Qutb, um exemplo dentre os pensadores muçulmanos); e, se entendermos essa preocupação escatológica de forma mais ampla, ela também se faz presente, de alguma forma, na narrativa cosmológica da ciência contemporânea (por exemplo, na ideia de que vivemos num Universo em evolução, um Universo com uma seta quântica de tempo, cuja direção lhe é transmitida pela assimetria temporal advinda da segunda lei da termodinâmica).

Quanto às questões específicas referentes às Escatologias judaicas e islâmicas, elas foram discutidas em nosso segundo encontro, e estão no material que disponibilizei para vocês. Assim, esclarecerei apenas o ponto sobre o chamado “Mahdismo” islâmico do século XIX – o termo “Messianismo” não é apropriado para nos referirmos a esse movimento no Islã. Um “mahdi” seria alguém divinamente escolhido para livrar uma comunidade do perigo. No século XIX, em decorrência da experiência do imperialismo europeu, muitos “mahdis” surgiram nos países de maioria muçulmana, especialmente na África. Esse movimento, obviamente, criou uma tensão com as formas mais “ortodoxas” de Islã. E isso mantém certas semelhanças com o que ocorreu no próprio Cristianismo, com seus movimentos “proféticos” (o Profetismo)… Mas já discutimos isso, logo não necessito tratar disso aqui novamente.

Para concluir, apesar de ser limitado tratar do desenvolvimento de compreensões escatológicas sem se levar em consideração o contexto sociocultural do lugar onde emergiram, é ainda muito mais limitado pensar que crenças religiosas sejam determinadas pelos contextos políticos ou econômicos nas quais surgiram. Essas crenças – parte da dimensão conceitual envolvem elementos daquela dimensão misteriosa à qual fiz menção, que não se justificariam apenas pela política ou economia. A abordagem interpretativa que abraço envolve as três “dimensões”: a objetiva, a misteriosa e a conceitual – ou seja, do encontro de nossa experiência com a dimensão objetiva com a dimensão misteriosa, participamos na construção da dimensão conceitual (que consiste em muito mais que apenas crença). Assim, a fé (a dimensão conceitual), em minha compreensão, é um processo de relações entre nossa experiência com o mundo, com outras pessoas, conosco mesmos, e desses com o “Mistério”; dessas relações emerge nossa compreensão – nossos conceitos.

Bem, é isso!… Quaisquer comentários, críticas ou dúvidas, é só me escrever.

Grande abraço a todas e todos!

+Gibson
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