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sábado, 1 de agosto de 2015

Mais uma vez, a Bíblia...


No princípio era a palavra. E a palavra, repetida por lábios tão diversos, escondia, por trás de si, sentidos múltiplos. Essa é a arqueologia do pensamento teológico cristão – e, na verdade, de qualquer pensamento.

É tolice imaginar que nossa devoção e/ou submissão às Escrituras de nossa tradição de fé seja suficiente para atestar uma suposta veracidade de nossas convicções, que seja assentada sobre a universalidade conceitual entre todos os fiéis. Absolutamente todos nós lançamos sobre as Escrituras, quando as lemos e estudamos, nossa própria experiência – ou nosso próprio imaginário – pessoal e coletiva(o).

Quando lemos uma palavra no texto sagrado não atribuímos a ela o mesmo sentido que os antigos o fizeram, nem o mesmo sentido que todos os outros fieis que compartilhem de nossa tradição atribuem. E não o fazemos porque estamos vivos no mundo. Cada um de nós só consegue enxergar o mundo a partir de sua própria perspectiva – mesmo que pensemos que estamos apenas emulando a visão de outros.

Quando ouvimos o nome “Deus”, as palavras “salvação” ou “amor”, o verbo “orar”, etc, não temos os mesmos sentimentos ou os mesmos pensamentos. Podemos até pensar que esses termos tenham ou devam ter os mesmos sentidos igualmente para todos nós, mas não é isso que ocorre – e, para mim, não é isso que deve ocorrer.

Se, como tantos costumam enfatizar, a “palavra de Deus” é viva, então ela deve realmente se tornar viva para o fiel. E só se tornará viva se ele ou ela for capaz de “traduzi-la” para a sua própria alma. Assim, Deus, salvação, amor e orar podem e devem ter sentidos diferentes para pessoas diferentes.

Quando nos debruçamos sobre as Escrituras, nos erguemos “sobre os ombros” de outros para interpretá-la. Isso porque os sentidos que atribuímos aos textos que lemos são moldados, em parte, pelas demais concepções que temos do mundo ao nosso redor. Assim, projetamos nossa herança (chamemos de) cultural sobre o que lemos. Não lemos sozinhos. E, ao mesmo tempo em que fazemos essas projeções culturais (logo, coletivas) sobre o texto, o moldamos à nossa própria percepção do que seja aquela herança cultural. Em outras palavras, a leitura/interpretação é, simultaneamente, coletiva e individual.

Com exceção da afirmação da realidade Divina, não há nenhuma verdade universal que esteja presente ao longo de toda a Bíblia que possa ser imposta a todos os adeptos do “Bom Livro” como um teste de ortodoxia. Para existir, essa ortodoxia tem de ser construída sobre outros elementos, e não o texto bíblico em si. Não importa o quanto se afirme que “minha fé se baseia nas Escrituras; é isso que ela diz e ponto”. Ela diz o que uma determinada visão de mundo quer que ela diga.

Lembro-me dum debate que impus como atividade aos meus alunos no seminário sobre a relação entre o Cristianismo e a guerra. A pequena turma, de treze alunos, foi dividida em dois grupos – um que deveria defender a possibilidade do envolvimento de cristãos com a guerra, e outro que deveria ser contrário a essa visão. Tive o cuidado de pesquisar sua opinião anteriormente, e dividi-los de forma a defenderem mais ou menos a visão que já abraçavam. Os grupos deveriam utilizar a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento como fontes básicas para o debate. Tiveram uma semana para se preparar. Minha intenção era exatamente mostrar a eles o quanto nossas leituras dependem do que já carregamos de nosso “conhecimento de mundo”.

O debate foi mediado por outros dois professores e eu.

O debate resultou no esperado. As discussões foram acirradas, tendo se baseado em bons argumentos, nos quais foram utilizados amostras de textos bíblicos que pareciam apoiar a visão de cada grupo. Eles utilizaram o mesmo manual (a Bíblia) e chegaram a considerações muito diferentes! Apesar de terem recorrido ao seu conhecimento histórico e linguístico para sua exegese, a maioria acreditava que estivesse apenas utilizando os argumentos bíblicos.

Fiz uma nova pesquisa de opinião. O tema era a Cristologia (a doutrina acerca da natureza de Cristo) no Novo Testamento. Separei os grupos entre trinitaristas e antitrinitaristas. Só que, desta vez, fiz com que os participantes defendessem uma visão contrária à sua própria. Mais uma vez, tiveram uma semana de preparação.

Dessa vez, contudo, as coisas não foram iguais, ao menos para a maioria dos alunos e alunas. Muitos se mostraram inseguros e menos convincentes na defesa dum ponto de vista contrário ao seu. Os argumentos da maioria eram fracos. Aquela turma de Mestrado, com alunos formados nas mais variadas áreas das humanidades, falava como se tivessem acabado de sair do Ensino Médio.

“O que deu errado?”… Essa foi a discussão que tivemos posteriormente.

Na verdade, não é que algo tenha “dado errado”. O problema é que, ao defender uma ideia que não apreciavam, que desconheciam e na qual não acreditavam, perderam seu “chão”. As fontes textuais que utilizaram não foram convincentemente argumentadas. Tenho certeza que teriam feito um excelente trabalho se tivessem tido a oportunidade de defender, cada grupo, sua própria perspectiva (ou aquela que mais se aproximasse dela).

A atividade ajudou-os a perceber a complexidade da atividade exegética (interpretativa). Após aquela atividade, aparentemente puderam perceber que a interpretação de textos sagrados (em nosso caso, a Bíblia) segue o mesmo padrão de qualquer outro texto: quem somos e o “lugar” onde estamos influencia/molda nossa leitura. É isso que faz com que nossas interpretações não sejam, nem possam ser, as mesmas. Não somos a mesma pessoa, nem ocupamos o mesmo “topos” no mundo – e isso é verdade no que tange a pessoas que professam a mesma tradição e sentam-se uma ao lado da outra na mesma comunidade de fé.

A explicação de Locke não se aplicaria aqui. Não somos uma tabula rasa quando lemos um texto – já temos todo um universo conceitual construído por trás de nossos olhos.

Paz a todos!

+Gibson
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