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terça-feira, 2 de abril de 2013

Cristianismo... ainda relevante?


Numa conversa muito agradável com um grupo de jovens universitários – i.e., pessoas mais jovens que eu –, ouvi as inquietações que frequentemente abatem a confiança que esses têm em sua tradição de fé. Na visão daqueles meus amigos, seria difícil confiar numa instituição religiosa – i.e., na igreja – que estaria associada a tudo aquilo que aprenderam ou experienciaram ser opressivo ou corrupto; assim como seria impossível acreditar em fórmulas de fé que contradizia o que conheciam sobre o mundo. Para eles, o que compreendiam ser a fé cristã tornara-se irrelevante.

Aquele tipo de inquietação não me é estranha. Em primeiro lugar, não estou tão distante assim da idade daqueles meus amigos – que estão entre os vinte e os vinte e cinco anos de idade, e eu em meus trinta e quatro –, logo, posso lembrar-me claramente das transformações psíquicas e intelectuais pelas quais passamos àquela altura da vida, quando estamos nos aventurando nas correntes de novos conhecimentos, novas experiências de vida e novas escolhas que nos marcarão profundamente. Ademais, lido constantemente com os relatos de experiências semelhantes na vida de outros jovens com os quais converso ou me correspondo. Assim, estou sendo plenamente honesto quando lhes digo que não estão sozinhos quando passam por aquelas correntezas de sentimentos de dúvidas e incertezas. Esses sentimentos são naturais e, acredito, necessários ao nosso crescimento intelectual e espiritual; e, mais importante, não são nada de que tenham de se envergonhar.

Para que eu seja o mais direto e objetivo possível, deixem-me declarar que confio plenamente na relevância da fé cristã para nosso mundo. O Cristianismo oferece uma narrativa do sagrado que tem moldado positivamente a vida de milhões de pessoas há pelo menos dois milênios – que continua a oferecer uma jornada espiritual a incontáveis pessoas no mundo contemporâneo. O Cristianismo tem me oferecido uma narrativa do sagrado capaz de construir uma corrente de relações entre minha vida e o Divino, oferecendo-me uma interpretação vivificante para a realidade que experiencio. Em termos mais seculares, por exemplo, é fácil esquecermos que nossas instituições ocidentais de direitos humanos, cidadania, liberdade etc, emergem dum imaginário judaico-cristão. O sentimento anticlerical da modernidade fez com que, ingenuamente(?), desassociássemos essas instituições da herança greco-romana-abraâmica na qual foram moldadas. Ouso supor que aqueles traços “ocidentais” só vieram à tona da forma e no tempo no qual passaram a existir por haverem emergido em sociedades cristãs – o que teria ocorrido não tivesse o Cristianismo se casado com o pensamento greco-romano no mundo Mediterrâneo, e vice-versa? O cinismo característico de nossa atitude intelectual moderna se nega a reconhecer essas associações, mas elas estão lá!

Penso que o problema que alguns de nós encontramos para achar sentido no Cristianismo, ou em qualquer uma das outras duas tradições jordânicas – i.e., o Judaísmo e o Islã –, é o de termos sido “treinados” para associar a fé a crenças dogmáticas e a definições objetivas duma suposta realidade teológica. Acostumamo-nos a declarações como “Deus disse”, “a verdade é”, “só Jesus salva” etc, mas não a descobrir novos níveis de sentido para essas declarações. “Deus” torna-se um problema, então, não porque Deus seja um problema, mas simplesmente porque fomos treinados a compreender o Divino como se fora um rei absolutista ou uma equação matemática. A “verdade”, nesse sentido que aprendemos a dar ao Cristianismo, é algo que pode ser equacionado, metrificado, verificado, quantificado – é, enfim, um absoluto. Então, se minha experiência me leva a compreensões que contradigam essa “verdade”, Deus e, consequentemente, o Cristianismo deixam de fazer sentido e tornam-se irrelevantes.

A coisa mais relevante sobre a tradição cristã é que ela, na verdade, são várias tradições. Não há algo que possamos chamar de Cristianismo único – para mim, há Cristianismos, no plural. Com isso quero dizer que há várias maneiras diferentes de compreender a mensagem cristã, e que nós, cristãos, podemos experienciar algo como aquilo sobre o qual fala Brian McLaren, em seu “A Generous Oxthodoxy”, quando aponta diferentes perspectivas em diferentes tradições cristãs que formam seu eu cristão pessoal. Em minha experiência Unitarista-Anglicana-Luterana (não necessariamente nesta ordem sempre), com a forte presença judaica, consigo uma latitude interpretativa maior para minha própria vida. Posso reler a narrativa cristã a partir de diferentes posições no espectro teológico, enxergando Deus duma perspectiva nova, descobrindo um novo nível de sentido para uma declaração atribuída a Jesus ou a um dos apóstolos, por exemplo. Assim, não são os detalhes minuciosos que passam a ter relevância, mas a Realidade para a qual a metáfora aponta: por exemplo, não faz diferença se Jesus ressuscitou a um homem morto, mas sim a cadeia de sentido que está por trás desse relato etc.

O Cristianismo é relevante para mim por ser um testemunho do caminho da Compaixão. Esse caminho é o que tenho chamado de sola caritas – o amor, a caridade, a compaixão é o único caminho que nos leva a Deus. Dizemos que Jesus é esse caminho porque ele nos aponta – na verdade, exige que sigamos – o caminho da Compaixão; assim, seguir a Jesus é seguir o caminho que ele percorreu: é viver pela presença do Divino aqui e agora, é ser essa presença para outras pessoas. Para mim, não outra mensagem mais relevante que essa, já que seu chamado não é para que eu largue minhas dúvidas ou inseguranças, mas sim, para que eu faça, para que eu ame, para que eu “caminhe”.

Não posso definir Deus. Não consigo encontrar uma maneira suficientemente ampla para falar sobre essa Realidade dentro da qual tenho minha existência. Também não consigo estar sempre acima da dúvida e dos questionamentos, quando presencio o sofrimento e a dor daqueles que amo e minhas próprias. Mas escolho pensar que se há verdade, essa tem de se materializar em nosso dia a dia, por isso – como me ensinou um sábio mestre –, tenho de trazer Deus para dentro da realidade do mundo (não necessariamente Deus como um ser, mas Deus como a compaixão ensinada pelo rabino galileu). O mandamento de “restaurar o mundo” – e a vida daqueles cristãos celebrados como santos é um exemplo disso – torna-se o padrão por meio do qual avalio o valor da mensagem cristã; uma mensagem que escolho interpretar como um caminho, um modo de vida.

Tenho certeza que vocês também podem encontrar uma forma de o Cristianismo ser relevante em suas vidas, ao mesmo tempo em que conseguem se manter intelectualmente íntegros.

+Gibson
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