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sábado, 21 de junho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 1


[Tentarei aqui responder a algumas questões levantadas por Edgar, um leitor que se identifica como “unitário-universalista”.]

Caro Edgar,

Algumas das questões que você levanta são interessantes, entretanto, sem querer ser ofensivo, algumas das afirmações que você faz demonstram que ainda não conhece muito sobre a história e as ideias da tradição unitarista. Me surpreende, por exemplo, que você pense que ouvir um cristão se identificar como unitarista (que você chama de “unitário”) seja “se apropriar indevidamente do nome de outra religião”! O Unitarismo per se é uma tradição cristã. O fato de nós unitaristas não sermos tão “abertos” (termo que você utiliza) quanto os “unitário-universalistas” para outras crenças e/ou práticas religiosas baseia-se no simples fato de professarmos uma fé específica, i.e., a fé cristã. Na realidade, acredito que como uma tradição de fé somos muito abertos, tolerantes, e respeitosos com outras tradições religiosas, mas isso não significa que tenhamos de negar nossa própria fé para exibirmos esse respeito; não significa que tenhamos de trazer práticas de outras religiões para dentro de nossas liturgias só para que pareçamos “abertos” (sua ideia de abraçar práticas das religiões afro-brasileiras em ofícios unitaristas, para mim, soa a isso).

Ecumenismo, a propósito, é diferente de adotar crenças e práticas de outras religiões. O ecumenismo se refere à busca de união no contexto da própria Igreja cristã; ou seja, diferentes tradições cristãs buscando uma união entre si, apesar de suas diferenças, enquanto discípulos de Jesus Cristo. O caso referido por você poderia ser chamado de pluralismo inter-religioso.

Penso que devo esclarecer que há importantes diferenças teológicas – mesmo que essas não pareçam muito óbvias para quem olha de fora – entre as tradições do Unitarismo, do Universalismo e daquilo que você chama de Unitário-Universalismo. Só quando se compreende as diferenças entre essas tradições, e o contexto histórico no qual elas se desenvolveram, é que se pode chegar a uma resposta às questões que você levanta. E, por conta de sua formação intelectual, creio poder trazer alguns elementos mais complexos ao nosso diálogo. Aqui, tratarei apenas dos aspectos históricos do Unitarismo, em mensagens posteriores, tratarei sobre suas outras questões.

Para que minha posição fique muito clara, sou um unitarista, isto é, um protestante liberal herdeiro da tradição unitarista anglo-americana (ligado, eclesiasticamente, a outras diferentes denominações protestantes). Minha compreensão teológica está enraizada numa lealdade às Escrituras judaico-cristãs (i.e., à Bíblia), e à tradição teológica que se desenvolveu a partir da Reforma do século XVI, mais especialmente aquela nascida dentro da Igreja da Inglaterra e nas igrejas congregacionais da Nova Inglaterra (EUA) no século XVIII. Como um unitarista, os princípios do “sola scriptura” e do “sacerdócio universal dos fiéis” são importantíssimos para mim. Isso distingue minha compreensão daquela da maioria dos que se identificam como unitário-universalistas, já que sua compreensão teológica não se limita ao Cristianismo – não se identificando plenamente com aquilo que historicamente foi/é professo pela maioria dos cristãos unitaristas e universalistas. Também é importante que você compreenda que a Unitarian Universalist Association (UUA) é uma associação de igrejas autônomas, de governo congregacional, e não uma religião – é verdade que a maioria das igrejas associadas se identificam como “humanistas” (utilizando o termo “unitário-universalista” como adjetivo), mas há muitas igrejas cristãs unitaristas e universalistas tradicionais membros da associação. O que mantém essas igrejas unidas é um senso de cooperação, e não de compreensão teológica específica.

Ainda sobre o Unitarismo nos Estados Unidos, a maioria das igrejas cristãs unitaristas, entretanto, desde a formação da UUA e do predomínio de não-cristãos na mesma, se associou a outras denominações como a United Church of Christ (UCC), a Christian Church (Disciples of Christ), ou se tornou independente. É importante notar que mesmo as igrejas cristãs que continuaram na UUA, especialmente aquelas em nosso berço na Nova Inglaterra, se associaram à UCC, como uma forma de auto-identificação explícita como igreja cristã sem, contudo, negar sua lealdade à tradição unitarista ou universalista – o que pode ser visto, também, como uma forma de reconciliação na tradição congregacional americana (lembre-se que a Associação Unitarista Americana, que deu origem à UUA, foi formada depois dos conflitos entre as igrejas congregacionais unitaristas e trinitaristas na Nova Inglaterra no século XIX). Da mesma forma, também há igrejas cristãs universalistas na UUA, que, para manterem sua identidade cristã fizeram o mesmo que as igrejas unitaristas. Ademais, há algumas congregações universalistas em outras denominações protestantes. Também, não se deve esquecer que hoje há, nos Estados Unidos, outras associações unitaristas e universalistas especificamente cristãs (sem citar os exemplos fora dos EUA, como aqui no Brasil).

O Unitarismo brasileiro é descendente direto dessa tradição unitarista congregacional da Nova Inglaterra. Como na comunidade daqui não houve os mesmos desenvolvimentos históricos ocorridos nas comunidades dos Estados Unidos durante o século XX, aqui não houve o que ocorreu por lá. Os grupos existentes continuaram a professar uma fé cristã unitarista tradicional, apesar de, em certos aspectos, serem enriquecidas por algumas das discussões ocorridas na América do Norte – a depender de quem chegava por aqui. A comunidade foi mantida por missionários vindos dos EUA até fins da II Guerra Mundial, quando se tornou plenamente autônoma. Nos EUA, a união dos Unitaristas, Universalistas e Humanistas só ocorre na década de 1960, ou seja, após a autonomia dos unitaristas brasileiros e de outras partes do mundo.

O que torna o Unitarismo difícil de ser compreendido pela maioria dos outros cristãos é o fato de a tradição não poder ser bem definida em termos dogmáticos. Os unitaristas, desde suas primeiras origens no continente europeu, e de seu desenvolvimento nas ilhas britânicas e na América do Norte, sempre foram muito diversos em termos teológicos – dependendo da “comunhão” cristã da qual emergiram. Assim, os primeiros unitaristas da Alemanha, da Itália, da Transilvânia, da Hungria, da Polônia, de diferentes regiões da Inglaterra, da Escócia, da Irlanda e da América do Norte (e aqui utilizo os nomes contemporâneos só para não complicar ainda mais!) abraçavam compreensões teológicas, práticas litúrgicas e organizações eclesiásticas distintas umas das outras.

Na verdade, é importante lembrar que o próprio adjetivo “unitarista” é problemático, já que é um identificador utilizado primeiramente por seus adversários, tanto católicos quanto protestantes, sendo incorporado por esses cristãos apenas depois de algum tempo. Outros termos utilizados para identificar nossa tradição foram os adjetivos “sociniano” e “ariano” (que, individualmente, possuem sentidos teológicos específicos não necessariamente partilhados por todos os “unitaristas”). O termo “unitarista” (em latim) foi utilizado pelo primeira vez num documento da Dieta de Lecfálva, em 1600, para se referir aos antitrinitaristas da Transilvânia (hoje parte da Romênia), cuja igreja se chamaria posteriormente “Igreja Unitarista da Transilvânia” (chamada assim até hoje). Em inglês, o termo começa a ser usado por um sociniano, Henry Hedworth, em 1673 – e se torna o termo padrão utilizado pelos próprios antitrinitaristas, apesar de seus adversários os chamarem de “socinianos”. A única coisa comum a todos esses diferentes grupos de cristãos, em diferentes regiões da Europa e, posteriormente, da América do Norte, era seu aparente “antitrinitarismo” – isto é, sua aparente rejeição do dogma da “Trindade” como definido pelo Credo de Atanásio.

Não posso escrever aqui uma história do Unitarismo, mas, talvez, “cronologizar” certos pontos de seu desenvolvimento histórico ajude um pouco:

  • Tradicionalmente, identifica-se Martinho Borrhaus (alemão), um amigo de Lutero, como o autor da primeira obra publicada que defendia uma teologia antitrinitarista – “De operibus Dei” (1527) –, visão, a propósito, desaprovada por Lutero.

  • Depois dessa obra, é publicada por Miguel Serveto (espanhol) a obra “De Trinitatis Erroribus” (1531), na qual ele trata especificamente do dogma atanasiano da Trindade; e, mais tarde, “Christianismi Restitutio” (1551), sua obra mais importante e a causa apontada para sua morte, queimado na fogueira por heresia, pelos reformados (calvinistas) em Genebra, em 1553. Ele defendia uma visão cristológica (isto é, sobre Cristo) “ariana”, ou seja, Cristo preexistia antes de sua encarnação – uma discussão muito complexa que mereceria uma postagem própria (quando puder, discuto isso aqui no blog). Serveto é considerado a influência teológica mais importante para o início das igrejas antitrinitaristas/unitaristas da Transilvânia e da Polônia, e o primeiro “mártir” unitarista.

  • Em Veneza, a partir de 1550, ocorre o desenvolvimento do movimento antitrinitarista liderado por Matteo Gribaldi Mofa, um teólogo e advogado defensor de Serveto, entre os anabatistas. Mofa tornou-se um importante líder do movimento, sendo o professor de futuros líderes do movimento antitrinitarista em outras áreas da Europa.

  • Na Polônia, já desde fins da década de 1530, se desenvolviam ideias antitrinitaristas entre os membros da Igreja Reformada (calvinista). Em 1565, esses antitrinitaristas poloneses, formados por arianos e unitaristas, e chamados de “Irmãos Poloneses”, foram expulsos do sínodo da Igreja Reformada polonesa (chamada a partir de então de Ecclesia maior = Igreja Maior), formando seu próprio sínodo (chamado de Ecclesia minor = Igreja menor). Esses eram, inicialmente, arianos que se negavam a adorar a Cristo e que praticavam o batismo de adultos (anabatistas). Posteriormente, a teologia do italiano Fausto Sozzini (Socinus, em latim), que se mudou para a Polônia em 1579, tornou-se a visão dominante entre os Irmãos Poloneses, e esses ficaram conhecidos por seus adversários como “socinianos” (aceitavam o nascimento virginal de Jesus, mas negavam a preexistência de Cristo). Em 1602, Jakub Sienienski fundou em Raków a Akademia Rakowska (Academia Racoviana) e uma gráfica, onde o Catecismo Racoviano foi publicado em 1605. Em 1610, os jesuítas lideraram uma reação contra os Irmãos Poloneses, que começaram a ser violentamente perseguidos em diferentes partes da Polônia. Um neto de Sozzini publicou, entre 1665 e 1668, 4 volumes, chamados de “Bibliotheca Fratrum Polonorum quos Unitarios vocant” (Biblioteca dos Irmãos Poloneses chamados de Unitaristas), obra que teve grande influência entre os antitrinitaristas na Inglaterra, e que contribuiu para o uso do adjetivo “unitarista”. Em 1660, a Dieta Polonesa deu aos Irmãos Poloneses as opções de arrependimento ou exílio. Alguns se “arrependeram”, mas a maioria se exilou nos Países Baixos, onde foram recebidos pela Igreja Remonstrante, já que os Irmãos Poloneses aceitavam o Credo Apóstólico. Outros foram para a Prússia, Lituânia e Transilvânia.

  • O caso da Transilvânia e Hungria já é, aparentemente, conhecido por você. Giorgio Biandrata, um médico e teólogo veneziano que vivera entre os Irmãos Poloneses, vai trabalhar na côrte do futuro Rei da Hungria Oriental e Príncipe da Transilvânia Zápolya János Zsigmond em 1563, e influencia Ferenc Dávid, que seria eleito em 1564 como o bispo das igrejas reformadas húngaras na Transilvânia e apontado como pastor do monarca. Posteriormente, o próprio monarca se torna um antitrinitarista e emite o Edito de Torda, em 1568, um edito que garantia a liberdade religiosa para diferentes grupos religiosos em seus domínios. Não preciso escrever muito sobre as Igrejas Unitaristas da Transilvânia e da Hungria, pois elas são muito conhecidas.

  • Na Inglaterra, a história do antitrinitarismo é antiga, com muitos defensores na própria Igreja da Inglaterra. Um exemplo é o do sacerdote John Assheton, na década de 1540. O movimento, entretanto, começa com John Biddle na década de 1640. Após ser repetidamente preso por seus escritos unitaristas, ele foi sentenciado ao exílio na Sicília em 1655, onde morreu em 1662. Até a organização de igrejas explicitamente unitaristas – o que só começou em 1774 –, os unitaristas britânicos estavam tanto na Igreja da Inglaterra quanto em igrejas não-conformistas como presbiterianas, congregacionais e batistas gerais. O primeiro ministro a se identificar explicitamente como “unitarista” foi o presbiteriano Thomas Emlyn, que também foi punido com a prisão por suas ideias, mas organizou uma congregação em Londres, em 1705. A primeira igreja a se chamar explicitamente “unitarista” foi organizada por Theophilus Lindsey, um sacerdote anglicano, e Joseph Priestley, um ministro congregacional, em Londres, em 1774. Em 1791, eles organizam a primeira denominação unitarista britânica. A Inglaterra foi um centro importantíssimo de difusão do Unitarismo desde o século XVII, especialmente para a América do Norte, inclusive através de ministros/sacerdotes da própria Igreja da Inglaterra naquilo que seria conhecido como Estados Unidos. Foram, literalmente, centenas de publicações que tratavam sobre o tema e que alimentavam os leitores não apenas nas ilhas, como também no outro lado do Atlântico. Havia movimentos unitaristas também na Escócia e Irlanda, apesar de esses serem, numericamente, menores que o da Inglaterra.

  • Já no que concerne aos Estados Unidos, e se relaciona diretamente com sua tradição e com a minha, o Unitarismo é inseparável de Boston e região (a Nova Inglaterra) e Harvard College, que seria chamado de Universidade Harvard posteriormente. O pensamento unitarista era muito influente em Harvard durante o século XVIII, onde eram formados os ministros das igrejas congregacionais da Nova Inglaterra, e nas igrejas da região. O desenvolvimento seguiu um pouco o modelo britânico. Os unitaristas eram conhecidos, mas as igrejas não se chamavam “unitaristas”. A primeira igreja a se identificar como “unitarista” foi uma paróquia episcopal (anglicana), a King's Chapel de Boston, em 1782, que chamou James Freeman como ministro e revisou o Livro de Oração Comum para se adequar ao unitarismo da congregação. Outras igrejas começam a se identificar como “unitaristas” em toda a região da Nova Inglaterra e a tensão com outras igrejas congregacionais se intensificou, o que levou à conhecida “Controvérsia Unitarista” em 1815. O ápice da tensão entre os congregacionais trinitaristas e unitaristas ocorre após o histórico sermão de William Ellery Channing, na ordenação de Jared Sparks na Primeira Igreja Independente de Baltimore, em 1819. Em 1825 é formada a Associação Unitarista Americana, que une as igrejas unitaristas americanas e se envolve com o trabalho missionário em várias regiões do mundo – dando origem à comunidade em Recife, por exemplo. Essa associação só deixa de existir em 1961, com a união da Associação Unitarista Americana com a Igreja Universalista da América para formar a Unitarian Universalist Association.

Isso, amigo Edgar, só para que você tenha uma breve ideia da longa história do Unitarismo como expressão cristã. São cinco séculos de história! Historicamente, o que é novidade é a expressão “pós-cristã” do UUismo, e não o Unitarismo (sem, com isso, eu querer desvalorizar o UUismo)!

Grande abraço!

+Gibson
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