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sábado, 30 de julho de 2016

Uma breve e respeitável crítica aos “neocatólicos”: resposta a um leitor católico do Ceará


Tenho acompanhado o que alguns sacerdotes e leigos católicos romanos autoidentificados como “conservadores” – seja lá o que essa adjetivação signifique na nova linguagem da teologia política católica da atualidade – têm escrito a respeito de seu líder máximo, o Bispo de Roma – o Papa Francisco –, e confesso que nunca li ou ouvi tantas incoerências. Inúmeras vezes, tenho recebido mensagens de alguns desses “neocatólicos” (sim, o termo é de minha própria autoria e o explicarei em seguida), e sinto-me forçado a dizer-lhes que conhecem muito pouco da tradição que dizem estar defendendo.

Muitos não compreendem o uso que faço dos termos “católico” e “neocatólico” que tenho feito em algumas publicações, discursos e sermões, e por isso vale a pena explicá-los aqui. Como sempre digo, considero-me um “católico” ao mesmo tempo que um “protestante”. “Católico”, assim, possui um sentido aproximado àquele que minhas tradições unitarista, anglicana e luterana o atribuem, e não o sentido que a maioria dos leigos lhe concederia. Em meu caso, chamar-me de “católico” não é o mesmo que dizer que me encontre em comunhão com a Igreja Romana e, consequentemente, com o Bispo de Roma. Quando me identifico como “católico”, quero dizer que subscrevo à da Igreja “católica” (com “c” minúsculo = “universal”, “global”), que compartilho a fé de todos os cristãos de todas as épocas e lugares – note que me referi à “fé”, não necessariamente aos dogmas ou às teologias. É uma declaração pública de meu espírito e intenções ecumênicos.

Já o termo “neocatólico”, utilizo para me referir especialmente àqueles leigos que recentemente se reaproximaram do ou se converteram ao Catolicismo Romano, trazendo consigo uma ideologia política dita “conservadora”. No caso brasileiro, isso parece ser consequência duma (re)descoberta de certos tipos de teorias políticas, envoltas num discurso nacionalista que incentiva o Catolicismo Romano não como uma fé em si, mas, antes, como uma forma de identidade nacional. Como na mentalidade desses neocatólicos o Catolicismo Romano brasileiro teria sido tomado por “comunistas”, para salvá-lo seria necessário um retorno a formas pré-Vaticano II do Catolicismo. Esses neocatólicos contam, muitas vezes, com o direcionamento “espiritual” e “teológico” de sacerdotes cuja reputação nem sempre seria vista com bons olhos pela alta hierarquia da Igreja Romana.

O problema com todos os argumentos desses indivíduos e grupos neocatólicos aos quais tenho tido acesso é o de sua contradição com a base doutrinária do Catolicismo – a base da autoridade da Igreja, cujo líder máximo seria o sumo pontífice, o Papa Francisco. Como esses indivíduos e grupos podem estar “defendendo” – note a escolha de expressões bélicas no vocabulário desse tipo de movimento (defesa, guerra, batalha, luta etc) – o Catolicismo e a Igreja Católica quando incentivam a rebelião e desafiam a autoridade da Igreja na pessoa do Papa? A eles, aparentemente, falta um conhecimento básico de sua própria religião, ou, talvez, falte coragem para fazer o que parecem querer fazer: fundar ou juntar-se a uma Igreja católica independente, e finalmente romperem sua comunhão com o Bispo de Roma!

Permita-me tomar a liberdade aqui para citar um trecho do Catecismo da Igreja Católica, que, de acordo com a Constituição Apostólica Fidei depositum, “é uma exposição da fé da Igreja e da doutrina católica”:

882: O Papa, Bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos quer da multidão dos fieis. Com efeito, o Pontífice Romano, em virtude do seu múnus de Vigário de Cristo e de Pastor de toda a Igreja, possui na Igreja poder pleno, supremo e universal. E ele pode sempre livremente exercer este seu poder.
[…]
891: Goza desta infalibilidade o Pontífice Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força do seu cargo quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fieis, e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé e aos costumes... A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro, sobretudo em um Concílio Ecumênico. Quando, pelo seu Magistério supremo, a Igreja propõe alguma coisa a crer como sendo revelada por Deus e como ensinamento de Cristo, é preciso aderir na obediência da fé a tais definições. Esta infalibilidade tem a mesma extensão que o próprio depósito da Revelação divina.

Assim, olhando para esses trechos, que citam documentos do Vaticano I que tratavam da infalibilidade papal, e que reforçavam a compreensão de autoridade hierárquica da Igreja Romana, e lendo sua reafirmação nesse Catecismo pós-Vaticano II, fica fácil compreender que há algo errado com o discurso desses indivíduos e grupos – considerando que eles dizem estar “defendendo” a fé romana! Se é claro mesmo para mim, que não sou um católico romano, deveria ser óbvio para todos aqueles que o são.

Será que o “erro” estará realmente com o Papa, ou os seus críticos, na própria Igreja Romana, é que estão contradizendo a fé católica e violando a tradição?... Bem, como não sou um sacerdote católico, deixo isso para você decidir. Mas, para refletir a respeito da doutrina católica, considere os documentos da própria Igreja Romana, e converse com seu sacerdote. Se precisar, escreva ao seu Bispo. Tenho certeza que eles estarão dispostos a ajudá-lo com algumas de suas questões.

Grande abraço!

+Gibson

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