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sexta-feira, 4 de março de 2016

Escrituras Sagradas: uma resposta a algumas perguntas levantadas por um amigo ao meu sermão de 28 de fevereiro


Permita-me iniciar dizendo que é necessário, muitas vezes, fazer um exercício de mudança de perspectiva para que possamos construir uma compreensão das crenças de outras pessoas – isto é, quando saímos de nossa própria posição e nos esforçamos para observar algo a partir da posição de outra pessoa, podemos compreender melhor sua visão. Quando, por exemplo, disse o que disse sobre o tema em discussão, estava apenas demonstrando minha compreensão de que minha própria perspectiva não é a única possível – afinal, não posso esperar que todas as pessoas pensem da mesma forma que eu, seja sobre religião, seja sobre qualquer outro assunto.

Interpretar as Escrituras de forma metafórica não é “equivalente a se afastar da Tradição cristã”. A visão de que as Escrituras devam ser interpretadas literalmente por terem sido factualmente ditadas por Deus e por serem sinônimo de “história factual” é uma compreensão moderna tanto de “inspiração” quanto de “história”; uma compreensão que emergiu como resposta ao chamado “Iluminismo”. Assim, é essa visão que se afasta da Tradição, quando abandona a possibilidade de interpretações metafóricas dos textos sagrados, engessando, assim, o sentido do texto a uma interpretação rígida – e não o contrário.

Mas já tratei tanto disso tanto na igreja quanto aqui, que seria repetitivo se abordasse a mesma questão mais uma vez. Contudo, posso explicitar mais diretamente minha visão teológica pessoal sobre “Escrituras”, no contexto da discussão sobre canonicidade que abordei naquele sermão.

Como já deve ser bem conhecido, não compreendo a sacralidade/canonicidade das Escrituras como decorrente duma origem divina, mas, sim, como decorrente dum processo humano de legitimidade da Tradição – visão essa, a propósito, que é dominante em nossa comunidade de fé. Assim, a “Bíblia” não é texto sagrado porque suas palavras foram ditadas por Deus a profetas, mas, antes, porque aqueles conjuntos de textos passaram por um processo de “canonização”/”sacralização por parte das comunidades que os aceitaram como texto sagrado.

Esse mesmo processo esteve presente não apenas nas comunidades [proto-]ortodoxas judaicas e cristãs que proclamaram a Bíblia como Escritura. Processos semelhantes também marcaram a origem de textos sagrados de outras tradições de fé, como o [Al]Corão, o Livro de Mórmon, e Doutrina e Convênios – que foram os textos sobre os quais discuti em meu sermão –, assim como os textos sagrados de outras tradições que não abordei. Assim, esses textos são, sim, sagrados; são, sim, Escrituras. Podem não ser Escrituras sagradas para você ou para mim, mas o são para os adeptos das tradições que os consideram sagrados – e isso é suficiente para que eu me refira a eles como “sagrados”.

A Bíblia é, para minha própria compreensão e experiência de fé, um conjunto de textos sagrados. Apesar de não compreendê-la, necessariamente, como relato factual nem da história humana nem divina, ela é a base de minha compreensão de fé. E isso ocorre porque minha fé – uma expressão do(s) Cristianismo(s) – é uma fé “do Livro” (como, a propósito, a ela se refere a tradição islâmica). Isto é, o(s) Cristianismo(s), assim como o(s) Judaísmo(s) e o(s) Islã(s), é uma tradição construído ao redor de textos religiosos que foram sacralizados pela comunidade de fé.

Assim, aqueles textos que abordei em meu sermão – o Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios (ambos, como editados pela Comunidade de Cristo); e o [Al]Corão – são Escritura Sagrada, apesar de eu não acreditar que tenham uma origem factualmente divina, se por isso quiser dizer que foram ditados por Deus a seres humanos ou que tenham caído miraculosamente do céu, ou que anjos os tenham depositado em mãos humanas. Também não acredito nisso no que concerne à Bíblia!... Isso, porém, não muda em nada seu status canônico para aqueles que os aceitam como Escritura – não muda, pelo menos, minha aceitação da Bíblia como Escritura Sagrada. Para entender minha posição, você só precisa se lembrar de onde emerge a “sacralidade”, em minha compreensão: da Tradição construída, vivida e transmitida pelo corpo de fiéis – isto é, para mim, a fé religiosa tem uma história; ela é a resposta humana ao seu encontro com o Divino. As Escrituras são a resposta dada por diferentes autores, em diferentes lugares, em diferentes línguas, a partir de diferentes experiências culturais e espirituais ao Mistério que eu chamo de Deus.

Reconhecer e considerar como legítimas as experiências e perspectivas de outras tradições não diminui minha crença em minha própria fé. O que faz é ampliar minha compreensão tanto da humanidade quanto da Divindade. Obviamente, ainda discordo das compreensões de fé que colidem com as minhas próprias – e continuarei a criticá-las, se necessário –, mas isso não significa que me recusarei a reconhecer a “verdade” quando ouvi-la a partir da voz de outra tradição. É uma questão tanto de maturidade quanto de integridade intelectual.

Grande abraço!

+Gibson

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