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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Unitarismo elitista bostoniano e os unitaristas brasileiros


No passado, o Unitarismo foi tão parte da vida de Boston, que chegou a ser conhecido como a “Religião Bostoniana”. Para entender o por quê, é só visitar a cidade e olhar para a Câmara Legislativa de Massachussetts – que o unitarista Oliver Wendell Homes chamou de “eixo do sistema solar” -, cujo edifício foi desenhado pelo unitarista Charles Bulfinch, e na frente do qual está a estátua do educador unitarista Horace Mann e do político unitarista Daniel Webster. Diante da Câmara está um Memorial ao também unitarista Robert Gould Shaw, o coronel da Guerra Civil americana, que liderou um regimento negro imortalizado no filme “Tempo de Glória” (de 1989).


Em muitos de seus textos, David Robinson, autor de muitos livros sobre a história do Unitarismo, aponta para a importância da cidade de Boston para a vida intelectual americana desde a Independência, e da maneira como a cultura literária americana dependia da cultura religiosa unitarista. Entre a Independência e a Guerra Civil, Boston era a grande metrópole cultural dos Estados Unidos, e os autores e artistas apreciados nos Estados Unidos eram unitaristas.


Harvard, a mais antiga universidade americana, era o berço da intelligentsia unitarista, e de lá saíam os cérebros que alimentariam a intelectualidade do país. A partir de 1805, o corpo docente da universidade passou a ser formado por uma maioria esmagadora de ministros unitaristas. Era o nascimento da tradição elitista dos unitaristas de Harvard. Esses unitaristas exerceriam uma influência assombrosa nas igrejas da região. À medida que os ministros formados em Harvard assumiam postos nas antigas igrejas puritanas da região, grupos dentro dessas igrejas se tornavam unitaristas e muitas divisões ocorreram. Os antigos líderes conservadores de muitas dessas paróquias foram à justiça contra os unitaristas em suas congregações, mas quase todos os juízes da região eram unitaristas, fazendo com que (na visão dos “conservadores”) os unitaristas fossem beneficiados.


Os primeiros unitaristas bostonianos eram socialmente conservadores, mas, apesar disso, eram politicamente liberais. Liderada pelos ministros unitaristas William Ellery Channing (sim, o nosso Channing!) e Theodore Parker, Boston se manteve à dianteira do movimento abolicionista. O movimento feminista seria liderado também pela unitarista bostoniana Susan B. Anthony. E os unitaristas de Boston não se revoltavam apenas contra o sistema puritano – eles resolveram se revoltar contra o próprio unitarismo, na forma do transcendentalismo, que rejeitava as igrejas e os ministros em nome de uma comunhão com a natureza. Dois de seus principais líderes, os unitaristas Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, contribuíram para o florescimento da literatura americana, e o texto “Desobediência Civil”, de Thoreau, influenciaria Martin Luther King Jr e Mahatma Gandhi.


Ironicamente, foi exatamente essa associação do Unitarismo com Boston e com a vida elitista do establishment americano que impediu um maior crescimento do Unitarismo nos Estados Unidos. O Unitarismo era (e, em alguns casos, ainda é) visto como a religião dos ricos, poderosos e intelectuais descrentes. Se alguém buscasse consolo para a alma e forças para continuar, muito provavelmente não encontraria isso no Unitarismo. Essa é também a razão pela qual o Unitarismo não conseguiu se desenvolver no Brasil. Os unitaristas que vieram para o Brasil, e fundaram nossas comunidades, vinham de Boston, tendo trazido consigo um pouco daquele ar elitista. O Reverendo Charles Phelps, o primeiro ministro dos unitaristas brasileiros, era um desses unitaristas clássicos que proclamavam uma religião intelectualmente poderosa, mas incapaz de atingir o espírito brasileiro.

Não devemos nos envergonhar de nossa tradição: uma tradição religiosa que não se divorcia do intelecto. Nós unitaristas continuaremos a ser como nossos pais da Nova Inglaterra - os desafiadores de nós próprios. O que me pergunto, entretanto, é se não faremos isso numa linguagem que possa ser compreendida por nossos compatriotas. Com a aproximação da oitava década de nossa comunidade aqui, me pergunto se já não está na hora de repensar nosso elitismo! Temos nos esforçado para mudar nossa língua (literalmente!) - usando português em nossa liturgia. Mas nos falta muito. Temos de encontrar uma forma de falar nossa mensagem de uma maneira que toque o coração de pessoas que não estão acostumadas ao nosso vocabulário "elitista" (?). Elas querem ouvir nossa mensagem, elas estão em busca disso, só não descobrimos uma forma de conversar com essas pessoas ainda. Já está na hora!
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