Blog do Rev. Gibson da Costa. Os objetivos deste blog são compartilhar uma perspectiva cristã comprometida com a graça extravagante, a inclusão radical, e a compaixão inflexível; abordar a fé cristã através das lentes da teologia liberal cristã, e num espírito ecumênico e questionador; e contribuir com a voz daqueles cristãos que rejeitam o dogmatismo cego e a intolerância religiosa em sua jornada espiritual e, consequentemente, em suas relações sociais. Unitarismo, Cristianismo Unitarista.
terça-feira, 12 de maio de 2009
O Meu Cristianismo
domingo, 10 de maio de 2009
Salvação, Amor e Universalismo
Meu amigo batista não compartilha de minha visão universalista de salvação, e, até aquela data, não conhecia muito bem as concepções e a história da tradição universalista no cristianismo.
A primeira pergunta interessante que me fez meu amigo a respeito do tema não foi exatamente a respeito da concepção universalista da salvação em si. Ele me perguntou qual era a relação entre o unitarismo e o universalismo – já que sou um unitarista que sempre fala a respeito do universalismo.
Expliquei-lhe que o unitarismo (como uma tradição cristã independente), apesar de ser diferente do universalismo em muitos pontos e ênfases, abraça uma visão soteriológica universalista – traduzindo para bom português: o unitarismo ensina que todas as pessoas serão “salvas”, apesar de (talvez) o unitarismo e o universalismo – se vistos como diferentes tradições cristãs – oferecerem diferentes explicações do que seja essa “salvação” e de como ela ocorra.
Para aqueles que estão mais familiarizados com a liturgia mais tradicional de nossa congregação, posso citar as palavras da oração de ação de graças, onde agradecemos a Deus pela “redenção do mundo por meio dos ensinamentos de Jesus Cristo”. Observem que não citamos a morte de Jesus, ou seu “sacrifício” - como diria a maioria dos outros cristãos – como sendo o instrumento de redenção ou salvação do mundo. Para nós é a vida de Cristo, e não sua morte, o que nos redime. São os ensinamentos de Jesus, a sua mensagem, que reconheço não ser exclusiva dele (já que outros mestres espirituais pregaram mensagens semelhantes em outras épocas e lugares), o que nos transforma e nos salva.
O universalismo cristão, abraçado por esta congregação, ensina que Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4). Para aqueles que costumam nos criticar, dizendo que rejeitamos a tradição cristã, cito um nome da tradição cristã como um dos maiores exponentes dessa ideia universalista: Orígenes.
Orígenes, que defendeu longamente o universalismo em sua obra De principiis (“Primeiros Princípios”), suspeitava de toda forma de dualismo – ou seja, de qualquer sistema de crença que reconhecesse a existência de dois poderes supremos, um bom e outro mau. Essa crença era característica de muitas formas de gnosticismo, e foi muito influente no mundo Mediterrâneo oriental em fins do segundo século.
Argumentando que o dualismo era fatalmente falho, Orígenes observou que isso tinha importantes implicações para a doutrina cristã da salvação. Rejeitar o dualismo é rejeitar a ideia de que Deus e satanás (um ser real para o pensamento da maioria dos cristãos) governem seus respectivos reinos por toda a eternidade. No fim, Deus vencerá o mal e restaurará a criação à sua forma original. Em sua forma original, a criação estava sujeita à vontade de Deus. Segue-se, então, com base nesta soteriologia “restauracionista”, que a versão redimida final da criação não possa incluir nada semelhante a um “inferno” ou “reino de satanás”. Tudo “será restaurado à sua condição de felicidade... para que a raça humana... possa ser restaurada àquela unidade prometida pelo Senhor Jesus Cristo”.
Levando em consideração as diferentes concepções e vocabulário entre unitaristas e outros cristãos universalistas, não poderia deixar de citar o grande John A. T. Robinson, o teólogo britânico que publicou em 1968 o livro “In The End God”. Neste livro, Robinson considera a natureza do amor de Deus:
“Não podemos imaginar um amor tão poderoso que, no fim, ninguém será capaz de resistir à entrega livre e grata?”
Essa noção de amor onipotente funciona como a ideia central do universalismo de Robinson. No fim, o amor conquistará tudo e todos, tornando a existência do inferno uma impossibilidade.
“Em um universo de amor não pode haver um céu que tolere uma câmara de horrores”.
Nossa concepção universalista de salvação não significa que pensemos que não faz diferença que crença uma pessoa abrace. Eu posso garantir que há muita diferença entre uma crença pacífica e outra violenta. Entre uma religião que ensina seus adeptos a amar a todos e aquela que ensina a discriminação, e consequentemente o ódio.
O que a noção universalista ensina é que Deus, essa realidade infinitamente inexplicável, não perderá sua criação. Deus é um amor tão profundo que será capaz de transformar a tudo e a todos, e será capaz de redimir e salvar sua criação. Eu não poderia acreditar numa Realidade diferente disso. Não poderia chamar de Deus uma Realidade que não fosse capaz de transformar os corações humanos.
Como o cristão que sou, afirmo que Jesus oferece um caminho que leva a Deus. Jesus é uma porta à “salvação de Deus”. Para mim, como cristão, seguir o exemplo e os ensinamentos que lhe são atribuídos é seguir um caminho que leva a Deus, que me salva, que me redime. Para algumas outras pessoas, essa Realidade que chamo de Deus, ofereceu uma outra “porta” para a “salvação”. Essa porta se chama para alguns o Buda, para outros talvez seja a mensagem pregada pelo profeta Muhammad, para outros talvez seja a Torá revelada ao profeta Moisés. Eu creio que Deus seja maior que todas as concepções que temos a respeito dele(a) – para mim Deus não é uma pessoa, é uma Realidade, é a Base da Existência. Eu, obviamente, creio que Jesus também compreendia Deus dessa forma, e foi por essa razão que reafirmou (como fizeram outros grandes mestres hebreus) que os maiores mandamentos eram o amor a Deus e o amor a nosso próximo. O amor é a salvação pregada por Jesus de Nazaré. Jesus não disse que nosso amor deva se limitar àqueles que são como nós. Devemos amar como Deus o faz, e seu amor está sobre todos, absolutamente todos.
sábado, 9 de maio de 2009
Universalismo Cristão - Uma Breve Definição
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domingo, 5 de abril de 2009
Sugestões de Leitura - Abril de 2009
Esta é mais uma minúscula lista de sugestões de leitura àqueles que visitam estas páginas. Como prometi no mês passado, tentarei fazer sugestões ao menos a cada mês, incluindo livros que têm sido parte de minha própria lista pessoal de leitura.
Mais uma vez, sugiro o sítio da Livraria Cultura como um bom lugar para começar sua busca, já que sempre tenho boas experiências com ela: http://www.livrariacultura.com.br/
ALÉM DE TODA CRENÇA – O Evangelho Desconhecido de Tomé
Pagels, Elaine – Editora Objetiva, 2004.
ISBN: 9788573025910
Tenho sido há muito um leitor das obras de Elaine Pagels. Não poderia deixar de incluir esta em minhas sugestões de leitura. Nesta obra, Pagels nos faz pensar a respeito do que teria acontecido com a tradição cristã se a “doutrina” tivesse sido estabelecida usando-se outras fontes que não os evangelhos dito “canônicos”. Uma viagem pela história para uma redescoberta do cristianismo que só uma autora como Pagels poderia oferecer.
1001 PÉROLAS DE SABEDORIA BUDISTA – Ideias que iluminam e trazem paz interior
The Buddhist Society – Publifolha, 2007.
ISBN: 9788574028367
Uma coletânea inspiradora de citações budistas e não-budistas que ensinam o caminho para o encontro da paz e equilíbrio interior. A coletânea faz jus ao título escolhido, e tem sido uma fonte de inspiração pessoal em minha disciplina espiritual diária.
365 MENSAGENS DE SABEDORIA E COMPAIXÃO
Dalai Lama – Editora Sextante, 2007.
ISBN: 9788575422830
Quando se trata de uma coletânea de citações de um dos mais importantes líderes espirituais de nossa era, não pode haver indiferença, não importando as diferenças culturais ou religiosas que haja entre nossas tradições. A voz do Dalai Lama sempre foi ouvida entre os unitaristas, e creio que não deve ser diferente entre outros cristãos também. Essa coletânea traz um pensamento para cada dia do ano, lançando o leitor numa jornada rumo à busca de uma vida mais plena e ativa.
A ARTE DE LIDAR COM A RAIVA – O Poder da Paciência
Dalai Lama – Editora Campus, 2001.
ISBN: 9788535207620
O Dalai Lama ensina técnicas para o desenvolvimento da paciência, que é apresentada como o antídoto para a ira. Mais uma obra inspiradora baseada nos discursos do grande mestre budista.
BONDADE, AMOR E COMPAIXÃO
Dalai Lama – Editora Pensamento, 2006.
ISBN: 9788531500596
Como sempre, aqui encontramos a sabedoria budista nas palavras do discurso de Sua Santidade, o Dalai Lama. Uma coletânea de vinte palestras que nos enchem de esperança, visualizando o potencial do espírito humano. Sua Santidade fala de valores que são tão apreciados por todos os seres humanos, independentemente de sua crença religiosa ou falta da mesma. Bondade, amor, compaixão – não são valores budistas, cristãos, judaicos, etc, apenas. São valores que toda a civilização humana tem abraçado em sua busca de si mesma. Os ensinos de Sua Santidade são reflexo desse espírito verdadeiramente humano, que de tão humano chega a ser idealizado como sendo algo divino. Extremamente inspirador.
PRÁTICAS DE SABEDORIA – Seguindo O Caminho de Buda
Dalai Lama – Editora Nova Era, 2006.
ISBN: 9788577010554
A diferença entre o caminho ensinado pelo Buda e o caminho ensinado por outros mestres espirituais de seu tempo e lugar estava no fato de o caminho da “iluminação” ser o caminho de busca pela sabedoria, enquanto outros estarem focados nos rituais de auto-punição. É através da sabedoria que extinguimos o sofrimento e alcançamos a felicidade – esse é o ensinamento do Buda.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Sugestões de Leitura - Março de 2009
Tenho frequentemente dito a meus alunos de teologia, e também a meus paroquianos, que muito do meu pensamento vem de minhas leituras (o que é muito óbvio). Creio que para se construir uma compreensão teológica ampla, o hábito de leitura de boas obras seja essencial.
Como um unitarista - um cristão liberal, discordo da visão daqueles cristãos que gostam de dizer (apesar de no fundo saberem que não é exatamente verdade) que apenas a Bíblia serve de base para sua compreensão teológica. Minha compreensão teológica vem da Bíblia, mas minha interpretação da Bíblia sai de minha experiência pessoal, de meu uso da razão, da cultura da qual sou parte, de minha visão do Divino (Deus) - que em minha visão, se revela a todos os seres humanos em suas diferentes experiências religiosas, sejam elas cristãs ou não, teístas ou não -, da tradição religiosa cristã da qual sou parte (Unitarismo/Liberalismo), da Filosofia/Teologia do Processo (que é minha escola de pensamento). Ou seja, vários elementos entram na formação de meu pensamento teológico/religioso, e o que desejo fazer agora em meu blog é dar algumas sugestões de leitura àqueles que visitam essas páginas. Tentarei fazê-lo com uma certa frequência (pelo menos mensalmente, ou quando algum livro novo aparecer).
Hoje, começo essa nova atividade sugerindo alguns livros que são parte integrante de minha biblioteca pessoal. Espero que possam ler esses livros e ser edificados pela leitura dos mesmos, da mesma forma como eu tenho sido. Esses livros podem ser adquiridos através do sítio da Livraria Cultura na internet: http://www.livrariacultura.com.br/
THE HEART OF CHRISTIANITY - REDISCOVERING A LIFE OF FAITH
Borg, Marcus J. / HarperCollins, 2003.
ISBN: 0-06-073068-4
Por que começo minha lista com um título em inglês? Bem, a resposta para isso é múltipla: primeiro, em se tratando de religião, inglês é minha língua de trabalho - sou um cristão liberal, e a maioria dos títulos que tenham ligação com minha tradição religiosa (o Unitarismo, e o cristianismo liberal e progressista como um todo) não estão publicados em português. Minha comunidade religiosa é uma comunidade anglófona, e eu estou no Brasil há pouco tempo, tendo tido minha vida ministerial começado nos Estados Unidos. Logo, não é difícil entender a razão que me levaria a listar títulos em inglês! Também, as sugestões em inglês aqui, até onde sei, não foram ainda traduzidas para o português.
Essa é a melhor obra a respeito do cristianismo progressista que já li em minha vida. Na realidade, tenho uma grande admiração por todos os escritos de Marcus J. Borg, mas esse livro é capaz de transformar a visão não apenas dos que estão buscando uma nova compreensão do cristianismo, mas também daqueles cristãos liberais que querem se re-apaixonar por sua tradição. Um livro apaixonado e apaixonante, que fala ao intelecto a ao coração. Se você consegue entender inglês, esse é um livro que, com certeza, mudará a sua vida e não sairá de sua cabeceira, independentemente de que tradição cristã você abrace!
Esse livro é parte permanente de nossos grupos de discussão em minha comunidade religiosa.
THE GOD WE NEVER KNEW - BEYOND DOGMATIC RELIGION TO A MORE AUTHENTIC CONTEMPORARY FAITH
Borg, Marcus J. / HarperCollins, 1997.
ISBN: 0-06-061035-2
Outra grande obra de Marcus J. Borg, onde ele trata a respeito de sua compreensão de Deus. Ótimo guia a respeito da compreensão panenteísta de Deus, tão característica da Teologia do Processo (minha escola de pensamento teológico).
MEETING JESUS AGAIN FOR THE FIRST TIME - THE HISTORICAL JESUS AND THE HEART OF CONTEMPORARY FAITH
Borg, Marcus J. / HarperCollins, 1994.
ISBN: 0-06-060917-6
Como um especialista na questão do Jesus histórico vê Jesus de Nazaré? Como pode alguém com um amplo conhecimento histórico e crítico do cristianismo ser um seguidor apaixonado de Jesus? Para encontrar as respostas para essas perguntas, você tem de ler este livro! Infelizmente, ainda não há uma tradução para o português. Um livro também muito popular entre os unitaristas brasileiros.
O PRIMEIRO NATAL - O QUE PODEMOS APRENDER COM O NASCIMENTO DE JESUS
Crossan, John Dominic - Borg, Marcus J. / Nova Fronteira, 2008.
ISBN: 978-85-20-92147-0
Nesta obra conjunta de Crossan e Borg, eles analisam o nascimento de Jesus sem fazer uso dos dogmas acumulados através dos séculos em torno desse evento. Uma leitura inspiradora.
A ÚLTIMA SEMANA - UM RELATO DETALHADO DOS DIAS FINAIS DE JESUS
Crossan, John Dominic - Borg, Marcus J. / Nova Fronteira, 2007.
ISBN: 978-85-20-91974-3
Outra obra conjunta de Marcus J. Borg e John Dominic Crossan, reconstruindo o que teria sido a última semana de vida de Jesus de Nazaré. Leitura fascinante.
UMA ORTODOXIA GENEROSA - A IGREJA EM TEMPOS DE PÓS-MODERNIDADE
McLaren, Brian D. / Editora Palavra, 2007.
ISBN: 978-85-60-38715-1
Esse tem sido um livro que leio com certa frequência desde sus publicação nos EUA em 2004. Na verdade, nunca li esse livro em português, já que sempre o leio em inglês, mesmo em nossos grupos de estudos em minha comunidade religiosa. Apesar das diferenças ideológicas que tenho com o autor, aprecio seus livros, especialmente este. É uma leitura leve e envolvente; costumo sugeri-la especialmente para jovens evangélicos que queiram uma nova visão de sua fé. Na Congregação Unitarista de Pernambuco usamos a edição em inglês que inclui um guia de discussões.
O QUE JESUS DISSE? O QUE JESUS NÃO DISSE? - QUEM MUDOU A BÍBLIA E POR QUÊ
Ehrman, Bart D. / Prestígio Editorial, 2006.
ISBN: 85-99170-98-8
Esse é um livro essencial para aqueles que desejam uma explicação da história da formação do cânon do Novo Testamento que seja de fácil acesso para aqueles não acostumados com a linguagem acadêmica da área. Este livro é leitura obrigatória para os alunos do programa de formação teológica unitarista, e também é discutido em nossos grupos de estudos na Congregação Unitarista de Pernambuco. Uma leitura fascinante para leigos, teólogos, historiadores, etc.
EVANGELHOS PERDIDOS - AS BATALHAS PELA ESCRITURA E OS CRISTIANISMOS PERDIDOS QUE NÃO CHEGAMOS A CONHECER
Ehrman, Bart D. / Editora Record, 2008.
ISBN: 978-85-01-07506-2
A maioria dos cristão hoje em dia não se dá conta da diversidade de opiniões existente no seio da igreja cristã em seus primeiros séculos de sua história. Não entendem as batalhas que existiram no passado para a construção da chamada "ortodoxia", e a consequente percepção que seria adotada pela maioria dos cristãos posteriormente. Esse é o tema nessa outra grande obra de Bart D. Ehrman, uma outra leitura obrigatória entre os unitaristas brasileiros.
O PROBLEMA COM DEUS - AS RESPOSTAS QUE A BÍBLIA NÃO DÁ AO SOFRIMENTO
Ehrman, Bart D. / Agir Editora, 2008.
ISBN: 978-85-220-0989-3
Considero este um dos mais pessoais escritos de Bart D. Ehrman. Neste livro ele analisa a questão do sofrimento na Bíblia, e mostra que a mesma não apresenta apenas uma resposta sobre qual seja a razão do sofrimento. Também fala sobre suas próprias experiências, e sobre a jornada que o levaria a perder a "fé".
PEDRO, PAULO E MARIA MADALENA - A VERDADE E A LENDA SOBRE OS SEGUIDORES DE JESUS
Ehrman, Bart D. / Editora Record, 2008.
ISBN: 978-85-010-7649-6
Mais um livro indispensável de Bart D. Ehrman, especialmente para aqueles interessados na história do cristianismo, na qual ele analisa realidade e ficção na vida desses três personagens da tradição cristã.
QUANDO JESUS SE TORNOU DEUS - A LUTA ÉPICA SOBRE A DIVINDADE DE CRISTO NOS ÚLTIMOS DIAS DE ROMA
Rubenstein, Richard E. / Editora Fisus, 2001.
ISBN: 85-87232-08-8
Mais um importante livro para a compreensão da origem das doutrinas ditas "ortodoxas" a respeito de Deus e Cristo. Uma das poucas obras em português na qual se pode aprender a respeito do arianismo, que influenciaria a ideia dos primeiros unitaristas a respeito da natureza de Jesus de Nazaré.
UM NOVO CRISTIANISMO PARA UM NOVO MUNDO - A FÉ ALÉM DOS DOGMAS
Spong, John Shelby / Verus Editora, 2006.
ISBN: 85-87795-97-X
Eu não poderia esquecer de sugerir essa obra do Bispo Spong, que já foi meu professor há alguns anos atrás. Nesta obra ele discute um pouco de suas ideias a respeito do que ele espera ser o cristianismo no futuro. Apesar de eu ser um cristão liberal clássico, devo confessar que tenho apenas alguns problemas com o vocabulário usado por Spong, que tende a causar uma falsa impressão do que seja o cristianismo liberal. Apesar de ele não ser eclesiasticamente um unitarista (é "anglicano" liberal), sua teologia é unitarismo clássico! Um livro obrigatório para a biblioteca de cristãos liberais.
Bem, por hora, creio ser essa uma boa lista básica para aqueles interessados em teologia e estudos históricos do cristianismo. Esses livros são alguns dos que são parte de minha biblioteca pessoal. Depois faria sugestões de mais alguns de meus livros favoritos. Todos esses livros estão disponíveis em boas livrarias, eu recomendo especialmente a Livraria Cultura online, já que conheço seu serviço de entregas, seu endereço é: http://www.livrariacultura.com.br/
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Os Portais do Unitarismo e a Religião Liberal
Por outro lado, vejo o que ocorre com aqueles chamados de "novos unitaristas" - ou seja, pessoas que abraçaram uma visão influenciada pela maneira unitarista de ver a espiritualidade e a vida religiosa, mas que por inúmeras razões, não compreendem o que venha a ser o Unitarismo plenamente. Essas pessoas, na maioria das vezes, deixaram grupos cristãos em busca de algo que preenchesse suas necessidades religiosas ou sociais, e que ao mesmo tempo não lhes parecesse uma ditadura doutrinária. Essas pessoas têm a tendência de não reconhecer o Unitarismo como uma forma de Cristianismo, rejeitando todo o sistema unitarista, toda a nossa tradição religiosa, e abraçando uma compreensão do que seja "religião liberal" que entra em conflito com nossa compreensão teológica unitarista.
Há quatro portais pelos quais devem passar aqueles que desejam aprender a respeito da fé unitarista. Tradicionalmente esses portais têm sido chamados pelos unitaristas de O Portal Maravilhoso (ou Portal do Pensamento), O Portal Belo (ou Portal do Coração), o Portal do Dever (ou Portal da Ação), e o Portal da Lembrança.
O Portal do Pensamento
Esse talvez seja o que mais nos distingue de outros seres vivos. Os animais, costumamos dizer, possuem "instintos", que podem ser chamados de um tipo de razão, um exercício da mente. Essa "razão", entretanto, parece ser limitada, já que os animais não conseguem estudar a si mesmos, como nós humanos o fazemos (ao menos é isso que sabemos até hoje).
A entrada por esse Portal passa necessariamente pelo caminho da "curiosidade". Se não fôssemos curiosos não seríamos capazes de aprender nada. Desde o início a humanidade tem tido curiosidade a respeito do que ela tem visto. O sol, a lua, as estrelas, os trovões, os relâmpagos, o fogo, o vento, a água, etc - tudo isso estimulou a curiosidade dos primeiros de nós e tem estimulado nossa curiosidade até os dias atuais. Essa curiosidade tem feito a humanidade passar inúmeras vezes pelo Portal Maravilhoso, o Portal do Pensamento, e feito com que descubramos e aprendamos a respeito das coisas que nos cercam, a respeito de nosso planeta, sua história, seu clima, sua vida; a respeito do universo, das estrelas e planetas; a respeito da própria humanidade; mas também a respeito daquele Grande Mistério que chamamos de Deus, e que redescobrimos a cada novo dia de nossa história de uma forma diferente de como pensávamos anteriormente.
Aqueles que adentraram esse Portal são chamados por nós de os "buscadores da verdade" ou de "buscadores de Deus", pois quando adentramos o Portal do Pensamento, em busca da verdade, estamos na verdade em busca de Deus. Essa foi uma das maneiras pelas quais nossa fé foi encontrada, pelo poder do pensamento humano.
O Portal do Coração
Além do citado anteriormente há um outro Portal pelo qual passamos para chegarmos à compreensão de nossa fé. Esse é o Portal Belo, ou o Portal do Coração. Ele é Belo porque através dele chegamos às coisas belas que criamos: música, poesia, pinturas, filmes, e nossas próprias amizades. Nossos sentimentos são muito fortes, e muitas vezes nos levam longe.
Como acontece com o Portal do Pensamento, coisas boas e coisas ruins podem passar pelo Portal do Coração. Por essa razão devemos protegê-lo, selecionando aquilo que passa por ele.
Da mesma forma como a passagem pelo Portal do Pensamento levou a humanidade a buscar respostas para suas perguntas a respeito do mundo e do universo, a passagem pelo Portal do Coração levou a humanidade a buscar o sagrado. Isso fez com que a humanidade construísse templos, altares, e formas de adorar a Deus, de celebrar o sagrado. Os humanos não apenas tiveram curiosidade a respeito do sagrado, mas também encontraram em seus corações o desejo de orar e cantar salmos, de falar daquele Grande Mistério que originou a vida. Isso os primeiros humanos fizeram de maneira diferente da que nós unitaristas fazemos hoje, já que muito medo e superstição adentrava o Portal do Coração. Hoje, entretanto, vemos Deus de uma outra maneira; não mais como um ditador nos céus capaz de violência para favorecer um grupo de pessoas. Vemos Deus mais plenamente como um Amor capaz de conquistar nossas mentes e corações, e que nos leva a adentrar um outro Portal.
O Portal da Ação
Pensar e sentir nos ajuda a compreender Deus e o mundo, mas há uma outra coisa igualmente importante: o agir. Primeiro pensamos, depois sentimos, e por fim, agimos. Através desse Portal passam nobres ações, grandes exemplos, e transformadoras reformas. O caráter é moldado pela vontade sendo transformada em boas ações.
Jesus frequentemente falou a respeito do Portal da Ação: "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor', entrará no reino do céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai que está no céu" (Mateus 7:21). Ao cumprir nosso dever, pondo em ação aquilo que aprendemos e sentimos por meio dos Portais do Pensamento e do Coração, honramos a Deus, aquele Grande Mistério que não entendemos plenamente. A consciência se encontra neste Portal, assim como a boa-vontade, a obediência e o heroísmo. Tudo isso tem um objetivo: a construção de um reino - o reino de Deus.
É verdade que a religião é geralmente vista como uma crença, como uma oração, mas ela é também uma obra. Essa obra é tornar o mundo melhor. Se deixarmos de lado o Portal do Dever, o Portal da Ação, destruímos todo o restante.
"Venha o teu reino!" é um pensamento, e com ele se abre o Portal do Pensamento. "Venha o teu reino!" é ouvido por nossas mentes e anima nossos corações, e assim o Portal do Coração é aberto. "Venha o teu reino!" nos leva à ação, nos leva a fazer o nobre e o belo; e assim, é aberto o Portal da Ação.
O Portal da Lembrança
Se não pudéssemos nos lembrar de nada, não poderíamos pensar, sentir, ou agir. Por meio da lembrança podemos revisitar o passado e adicionar a ele. É assim que a história cresce e a humanidade se eleva. Hoje sabemos muito mais do que aqueles que viveram há centenas de anos atrás, porque nos lembramos do que eles sabiam e nos lembramos de tudo o que foi dito e feito no passado.
Passar pelo Portal da Lembrança é, então, essencial para a compreensão e continuação de nossa fé unitarista, nossa religião liberal.
É esse Portal que nos leva aos pensamentos de muitos homens sábios que pensaram e escreveram a respeito do que sentiam ser a verdade a respeito de Deus e de todas as coisas. Por meio deste Portal chegamos aos escritos de um homem sábio e bom que foi e é muito importante para a nossa fé unitarista. Esse homem foi James Freeman Clarke, um ministro unitarista muito amado e honrado. Ele foi o autor dos Cinco Pontos da Fé Unitarista, que ele disse ser o que "deveríamos aprender, lembrar, e amar":
A Paternidade de Deus;
A Irmandade dos Homens;
A Liderança de Jesus;
A Salvação Pelo Caráter;
O Progresso da Humanidade.
A Paternidade de Deus
As palavras que usamos nem sempre conseguem expressar da melhor maneira aquilo que sentimos e entendemos. Falar a respeito de Deus cria um problema para nós, já que em nossa língua só podemos falar a respeito de Deus em termos que nos parecem limitadores. Em português, a palavra Deus é um termo masculino. Falamos em Deus como sendo nosso Pai, embora não pensemos em Deus necessariamente como sendo uma pessoa e muito menos como sendo um homem.
O uso da palavra “Pai”, e aqui “Paternidade”, exprime apenas a tradição cristã de se referir a Deus como sendo uma figura paterna, ou materna. Exprime a crença de que nossa relação com o divino possa ser tão próxima como a relação humana entre pais e filhos. É uma figura poética muito forte que tem sido parte da tradição cristã desde o início de sua história e que, consequentemente, é também parte da tradição unitarista.
A Irmandade dos Homens
Por que os unitaristas creem na irmandade dos homens? Por duas razões básicas: Primeiro, se temos uma origem comum, origem da qual simbolicamente falamos como sendo Deus o Pai de todos os humanos, então todos os humanos são seus filhos e, consequentemente, nossos irmãos. A segunda razão é a de que irmandade dos homens significa justiça para todos, progresso para todos, e amor para com todos.
A crença na irmandade dos homens nos leva a trabalhar para que todos nós, todos os seres humanos, vivam em liberdade. Essa crença nos leva a trabalhar para que as leis possam proteger todas as pessoas, independentemente das diferenças que existam entre nós. Cremos na igualdade de todas as pessoas diante das leis, mesmo sabendo que somos individualmente muito diferentes nos mais variados aspectos.
Cremos que todas as pessoas devam ser protegidas e honradas; e que todas as pessoas têm valor e dignidade inatas à sua própria natureza. Por esta razão, nós unitaristas honramos, respeitamos e recebemos pessoas das mais variadas cores, etnias, culturas, classes, orientações emociono-sexuais, etc. Trabalhamos para que haja paz e justiça entre toda a humanidade, e entre ela e a vida em nosso planeta.
A Liderança de Jesus
Nós unitaristas sempre reconhecemos que pessoas de outras religiões possuem bons modelos a serem honrados. Os muçulmanos, os hindus, os budistas, os judeus, e pessoas das mais variadas tradições religiosas, seguem os ensinos de mestres religiosos que ensinaram muitas coisas semelhantes aos ensinos de Jesus.
Os cristãos, muitas vezes, passaram uma imagem errônea do cristianismo aos povos de outras religiões. Fosse pela tentativa de converter outros povos por meio da guerra, fosse por meio de conquistas imperialistas, pelo desrespeito às crenças e tradições de outros povos, deram uma imagem errônea do que fosse a mensagem de Jesus.
Nós unitaristas cremos na liderança de Jesus pois cremos que os ensinos que lhes foram atribuídos são capazes de nos transformar como seres humanos e de nos aproximar do divino. Cremos que Jesus mostra um exemplo inspirador; que seus ensinos são verdadeiros; que o espírito de sua mensagem é divino; que seus preceitos nos levam ao caminho da paz, nos guiando por um caminho pelo qual podemos caminhar em segurança.
Nossa crença na liderança de Jesus não se baseia no que pensamos doutrinariamente a respeito de Jesus. Não se baseia no que pensamos a respeito de sua natureza, ou outra questão doutrinária qualquer. Podemos diferir em nossas compreensões e assim mesmo termos todos fé em Jesus, o líder. Nossa fé depende de nossa lealdade e amor para com o espírito dos ensinamentos desse Grande Exemplo.
A Salvação Pelo Caráter
Como ocorre com a palavra “Deus”, a palavra “salvação” pode parecer confusa para muitas pessoas por ela possuir muitos sentidos e ênfases diferentes. Para algumas pessoas salvação significa escapar de um Deus furioso; para outras pessoas, uma dependência na bondade de outrém; para outros, uma profissão de fé; para outros, sacrifícios e formas de adoração; para outros, a aceitação de uma teologia.
Eu não tenho nenhuma intenção de dar uma definição de Deus ou salvação do ponto de vista unitarista, já que não há apenas uma opinião entre nós. De modo geral tendemos a ver salvação como algo a ocorrer nesta vida, e não numa suposta vida após a morte. Vemos a salvação como algo pessoal e social. Como algo divino e também humano. Salvação significa se tornar inteiro, completo, e curado. A salvação está na vida da comunidade. A salvação é paz e justiça dentro da comunidade e além da comunidade. A salvação é a paz interior que o indivíduo conhece por viver uma vida íntegra.
Vemos a salvação como ser resgatado daquilo que é mal e como obediência ao certo, como amor ao bem e hostilidade para com o mal. Cremos que a salvação venha com a ajuda divina, de muitas maneiras, mas principalmente por meio da liderança de Jesus, ou seja, agindo-se da maneira como prescreve o ensino que lhe foi atribuído. Nossos próprios esforços, unidos à ajuda divina, fazem a salvação, moldam o caráter, tornam a alma vitoriosa na vida e na morte.
E o que é o caráter? É o resultado pleno de nossos pensamentos e nossas ações. É o que realmente somos, e não simplesmente o que dizemos que somos, ou o que dizemos que acreditamos.
É assim que cremos que alcançamos a salvação. Não somos salvos pelo que dizemos acreditar, ou pelas doutrinas que abraçamos. Somos salvos pelo que deixamos passar pelos Portais do Pensamento, do Coração e da Ação. Pensamos, aprendemos, sentimos, deixamos que nosso aprendizado e nossas emoções modelem nossas ações, fazendo aquilo que nossa fé nos ensina, e assim alcançamos aquele estado de salvação diariamente. E como a salvação é algo individual e coletivo, alcançamos o shalom, aquele estado de paz e justiça, trazendo outros conosco. Não é possível fazer essa jornada sozinho.
Na realidade pouco importa o que entendemos ser a salvação, se ela é algo referente a esta vida ou a uma vida futura. O que importa é o caminho que trilhamos em nosso aprendizado e na modelação de nossas ações, de nosso caráter.
A salvação pelo caráter não é algo fácil. Somos admoestados a não confiarmos apenas nas “obras”. Somos obrigados a olhar para além de nós mesmos. Nossas vidas devem ser uma combinação de fé e obras: “Pelos seus frutos os conhecereis”.
Caráter significa realidade; apóia a sinceridade; representa a consciência; tem profundas raízes na fé; e flui para um ideal.
Por salvação pelo caráter queremos dizer que paz e alegria verdadeiras só podem vir quando fazemos o certo, esquecemos de nós mesmos, e nos aperfeiçoamos cada vez mais.
O Progresso da Humanidade
O que significa “progresso”? Significa que podemos esperar conhecer mais. Muitas coisas que parecem misteriosas se tornarão claras. Há algo maior do que seguir adiante, aprendendo, melhorando, cada vez mais?
O nosso mais importante dever é estarmos prontos para viver, diariamente. Muitas pessoas se preocupam muito com a morte e com o que acontece após a mesma, principalmente por ela parecer tão estranha e solene, mas se vivermos nossas vidas com nobreza nosso encontro com a morte será triunfante.
Viver com nobreza significa aproveitar nossa vida na terra da melhor e mais responsável maneira possível, seguindo os melhores exemplos, fazendo o bem, e tornando este mundo um lugar melhor para todos nós. E eu posso garantir que todos nós podemos fazer isso, independentemente de nossas próprias limitações. Devemos dar ouvidos à nossa consciência e obedecer a verdade como nós a entendemos.
Nós unitaristas cremos que valor e dignidade sejam características inalienáveis do ser humano. Talvez seja difícil entender isso quando olhamos para o estado da humanidade, e todo o mal que temos produzido contra este planeta e sua vida, uns contra os outros, e contra nós mesmos, mas a crença no valor e dignidade humanas significa que cremos que os humanos podem se transformar, podem aprender, podem crescer. Significa que não cremos que os humanos em si mesmos sejam seres “caídos”, “pecadores” por natureza, incapazes de se erguerem a níveis maiores. Significa que cremos exatamento no contrário disso. Cremos que o homem possa progredir rumo a Deus, nossa origem. Não há um fim para esse progresso. Temos a esperança de nos tornarmos mais sábios e melhores enquanto vivermos neste mundo; e muitos de nós também têm a esperança de encontrarmos novas oportunidades de crescimento numa próxima etapa de nossa existência.
Religião Liberal
É assim que chegamos à compreensão unitarista do que seja “religião liberal”. Se todas as pessoas aceitassem a fé unitarista, isso não significaria necessariamente que todas elas pensariam da mesma forma. Nossa fé unitarista permite variadas aplicações e desdobramentos.
Devemos sempre lembrar de duas palavras e do que elas significam para a religião: RAZÃO e REVERÊNCIA.
A razão nos mostra a “verdade”, e a reverência é o amor e a admiração que temos pela verdade. As duas trabalham juntas, já que a razão nos dá a “verdade” e a reverência nos impele a sermos obedientes à verdade que conhecemos.
Nós unitaristas sempre nos distinguimos de outros grupos religiosos por não vermos a razão como sendo algo oposto à fé. Na verdade, cremos que sem razão não pode haver fé, e que a fé sem razão não passa de superstição. Por outro lado, em se tratando de religião, também pensamos que a razão sem a fé não passa de algo pela metade.
E, afinal de contas, o que é “religião liberal” para os unitaristas? Tradicionalmente temos usado quatro testes para identificar a “religião liberal”:
1 - Liberdade da razão e liberdade de consciência;
2 – Comunhão (=comunidade), o espírito;
3 – Serviço, o alvo;
4 – Caráter, o teste.
Ou seja, a religião liberal nasce onde há liberdade de consciência para o uso livre da razão, onde os indivíduos podem discordar, duvidar, pensar, questionar, responder, aceitar ou rejeitar. Essa liberdade só pode ser real onde haja um espírito de comunidade, onde haja uma comunhão real entre os indivíduos, onde todos cresçam juntos, mesmo que não pensem exatamente da mesma maneira. Essa comunhão de indivíduos que têm a liberdade para pensarem de maneira diferente são convencidos de que sua fé só tem valor se posta em prática para transformar o mundo do qual são parte, então o serviço aos demais é seu objetivo principal. E a avaliação dessa religião é feita pelos frutos que produz nos indivíduos, ou seja o caráter individual, os pensamentos e ações do indivíduo, é que são o teste final dessa religião e o que decide se tal religião é “liberal” ou não.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Sobre a Ortodoxia (trechos) - James Freeman Clarke
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Manual de Crença Unitarista - James Freeman Clarke, 1884
RELIGIÃO NECESSÁRIA AO HOMEM.
§ 1. A RELIGIÃO pode ser definida como a adoração e serviço a Deus. É necessária porque o homem é frágil, e necessita do poder Divino para dar-lhe força; é ignorante, e necessita da luz Divina para guiá-lo; é pecador, e necessita da misericórdia Divina para dar-lhe paz; é mortal, e necessita de fé em coisas invisíveis e eternas para dar-lhe a esperança de contínua existência.
§ 2. Que a religião seja natural ao homem parece óbvio do fato de que, seja numa forma elevada ou rebaixada, tem sido encontrada entre todas as raças e nações, entre povos civilizados e selvagens, em épocas antigas e modernas.
§ 3. Os seguintes elementos na alma constituem a base da religião: o senso de dependência (veja § 1.); a consciência, ou o senso de certo e errado, dando as ideias de dever e responsabilidade; a razão, ou a faculdade que percebe as leis universais e necessárias;* a aspiração, que tende para o bem, o belo, e o verdadeiro, e é a base da adoração.
§ 4. Religião natural é aquela que é desperta pela visão da ordem e beleza da natureza, de suas adaptações ao uso dos seres vivos, de sua variedade e unidade; elevando a mente ao conceito de um Ser Supremo, perfeito em poder, sabedoria, e bondade.
§ 5. Religião revelada consiste das revelações da verdade Divina feitas às almas de homens inspirados, produzindo, assim, legisladores, profetas, e líderes espirituais para a raça humana.
CRISTIANISMO.
§ 6. O Cristianismo é a religião ensinada por Jesus e seus Apóstolos, como registrado no Novo Testamento. Fundada por Jesus, esta religião tem continuado até o presente tempo, e ainda é a fé professada por aquelas nações do mundo que são as mais avançadas em civilização.
§ 7. Todos aqueles nascidos e educados em terras cristãs são cristãos; da mesma forma como todos os nascidos e educados na Inglaterra são ingleses, e na América são americanos. Sem nossa própria escolha, recebemos uma influência das circunstâncias e instituições que nos cercam em nossa infância e juventude. Somos inconscientemente educados por instituições cristãs para certos hábitos de pensamento e sentimento cristãos. Quando lemos a vida e ensinamentos de Jesus, encontramos neles algo que alimenta a natureza moral e espiritual, e satisfaz as maiores necessidades da alma. Então, acreditamos consciente e experimentalmente nele, porque ele nos ajuda a sermos bons e a fazermos o bem.
Quando podemos comparar o caráter e verdade de Jesus com aqueles de outros professores e mestres, como Moisés, Confúcio, Buda, Mohammed, Sócrates, se encontrarmos nele uma maior profundidade e plenitude da vida espiritual do que em qualquer outro, acreditaremos intelectualmente nele como o melhor dos professores e mestres.
§ 8. As duas grandes divisões da Igreja Cristã neste país são a Protestante e a Católica Romana. Os Unitaristas acreditam que o Protestantismo esteja mais de acordo com o ensino de Jesus, e também o encontramos mais frequentemente associado com o livre pensamento, com o progresso social, e com as instituições liberais.
UNITARISMO.
§ 9. Os Unitaristas, estritamente falando, são aqueles cristãos que rejeitam a doutrina eclesiástica da Trindade, e que não acreditam que Jesus seja Deus Filho, igual ao Pai, ou que ele seja o Ser Supremo.
Os unitaristas também geralmente rejeitam o sistema de doutrinas conhecido como ortodoxo, como veremos no curso deste Manual. Como essas doutrinas constituem um sistema lógico, do qual a doutrina da Trindade é a pedra angular, quando esta é removida, o arco desaba.
§ 10. Aqueles que aceitam a crença unitarista deveriam abertamente professá-la e deveriam se unir em igrejas unitaristas, pois, se acreditamos que Jesus não era o Ser Supremo, e que ele ensinou que não era, devemos declarar abertamente esta convicção. Se, de acordo com Cristo e seus Apóstolos, não há um Deus tal como a "Trindade", deve ser errado parecer adorar este Deus, que é desconhecido nas Escrituras do Novo Testamento. Ademais, sabe-se que onde quer que igrejas unitaristas sejam estabelecidas, elas se tornam centros de movimentos em favor da educação, filantropia, e reformas sociais.
A BÍBLIA.
§ 11. Unitaristas consideram a Bíblia como um livro sagrado, pois é pleno de elocuções de almas inspiradas. Ela nos traz para junto de Deus, nos pondo em comunhão com as experiências mais profundas e elevadas da humanidade.
§ 12. Cremos que a Bíblia seja um livro inspirado porque está repleto de pensamentos que vieram aos homens por inspiração. Os Salmos, o Livro de Jó, Isaías, os escritos de Paulo, e as palavras de Jesus não resultaram de simples pensar, mas vieram de uma região mais elevada que a razão reflexiva.
§ 13. Mas, apesar de considerá-lo um livro inspirado, os unitaristas também consideram a Bíblia como vindo não apenas de Deus, mas também do homem. Está repleta de experiência, dor, alegria, tentação, pecado, arrependimento, confiança, esperança, e amor humanos. Vindo dos lugares mais profundos do coração do homem, ela vai aos lugares mais profundos. Ela tem seus pontos altos e baixos, seus topos elevados e seus vales profundos. É humana, e portanto, falível. Escrita por muitos homens e em diferentes épocas, de variadas aplicações e valores. Há pouco que nos seja edificante no Livro de Levítico ou no Livro de Apocalipse. Nossas Bíblias naturalmente não se abrem lá, mas nos Salmos, no Sermão da Montanha, nas parábolas de Jesus, nas ardentes elocuções da alma de Paulo.
§ 14. Unitaristas não acreditam na infalibilidade da Bíblia. A inspiração leva a uma visão da verdade e realidade, mas não necessariamente a uma descrição perfeitamente correta do que é visto. Mas esses erros de expressão não diminuem a autoridade da Bíblia como uma professora da melhor verdade moral e espiritual.
§ 15. Unitaristas também veem uma diferença nos ensinamentos morais e religiosos de diferentes partes da Bíblia. O Antigo Testamento ensina uma doutrina diferente da ensinada no Novo a respeito de Deus, do dever, e da imortalidade. A verdade se desvenda gradualmente aos olhos humanos; e a raça humana pode dizer, como Paulo disse: "Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei adulto, deixei o que era próprio de criança" (1 Coríntios 13:11). As objeções unitaristas à doutrina da inspiração plenária e infalível da Escritura são as seguintes:
CRENÇA A RESPEITO DE DEUS.
§ 16. Unitaristas creem que Deus é único - um ser e uma pessoa. Creem que Deus é infinitamente sábio, santo, e bom; que ele é onipotente e onipresente; que seu maior atributo é o amor, e que seu melhor nome é "Pai". A crença unitarista a respeito de Deus pode ser expressa nas palavras do Novo Testamento. Por exemplo,
A TRINDADE.
§ 17. A doutrina da Trindade, como declarada nos credos de todas as assim-chamadas igrejas ortodoxas, é esta: que há três pessoas na Divindade – o Pai, o Filho, e o Espírito Santo – e que esses três são um Deus, o mesmo em substância, iguais em poder e glória, mas distintos pelas propriedades pessoais. O Credo Atanasiano é a fórmula mais distinta desta doutrina. Ele diz: “E a fé católica consiste em venerar um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, sem confundir as pessoas e sem dividir a substância. Pois uma é a pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; Mas uma só é a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade”.Esta doutrina ensina que o Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus; e ainda assim, não há três Deuses, mas um Deus. Cada um pode ser adorado separadamente. Cada um tem um trabalhado e um ofício separado, que não devem ser confundidos com aqueles dos outros, pois esta seria a heresia de Sabélio, que confundiu as pessoas. Mas não devemos dizer que eles são três pessoas, como Pedro, Tiago, e João; pois isto seria dividir a substância, que é outra heresia fatal.
Veja o “Catecismo de Westminster”, que é o credo da igreja Presbiteriana; o Credo Atanasiano, ainda lido ou cantado quatro vezes por ano na Igreja da Inglaterra; a Confissão de Augsburgo; e os credos de outras denominações ortodoxas.
JESUS CRISTO.*
§ 19. Unitaristas creem que Jesus é um ser criado, finito e não infinito, e, portanto, inferior ao Ser Supremo em sua natureza e pessoa. Alguns, chamados Arianos, pensam que ele foi criado antes de todos os outros seres finitos; mas esta visão é mantida por poucos, e parece ter sido apenas uma crença transitória. É apoiada por poucos textos que chamam Cristo de “o primogênito, anterior a qualquer criatura”, o ser por meio do qual todas as coisas foram criadas, etc (Colossenses 1:15, 16). Esses textos, contudo, parecem exigir uma explicação diferente para que sejam consistentes com as numerosas outras passagens nas quais o mesmo autor chama Cristo de “o homem Cristo Jesus” (I Timóteo 2:5). Os unitaristas, portanto, geralmente veem Jesus como um homem, humano na alma e no corpo; ou, como a Epístola aos Hebreus expressa, “teve que ser semelhante em tudo a seus irmãos” (Hebreus 2:17).
Alguns unitaristas acreditam que apesar de Jesus ter sido um homem, inteiramente humano na mente e no corpo, ainda assim ele foi um homem excepcional, feito livre do pecado e permanecido assim por uma excepcional influência Divina, tornado perfeito em todos os atributos espirituais e morais, para que ele fosse o líder de sua raça. Nesta perspectiva, ele foi dotado de dons sobrenaturais pelos quais ele se distinguia de outros homens.
§ 20. Como as Escrituras frequentemente chamam Jesus de o Filho de Deus, mas nunca o chamam de Deus o Filho, os unitaristas acreditam que ele tenha sido o Filho no sentido de uma união íntima com Deus e dependência dele. Quando Jesus disse: “O Pai e eu somos um” (João 10:30), sua intenção deve ter sido dizer um em simpatia, e não um em essência; já que ele orou (João 17:11) para que seus discípulos fossem um como ele e o Pai eram um. Ele certamente não podia ter tido a intenção de pedir que seus discípulos fossem um em essência.
§ 21. Os unitaristas acreditam que a grande glória de Jesus seja sua glória espiritual e moral. Sua verdadeira grandeza estava em sua devoção à vontade Divina, sua simpatia com o sofredor, a sua disponibilidade para desempenhar os ofícios mais simplórios e suportar uma morte vergonhosa para salvar a humanidade do poder do mal e do pecado. Tudo isso é continuamente expresso no Novo Testamento, em passagens semelhantes àquela em Filipenses 2:5-10. Nesta passagem, o Apóstolo exorta seus discípulos a terem a mesma mente que estava em Jesus, que, sendo a principal manifestação no mundo do caráter Divino, não se agarrou ambiciosamente à honra daquela elevada posição, mas estava disposto a morrer a morte de um escravo a serviço da humanidade; e ele adiciona: “Por isso, Deus o exaltou grandemente, e lhe deu o nome que está acima de qualquer outro nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho... e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai”. Esta passagem, frequentemente citada como prova textual pelos trinitaristas, é um argumento em favor das perspectivas unitaristas a respeito de Jesus. Pois, apesar de atribuir a ele as maiores honras, declara que todas elas são dadas a ele por Deus, que ele é exaltado por Deus, e que esta grande autoridade é “para a glória de Deus Pai”. E também atribui a origem de toda essa glória, não à natureza divina de Jesus, mas à sua humildade de caráter.
§ 22. Embora os unitaristas não acreditem ser correto chamar Jesus de Deus, não fazem nenhuma objeção ao epíteto “divino”. Ele foi um homem divino, e não um Deus humano. Todos concordam que ele revelou Deus como Pai, como Amor, como Bondade Infinita, como Providência perfeita. Ele foi a imagem do Deus invisível; ele foi a Palavra de Deus pronunciada ao mundo; aquele que o viu, viu o Pai; Deus habita nele, e ele em Deus. Todas essas expressões ensinam a união íntima de sua alma com o Espírito Infinito, uma intimidade que ele desejava comunicar a todos os outros homens. Notemos que, no Novo Testamento, quase todo atributo Divino usado para Jesus é também usado para seus discípulos. Diz-se que ele “sabia todas as coisas”? Também é dito a eles: “Vocês receberam a unção que vem do Santo, de modo que vocês sabem todas as coisas” (I João 2:20). Diz-se que ele “não tinha pecados”? Também é dito deles: “Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado... não pode pecar, porque nasceu de Deus” (I João 3:9). Cristo realizou milagres? Ele fala de seus seguidores: “Quem acredita em mim fará as obras que eu faço e fará maiores do que estas” (João 14:12). Deus deu a Cristo uma glória que ele tinha antes de o mundo existir? Ele diz a respeito de seus discípulos: “Eu mesmo dei a eles a glória que tu me deste” (João 17:22). Ele ressuscitou dentre os mortos para uma vida mais elevada? Paulo diz: “Se vocês foram ressuscitados com Cristo, procurem as coisas do alto” (Colossenses 3:1); e também diz: “E assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim também traremos a imagem do homem celeste” (I Coríntios 15:49). Cristo veio para julgar o mundo? Diz-se de seus discípulos: “Então vocês não sabem que os cristãos é que vão julgar o mundo?” (I Coríntios 6:2). Deus habitou em Cristo? Está escrito a respeito de seus seguidores: “Vocês não sabem que são templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês?” (I Coríntios 3:16).
A Escritura, assim, ensina que (1) tudo que Cristo tinha, ele recebeu de Deus e (2) que tudo que ele recebeu, ele recebeu para que pudesse transmitir a seus companheiros.
§ 23. Os unitaristas, portanto, acreditam em Jesus como sendo um homem levantado para ser o mediador da vida divina para seus companheiros; mas não acreditam que ele era Deus:
Eles consideravam seu Mestre como sendo um homem, porém mais sábio e melhor que eles mesmos. Certamente deveríamos ter encontrado no Novo Testamento algum traço da surpresa e espanto que viera sobre eles se o fato tivesse sido comunicado a eles que seu Mestre era o Supremo Deus.
FÉ E CRENÇA CONCERNENTE A CRISTO.
§ 24. Ter fé em Cristo é confiar nele como uma revelação de verdade e amor. Jesus diz: “Acreditem em Deus e acreditem também em mim” (João 14:1).
§ 25. Jesus pediu que os homens acreditassem nele porque ele sabia que ele claramente via a maneira de ajudá-los. Se eles apenas confiassem nele, ele lhes daria conforto e paz, poria seus pés no caminho certo, e lhes ensinaria a conquistar seus pecados. Se tivermos fé nos sábios, nos bons, nos nobres, nos generosos, também nos tornamos mais sábios, mais nobres, mais generosos; e como Cristo é a alma mais sábia e mais generosa que já conhecemos, a fé nele é a influência mais forte de todas. Sua grande esperança pela vinda de um reino do céu à terra tem inspirado seus discípulos a vencerem os males do mundo. Sua fé no amor paternal de Deus tem trazido conforto aos sofredores e infelizes. Sua fé no triunfo do bem sobre o mal tem preenchido o mundo com uma vívida esperança.
§ 26. Além da fé em Jesus, há uma crença a respeito dele. Formamos essa crença por meio do estudo e da razão. O bom de termos uma crença distinta é que ela salva-nos da dúvida, hesitação, e confusão da mente.
§ 27. Os unitaristas acreditam que os quatro Evangelhos contêm um relato histórico adequado da vida, ensinamentos, e caráter de Jesus. Eles acreditam que ele seja o Cristo, ou Rei, não no sentido de um rei judeu, mas como alguém que é o mestre do mundo pelo poder da verdade que ele ensinou. Parece que ele mesmo teve esta opinião, João 18:37: “Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. Os unitaristas geralmente creem que Jesus realizou obras maravilhosas de cura, mas que é possível que alguns dos relatos nos Evangelhos tenham sido relatados imperfeitamente. Há unitaristas que rejeitam os elementos miraculosos nos Evangelhos e que, ainda assim, creem na liderança de Jesus.
§ 28. Objeções são feitas aos unitaristas, afirmando-se que diferem um do outro em opiniões tão amplamente, que não possuem um credo comum. Os católicos romanos fazem a mesma objeção em se referindo à Igreja Protestante. Mas Deus fez a mente humana de tal maneira que assim que começam a pensar, começam a diferir. Se, portanto, não há diferença de opinião em uma igreja, isso mostra que não há pensamento individual naquela igreja. Os homens pensam da mesma maneira apenas quando não pensam. Isso é aceitação, e não convicção. Tal crença é, na realidade, crença nenhuma, e não tem nenhum valor. A única concordância de opinião que tem valor é aquela harmonia que vem depois de plena e livre investigação a respeito dos assuntos sobre os quais os homens diferem. Só assim podem as questões ser resolvidas; sem tal livre discussão as diferenças são apenas encobertas. A variedade de opiniões entre os unitaristas é, portanto, a evidência do livre pensamento.
A OBRA DE CRISTO.
§ 29. Os unitaristas acreditam que Jesus se sentia enviado por Deus para revelar sua verdade (João 18:37) e seu amor perdoador (João 1:17; Mateus 9:2, 6); para buscar e salvar os perdidos (Mateus 18:11; Lucas 19:10); para dar descanso aos cansados e sobrecarregados (Mateus 11:28); para trazer a lei do dever a uma moralidade mais elevada (Mateus 5:18, 20, 21, 27, 33, 39, 44); para se sacrificar pelo bem de outros (Mateus 20:28); para chamar os pecadores ao arrependimento (Marcos 2:17); para pregar boas novas aos pobres, liberdade aos cativos, visão aos cegos, e conforto aos sofredores (Lucas 4:18, 7:22); para revelar o amor Paternal de Deus (Mateus 11:27; João 17:26); e para dar vida espiritual e um senso de imortalidade à humanidade (João 6:40, 47; João 10:10). Entre os unitaristas há, às vezes, diferentes explicações para esses textos; mas todos concordam essencial de Cristo é tornar os homens melhores, mais sábios, e mais felizes neste mundo e no próximo.
§ 30. Os unitaristas acreditam que a obra principal de Cristo é salvar os homens do pecado e mal aqui. Eles não acreditam que sua obra principal seja salvá-los das consequências do pecado na vida além-túmulo.
§ 31. Cristo salvá-nos do poder do pecado por meio de seus ensinamentos, sua vida, e seus sofrimentos. Por seus ensinamentos, ele nos mostra que o certo e o errado estão enraizados na própria natureza das coisas e nas leis do universo. Veja as passagens onde Jesus declara as leis da consequência moral na vida humana. Exemplos: “Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (Mateus 23:12). “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5:8). “Vocês serão julgados com o mesmo julgamento com que vocês julgarem” (Mateus 7:2). “Toda árvore boa produz bons frutos” (Mateus 7:17). "Pelos frutos deles é que vocês os conhecerão" (Mateus 7:20). Em todos essas passagens, Jesus está declarando a obra de leis eternas.
§ 32. Enquanto os ensinamentos de Jesus manifestam o dever e a necessidade de se fazer o certo, seus exemplos mostram a possibilidade, realidade, e beleza de uma vida dada ao serviço a Deus e ao homem. “Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz” (João 13:15). “Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo” (Filipenses 2:5). Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da lei e dos fariseus, vocês não entrarão no reino do céu” (Mateus 5:20). “Portanto, quem ouve essas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha” (Mateus 7:24).
§ 33. Jesus também nos salva do poder do pecado por seus sofrimentos, nos quais estão incluídos não apenas sua morte, mas seus sacrifícios e perseverança durante sua vida. Seu principal sofrimento veio provavelmente de ver o pecado humano e toda infelicidade causada por ele. Sua simpatia estava com os menores e os mais humildes dentre os humanos. Vivendo em plena luz do amor de Deus, ele se devotou ao serviço ao homem, e especialmente ao fraco e pecador. Ele, assim, se torna uma manifestação do amor de Deus, e dá-nos fé na bondade e graça Divina oferecida a cada filho de Deus.
O ESPÍRITO SANTO.
§ 34. Os unitaristas não acreditam que o Espírito Santo seja uma pessoa separada na Divindade, mas que seja a influência do espírito de Deus na alma humana, para dar vigor, paz, luz, amor. Diz-se que é derramado, dado, etc; expressões que são aplicadas a uma influência, mas não a uma pessoa.
§ 35. Os unitaristas acreditam que essa influência seja dada por uma constante operação, onde quer que o coração humano esteja preparado e pronto para recebê-la. Portanto, os cristão são ordenados a “viver no Espírito”, a “andar no Espírito”, e diz-se que o Espírito “habita neles”. É dado não apenas a Profetas e Apóstolos, a santos e mártires, mas a todo que deseja ajuda para viver vidas melhores.
§ 36. A diferença entre a influência do Espírito de Deus e outras influências que vêm dele é esta: enquanto as outras vêm a nós de fora, por meio da natureza, eventos, e outras pessoas, a influência do Espírito é Deus falando a nós dentro de nossa alma. Entramos em comunhão com Deus exteriormente por meio de suas obras e por meio dos eventos de nossa vida terrena. Entramos em comunhão com ele internamente quando estamos sozinhos, e quando na câmara secreta de nossos corações elevamos nossos pensamentos e desejos, nossos sofrimentos e pecados, ao nosso Pai Celestial.
CRENÇA UNITARISTA CONCERNENTE AO HOMEM.
§ 37. Os unitaristas comumente acreditam que em todos os homens há capacidades religiosas, pelas quais podem entrar em comunhão com Deus. Essas são razão, consciência, liberdade, amor à verdade, à beleza, à bondade, o senso do infinito, a capacidade de amor desinteressado; e os sentimentos de veneração, admiração, aspiração, etc. Essas se acham, mais ou menos, desenvolvidas em todos os homens, e onde propriamente educadas e desenvolvidas fazem a verdadeira dignidade e valor da natureza humana. Diz-se (Romanos 1:19-20) que todos os homens têm um conhecimento suficiente de Deus para permitir-lhes obedecê-lo e amá-lo; e em Romanos 2:14 está escrito que os pagãos que nunca tiveram uma lei moral revelada “fazem espontaneamente o que a lei manda”. O caso do romano Cornélio (Atos 10:1) leva Pedro a dizer que os homens bons, em todas as nações, são aceitáveis a Deus (Atos 10:34). Veja também passagens como as Bem-Aventuranças, onde as bençãos do Cristianismo são prometidas ao manso, ao humilde, ao puro de coração, etc.
§ 38. Os unitaristas rejeitam as doutrinas calvinistas do pecado original e da depravação total, da responsabilidade da raça humana pela queda de Adão, e a crença que, até que se converta, o homem esteja sob a ira de Deus. Eles acreditam que se há depravação hereditária, há também bondade hereditária; que frases como “a ira de Deus” são figurativas, e não podem se aplicar à Eterna Bondade. Acreditam que mal hereditário seja infelicidade, mas não culpa, e é ao que Paulo se refere quando fala, duas vezes, do erro involuntário: “portanto, não sou eu que faço, mas é o pecado que mora em mim” (Romanos 7:17, 20).
Que o homem em seu estado natural tem o poder para fazer o certo, e que fazer o certo é agradável a Deus, é evidente em passagens como essas: A parábola do semeador, onde a semente (a Palavra) cai em “terra boa” de um “coração bom e generoso” (Lucas 8:15); as passagens que ensinam que os espíritos das criancinhas veem a Deus, face a face (Mateus 18:10, 19:14); as parábolas do Bom Samaritano e a do Fariseu e do Publicano (Lucas 10:30, 18:9), onde Jesus ordena que as boas qualidades de hereges e párias sejam imitadas. E veja especialmente o relato do Dia do Julgamento, onde os pagãos que fizeram boas ações sem terem ouvido a respeito de Cristo são colocados entre seu rebanho.
§ 39. Quando os unitaristas falam da “dignidade da natureza humana”, não se referem à dignidade do homem em sua presente condição, mas do homem como Deus o desejava que fosse e o fez para que fosse. Encontramos em todos os homens poderes e faculdades que os unem à eternidade. Temos dentro de nós razão, que é capaz de buscar e encontrar as verdades mais nobres. Temos consciência, que nos mostra a diferença entre o certo e o errado. Temos o poder da liberdade, pelo qual podemos escolher o bem e recusar o mal. Temos o senso do belo, do verdadeiro, e do bom; e um anseio pelo imutável e eterno. Esses poderes, que estão em todos os homens, constituem a dignidade da natureza humana, e a torna capaz do progresso eterno.
EXPIAÇÃO E RECONCILIAÇÃO.
§ 40. Os unitaristas creem que expiação e reconciliação sejam a mesma coisa. Ambas significam um estado de união e paz entre o homem e Deus; a harmonia entre a justiça Divina e a misericórdia Divina; e a substituição do medo e pavor da ira de Deus, pela confiança e dependência dele.
§ 41. Os unitaristas não acreditam que Cristo veio para reconciliar Deus ao homem, mas para reconciliar o homem a Deus; não para fazer Deus amar-nos, mas para revelar seu amor; não para harmonizar sua justiça e misericórdia, mas para mostrar que elas estão sempre em harmonia. A morte de Cristo não foi um sacrifício para acalmar a ira Divina, mas foi uma expressão do amor Divino. Paulo diz (Romanos 8:32): “Ele não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós. Como não nos dará também todas as coisas junto com o seu Filho?”
CONVERSÃO E REGENERAÇÃO.
§ 42. "Conversão" é a tradução de uma palavra grega que no Novo Testamento significa “mudar de direção”. Quando estamos seguindo o caminho errado, devemos mudar de direção para podermos seguir o caminho certo. A conversão religiosa é quase a mesma coisa que arrependimento. Quando estamos conscientes de que não estamos obedecendo a verdade e que não estamos cumprindo com nosso dever, precisamos mudar de direção e entrar, de vez por todas, num novo caminho. Isso é conversão; e este ato pode se tornar necessário muitas vezes no curso de nossa vida.
§ 43. "Regeneração" é a palavra da Escritura usada para se referir à nova vida que tem sua origem não apenas na visão da lei de Deus, mas também na do amor de Deus. Então, quando vemos o amor de Deus em todas as coisas, nascemos de novo e nos tornamos novas criaturas. Podemos nos afastar de nossos pecados, mas não podemos criar para nós mesmos o novo céu e a nova terra de alegria e amor espirituais. Eles são revelados a nós na alma por uma influência Divina.
Um homem convertido é um que se determinou a fazer o certo e começou a fazê-lo. O homem regenerado é aquele no qual o hábito de fazer o certo está estabelecido, aquele que passou a amar esse hábito, e para o qual fazer o certo não exige nenhum esforço.
ORAÇÃO.
§ 44. A oração é se virar para Deus e falar com ele, com plena confiança de que ele nos ouvirá. Esse é o cerne da oração. Uma confiança ativa e esperançosa abre a alma de maneira tal que sua vida flui e nos dá força. Jesus diz: “Peçam, e lhes será dado. Procurem, e encontrarão. Batam, e abrirão a porta para vocês. Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta” (Mateus 7:7, 8).
Quando os discípulos vieram a seu Mestre, e disseram: “Senhor, ensina-nos a orar”, sua resposta veio nas palavras que até hoje chamamos de “Pai Nosso” (Lucas 11:2-4). A primeira preparação para a oração é desejar amar e servir a Deus. Se não encontramos este desejo em nossos corações, devemos examinar-nos para ver o que está errado com nosso desejo, e devemos pedir a Deus que nos ajude a alcançarmos um estado de mente e coração correto.
Para orar corretamente, devemos ser sinceros. Jesus diz: “Deus é espírito, e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (João 4:24). Não devemos dizer com nossos lábios a oração que não sentimos em nosso coração. Quando estamos felizes, nossa alegria pode fluir para o Amigo Celeste de quem todas as nossas bençãos vêm; quando estamos infelizes, podemos orar ao mesmo Amigo amoroso por conforto. Quando estamos distantes de Deus, devemos orar para sermos trazidos de volta; e quando tivermos pecado, não encontraremos nenhuma paz até que tenhamos pedido a nosso Pai para perdoar-nos e ajudar-nos a sermos seus filhos obedientes novamente.
§ 45. Objetos de Oração: Os principais objetos de oração são espirituais. Pedimos a Deus força, paz, pureza, amor – ou seja, o Espírito Santo. Sabemos que para cumprir qualquer dever eficazmente, ele deve ser cumprido no espírito certo. Mas não podemos obter sempre um espírito correto por um esforço da vontade. Podemos estar deprimidos, ou ansiosos, ou irritados. Nesse caso, esse mau espírito entrará em nossas palavras e ações, e nos impedirá de exercitar a boa influência que realmente temos no coração. Mas se abrirmos nossa alma a Deus, e pedirmos que ele nos ajude a nos sentirmos bem para que façamos o certo, podemos ter certeza que essa ajuda virá.
Podemos também pedir por bençãos externas? Algumas pessoas boas e sábias pensam que não devemos. Elas consideram isso algo egoísta para se fazer, e elas também pensam que isso é pedir que Deus suspenda a ação de suas leis universais. Outras, entretanto, dizem que podemos pedir a Deus qualquer coisa que desejarmos, e que Deus deseja que o façamos; da mesma maneira como um bom pai e uma boa mãe gostam que seus filhos lhes tragam os desejos de seus corações. Só que, nesses casos, devemos pedir em submissão, como Jesus fez: “Contudo, não seja feito como eu quero, e sim como tu queres” (Mateus 26:39). Também devemos pedir “em seu nome”. Isto, entretanto, não significa repetir as palavras “por Jesus Cristo”, como se essas palavras tivessem algum poder mágico. Mas “o nome de Cristo” significa o espírito de Cristo. Devemos pedir no espírito de Cristo, não egoisticamente, mas incluindo o bem de outros em nossa oração.
§ 46. Tempo para Oração: pode ser bom ter horas fixas para a oração, por exemplo, o início do dia, quando reiniciamos os deveres da vida, e precisamos voltar a eles num espírito correto; e o final do dia, quando podemos olhar para o que passou e agradecer a Deus pelo que ele nos ajudou a ser e fazer, e pedir seu perdão por nossas faltas. Também é desejável orar, mesmo que por um curto momento, antes de qualquer trabalho que exija preparação para que seja feito corretamente.
§ 47. Resposta à Oração: alguns unitaristas acreditam que a única resposta à oração seja a boa influência que o pensamento a respeito da presença de Deus exerce sobre a alma. Nesse sentido, a oração é o mesmo que contemplação, ou meditação. Outros, entretanto, acreditam que por meio de uma lei do governo Divino, a oração ponha a alma em uma relação de tal forma com Deus que podemos receber uma influência direta dele. Esta lei exige que peçamos como condição para recebermos alguma benção especial, para que não recebamos a não ser que peçamos em oração. Isso cria uma verdadeira comunhão entre Deus e a alma.
A IGREJA.
§ 48. Os unitaristas creem que a Igreja seja um união daqueles que se reúnem para ajudarem-se mutuamente a viver uma vida cristã. O caráter essencial de uma igreja é declarado por Jesus quando ele diz: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mateus 18:19, 20). Reunir-se “em nome de Cristo” é reunir-se em seu espírito, para fazer sua obra. Orar “em seu nome” é orar no mesmo espírito no qual ele orou. “Em nome de um profeta, ou de um justo” (Mateus 10:41) significa num espírito de simpatia com o profeta ou o justo. Os judeus davam mais importância a um nome do que nós damos. Nós o consideramos como um acessório acidental; eles davam nomes como indicativos de caráter.
§ 49. Os unitaristas creem que a obra da Igreja seja reformar os imperfeitos, educar os ignorantes, fortalecer os fracos, e cooperar com todas as tentativas de elevar e melhorar a sociedade. Por essa razão, eles aguardam o tempo no qual todas as igrejas se unirão com o propósito de fazer o bem, para que finalmente o reino de Deus venha, e para que sua vontade seja feita na terra como no céu.
§ 50. Os unitaristas geralmente aceitam as duas ordenanças de Batismo e da Ceia do Senhor, não como essenciais para a vida espiritual, mas como ajuda para ela. Consideram ambas não como fins, mas como meios. Elas as consideram como símbolos naturais e imagens externas de sentimentos e propósitos internos. Se praticadas meramente como formas, sem essa aplicação interna, seu valor desaparece.
§ 51. O batismo, ou a aplicação exterior de água, expressa o desejo de que a criança ou o adulto batizado seja cercado por aquelas influências cristãs externas que conduzem à pureza de caráter e conduta. A água é o símbolo natural de pureza. Quando Jesus lavou o pé de seus discípulos, ele expressou esse pensamento, e acrescentou que os discípulos também deveriam lavar os pés uns dos outros, ou seja, que eles deveriam ajudar-se mutuamente a limpar-se das manchas do pecado. Ao batizar crianças os unitaristas não querem expressar uma crença de que este ato externo possa ter qualquer efeito na alma da criança. Nenhum unitarista aceita a doutrina da Regeneração pelo Batismo. Mas, por meio deste rito, expressamos nossa crença de que a criança já seja amado por Deus, e a batizamos como uma expressão de nosso desejo de que ela possa ter a ajuda que vem da união com a Igreja Cristã, e nosso desejo de que seus pais e todos os outros sejam fiéis em cercá-la com influências cristãs, e educá-la na vida cristã.
§ 52. A Ceia do Senhor, ou o partilhar do pão e vinho em grupo, é um sinal da irmandade cristã. Também simboliza as influências interiores do cristianismo, assim como o Batismo é um tipo de influência exteriores. O pão era um símbolo de força, e o vinho, de alegria. A Ceia do Senhor é um banquete de comunhão, ou irmandade. Ela também nos relembra a morte de Cristo pelo bem de toda a humanidade. É, assim, uma refeição memorial, e tem uma tendência a produzir e manter um senso vívido de nossa relação pessoal com Jesus como um mestre e amigo. Comer sua carne e beber seu sangue significa, na linguagem oriental, tornar seu ensinamento e seu caráter uma parte de nossa própria vida. Os unitaristas geralmente convidam todos aqueles que desejam lembrar Jesus a se unirem a eles neste ofício. Eles não a consideram como destinada a membros da igreja apenas, ou apenas para cristãos professos, mas para todos que amam Jesus e desejam expressar seu amor por meio da comunhão com os amigos dele. Essas duas ordenanças da Igreja Cristã, tendo sido continuadas desde o começo, une sucessivas gerações de cristãos umas com as outras e com seu Mestre comum.
§ 53. Os unitaristas na Nova Inglaterra, tendo se originado entre os congregacionalistas, são independentes em sua forma de governo eclesiástico, e são, portanto, chamados de congregacionalistas. Cada igreja é independente de outras, apesar de estarem prontas para se unirem em obra e simpatia. Para esses propósitos, elas se reúnem de tempos em tempos em Conferências locais e em uma Conferência Nacional. Em outros lugares, onde as crenças unitaristas surgiram entre os presbiterianos, como no Norte da Irlanda, ou entre os metodistas, como nos Estados do Oeste, os unitaristas mantêm alguns dos métodos de governo eclesiástico pertencentes a estas outras denominações.
CREDOS.
§ 54. Um credo (do latim “credo”, creio) é simplesmente uma crença. Nesse sentido, credos são bons, úteis, e desejáveis para os indivíduos. Se dois ou três que abraçam a mesma crença se unem para convencer outros de sua verdade, isso também é natural e é certo. Se eles declaram seu credo em proposições e artigos, isso também pode ser útil. A tais credos os unitaristas não se opõem. Muitas de suas igrejas têm adotado tais declarações de opinião.
§ 55. Mas os unitaristas se opõem a credos religiosos sob as seguintes condições: 1. Quando se tornam um teste de caráter; 2. Quando se tornam uma condição para associação; 3. Quando se tornam um obstáculo ao progresso. A maioria dos credos da Igreja Cristã se encaixa nessas objeções. Eles se tornaram um teste de caráter cristão, contrário à distinta declaração de Jesus de que a obediência, não a crença ou profissão, seja o verdadeiro teste de caráter (Mateus 7:15-27), e que a verdadeira religião consista em amar a Deus e ao homem (Marcos 12:28-34). Eles se tornaram uma condição de associação cristã, contrário à declaração de Jesus de que quem quer que fizesse a vontade de Deus era como uma mãe e irmã e irmão para ele (Marcos 3:35). eles têm sido um obstáculo ao progresso, impondo as opiniões de séculos passados à crença presente. Apesar de os unitaristas rejeitarem credos como esses, suas convicções religiosas não são menos distintas ou fervorosas.
CRISTIANISMO LIBERAL E RACIONAL.
§ 56. Cristianismo Liberal, ou liberdade na religião, não significa licença para crer no que escolhemos, mas liberdade para buscar a verdade em qualquer lugar, em todos os lugares, e sempre. Significa que não devemos apenas estar dispostos a aceitar que outros difiram de nós, mas prontos a ajudá-los a buscarem respostas livremente, mesmo que sua busca os leve a acreditar em coisas que consideramos errôneas. Significa que não devemos julgar uns aos outros (Mateus 7:1-5; Romanos 14:1-23), nem devemos submeter nossa própria crença ao julgamento de qualquer igreja ou qualquer autoridade humana.
§ 57. Cristianismo Racional não significa que devamos rejeitar todas as crenças que agora não vemos como racionais, ou fazer da razão a única fonte da verdade. Mas, significa que devemos testar cada crença pela luz de nossa razão, e buscar entender claramente o que pensamos e por que o pensamos.
O DEVER RELIGIOSO.
§ 58. Os unitaristas creem que todo o dever do homem consiste em praticar a justiça, amar a misericórdia, e caminhar humildemente com Deus (Miqueias 6:8); e em amar a Deus com todo o coração, e ao próximo como a si mesmo (Mateus 22:37-39). Creem que a essência da religião seja a virtude; que “os puros de coração veem a Deus”, que quem quer que ouça as palavras de Cristo e as cumpra, construiu sua casa sobre a rocha (Mateus 7:24). Creem que se tivermos um desejo sincero de vivermos uma vida boa, podemos confiar na promessa que aqueles “que têm fome e sede de justiça, serão saciados”; e que se estivermos prontos, quando falhamos, a nos arrepender, confessar, e abandonar nosso pecado, “Deus, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça” (1 João 1:9).
§ 59. Cremos que o homem verdadeiramente virtuoso esteja no caminho da salvação, seja qual for sua forma exterior de religião. A mera moralidade superficial, não enraizada em princípios, não chamamos de bondade. Mas quem quer que busque fazer a vontade de Deus, e ser fiel e justo para com o homem, seja pagão ou cristão, cremos que será aceito por Deus, o Pai de toda a humanidade (Atos 10:35; Mateus 25:34-41; Romanos 2:14-16).
§ 60. Os unitaristas consideram a virtude como o fim, e os atos religiosos como o meio e ajuda para aquele fim. Virtude interna do coração expressa por virtude externa na vida é essencial. A religião existe em favor da virtude, e pertence não apenas à Igreja e ao domingo, mas a todos os lugares e a todos os tempos. Deve ir conosco para nossa casa, para nosso local de trabalho, para a nossa diversão, e ser a ajuda e força do dia a dia. A religião é dada para tornar toda a vida sagrada; para santificar os negócios, a política, o prazer, o trabalho, e todas as nossas relações.
A VIDA FUTURA.
§ 61. Os unitaristas creem que a vida futura será uma continuação da vida presente, com oportunidade para mais crescimento e desenvolvimento. Creem que todo homem irá “para seu lugar”, o lugar ao qual ele pertence, o lugar onde seja melhor para ele estar. Jesus diz: “Existem muitas moradas na casa de meu Pai. Se não fosse assim, eu lhes teria dito” (João 14:2).
§ 62. De acordo com o Novo Testamento, a morte exterior, aquilo que chamamos de morte, não é nada; é meramente a alma deixando seus presentes instrumentos para tomar outros. A única verdadeira morte é a morte da alma; ou seja, pecado, ignorância, descrença. A alma que vive em pecado está morta em suas faculdades maiores. Cristo vem para nos elevar dessa morte espiritual para a vida espiritual; e então dizemos: “A lei do espírito, que dá a vida em Jesus Cristo, nos libertou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2). O Apóstolo diz que Jesus “venceu a morte” (2 Timóteo 1:10); e Cristo diz a respeito de si mesmo: “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11:25). A verdade, o amor, e a influência de Cristo são a ressurreição da alma, assim como são a vida da alma. A ressurreição é ressurreição espiritual, como a vida é vida espiritual. Quando Jesus diz: “Esta é a vontade do meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele acredita, tenha vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6:40), ele não fala da ressurreição do corpo, mas do princípio da vida espiritual que ele comunica à alma.
Quando cremos que Deus cuida de nós, que nos ama, estamos livres do medo da morte. Confiamo-nos inteiramente ao nosso fiel Criador, e dizemos: “Em tuas mãos, ó Senhor, entrego o meu espírito”, certos de que quando estamos com ele estamos seguros.
PROVAÇÃO, JULGAMENTO, E RETRIBUIÇÃO.
§ 63. Frequentemente ouvimos dizer que esta vida é um estado de provação; mas cremos que ela lembre mais uma escola, onde somos educados para um vida melhor e mais elevada depois. As provações e sofrimentos desta vida são uma disciplina proveitosa, que tem por objetivo revelar e fortalecer os poderes da alma. Devemos aprender aqui a diferença entre o certo e o errado, entre a verdade e o erro, aprender a formar hábitos de virtude, aprender a amar e confiar em Deus, aprender a viver com os outros homens como irmãos. Para fazer isso, precisamos nos examinar e testar com frequência, e, assim, encontrar nossa fortaleza e nossa fraqueza. Nesse sentido, a vida pode ser vista como um período de provação. Deus não precisa nos provar para descobrir como somos; “tudo fica nu e descoberto aos olhos dele” (Hebreus 4:13).
§ 64. O Julgamento futuro, como os julgamentos desta vida, é provavelmente diferente para cada alma individual. O Dia do Julgamento chega quando qualquer um se descobre como realmente é, e é visto por outros em seu verdadeiro caráter. Nossa consciência exige um julgamento Divino de toda conduta e caráter humanos; não tanto para que o bom seja recompensado e o mal punido, como aquela bondade que foi mal-compreendida seja justificada, e a maldade que passou por bondade seja exposta; para que os erros sejam corrigidos, e para que os homens vejam a justiça de Deus. É também necessário para o progresso moral do próprio homem, para que ele seja liberto da ilusão, se ele estiver se enganando. Mas quanto mais um homem for capaz de ver seu pecado aqui, e estiver pronto para confessá-lo e se arrepender dele, mais ele torna os julgamentos da vida futura menos necessários para ele. Portanto, é dito: “Se nós examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados” (1 Coríntios 11:31). “Se reconhecemos os nossos pecados, Deus, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça” (1 João 1:9). Em João 5:22 lê-se: “O Pai não julga ninguém. Ele deu ao Filho todo o poder de julgar”. Em outro lugar, Cristo diz: “eu não julgo ninguém” (João 8:15). Essas passagens são harmonizadas pelas palavras de Jesus: “a palavra que eu falei será o seu juiz no último dia” (João 12:48). A verdade que Cristo ensinou deve ser nosso padrão, e por ela seremos julgados. A coisa essencial no julgamento futuro, cremos ser a manifestação da verdade à consciência de todo homem diante de Deus, para nos vermos como somos e Deus como ele é.
§ 65. Os unitaristas creem que a retribuição futura venha da operação das mesmas leis que produzem retribuição aqui. Pelos princípios eternos da Providência Divina, fazer o bem cultiva a saúde moral, paz, e crescimento espiritual; fazer o mal cultiva a doença moral e o sofrimento. Essas leis são beneficentes em sua operação neste mundo e em todos os mundos. Toda punição intenciona reformar-nos e fazer-nos bem. Esse princípio do governo Divino está expresso em Hebreus 12:10, onde é dito que o Pai dos espíritos nos corrige “para o nosso bem, a fim de que sejamos participantes de sua própria santidade”.
CÉU E INFERNO.
§ 66. Os unitaristas não acreditam que após a morte haverá dois mundos distintos e separados - um para os bons e outro para os maus – um de felicidade perfeita imutável, e outro de infelicidade plena imutável. O “grande abismo” (Lucas 16:26) entre os bons e os maus neste mundo e em todos os outros consiste na eterna distinção entre o bem e o mal. Enquanto alguém estiver no inferno do desejo egoísta, nenhuma gota consolante de conteúdo celestial pode vir a ele. Os unitaristas acreditam em muitos infernos e muitos céus, de acordo com o caráter e condição de cada pessoa. Creem que o propósito do sofrimento futuro será reformatório e não vingativo; e que se um homem for egoísta e incontrolável, é melhor para ele sofrer as consequências desses males para que se torne melhor.
§ 67. Os unitaristas se opõem à doutrina comum da punição eterna como sendo hostil à soberania, sabedoria, justiça, e misericórdia do Ser Divino, e também como limitando o poder redentor de Cristo e de seu Evangelho. Creem que, sendo o objetivo da punição reformatória, apenas continuará até que o pecador seja reformado.
Se disserem que não temos direito de raciocinar da perspectiva da justiça e misericórdia humanas aquelas de Deus, respondemos: 1. Que tudo o conhecemos da justiça deve vir do princípio de justiça implantado na consciência humana pelo próprio Deus; 2. Que o próprio Jesus compara o amor do Pai Celestial com o amor dos pais terrenos, e nos mostra, com um exemplo de bondade imperfeita, o que podemos crer que a bondade Divina fará por nós (Mateus 7:9-11).
A doutrina da punição eterna tende a destruir a fé no poder redentor e conquistador do Evangelho; pois nele somos ensinados que o bem é mais forte que o mal, que o amor é capaz de vencer todo o pecado, e que é o prazer do Pai reconciliar todas as coisas na terra ou no céu a si mesmo por meio de Jesus Cristo (Colossenses 1:20).
Quando Jesus declarou (Lucas 15:7) que “haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”, ele implicou que a aflição no céu por uma única alma perdida seria maior que a alegria por noventa e nove que fossem salvas, e que mesmo os anjos não podem estar felizes enquanto um pecador se afasta do amor que está esperando para abençoá-lo.