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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sobre a cena de crucificação na Parada Gay de São Paulo: uma resposta aos meus leitores


Recebi cerca de vinte e-mails com comentários irritados sobre a imagem que circula nas redes sociais sobre a pessoa “auto-crucificada” da parada gay de São Paulo, ocorrida ontem. Para todos os que me escreveram, um aviso: vocês provavelmente não ficarão muito felizes com o que tenho a dizer!

Em primeiro lugar, sou uma pessoa de fé. Mas minha fé, como bem sabem, é moldada por uma mentalidade teologicamente liberal. Assim, apesar de ser sensível às minhas próprias convicções teológicas, sou também sensível à diversidade de compreensões que estão e devem estar presentes nas relações humanas. Para mim, é necessário, às vezes, me deslocar de minha posição de conforto, e tentar entender as ações de outras pessoas do lugar onde elas estão. Em minha fé, isso constitui um exercício espiritual.

Não consigo entender por que a imagem de alguém que se figura como Jesus crucificado, com um sinal acima de sua cabeça que indica sua intenção – um protesto contra a homofobia que mata muitas pessoas em todos os rincões do Brasil (e do mundo) –, causaria tanta revolta. Afinal de contas, em culturas majoritariamente católicas, como as brasileiras, a crucificação de Jesus foi sempre utilizada como metáfora para representar aquilo que, na compreensão cristã, o machucaria, o recrucificaria. Qualquer cristão deveria poder facilmente relacionar a lembrança de que pessoas são espancadas, humilhadas e mortas por conta de sua orientação sexual, expressão de gênero, ou qualquer outra razão, com as palavras de Jesus, quando disse que quando não cuidássemos de nossos irmãos, era dele que não estaríamos cuidando (Mateus 25:31-46).

Já imagino a razão pela qual a encenação tem sido tão amargamente criticada: a pessoa que interpretou Jesus e o evento no qual a cena ocorreu!... A pessoa errada, no lugar errado! Essa é a única razão racionalmente justificável. Se a encenação tivesse ocorrido num daqueles festejos carnavalescos, no qual Jesus fosse representado por um homem “macho” bêbado, a reação, provavelmente, teria sido menos revoltosa por parte, especialmente, daqueles que ultimamente se redescobriram como cristãos devotos preocupados com a moralidade sexual do mundo!

Não posso deixar de pensar no mesmo Jesus tendo seus pés lavados por uma mulher duvidosa; o mesmo Jesus comendo com pecadores; o mesmo Jesus sendo tocado por mulheres e defendendo adúlteras; o mesmo Jesus que escolheu como discípulo um cobrador de impostos para os dominadores romanos; o mesmo Jesus que viveu sua vida rabínica a serviço dos doentes espirituais. Eu não tenho nenhuma dúvida de que aquele Jesus dos Evangelhos – não importando o quão historicamente factuais ou não sejam os relatos a seu respeito – compreenderia a mensagem daquela encenação.

Honestamente, me sinto muito mais ofendido quando vejo Jesus ser retratado como um cavaleiro do castigo divino, um general vingativo ou como um rei que precise do dinheiro dos súditos para perdoar pecados!

Christe Eleison!

+Gibson
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