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sábado, 19 de julho de 2008

Tomando Uma Outra Estrada Rumo Ao Lar

Como um cristão progressista, ou um cristão liberal, ou um cristão não-ortodoxo (nenhuma dessas expressões funciona plenamente para mim), já me perguntaram incontáveis vezes se não me afastei tanto do perímetro cristão que o nome não se aplica mais a mim.

Acredito que minha jornada não esteja distante da base da fé de Jesus, de forma alguma, mas que se direcione a ela. Como um cristão liberal, creio que esteja em minha jornada de retorno ao lar, não em virtude de voltar, mas em virtude de seguir adiante. E é um lar que deveria ser reconhecido, penso eu, ao menos em parte, mesmo pelo cristão mais tradicional e ortodoxo que também está em busca dele. É algo que temos em comum. Deixem-me descrevê-lo. Neste lar que busco, Deus é uma presença palpável que dá profundidade e sentido à vida. Por causa dessa profundidade e sentido, as pessoas nesse lar cuidam-se mutuamente, perdoam-se mutuamente, aceitam-se mutuamente, abraçam-se mutuamente. Dessa familiaridade, dessa comunidade, ganho coragem para fazer coisas que de outra forma não poderia fazer. Com essa coragem, juntamente com outros, sou chamado a buscar justiça, trabalhar pela paz, e proteger aqueles que estejam mais vulneráveis. E em meio a essa busca, e em meio a esse trabalho, descubro uma fé que não é piedade religiosa, mas uma segurança profunda e firme de que todas as coisas estarão bem, uma calma lá no fundo, uma esperança além de meu merecimento. E uma coisa mais. Nesse lar, há espaço para todos. Todos.

Como disse, é uma visão de lar que compartilho com a maioria dos cristãos... com, na verdade, a maioria das pessoas na Terra. Como a maioria das pessoas da Terra, anelo por isso. Esses são desejos humanos profundos, básicos e fundamentais. A busca pelo lar é minha jornada de vida. Vocês reconhecem isso? Mas há um problema. Creio que não possa chegar lá pela estrada que meus avós tomaram. Ou pela estrada que muitos outros, cristãos mais ortodoxos, tomaram. Não posso nem mesmo chegar em casa tomando a mesma estrada que tomei quando era mais jovem.

Primeiro e mais importante, não posso chegar ao lar pela estrada que sugere que Jesus seja o único caminho ou que o Cristianismo seja a única religião verdadeira. Para mim, pelo menos, essa estrada está interditada, fechada para sempre. Mesmo se eu quisesse - e não quero - não poderia fazer meu coração, minha mente, minha alma, aceitar que Deus pudesse ser tão exclusivo e tão arbitrariamente egoísta a ponto de confinar a revelação, ou salvação, a uma tribo religiosa. Deus, para mim, é maior que isso, e menos convenientemente em meu controle do que se concluiria ao dizer que a religião na qual nasci seja a única religião verdadeira. Eu quero chegar em casa, como todo mundo. Quero chegar em casa, à essência do que Jesus ensinou. Mas o caminho do exclusivismo cristão está interditado. Preciso chegar em casa por meio de outro caminho.

Segundo, não posso chegar em casa pelo caminho que exige que eu subordine as revelações da ciência às revelações da religião. Se as placas da estrada dizem "Proibido evolucionistas nesta estrada", não posso tomar aquele caminho. Se, na velha estrada, idéias mais antigas a respeito de gênero e sexualidade não puderem incorporar fatos recentemente descobertos da biologia e psicologia e das ciências sociais, esse caminho estará interditado para mim. Se, nessa estrada, a voz da razão não puder estar em diálogo com os sussurros do coração ou os murmúrios da fé, estarei perdido. Como todas as outras pessoas, desejo estar em casa, no lar que descrevi anteriormente. Mas o caminho da anti-ciência, anti-intelectual, não me leva a lugar nenhum. Preciso chegar em casa por outra estrada.

Não posso chegar em casa pela estrada onde o significado da cruz é o de que Deus exige um sacrifício de sangue e que uma pessoa pague o preço pelos pecados de outra. Sei que o "sacrifício propiciatório", como essa doutrina é chamada por alguns, é uma estrada pela qual muitos caminham, e encontram Deus, e se sentem salvos. Respeito isso. Foi um caminho pelo qual eu mesmo já trilhei em minha infância. Mas não posso tomar mais essa estrada. Aquele Deus parece-me ser agora abusivo e arbitrário, e mais um cobrador que amante da humanidade. Creio que a cruz ainda faça sentido como um símbolo de como o amor triunfa sobre a crueldade humana, e como um símbolo de incomensurável coragem. Desejo, profundamente, encontrar o lar onde aquele amor e coragem estejam presentes, e onde possa imitá-los. Mas não posso chegar lá por meio da velha estrada. Preciso chegar em casa por meio de outra estrada.

Não posso chegar em casa por meio da estrada que insinua que a salvação pessoal seja a meta mais importante da vida e que a moralidade pessoal seja o valor mais importante. Simplesmente não posso imaginar que toda a empreitada religiosa seja sobre se eu pessoalmente chegarei ao "céu" ou não, seja lá o que seja o tal "céu". As questões morais que me parecem urgentes, e a respeito das quais posso imaginar Deus preocupado, são as grandes questões da riqueza e pobreza, da guerra e paz, do poder e justiça, e a única salvação que faz qualquer sentido para mim é a salvação de toda a criação, não apenas a minha própria. Quero estar nesse lar onde a salvação é real, mas não posso chegar lá por meio do caminho que a vê como um teste ou um concurso ou um processo de eliminação. Preciso chegar em casa por meio de outra estrada.


Não posso chegar em casa por meio do literalismo bíblico ou do exclusivismo canônico. Em algum ponto da jornada, perfurei o solo da escritura com minha pá, e descobri que há muito mais lá em baixo do que pode ser visto na superfície. Em algum ponto de minha jornada, a escritura se abriu para mim como a casca de um ovo, e apesar de ter ficado muito mais bagunçada, mais difícil de segurar, percebi o quão rica e nutritiva ela era quando nela buscava não verdade inquestionável mas verdade vivificante. E mais, descobri que a "casca" ao redor da escritura, que definiu que escritos estariam na Bíblia e quais seriam rejeitados, não era tão firme quanto pensava que fosse. Encontrei passagens na Bíblia onde o espírito da voz de Deus parecia estar bem longe, deixando as palavras sem nenhum sentido... e descobri passagens além da Bíblia que pareciam vibrar com aquele espírito. Sei que a Escritura é um lar para mim. Amo muitos de seus ambientes, suas passagens ocultas, a forma como evoca contos e lembranças familiares. Quero ir lá. Mas não posso chegar lá por meio do literalismo. Preciso chegar em casa por meio de outra estrada.

Eu sei que há aqueles que dirão, mesmo que seja com gentileza e amor: “Olha, se você não puder chegar em casa por meio da velha estrada, você jamais conseguirá chegar em casa”. Mas Jesus disse, por outro lado: “Busque e acharás. Bata, e a porta será aberta para você. Peça e será dado a você”. Creio que haja uma outra estrada, um outro caminho, que leva para casa. Não posso dizer que cada passo do caminho seja claro. A vida não é assim tão simples. Mas eu estou buscando, e confio que encontrarei. Estou batendo, e creio que a porta será aberta para mim. Estou pedindo, e tenho fé que me será dado.


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