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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fé e Ciência - realmente diferentes?

Numa discussão amigável com colegas na noite passada, mais uma vez deparei-me com a recorrente questão das distinções entre “religião” e “ciência”. Para os dois colegas com quem conversava – pessoas muito instruídas e de vasta cultura, devo enfatizar –, a distinção mais marcante entre as duas (religião e ciência) é que enquanto a religião opera por meio da fé, a ciência o faz por meio da razão; sendo, então, a diferença de métodos sua principal distinção. Simples assim! Nem um pouco diferente do que tenho ouvido da maioria das pessoas durante a maior parte de minha vida; em minha visão, uma explicação deveras simplista, equivocada, e discriminatória.

Aqueles meus dois amigos, um químico e uma bióloga, não se dão conta do quão falsa é sua ideia. Pensemos um pouco: a teologia cristã tradicional – que era o objeto de nossa discussão –, não opera apenas por meio de fé (com “fé” aqui tendo um sentido um tanto distinto do que habitualmente lhe atribuo, sendo, para eles, apenas um sinônimo de “assensus” → o que eles chamaram de “fé”, chamo de “teologia”), já que depende plenamente de argumentação, dedução e razão lógicas; um exemplo disso pode ser encontrado nas obras dos teólogos medievais, que eram obras-primas de análise lógica e argumentação racional.

Em nossa discussão ontem, nos centramos apenas no Cristianismo – já que foi algo que minha amiga ouvira que serviu para iniciar a conversa –, mas as maiores tradições religiosas do mundo, especialmente as que chamo de tradições jordânicas (Judaísmo, Cristianismo, e Islã, em suas mais variadas formas), são tradições intelectuais que envolvem a transmissão dum conhecimento específico e a crítica racional do mesmo (=Teologia → desta vez com “T” maiúsculo!).

Para facilitar, deixem-me explicar isso doutra maneira: TRADIÇÃO aqui refere-se à transmissão dum conhecimento (seja ele prático ou teórico) duma geração à outra; nesse sentido, tanto a ciência quanto a religião são tradições. As duas – ciência e religião – são tradições intelectuais, já que o que transmitem é uma forma de conhecimento que requer uma crítica racional. Enquanto a ciência busca a descoberta de novos conhecimentos, a religião busca a compreensão e consequente fidelidade a (e, dependendo do caso, a proclamação de) uma mensagem ou revelação já recebida.

Voltando ao exemplo dos teólogos medievais, poder-se-ia dizer que sua argumentação, apesar de racional, baseava-se ou estava limitada por certos aspectos da “fé” (assensus) religiosa. Entretanto, se pensarmos bem, veremos que a argumentação dita “científica” não se diferencia tanto assim daquela usada pela Teologia (mais uma vez, com “T” maiúsculo!). A ciência, como a conhecemos, incorpora um grande número de “afirmações de fé” simplesmente para que continue a funcionar. Enquanto a ciência supostamente emerge da evidência empírica, que é uma das características que a definem, ela também lança mão de muitas suposições implícitas: por exemplo, muitos cientistas naturais abraçam a “fé” de que estão estudando algo real, de que o mundo físico que estudam realmente existe, de que tem uma existência independente fora deles mesmos; outra suposição é a de que o mundo seja uniforme, que siga uma “lei” regular; uma outra, ainda, é a de que se pode confiar em nossos sentidos – ou seja, de que podemos confiar que estamos recebendo informações confiáveis, seja por meio de contato direto com o objeto estudado ou por meio de informações recolhidas por instrumentos, e que podemos confiar em nossa capacidade de interpretar essas informações corretamente. Todas essas são suposições que não podem ser comprovadas como verdades factuais; entretanto, sem elas, a ciência seria impossível. Elas possuem a mesma natureza da “fé” como compreendida por meus dois amigos: assensus.

O reconhecimento dessas suposições implícitas não diminui a importância ou sentido que atribuo à ciência, apenas demonstra que a base para nossas afirmações de conhecimento acerca de nossa realidade se encontra fora do domínio da razão. Isso, entretanto, não implica que seja irracional. Apenas demonstra que o exercício da razão humana tem seus limites, e que é moldado por suposições/crenças (“fé”, na linguagem de meus dois amigos) sobre as quais construímos nossas próprias representações do mundo.

+Gibson
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