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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 2


Caro Edgar,

Continuo aqui, depois de mais de um mês, minha tentativa de responder algumas daquelas várias questões levantadas por você. Em minha mensagem anterior, havia tratado sobre algumas informações históricas que julgo importantes para sua compreensão do Unitarismo, enquanto tradição cristã. Aqui, continuarei a tratar algumas das questões subsequentemente levantadas por você.

A maneira mais fácil de descrever nossa tradição é, simples e imperfeitamente, afirmar que há uma grande diversidade entre nós. Isso, basicamente, significa que os unitaristas, individualmente, abraçam uma ampla gama de perspectivas teológicas e estão ligados a diferentes tipos de igrejas.

Eclesiasticamente, também somos muito diversos. Há igrejas unitaristas de governo episcopal, isto é, igrejas com bispos (como nas igrejas unitaristas da Transilvânia e Hungria); há igrejas unitaristas congregacionais (como a maioria das igrejas unitaristas do mundo anglófono, e no Brasil); e há igrejas unitaristas presbiterianas (como algumas nas Ilhas Britânicas). Contudo, é sempre bom lembrar-se que nem todos os unitaristas são membros duma igreja especificamente unitarista. E há muitos auto-declarados unitaristas, especificamente no mundo anglófono (especialmente nos Estados Unidos), que são membros de outras igrejas cristãs – especialmente a Igreja Unida de Cristo, a Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), outras igrejas congregacionais ou a Igreja Episcopal – ou, simultaneamente, membros duma igreja unitarista e de alguma outra igreja cristã (essa é minha experiência pessoal, à propósito), por razões muito específicas à realidade local.

Apesar de nossa diversidade, entretanto, acredito poder apontar convicções que são comuns à maioria dos unitaristas, ao menos da tradição anglófona – o que é o meu caso. Lembre-se, contudo, que entre nós não há a obrigação de se aderir a definições teológicas pormenorizadas, então, os indivíduos são sempre livres para compreenderem a fé de sua maneira. Assim, tradicionalmente, vemos nossa união como sendo mantida por um espírito de simpatia e cooperação, e não pela imposição de fórmulas, de declarações de fé, de credos – nós, entretanto, não rejeitamos essas declarações ou credos necessariamente, rejeitamos apenas sua imposição aos indivíduos como requisito para que sejam parte da mesma comunidade de fé. Essa é a tradição de liberdade de consciência, tão apreciada em nossa tradição.

A tradição unitarista, tradicionalmente, identifica como cristão toda pessoa que se [auto]identifique como um seguidor de Jesus Cristo. Assim, não acreditamos ou ensinamos que alguém tenha de ser um unitarista para ser um cristão “verdadeiro”. Assim como não excluímos ou julgamos pessoas de outras tradições religiosas não cristãs por não serem cristãs ou não serem unitaristas. Não equacionamos o Divino com uma compreensão particular de Deus. Foi dessa compreensão, compartilhada por cristãos unitaristas e universalistas – a seu próprio modo –, aliás, que adveio o espírito de respeito ou “abertura” para com outras tradições de fé que marca a tradição “unitário-universalista” (descendente duma mescla daquelas duas, especialmente do movimento da “Religião Livre” e, posteriormente, do movimento humanista dos unitaristas). Logo, você se equivoca quando afirma que essa atitude seja uma característica originalmente “unitário-universalista” enquanto movimento não cristão, como se diferentes tradições cristãs devessem corresponder a um estereótipo de “fanatismo” ou “fundamentalismo” nascidos de sua própria experiência com o(s) Cristianismo(s) brasileiro(s).

Como cristãos, damos grande ênfase à Bíblia em nossa tradição, mas a maneira como a compreendemos pode soar muito diferente da forma como outras tradições cristãs brasileiras a veem. Nós unitaristas não acreditamos na infalibilidade da Bíblia. Entendemos a Bíblia como um testemunho da relação de certos grupos humanos (a antiga Israel e a “Igreja primitiva”) com Deus; ou seja, a Bíblia é um conjunto de escritos humanos que passou por um processo de canonização até tornar-se Escritura Sagrada. Ou seja, os escritos do apóstolo Paulo, por exemplo, não eram Escritura, não eram textos canônicos, quando ele os escreveu; essa canonização, transformação do texto em Escritura, ocorreu ao longo do tempo e depois de debates e disputas teológicas na Igreja cristã. Nós unitaristas, tradicionalmente, abraçamos essa compreensão histórica em nossa apreciação da Bíblia, que, entretanto, não deixa de ser Escritura sagrada, apesar de sua humanidade!

Para compreender nossa relação de dependência teológica para com a Bíblia, você precisa compreender que, como escrevi na primeira parte desta resposta, as tradições cristãs unitarista e universalista emergiram atreladas ao princípio de “sola scriptura”; ou seja, as compreensões teológicas cristãs, na visão de nossos fundadores, deveriam encontrar sua raison d'être nas Escrituras (Bíblia). O que diferenciava especialmente os primeiros unitaristas de outros protestantes era sua valorização do conhecimento humano e da consciência individual para a leitura das Escrituras – o que, necessariamente, implicaria uma maior diversidade de perspectivas teológicas. Mas o que importa, aqui, é saber que todos os argumentos levantados para as perspectivas teológicas defendidas por unitaristas, e universalistas, advinham de sua leitura professa das Escrituras – obviamente, imersa em certas compreensões filosóficas que marcaram seu próprio tempo, desde o século XVI até hoje.

Logo, apesar de haver princípios comuns aos autores unitaristas ao longo desses séculos, seus argumentos e compreensões mudavam/mudam a depender dos contextos culturais nos quais viviam/vivem. Fausto Sozzini, Joseph Priestley, Thomas Belsham, William Ellery Channing, James Freeman Clarke, Charles Gordon Ames, James Luther Adams, e tantos outros autores de nossa tradição, defendiam visões não plenamente idênticas, mas entrelaçadas na fé cristã que partilhavam. Assim, por exemplo, um cristão liberal unitarista como eu pode não se sentir plenamente confortável com as compreensões esposadas no Catecismo Racoviano (tão influenciado pelas ideias teológicas de Sozzini), ou mesmo abraçar as cristologias de Priestley, Channing ou Clarke, mas reconhecerá que essa diversidade é uma parte essencial de nossa tradição. Apesar da partilha de muitas ideias, os unitaristas poloneses e transilvanos, por exemplo, diferiam em muito de seus correligionários ingleses, que poderiam ser vistos como mais “liberais”. E os unitaristas ingleses, por sua vez, diferiam dos unitaristas americanos em termos teológicos. E, nos Estados Unidos, os unitaristas da Nova Inglaterra diferiam dos unitaristas do Oeste. Todos, entretanto, se viam como coparticipantes da mesma tradição!

À propósito, a diversidade é uma marca necessária das tradições cristãs liberais, sejam elas a unitarista, a universalista, a quaker, a batista geral, a presbiteriana não-subscrevente ou a remonstrante, por exemplo. Como encontrar concordância plena em termos de teologia dogmática é complicado em nosso meio, posso apontar alguns pontos comuns entre nós – e entre nós e outros cristãos (como aqueles grupos citados acima):

1) Para nossas tradições, a união comunitária na Igreja não exige a uniformidade de crenças. Há uma grande valorização do indivíduo, mas o indivíduo transcende seu isolamento por meio do mover do Espírito Santo na comunidade. As posições minoritárias na igreja, em nossas tradições, devem ser protegidas em nome dessa ação do Espírito Santo (que, obviamente, compreendemos de maneiras bem diversas em nossas diferentes tradições). A manutenção da liberdade de consciência individual – talvez a principal bandeira de nossas tradições – era e é vista como uma aliança entre a igreja e Deus, e entre os membros da igreja. Dessa ideia duma aliança particular entre os membros duma igreja, e entre esses e Deus, e o alto grau de autonomia local que dela deriva, vem a essência do que é chamado de “congregacionalismo” – o tipo de eclesiologia mais comum entre nós.

É bom esclarecer, ademais, que a própria democracia política moderna emergiu dessas ideias congregacionalistas, e outras semelhantes. O teólogo unitarista James Luther Adams, por exemplo, chamava esse princípio de “coarquia”, que ele contrapunha à “hierarquia”. Os defensores da autonomia da igreja local consideravam que sua visão de “igreja livre” deveria tornar-se um modelo para um estado democrático. Seus conceitos políticos derivavam, por analogia, de seus conceitos eclesiásticos. O que constituíra, originalmente, elementos duma “eclesiologia” (isto é, duma doutrina sobre a natureza e organização da igreja), era usado agora como ingredientes duma teoria política: o consentimento dos governados, a exigência do sufrágio universal, um executivo sujeito à lei, o princípio da oposição leal. O conceito básico de sociedade democrática, assim, descende do conceito de “igreja livre” defendida pelos nossos ancestrais unitaristas, e de outras tradições cristãs liberais.

2) Uma crença na e afirmação da dignidade humana, e uma confiança na capacidade humana. Isso como uma resposta às noções de natureza humana depravada ou caída características de certos grupos protestantes. Na verdade, essa pode ser apontada como a principal diferença entre os unitaristas e outros cristãos. Apesar de outros cristãos (incluindo os universalistas) terem sempre enfatizado nossas noções mais antigas sobre Deus ou Cristo como sendo nosso principal distintivo, nós unitaristas costumamos apontar nossa visão do ser humano. O Unitarismo rejeita a doutrina do pecado original – e isso, obviamente, tem um enorme impacto sobre como nossa tradição compreende o ser humano. O que isso significa hoje, para nós, é que vemos o ser humano como capaz de fazer tanto o bem quanto o mal, e daí a importância que damos à educação, tanto em nosso meio quanto na sociedade como um todo.

3) Uma valorização e paixão pela racionalidade. A história de nossa tradição é marcada pelo esforço contrário ao tradicionalismo rígido e arbitrário, e contra aquilo que nossos antepassados chamavam de “obscurantismo”. Um encorajamento, apropriação e ênfase de valores da cultura letrada e da ciência, como formas de compreender nossa fé e enriquecê-la em nossas vidas sociais. Assim, a leitura das Escrituras na tradição unitarista foi moldada por essa herança de diálogo entre a fé e a “alta cultura” produzida pelos meios intelectuais, especialmente nos países de língua inglesa.

Esses são apenas alguns dos princípios unitaristas, compartilhados com outros grupos cristãos liberais, que eu poderia apontar. Ainda devo-lhe uma resposta sobre alguns conceitos sobre Deus e Cristo. Mas essa fica para uma próxima mensagem.

Grande abraço e bençãos!

+Gibson
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