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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Fé ou preconceito?: uma resposta a Ana


Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar o que é justo, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.
(Miqueias 6:8)

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo.
(Tiago 1:27)

[…] Tratai com benevolência os vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro de lado, o viajante e os vossos servos, porque Deus não estima arrogante e pretensioso algum.
(Alcorão 4:36)

Cara Ana,

É importante que você perceba que nunca escrevi que não há “verdade”. Muito pelo contrário. Se você ler cuidadosamente o que tenho publicado aqui mesmo, neste blogue, perceberá que apenas enfatizo uma diferença epistemológica entre “verdade” e “factualidade”. Nem toda “verdade” é factualmente/objetivamente verificável: assim, por exemplo, o amor é uma “verdade”, apesar de não ser uma “factualidade” (porque não pode ser mensurado em si). Esse ponto é importantíssimo quando discuto temas concernentes à eticidade. Tendo dito isso, deixe-me responder às suas provocações.

Não. Não acredito que todas as religiões sejam igualmente “verdadeiras” (lembre-se da distinção que faço entre “verdade” e “factualidade”). Há muitas semelhanças entre diferentes tradições de fé, mas há, também, incontáveis diferenças – que podem ser, dependendo das tradições teológicas em questão, irreconciliáveis. Assim, para mim, há certos conceitos/doutrinas e práticas religiosos que não posso aceitar como “verdadeiros” ou “certos”, pois violam princípios teológicos que moldam minha compreensão do sagrado e/ou da “realidade” factual. [Todos esses termos podem parecer apenas um “emaranhado de palavras” para que eu pareça “mais inteligente do que realmente” sou – suas palavras –, mas eu as utilizo para evitar a armadilha da falsa objetivação do que não pode ser mensurado. E o público ao qual destino estas páginas é capaz de compreender os usos que faço.]

Baseada apenas numa lista de links e em uma única postagem aqui, você escreve que devo ser “um muçulmano disfarçado de cristão”. Essa é uma acusação que, no mínimo, segue em direção oposta ao que geralmente sou acusado. A maioria de meus denunciadores me acusam de ser um “ateu” ou “anticristo” disfarçado de cristão! [É bem verdade que já fui acusado de ser um “católico disfarçado de protestante”; “judeu disfarçado de cristão”; “comunista disfarçado de liberal”; etc, etc, etc. Mas, com sua acusação, atinjo um nível recorde de “disfarces”!]

Para esclarecer sua dúvida – ou seria “para desmentir sua certeza”?! –, sou um cristão liberal, com background judaico. Com tal perfil religioso, tenho muito em comum com alguns muçulmanos – com nossa preocupação em viver nossa fé, e não apenas proclamá-la com nossas bocas. Tenho muitos amigos muçulmanos. Já vivi num país de maioria muçulmana. E, em decorrência de minha formação cultural/acadêmica e minha experiência de vida, posso dizer que conheço o Islã razoavelmente bem. Por isso, sei distinguir o que é abraçado pela maioria do que é compreensão minoritária. Esse é um tipo de conhecimento, aliás, disponível a toda pessoa de boa vontade – só é necessário dar um passo para fora da bolha cultural na qual, muitas vezes, as pessoas se escondem e se separam do resto da humanidade. Posso ser fiel à minha própria fé religiosa e à minha própria visão de mundo sem ser desonesto quanto à fé e compreensão alheias – sem erroneamente atribuir-lhes certas compreensões, simplesmente para engrandecer minhas próprias.

Se há terroristas que se apresentam como muçulmanos – e que você, equivocadamente, vê como “representantes autorizados” do Islã –, também há terroristas, assassinos, ladrões, corruptos e corruptores que se apresenta(ra)m como cristãos ou judeus. E, nem por isso, você me escreve dizendo que todos os cristãos ou judeus são terroristas, assassinos, ladrões, corruptos, corruptores etc! Isso não lhe diz nada sobre sua própria visão de mundo? [...ou, ao menos, a visão de mundo que você exibiu em sua provocação?!…] A julgar pela forma como a maioria dos muçulmanos que conheci ou conheço se comportam e vivem suas vidas, tenho certeza que é sua visão de mundo que está equivocada.

Paz!
+Gibson
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