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quinta-feira, 1 de abril de 2010

Batistas - uma conversa com Nilo

Caro Nilo,

Essa nossa conversa se iniciou na seguinte postagem http://cristianismoprogressista.blogspot.com/2009/05/universalismo-cristao-uma-breve.html
Por questões de espaço, e mesmo de relevância, decidi responder seu questionamento aqui, em separado.

Devo, antes de tudo, enfatizar que a visão que tenho dos batistas brasileiros (dos vários grupos que existem) é aquela de alguém que vê a partir de uma perspectiva externa, já que não tenho contato formal com comunidades batistas brasileiras. Tenho uma forte ligação (institucional mesmo) com os batistas gerais britânicos (que como afirmei antes, são unitaristas), e com o movimento progressista batista nos Estados Unidos, devido a minha ligação com a Alliance of Baptists.

O que diferencia os batistas gerais unitaristas dos batistas "gerais" brasileiros? Esta não é tão fácil assim de responder. Ou talvez seja! A diferença básica está na "lealdade" (por falta de uma expressão melhor) à tradição batista, falta essa muito presente na maioria dos assim chamados batistas hoje em dia.

Em um livro que considero interessantíssimo, The Baptist Identity, escrito por Walter Shurden, publicado em 1993 e ainda não traduzido ao português, o autor discute alguns dos princípios históricos batistas e a situação atual do movimento batista americano com relação a esses princípios. Muitas das coisas discutidas ali são válidas para o movimento batista aqui no Brasil.

Em seu livro, Shurden - diretor executivo do Centro Para Estudos Batistas da Universidade de Mercer, EUA - discute o que ele chama de quatro frágeis liberdades, que representam a base do movimento batista: 1) Liberdade Bíblica - que significa ter livre acesso às Escrituras, estar livre de restrições dogmáticas para a sua compreensão, e ter acesso à liberdade de interpretação individual das Escrituras; 2) Liberdade Espiritual - que significa não sofrer imposições doutrinárias, interferências clericais, ou intervenção do governo civil em nossa relação com Deus; 3) Liberdade Eclesiástica - ou seja, liberdade das igrejas individuais (congregações) com relação a quaisquer autoridades denominacionais; 4) Liberdade Religiosa - ou seja, a absoluta separação entre igreja e Estado.

Essas liberdades citadas por Shurden são um resumo do que significa ser batista, e se você atentar bem para esses "princípios" (percebe a linguagem? não doutrinas, mas "princípios", como nós unitaristas falamos!), verá que são os mesmos princípios defendidos pelos Batistas Gerais da Grã-Bretanha - da mesma forma como são os mesmos princípios defendidos pelos Unitaristas, pelos Universalistas, pelos Presbiterianos Não-Subscritos da Irlanda do Norte, e por muitos outros grupos protestantes pelo mundo afora. O interessante é que esses batistas que se mantêm fiéis à sua antiga tradição de liberdade é que são acusados de heresia, enquanto aqueles que, por muitas razões que não poderia discutir agora, abraçaram uma forma dogmática de definir sua fé que entra em conflito com as mais nobres tradições batistas são vistos como os "verdadeiros" batistas, os ortodoxos! É fascinante ver como os valores foram mudados e as perspectivas completamente alteradas. Isso obviamente não ocorreu apenas entre os batistas, já que ocorre entre outros grupos, mais marcadamente no meu próprio berço anglicano!

Agora faça uma comparação entre esses princípios e o que se ensina nas igrejas batistas brasileiras; faça uma real comparação. Será que os batistas brasileiros são ensinados a interpretar as escrituras de maneira individual, mesmo que essa interpretação entre em conflito com a mente da comunidade da qual são parte? São os batistas brasileiros realmente livres de imposições doutrinárias e clericais para se relacionarem com Deus, ou seja, podem entrar em conflito com seus ministros e igrejas sem serem punidos por isso? O que acontece com uma congregação que seja parte de uma associação ou denominação batista qualquer e tenha uma visão que entre em conflito com aquela defendida pela maioria? Os batistas brasileiros têm defendido suficientemente a distinção entre igreja e estado no Brasil, ou têm se aproveitado para chegar ao poder fazendo uso de instrumentos religiosos?... Não posso responder essas perguntas por você, mas tenho certeza que verá a diferença entre o que se ensina na maioria das igrejas batistas no Brasil e o que se ensina em igrejas batistas gerais, já que as últimas se mantêm fiéis a esses PRINCÍPIOS a qualquer custo. Também é importante que eu diga que esses princípios (até certo ponto) são reconhecidos e abraçados por grupos batistas no Brasil (estou agora pensando na Convenção Batista Brasileira).

Espero que possamos conversar um pouco mais sobre isso, e convido outros batistas a entrarem na discussão.

Paz e Feliz Páscoa!

Rev. Gibson da Costa

quinta-feira, 4 de março de 2010

Uma resposta ao comentário de Simone de Oliveira

Querida Simone [http://www.blogger.com/profile/01161810013307003898]


Como lhe propus anteriormente, resolvi escrever aqui a respeito do tema que você tocou em seu comentário na seguinte postagem http://cristianismoprogressista.blogspot.com/2007/10/cristianismo-progressista.html


Seria impossível falar a respeito do tema “salvação”, sem citar o fato de nós dois termos visões bem distintas a respeito deste tema, assim como de outros, como, por exemplo, a missão do próprio Jesus. Na realidade, talvez possa dizer que representamos duas formas bem diferentes de entender a tradição cristã.


Todos nós, e isso inclui você, utilizamos uma filosofia para construir nossas concepções teológicas (ou se preferir, religiosas). A teologia cristã toma muitas diferentes filosofias como molde para construir uma interpretação da vida e obra de Jesus. Você e eu interpretamos as Escrituras, por exemplo, com base num conjunto de concepções filosófico-teológicas que já existiam antes da leitura que fazemos e que usamos para servir de guia a nossas conclusões. Todos nós fazemos isso, independentemente de termos consciência disso ou não.


Sei o quanto isso pode ser difícil para você compreender, já que em sua comunidade religiosa (a Assembleia de Deus) tradicionalmente condenam a Filosofia e utilizam o termo de forma pejorativa. Então, dizer-lhe que mesmo você faz uso de uma filosofia para interpretar a mensagem cristã, deve deixá-la na defensiva, se você não compreende o meu uso da palavra “filosofia”.


Como membro da Assembleia de Deus, você lê a Bíblia a partir de uma perspectiva que a julga como sendo literalmente “palavra de Deus”, ou seja, sua compreensão (=filosofia) de “inspiração divina” é aquela que chamamos de “inspiração plenária” - a noção de que toda a Bíblia tenha sido literalmente ditada por Deus, e que, por isso, esteja livre de erros (“inerrância bíblica”). Talvez, ninguém tenha lhe dito que essa ideia (=filosofia) a respeito da autoridade da Bíblia só tenha surgido, nesses termos, no século XVII, tendo sido proclamada pelo luterano Johann Quenstedt. Nem mesmo os mais dogmáticos dos primeiros reformadores haviam ido tão longe em sua noção de inspiração divina das Escrituras.


Essa noção de “inspiração plenária” faz com que seus seguidores afirmem que acreditam em tudo o que está escrito na Bíblia, apesar de não perceberem que acreditam, na verdade, em sua interpretação da Bíblia (ou melhor, na interpretação que outras pessoas fazem dos textos sagrados!), e não no que diz os textos, com suas infindáveis e, muitas vezes, irreconciliáveis representações. Esquecem que muitas das coisas nas quais acreditam (doutrinariamente falando) não podem ser validadas apenas pela Bíblia – ao menos, não nos termos que utilizam para definir essas crenças. Eu poderia citar muitos exemplos, mas se o fizesse, me alargaria muito aqui. Cito o exemplo do dogma da Trindade. Você, como membro da Assembleia de Deus, (supostamente) acredita na doutrina/dogma da Trindade – palavra que não é bíblica e só foi inventada por Tertuliano, tendo sido ele o primeiro a utilizar também outros termos teológicos como “persona” (pessoa) e “substantia” (substância) para falar de Deus. A maneira como o cristianismo tradicionalmente define e explica a “Trindade” - sendo esta uma forma de explicar as referências neotestamentárias à “divindade” de Cristo e à sua relação com o Deus dos hebreus – não pode ser encontrada na Bíblia; tendo surgido de explicações dadas por teólogos cristãos que fizeram empréstimos de noções presentes no pensamento grego.


Um outro grande exemplo de base não exclusivamente bíblica para uma doutrina, à qual você faz referência em seu comentário, é o da expiação redentora de Cristo. Explicarei para que os demais leitores possam entender: para você, a missão de Jesus era morrer pelos pecados daqueles que o aceitassem como “seu Salvador pessoal”; em sua teologia, a morte de Jesus na cruz foi uma transação por meio da qual ele pagou pelos pecados daqueles que acreditam nele, conseguindo, assim, para essas pessoas, a vida eterna; o objetivo fundamental da vida de Jesus, na teologia que você abraça, foi o de realizar o ato da expiação (ou sacrifício vicário, ou seja lá que outro termo prefira usar). Só que, muito provavelmente, não lhe explicaram que esta doutrina (da maneira como é apresentada) só foi ensinada a partir de Agostinho, no século V da nossa era. Não há absolutamente nada nas palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos que faça menção a esta doutrina. A ideia de que a única maneira possível de sermos salvos seria o sacrifício de Cristo por nós foi se desenvolvendo através dos primeiros séculos cristãos até culminar nos ensinos de Agostinho.


Apesar de haver uma linguagem sacrificial presente no Novo Testamento, essa linguagem é, para mim, claramente metafórica. Tornar uma figura metafórica em verdade factual, em se tratando da execução de Jesus, é extremamente ofensivo para minha noção de Deus. Especialmente por eu saber que o próprio Jesus não pensava que o propósito de sua vida fosse morrer pelos pecados de quem quer que seja. Ele morreu em decorrência do que ele mesmo estava dizendo e fazendo em seu ministério religioso e político.


A interpretação sacrificial dada à vida e morte de Jesus é ofensiva para mim, e para outros cristãos de minha tradição liberal, por diversas razões. Uma dessas razões é o fato de esta visão teológica limitar o perdão de Deus, afirmando que Deus só pode perdoar se um sacrifício pertinaz for feito – sacrifício este que deveria ser feito por alguém sem culpa (que noção de justiça maravilhosa por parte de Deus: um inocente pagar pelos pecados/crimes/etc de todos os culpados!), sendo que esse alguém era curiosamente o próprio Deus, já que, para os seguidores dessa teologia, Deus é uma Trindade e Jesus é um membro desta mesma Trindade, ou seja, Jesus é Deus! Em outras palavras, Deus não pode perdoar os pecados da humanidade, a não ser que uma parte de si mesmo morra para pagar pelos erros que não cometeu. Ou seja, Deus não é capaz de demonstrar o mesmo tipo de amor que nós humanos somos capazes de demonstrar a outros humanos, como por exemplo, aos nossos filhos; e mais do que apenas não ser capaz de perdoar livremente, ele exige que sangue inocente seja derramado. Alguém de bom senso consegue realmente respeitar um Deus como esse? Eu não consigo. Essa ideia de Deus soa como uma horripilante aberração aos meus ouvidos, e contradiz tudo aquilo que foi atribuído à voz de Jesus.


A interpretação que nós unitaristas fazemos do “sacrifício de Cristo”, assim como a interpretação que fazemos de outras coisas nas Escrituras (Bíblia), é contextual. A linguagem que se refere à execução de Cristo como um sacrifício por nossos pecados surge no contexto da teologia sacrificial judaica, que se centrava no templo de Jerusalém. Essa teologia sacrificial afirmava que alguns tipos de pecados podiam ser perdoados apenas por meio de sacrifícios no templo, criando, assim, um monopólio institucional de perdão dos pecados e, como consequência, um monopólio institucional de acesso a Deus (já que uma pessoa tinha de ter seus pecados perdoados para que pudesse entrar na presença de Deus). Sendo assim, afirmar que Jesus seja um sacrifício pelos pecados era negar que o templo tivesse o monopólio de perdão e acesso a Deus, e não deixava de ser uma negação de qualquer monopólio institucional referente a Deus. Usar esta metáfora sacrificial para falar de Jesus era subverter o sistema sacrificial centrado no templo de Jerusalém, era negar que Deus necessitasse de uma instituição para prover perdão à humanidade, ou que necessitasse de uma instituição para que a humanidade tivesse acesso a Si. E é irônico que o mesmo movimento que afirmara isso no princípio, séculos depois construiria ao redor de si mesmo um sistema sacrificial ainda mais monopólico que o antigo sistema sacrificial do templo de Jerusalém!


Jesus não morreu pelos nossos pecados. Jesus morreu porque ele desafiou um sistema político/religioso que ele condenava. Jesus morreu porque ele disse e fez coisas que não deixaram líderes políticos e líderes religiosos felizes. Foi por isso que ele morreu. A comunidade cristã que se desenvolveu ao redor das lembranças que tinham de Jesus, e que surgiu em sociedades bem diferentes daquela da qual ele mesmo era parte, teve de construir novas interpretações a respeito de quem era e o que havia dito e feito Jesus. Eu não condeno essas comunidades ou indivíduos por terem desenvolvido as compreensões que desenvolveram. Mas eu não tenho a mínima obrigação de abraçar as crenças que eles abraçaram. Tenho o direito de julgar suas crenças e suas construções ideológicas como inválidas para mim. A vantagem que tenho (se é que posso chamá-la de vantagem) é a de saber onde, quando, por quem e por que essas ideias surgiram; assim, sou livre para construir minha própria interpretação daqueles textos sagrados que são, eles mesmos, nada mais além de interpretações dadas às antigas narrativas de várias comunidades cristãs (no caso do Novo Testamento).


Vejo a morte de Jesus como o fim natural de seu ministério de amor a altruísmo, e como um símbolo do infinito amor de um Mestre por seus amigos e discípulos (podendo também simbolizar o amor de Deus pela humanidade). Jesus viveu não para que pudesse sacrificar sua vida por nós, mas para ensinar-nos que Deus ama a todos, da mesma maneira que pais amam a seus filhos. A salvação, para mim, não representa uma vida num suposto “céu” no tempo e espaço, mas sim, uma união com Deus que supera o tempo e que pode ser experimentado aqui e agora, nesta vida, neste momento. Não acredito em coisas como Satanás e demônios; vejo-os apenas como metáforas para aquilo que identificamos como mal. Além disso, não acredito que, em nossa natureza, sejamos seres caídos e corruptos (isso entraria em contradição com as noções que possuo a respeito de Deus, e que nascem de minha leitura [=interpretação] das Escrituras cristãs), e, assim, também não acredito que precisemos de um suposto “sacrifício” para que sejamos “resgatados” por Deus – essa crença ridícula diminuiria a capacidade de Deus ser sábio, amoroso, e torna-lo-ia um “ser” incapaz, vingativo, e selvagem. Eu rejeito aberta e francamente tais ideias.


Em se tratando de interpretação das Escrituras, creio que seja mais do que hora de os cristãos contemporâneos se darem conta de que os antigos teólogos da Igreja, e a própria igreja institucional – aquela que criou os credos e as declarações de fé, e que instituiu interpretações fixas dos textos sagrados -, não são donos do cristianismo. Nós, como seres humanos, e como membros dessa grande comunidade de fé, que chamamos de igreja, somos parte desse “diálogo em construção” que é a teologia cristã, e temos o direito de nos envolvermos, individualmente, nessa construção e/ou ressignificação.


É importante que eu enfatize minha noção de leitura aqui. Ler é interpretar. Interpretar é se envolver num texto, tomando-o como ponto de partida e recriando-o dentro de um contexto que nos seja próprio. Ninguém lê os textos bíblicos sem condicioná-los a um dado contexto – muito provavelmente, o seu próprio contexto. Quando eu leio as Escrituras, minha leitura [=interpretação] é guiada por minhas concepções de mundo, por minhas visões históricas, por meus princípios éticos, por minha teologia. Como sou um unitarista, pacifista, como tenho uma visão a respeito da dignidade humana, e como prestigio a riqueza de nossa diversidade (em todos os seus aspectos), além de possuir minha própria compreensão a respeito de Deus, as conclusões às quais chegarei, a partir de minha leitura das Escrituras, são bem diferentes das conclusões às quais você chegará. Eu posso desprezar muitas das crenças que você abraça, da mesma maneira como você faz com minhas crenças, mas isso não significa, em nenhum momento, que eu possa pensar que falo “em nome de Deus”. Quando falo, falo em nome de mim mesmo, ou, no máximo, em favor de outros cristãos que pensam como eu ou que sejam membros de minha comunidade de fé. Enfatizar isso é extremamente importante para mim, já que isso é um ponto que distingue-me como um cristão liberal e como unitarista.


Espero que minha posição tenha ficado um pouco mais clara a respeito deste tema.


Paz!


+Gibson


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Fé e Ortopraxia

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta.” (Tiago 2:17)

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição... (Tiago 1:27)

Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (Miqueias 6:8)



Tenho uma grande antipatia pela palavra “religião”. A razão é porque, para grande parte das pessoas, religião é sinônimo de “dogma”. Para essas pessoas, ter uma religião – especialmente quando se trata do cristianismo – é abraçar definições dogmáticas a respeito da humanidade, de Deus, de Jesus, da Bíblia, do certo e do errado, do destino do universo, etc.
Prefiro usar a palavra “fé” em vez de religião. Isso porque faço questão de distinguir fé de dogma. Diferentemente do dogma, a fé nunca é ameaçada pela dúvida e pelas perguntas difíceis que podemos fazer. Na verdade, a fé não busca explicações definitivas e imutáveis da realidade, ela leva a um constante processo de reavaliação e reconstrução de significados. O dogma, ao contrário, é sempre ameaçado pela dúvida e pelas perguntas difíceis e honestas, porque ele é rígido, é fossilizado, é petrificado, é ossificado, é congelado e quebra sob a luz do pensamento livre – e por essa mesma razão, merece ser ameaçado pela dúvida.

O dogma é uma verdade absoluta, que não pode e, na visão daqueles que a mantêm, não deve ser questionada. A fé, por outro lado, é um elo relacional bem mais amplo que nos faz enxergar nossa tradição religiosa (ou nossa tradição de fé, como eu prefiro dizer) – o cristianismo – não como uma lista de crenças às quais devemos subscrever, mas como um caminho que devemos percorrer. Não podemos esquecer que esse é justamente um dos primeiros nomes que recebeu o “cristianismo”: o Caminho (Atos 19:23). [Obviamente, utilizo "dogma" aqui com um sentido "leigo" apenas como provocação. Este não é o sentido teológico do termo.]

Quando critico o dogma, não estou necessariamente negando a importância de crenças ou declarações teológicas. Mesmo cristãos liberais como eu, reconhecem a importância da fé entendida como “assensus”, ou seja, como “crença”. E é justamente a minha crença religiosa, o meu entendimento teológico, o meu “assensus”, que me faz abominar o dogma – que me faz abominar a ideia, que está inerentemente entrelaçada ao dogmatismo religioso, de que o Deus celebrado pelos cristãos seja tão mesquinho, tão pequeno, tão intransigente, tão infantil, tão intolerante, que se sinta ameaçado pelos questionamentos de quem quer que seja, e que afaste de si aquelas pessoas que pensem diferentemente daqueles antigos que escreveram os credos da igreja, por exemplo. Obviamente, apenas pessoas que compreendem Deus como sendo um “ser pessoal” poderiam pensar assim – o que não é exatamente o meu caso.

A fidelidade, a confiança, a visão, e a crença, que constituem os quatro sentidos básicos da ideia de “fé” (na interpretação de Marcus Borg), devem nos mover à “prática correta” - que eu chamo de “ortopraxia” e que elevo acima da tradicional “ortodoxia”, a “crença correta”.

Se podemos, por meio do senso comum, ser levados a pensar que é a crença correta que nos leva à prática correta, a história cristã nos mostra claramente que esse não é o caso – pelo menos se entendermos “crença correta” como sendo a “ortodoxia” defendida pelas maiores comunidades cristãs.

O próprio relato dos Evangelhos a respeito das palavras e ações atribuídos a Jesus nos indicam o que deveria constituir a crença e práticas corretas – logo, a fé (ou se preferir, a religião) correta. Um exemplo encontra-se em Mateus 25:31-46. Lá, descrevendo uma imagem metafórica do “juízo final”, Jesus não cita nenhuma questão de “crença” certa ou errado como sendo a razão para o veredito recebido pelos povos da terra. Pelo contrário. É o tratamento dado aos famintos, aos sedentos, aos estrangeiros, aos desnudos, aos doentes e aos encarcerados que serve de base para o julgamento.

Não poderia ser diferente. Jesus e seus primeiros seguidores eram judeus. E na tradição hebraica, crença e ações são inseparáveis. Na verdade, o “assensus” (assentimento, aceitação, crença) intelectual, como exigida na tradição cristã, era desconhecida como uma exigência entre os hebreus naquela época. A fé hebraica era manifesta nas ações do dia a dia, e não em declarações dogmáticas a respeito de pormenores teológicos.

Pode-se acompanhar esse espírito de “ortopraxia” ao longo de toda a Bíblia, onde o ouvinte ou leitor é convidado a pôr sua fé em prática, e é repetidamente lembrado que a fé, quando não acompanhada de ações, é morta (para desespero daqueles adeptos do “sola fides” que enxergam o “fides” apenas como sinônimo de “assensus”).

Como um seguidor de Jesus, como um cristão, sou desafiado diariamente a abraçar a prática correta – a ortopraxia. Com isso não quero dizer que eu conheço o (único) caminho correto e outras pessoas não. A ortopraxia – a prática correta – à qual me refiro consiste no espírito que deve guiar meu pensamento e minhas ações, espírito esse que encontro nos ensinamentos e exemplos atribuídos a Jesus, espírito presente na tradição cristã, e também presente em outras tradições de fé e nas palavras e ações de outras figuras religiosas.

Foi esse espírito da prática correta que já me fez alterar o percurso muitas vezes. Já me fez enxergar o quanto estava errado. Já me fez ver que muitas vezes contribuí com um sistema de dominação injusta; que muitas vezes já deixei de valorizar o que realmente importava, supervalorizando o que era secundário; que muitas vezes já doei tempo e talentos – mesmo sem ter plena compreensão disso – a uma causa que não salvava o mundo, mas apenas maximizava a violência ideológica e suas consequências.

Infelizmente, continuo e certamente continuarei a cometer erros de julgamento e a errar em minhas ações. Mas espero que minha “fé” (=assensus, fiducia, fidelitas, visio) também continue a me mostrar o caminho, continue a me apontar os erros que cometo, e continue a ser minha motivação para mudanças.
Certamente não represento o que a maioria esperaria de um cristão. Não interpreto a Bíblia de forma literal; não acredito que Jesus tenha morrido para pagar pelos pecados de ninguém, nem que seja a segunda pessoa de um Deus trino – se isso for entendido de maneira factual. Na verdade, em minha visão, mesmo se Jesus sequer tivesse existido factualmente, isso não faria diferença. O que realmente importa é seu espírito, que está vivo naqueles relatos a seu respeito nos evangelhos, e o espírito que cerca a tradição cristã. Esse espírito me motiva a amar e querer transformar o mundo ao meu redor. É o espírito que motiva a fé que me faz percorrer o Caminho.


+Gibson da Costa


NOTA: Uso a palavra ortopraxia como um trocadilho com a palavra ortodoxia. O termo, como o usamos em teologia, é, na verdade, ortopráxis, que se refere à prática correta, da mesma forma como o termo ortodoxia se refere à crença correta. Meus paroquianos, amigos e alunos estão acostumados a esse meu aportuguesamento forçado do termo ortopráxis (que julgo soar um tanto pretenciosamente incompreensível para a maioria das pessoas).

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Mudança de Rota - Uma Confissão e Um Filme

Às vezes, gostaria de poder falar sobre minhas próprias experiências (aquelas mais pessoais), e de como elas transformaram-me na pessoa que sou hoje - e de como as experiências que agora tenho continuarão a me transformar futuramente. Acredito em mudanças, nada permanece para sempre, e isso inclui nossos pensamentos e, queira Deus!, nossas ações.

Tenho passado por certos desafios nos últimos anos que me têm ensinado, às vezes de maneira bem dolorosa, que eu não deveria trilhar mais um certo caminho, que eu deveria refazer minha rota. Tenho realmente tentado fazer o que posso para ajudar outras pessoas, especialmente aqueles jovens mais idealistas, a analisarem muito bem suas escolhas, e a não se dedicarem a causas que apresentam soluções muito fáceis; entretanto, nem sempre tenho sido tão bem sucedido quanto gostaria.

Reescrever uma rota de vida nem sempre é muito fácil, e nem sempre recebemos o apoio que necessitamos para tanto; mas minha própria experiência me tem mostrado que vale a pena ter a coragem de analisar nossas ideias, nossa visão do mundo, e então, fazer escolhas mais ponderadas.

Não sei o que ainda acontecerá como consequência de todas as escolhas que fiz no passado. Posso garantir que alguns dos resultados foram bem infelizes para mim, e não perderei meu tempo em tentar pôr a culpa em quem quer que seja. Sei, entretanto, que, de alguma forma, ainda posso criar meu futuro, e é com isso que me importo.

Um dia, falarei mais sobre isso. Só precisava compartilhar com vocês esses pensamentos.

Como sugestão, indico um filme (baseado no romance de Dan Willman, "Way of the Peaceful Warrior"): PODER ALÉM DA VIDA (EUA, 2006) - "Peaceful Warrior" - com Scott Mechlowicz, Nick Nolte e Amy Smart. Espero que o filme possa servir de inspiração a todos vocês!

Um grande abraço, e paz a todos!

+Gibson

sábado, 7 de novembro de 2009

Verdade Relativa?

Um desconhecido enviou-me uma mensagem que demonstrava uma certa preocupação com o que ele chamou de “relativização da verdade” - o fato de o cristianismo liberal não pregar uma “verdade absoluta”, válida para todos os tempos.


Por uma razão bem compreensível, o termo “relativo” soa muito negativo aos ouvidos de cristãos ditos “tradicionais” (devo dizer que esta forma de identificação soa extremamente simplista e ingênua, já que eu mesmo me vejo como um cristão tradicional – um cristão tradicional liberal, é verdade, mas tradicional assim mesmo! Seja como for, por falta de termo mais abrangente, utilizarei este mesmo.), tendo para alguns o mesmo sentido de “mentira”. Então quando falo em alguns ensinos ou tradições cristãs como sendo uma “verdade relativa” (ou mesmo uma “verdade metafórica”), alguns pensam que com isso queira dizer que são mentira pura e simples.


Uso “relativo” com o sentido de “relacionado”, ou seja, as declarações de crenças dos primeiros cristãos, contidos no Novo Testamento, nos credos, etc, não são um conjunto de verdades absolutas válidos para todos os tempos e lugares; são, antes de tudo, a maneira como aqueles primeiros cristãos deram voz às suas convicções a respeito das coisas que pareciam ser mais importantes para eles. São verdades relativas por estarem relacionadas ao seu tempo e circunstâncias. Algumas daquelas declarações, se entendidas como verdades absolutas e incontestáveis, não fazem o mínimo sentido para muitas pessoas ou sociedades hoje em dia, e seriam e são rejeitadas como algo primitivo. Entretanto, quando se olha para aquelas declarações como um produto humano, condicionado por seu tempo e pelas circunstâncias que cercavam seus autores, ao mesmo tempo em que se reconhece a “inspiração” divina lá, podemos compreender mais plenamente sua importância.


O desconforto que aquele correspondente desconhecido sente com a noção de “verdade relativa” ou “verdade metafórica” tem mais a ver com sua própria compreensão de “inspiração” – como demonstrado ao longo de sua mensagem. Para ele, as palavras da Bíblia são palavras inspiradas por Deus – em sua visão, Deus, de alguma forma, ditou as palavras aos autores dos textos bíblicos.


Para nós, cristãos liberais, entretanto, a inspiração se refere ao mover do Divino nas vidas dos autores dos textos bíblicos, e na resposta que essas pessoas e comunidades deram a esse mover divino. No primeiro século, e em todos os séculos subsequentes, a igreja deu sua resposta ao que sentia ser o mover de Deus entre eles; e hoje, da mesma maneira, nós cristãos liberais também sentimos que podemos dar nossa resposta àquilo que sentimos ser o movimento divino entre nós – como é o caso quando pensamos a respeito da posição das mulheres na igreja, na recepção de pessoas que antes eram rejeitadas por serem parte de um grupo estigmatizado, como gays e lésbicas, por exemplo.


Como indivíduo, faço escolhas quanto àquelas coisas que sinto serem verdades válidas para mim (à propósito, é isso que quero dizer quando digo que sou um cristão herege - “heresia”, em sua origem grega, quer dizer “escolha”; a partir do momento que faço escolhas teológicas, não aceitando imposições dogmáticas, torno-me um “herege”). Renuncio muitas das antigas crenças cristãs, por percebê-las como produto de uma época e circunstância específica – muitas delas estão na Bíblia, algumas outras estão nos credos e nas declarações de fé e confissões da igreja cristã. Para outras pessoas, ou grupos, essas declarações continuam válidas, e por isso mesmo, são vistas como verdades absolutas e inquestionáveis. Novamente, o que nos distingue é a compreensão distinta que damos a muitos termos, como “verdade”, “história”, “realidade”, “relativo”, “condicionado”, “temporário”, etc.


Nossa noção de verdade está sempre condicionada ao tempo e circunstâncias nas quais vivemos. A história humana, e aquilo que é parte dessa história, como a religião, por exemplo, é um produto humano, é uma fabricação humana. Há várias motivações para esse produto – no caso da religião, há aquilo que chamamos de “inspiração divina” (que pode significar uma quantidade quase infinita de diferentes coisas, dependendo de quem dê uma explicação) – mas nada jamais mudará o fato (nem mesmo as afirmações dogmáticas feitas por muitos devotos religiosos) de que nossas Escrituras, nossas tradições, nossas crenças, e até mesmo “nosso Deus” (isso é, a imagem que fazemos de Deus), não passam de construções humanas (construções que apontam para uma verdade maior, mas mesmo assim, construções!).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Morte e Ressurreição


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Um dos temas que mais aparecem nas mensagens que recebo de meus interlocutores virtuais é a questão da “vida pós-mortal”. Por inúmeras razões, esse é um tema central na teologia dessas pessoas. Na verdade, esse tema – a vida pós-mortal e o que acreditar e/ou fazer para ser salvo – é uma das bases da teologia cristã dita tradicional e ortodoxa.

Como a maioria já sabe, ideias tão abstratas e dogmáticas como noções de “vida pós-mortal”, “céu”, “inferno”, “ressurreição”, e coisas semelhantes, não são interpretadas por mim como verdades factuais ou mesmo como elementos essenciais à minha fé (se entendidas de forma literal). Sempre prefiro enxergar essas ideias como verdades metafóricas – imagens que representam de forma acessível uma verdade maior que não pode ser esgotada pela linguagem verbal.

Por essa razão, crer que a vida consciente do “espírito” humano continuará após a morte física é um supérfluo para minha fé pessoal. Na verdade, até mesmo crer que haja espacialmente um outro componente que constitua minha personalidade e que não pode ser espacialmente confirmado, e que geralmente chamam de “espírito” ou “alma” - o verdadeiro “eu”, é um supérfluo em minha teologia pessoal. Com “supérfluo”, refiro-me a algo completamente irrelevante, algo que, se retirado, não altera muita coisa e não faz falta.

Eu, obviamente, compreendo as razões que levam as pessoas, mesmo em nosso tempo, a se preocuparem com temas como esse. Também compreendo plenamente porque esse mesmo tema se torna tão essencial para a teologia dominante no meio cristão. Teologicamente falando, nossas noções a respeito da natureza de Deus, de Cristo, do homem e de seu destino, se entrelaçam e são interdependentes, tornando a crença numa vida após a morte física e as exigências para se assegurar a “salvação” (que variam de grupo para grupo) um ponto essencial.

Resta-me reconhecer que essas noções estão bem enraizadas na tradição cristã. Tome o texto em I Coríntios 15:19 como exemplo. Lá o autor, discutindo a respeito da ressurreição, afirma que “se nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens”.

Eu não poderia discordar do autor daquele texto da Primeira Carta aos Coríntios. Jesus simboliza, para nós cristãos, o caminho da vida eterna – é por meio dele, seguindo seus passos, que encontramos Deus; e se encontramos Deus, e Deus é a vida, logo, a esperança que nos é oferecida por Jesus é a de uma outra vida após a vida que agora vivemos (uma vida que é alcançada percorrendo-se o caminho da morte e da ressurreição, o caminho metaforicamente percorrido pelo próprio Jesus).

Morte e ressurreição são elementos essenciais na teologia cristã. Não se pode entender plenamente a mensagem cristã sem citar essas duas importantes metáforas tão repetidas em nossa tradição. O caminho para Deus, como ensinado e exemplificado por Jesus, é o caminho da “morte” e da “ressurreição”. A morte do eu interior – que não pode e não deve ser confundida com uma repressão ao “eu” e aos seus desejos legítimos – e o renascimento para uma nova forma de ser e para uma nova identidade centrada no Divino. Esse caminho de morte e de ressurreição não é apenas ensinado pelo cristianismo. Todas as grandes tradições espirituais da humanidade falam a respeito desse processo de morrer espiritualmente antes de morrer fisicamente, e de ressurgir para uma nova vida. A beleza dessa verdade metafórica é obscurecida pela (in)compreensão dogmática literalista, que interpreta esse processo de morrer e ressurgir como algo factual, como algo físico e espacial. Ou seja, o foco em uma morte e uma ressurreição que aconteceriam fisicamente no futuro subtrai de nossas vidas a experiência de morrer para nós mesmos e de ressurgir para uma nova maneira de ser, ver, e viver a vida aqui e agora.

Morte e ressurreição tornam-se, assim, uma metáfora para um processo de profunda transformação pessoal. E essa metáfora está profundamente enraizada na tradição teológica e litúrgica cristã. O sacramento ou ritual do batismo, por exemplo, personifica esse processo, quando simboliza a morte do antigo eu e o nascimento de uma nova identidade, usando elementos e movimentos físicos.

Se pensarmos nas divisões presentes no mundo greco-romano e judaico do primeiro século de nossa era – as divisões nacionais, raciais, econômicas, sexuais, etc – e observarmos, por exemplo, a mensagem do autor da Carta aos Gálatas, alargaremos nossa visão de morte e ressurreição:

“De fato, vocês todos são filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo, pois todos vocês, que foram batizados em Cristo, se revestiram de Cristo. Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo.” (Gálatas 3:26-28)

Se nos “revestirmos de Cristo”, e pudermos afirmar como faz o autor (2:20) que Cristo vive em nós, então estaremos derrubando as paredes que nos separam, as paredes de discriminação que destroem esperanças e constroem o medo entre nós. Somos “filhos de Deus” quando reconhecemos que absolutamente todos o são, quando alargamos as entradas de nossos corações, quando escancaramos as portas para receber a absolutamente todos. E assim, nos revestindo de Cristo, ou seja, fazendo aquilo que nossa tradição ensina que Jesus ensinou por meio de suas palavras e ações, demonstramos nossa fé nele, e demonstramos que entendemos a sua mensagem e desejamos segui-la.

Na época na qual aquele texto foi escrito, aquele mundo social estava profundamente dividido entre livres e escravos, homens e mulheres, este ou aquele grupo nacional. Até certo ponto, essas mesmas divisões permanecem, e muitas vezes até se alargam. Em se tratando de morrer e ressuscitar hoje, o que poderia a comunidade cristã (a igreja) fazer?

Pessoalmente, creio que além das propostas em Gálatas, poderíamos adicionar ainda mais, e por isso mesmo reescrevo em meu coração aquele trecho:

“De fato, todos somos filhos de Deus em nossa própria natureza, pois ao nascermos, nos revestimos da presença divina. Não há absolutamente nenhuma diferença entre cristãos e não cristãos, entre ricos e pobres, entre os humanos das mais diferentes cores e origens, entre instruídos e não instruídos, entre homem e mulher, entre heterossexuais e homossexuais ou qualquer outra expressão emociono-sexual humana, entre crentes e descrentes, pois todos somos membros de uma grande família e temos nossa existência no mesmo Deus.” (Minha reconstrução de Gálatas 3:26-28)

Como morrer e ressuscitar representam, metaforicamente falando, um processo, creio ser necessário morrer e ressuscitar muitas vezes. Sempre haverá novas paredes a serem derrubadas para que possamos receber a Deus entre nós – já que toda vez que recebemos alguém, estamos, metaforicamente, recebendo o próprio Deus.

Hoje reconheço que não apenas a maneira como cuido de outros seres humanos reflete um processo de morte e ressurreição. A maneira como cuido deste planeta também deve ser fruto de um alargamento de visão desse processo. Aproveitar o tempo que tenho neste mundo para aprender e apreciar mais deve ser um dos frutos disso. Desfrutar a beleza e profundidade da vida deve ser um dos frutos disso. Enriquecer minha vida com os sons, sabores, movimentos, imagens, aromas, etc, da vida deve ser um dos frutos disso. E ajudar outras pessoas a fazerem o mesmo também deve ser um fruto desse alargamento de visão do processo de morrer e ressuscitar. Esse é o caminho que nos leva a Deus – independentemente da concepção individual que tenhamos a respeito de Deus e da espiritualidade.

+Gibson

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Identidade Cristã - Quem é cristão, afinal?


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Há alguns dias atrás conversava com um missionário “evangélico” que veio a uma atividade que realizo mensalmente com jovens de minha comunidade. Ele se interessou em saber a razão de pessoas como eu, cristãos liberais, permanecerem ligados ao cristianismo em vez de simplesmente abandoná-lo (ele parecia ver-me, assim como aos membros de minha comunidade de fé, como um “herege” - no sentido geralmente atribuído à palavra, não tendo compreendido o uso metafórico que faço da mesma em alguns de meus discursos - , então vi-me obrigado a explicar-lhe a diferença entre meu uso da palavra “herege” e o uso que os ditos cristãos tradicionais faziam da mesma).

Sua pergunta não me surpreendeu nem um pouco, já que ela apenas refletia a perspectiva simplista dominante em nossa sociedade, na qual a visão do cristianismo (seja católico ou protestante) é monolítica, ou seja, ser cristão é simplesmente crer numa lista específica de afirmações e ser parte de uma determinada comunidade religiosa, e estar submetido às regras impostas por tal comunidade.

Sua voz reproduzia simplesmente o discurso que já estou acostumado a ouvir de outros cristãos que afirmam que não sou digno de identificar-me como cristão por não crer nesta ou naquela doutrina apregoada por este ou aquele credo, este ou aquele texto bíblico, esta ou aquela confissão, este ou aquele consenso, esta ou aquela compreensão particular do que seja o cristianismo. Suas perguntas reproduziam a esquizofrenia dogmática dos evangelicais fundamentalistas e conservadores que apregoam que sou um “falso profeta” ou um “anticristo” por ensinar o que chamam de falsas doutrinas, e que serei punido com o “inferno” por “separar” pessoas de Deus - como se qualquer pessoa tivesse o poder de “separar pessoas de Deus” (parecem não conhecer o texto de Romanos 8:38-39 – um belíssimo e poético texto, à propósito!).

Essas pessoas, ou esses grupos de pessoas, abraçam uma visão bem diferente da identidade cristã, ou seja, do que é ser cristão, daquela abraçada por minha corrente teológica.

Sua compreensão da identidade cristã poderia ser comparada com um estereótipo do que seja ser um brasileiro: um amante de samba, que come feijoada ou churrasco no almoço de domingo depois de ir à praia, que bebe água-ardente, dorme numa rede, e que mal pode esperar pelo carnaval; alguém que tenha um sobrenome português, e que tenha o idioma português como língua materna, e que se enquadre num perfil “étnico” padrão; alguém semi-alfabetizado ou com um nível de instrução pouco elevado; alguém adepto do catolicismo, do evangelicalismo pentecostal, do espiritismo kardecista ou de alguma tradição afro-brasileira; um adepto de alguma corrente política dita “esquerdista”, etc. Se abraçarmos essa visão da identidade brasileira, o que faremos com aqueles, também brasileiros, que têm sobrenomes alemães, italianos, japoneses ou árabes, por exemplo, e que não tenham o português como seu idioma materno? O que faremos com os brasileiros que não gostam de samba, que são vegetarianos ou simplesmente não comam feijoada? Com aqueles que não celebram o carnaval e que nunca viram o mar na vida? E sobre aqueles que não são católico-romanos, evangélicos ou espíritas? Com aqueles que possuam um pós-doutorado? O que faremos com aqueles brasileiros que preferem vinho a água-ardente? E com aqueles que não votaram em Lula da Silva nas últimas eleições presidenciais? Serão eles acusados de não serem brasileiros por simplesmente não se enquadrarem num perfil pré-determinado? Serão eles acusados de traição nacional, sendo banidos da pátria?... É muito semelhante às afirmações de que se pode ser cristão apenas de uma forma; que para ser digno da identidade cristã tenhamos que nos encaixar dentro de certos limites culturais ou ideológicos, doutrinários ou dogmáticos.

A identidade cristã, ou seja, ser cristão, não decorre de apenas ser membro de uma comunidade ou de apenas crer em uma lista de doutrinas. A identidade cristã é construída a partir do sentido que socialmente damos à fé, e da constante revisão das tradições; ao mesmo tempo em que também é construída a partir daqueles aspectos da tradição que continuam a ser significativos e relevantes para a igreja cristã e para o indivíduo.

Muitos apostam na continuidade como sendo a base para a estabilidade da igreja cristã num mundo que se remodela a cada dia. Essas pessoas, ingenuamente, pensam que a fé cristã tem sido a mesma desde sua origem até hoje, e que continuará a mesma até “os fins dos tempos” (seja lá o que isso signifique!). Essa é uma visão deveras romântica e utópica da realidade, e ignora a maneira como a história humana é construída – sim, porque a história (e o cristianismo e todas as outras tradições religiosas, são parte da história humana) é uma construção humana e não um fato inato e determinado.

O cristianismo, se visto como um sistema de crenças e práticas, foi sendo construído no decorrer de séculos de história, e, na verdade, ainda se encontra neste constante processo de construção e revisão, à medida que novas perguntas surgem, que deparamo-nos com novos problemas que nunca tiveram de ser enfrentados nos primeiros séculos da história cristã. E o que divide os cristãos, por exemplo, nós liberais daqueles mais conservadores, não é muito a lista de crenças que vemos como sendo essencial, mas, antes de tudo, é a maneira como vemos a história e sua origem. Essa visão da história dirige nosso entendimento da Divindade, de nossas relações com outros humanos e com a vida em si, e, consequentemente, nossa visão do cristianismo e do que é ser cristão.

Como um cristão liberal, entendo o cristianismo como sendo basicamente uma construção humana, mesmo que uma construção humana inspirada pela Presença Eterna. O cristianismo, incluindo aí nossas Escrituras, rituais, sacramentos, tradições, etc, é nossa tentativa de construir uma resposta ao que ou quem entendemos ser Deus. É nossa tentativa de encontrar e formular respostas às grandes questões que nos cercam e nos movem. É nossa tentativa de, juntos, construirmos uma comunidade baseada naquelas fontes que nos inspiram e moldam. Assim sendo, sei que não pode haver uma única compreensão válida do que é ser cristão, apenas uma explicação válida da identidade cristã. Há uma ampla diversidade de opiniões e compreensões no cristianismo, e apesar de muitas dessas compreensões e opiniões me fazerem sentir muito desconfortável e, por vezes, me chocarem, não posso descrever seus defensores como mais ou menos cristãos que eu próprio ou outros, pois se o fizesse, estaria negando minha compreensão de como a história humana é criada, estaria negando o que conheço a respeito da história cristã e, consequentemente, estaria abandonando minha visão de mundo mais básica.

Como sempre, penso ser necessário afirmar que não tenho muito interesse por religião organizada, se o que se entende por isso for um conjunto certo e indiscutível de doutrinas. Considero o dogmatismo uma “esquizofrenia social” (em um sentido teológico para a expressão), e por essa razão, distingo fé de dogma. A fé parece-me suficientemente segura para lidar com quaisquer tipos de questões. A fé nunca é ameaçada por perguntas ou dúvidas. O dogma, ao contrário, é sempre ameaçado pelas perguntas e dúvidas porque é duro, é rígido, é petrificado, é vigiado e controlado, e quebra-se sob a luz do questionamento, e, portanto, merece ser ameaçado pelas perguntas e dúvidas.

Então, como resposta à pergunta daquele missionário, se ser cristão significa submeter-me a um sistema dogmático certo e indiscutível, onde não há espaço para dúvidas, para perguntas, para opiniões pessoais, então não quero ser contado como um cristão, pois não estou disposto a abraçar uma “esquizofrenia social”, não estou disposto a abandonar algo que considero ser parte integrante de minha identidade social: minha liberdade e integridade intelectuais.

Se, entretanto, ser cristão for compreendido como ser seguidor dos ensinamentos e exemplos de vida atribuídos à figura de Jesus de Nazaré, e ser membro da grande e diversa comunidade de seus discípulos cujas compreensões estão num permanente processo de reflexão, reconstrução, e, por que não?, reafirmação, então, sim, eu sou um cristão devoto e fiel.

Minha identidade cristã é moldada por minha maneira de ver a história, de entender a fé e tradição cristã, e por minhas ações, que, por sua vez, são moldadas e amparadas por minha maneira de crer e por minha maneira de interpretar a vida e minha relação com tudo o que é parte da vida. Outras pessoas compreenderão sua fé e o mundo ao seu redor de outra forma, e utilizarão outros instrumentos para ajudá-los nesse processo. As respostas encontradas por essas pessoas podem não ser muito adequadas para mim, mas elas não são mais ou menos importantes na vida dessas pessoas que as respostas que eu mesmo encontro são para mim, e é por essa razão que (mesmo discordando de e criticando essas ideias) sempre me disponho a apreciar o que essas pessoas têm a ensinar e oferecer de bom para o mundo. Temos (cristãos liberais e outros cristãos) muito mais em comum do que a maioria de nós consegue enxergar, e podemos aprender muitíssimo uns com os outros. É realmente uma pena que não possamos ver isso!

Seja qual for a opinião pessoal de meus interlocutores, e a minha própria, a verdade é que há muitas diferentes maneiras de ser cristão. O cristianismo, tendo a história e a extensão que tem, possui variedades das mais impressionantemente belas às mais horrivelmente repugnantes (em minha visão). Todas as pessoas que, da sua forma, encontram na grande Tradição Cristã o seu caminho, são cristãos para mim – e ponto final. Não me sentarei na cadeira de juiz para decidir a sinceridade ou correção das crenças de quem quer que seja, no que toca a serem cristãos ou não. E da mesma maneira, não permitirei que o julgamento de outras pessoas interfira na forma como enxergo a minha própria identidade religiosa. Eu sou um cristão, um cristão liberal.

Rev. Gibson da Costa

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O que significa "Amar a Deus"?


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Uma resposta à Maria C.

Querida Maria C.,

Você falou em duas de suas mensagens a respeito da obrigação que os cristãos têm de “amar a Deus”, e disse que isso se demonstra através de nossa obediência aos mandamentos do mesmo Deus. Você ainda deixou claro que fazia aqueles comentários por pensar que cristãos como eu, que reinterpretam a tradição cristã, rejeitam, de alguma maneira, os mandamentos de Deus e, dessa forma, demonstram que não o amam.

“E ame o Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força.” (Marcos 12:30)

De acordo com o Evangelho, Jesus reafirmou isso aos seus compatriotas e seguidores. Ele reafirmou algo que era ensinado há séculos e séculos em sua tradição religiosa, o judaísmo. E a tradição cristã tem dado voz a esse ensinamento durante toda a sua história, apesar de nem sempre ser com os melhores exemplos práticos.

A minha pergunta é: Afinal de contas, o que significa “amar a Deus”? Como você acha que demonstramos nosso amor a Deus?... Aparentemente, a sua resposta é simples: obedecer aos mandamentos de Deus. Mas que mandamentos são esses?

Eu gosto da resposta dada por Jesus nessa mesma passagem de Marcos (leia Marcos 12:28-31), quando ele reafirma que os dois maiores mandamentos são o amor a Deus e o amor ao próximo. Para mim, fica claro que “amar a Deus” é simplesmente amar aquilo que Deus ama, é se importar com aquilo com o qual Deus se importa, é cuidar daquilo que Deus criou e cultiva. Por que “amar ao próximo” é tão importante quanto “amar a Deus”? Porque é simplesmente impossível “amar a Deus” sem amar aquelas pessoas que são, isso é, que existem, por causa de Deus (independentemente de nossa compreensão do nome “Deus”), que carregam em seu próprio ser as marcas de Deus. Se a mensagem cristã afirma que “Deus é amor”, não se pode conhecer – e, consequentemente, amar a Deus, sem que se “pratique” Deus (isto é, sem exercer o amor!).

No espírito da mensagem cristã encontro quatro afirmações básicas a respeito da humanidade: 1) ela foi criada por Deus; 2) os homens e mulheres são filhos e filhas de Deus; 3) a humanidade é amada por Deus; e 4) a humanidade é aceita por Deus.

Como cristão, quando olho para as outras pessoas é isso que eu vejo. Eu vejo indivíduos que têm uma origem divina, já que sua origem está naquela mesma Realidade que é o centro de minha visão religiosa. Por esses indivíduos terem sua origem em Deus, também reconheço o fato de Deus – essa Realidade que não me atrevo a tentar definir – ser o Pai ou a Mãe dessas pessoas, e que por essa razão, Deus os ama e os aceita plenamente.

Só que a criação de Deus não é expressa apenas pela humanidade. Como cristão, afirmo que o próprio universo é criação de Deus. Se o universo é criação daquela Realidade, é também seu filho, e meu cuidado, atenção, e amor, deve se estender ele. Se eu destruo, desnecessariamente, uma parte da vida deste planeta para construir um parque aquático, eu estou demonstrado que não amo aquilo que Deus ama. Se eu saio para fazer caçadas, pelo simples prazer de me divertir com a morte de criaturinhas indefesas, não estou demonstrando amor para com o objeto do afeto de Deus. Se apoio a ideologia da violência e da guerra, da exploração de seres humanos, da destruição do meio ambiente, se viro as costas àqueles que são pisados e humilhados, se me calo quando deveria abrir minha boca contra os barões deste mundo, eu estou demonstrando minha falta de atenção, cuidado, e amor para com aquilo que representa o objeto do afeto de Deus (para usar uma linguagem um tanto poética).

É muito simples falar em amor a Deus como sendo uma renúncia às coisas deste mundo, criando-se listas daquilo que representariam essas coisas. Você se junta a um grupo cristão, e de repente te dão uma lista de “pecados” aos quais se deve renunciar para que você seja capaz de demonstrar seu amor a Deus. Mas amar alguém (ou alguma coisa) não é apenas um “não fazer”, constitui também “um fazer” - ao menos, em minha visão de “amor”. Nos preocupamos tanto com listas de “não fazer” por ser mais conveniente do que nos preocuparmos com a lista de “fazer” - na realidade, quando se trata de relacionamentos, e não seria diferente com Deus, não há uma lista do “fazer”, mas uma lista do “se envolver”. É mais fácil abrir mão de um hábito social do que se engajar de corpo e alma no cuidado a alguém ou alguma coisa – e esse engajamento de corpo e alma com as coisas que são importantes para Deus (de acordo com o que foi proclamado pela tradição bíblica) é a maior e melhor demonstração do que seja “amar a Deus” em minha visão de mundo.

Paz!

+Gibson

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sugestão de Leitura - Setembro de 2009

Gostaria de me desculpar com meus amigos aqui, a quem prometi fazer sugestões de leituras mensalmente. Tenho estado muito ocupado nos últimos meses, e por esta razão não tenho escrito para meu blogue com tanta frequência.


Este mês, gostaria de sugerir um livro do qual gosto muito, e cuja autora já conheço há alguns anos. Irshad Manji, autora de minha recomendação do mês de setembro, é uma muçulmana que se sentiu excluída por uma cultura opressiva e, mesmo assim, decidiu redescobrir o Islã. O resultado disso é o livro que escreveu – cujo título recebeu uma tradução um tanto problemática em português para alguns (“Minha Briga Com o Islã”), já que o título original é “O Problema com o Islã – O Clamor de Uma Muçulmana por Reforma em Sua Fé”. Irshad Manji lidera hoje um dos muitos movimentos pelo retorno à tradição do Ijtihad (uma livre interpretação da fé islâmica) – o tema que tem sido de meu interesse há muitos anos (já que tenho muitas ligações com a tradição islâmica, por muitas razões).


Então fica a sugestão:


Manji, Irshad. Minha Briga com o Islã – o Clamor de uma Mulher Muçulmana Por Liberação e Mudança. Editora Francis, 2004. ISBN: 9788589362542

Disponível na Livraria Cultura online: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=783494&sid=9881281961191602751623032&k5=25C9CB1&uid=


Uma Comparação Simplista Entre as Crenças Unitaristas Com a de Outros Cristãos

DEUS


Outros Cristãos: três pessoas, conhecidas como Pai, Filho, e Espírito Santo; ideia que deve ser aceita pela fé e é conhecida como o Dogma da Trindade; é vingativo e amoroso, ao mesmo tempo; é um ser supremo, e talvez em forma humana; deve ser satisfeito pelo sacrifício de Jesus Cristo na cruz; da forma descrita anteriormente, é uma concepção cristã; se torna conhecido ao homem através da terceira parte da Trindade, o Espírito Santo.


Unitaristas: Os cristãos unitaristas estão abertos a múltiplas interpretações teológicas a respeito de Deus; Deus é amor; é espírito; não precisa ser satisfeito; é o Deus de todas as pessoas; se torna conhecido a todos por meio de suas experiências pessoais, sociais, e religiosas na vida.


JESUS


Outros Cristãos: é Deus, a segunda pessoa da Trindade; é o Salvador de todos os que acreditam nele; pode vir de novo em pessoa; foi ressuscitado física ou espiritualmente e ascendeu ao céu.


Unitaristas: foi um homem – um gênio religioso; foi um mestre e um exemplo da boa vida; ensinou princípios de verdade eterna, das quais o mundo ainda precisa; proclamou uma mensagem que nos influencia ainda hoje.


A HUMANIDADE


Outros Cristãos: nasce no pecado, pois sua natureza herdade é má e depravada; precisa ser salva por meio da aceitação pessoal de Cristo, um Salvador-Deus, dado como o filho unigênito de Deus para pagar pelos pecados da humanidade; nasce para glorificar a Deus, para fazer sua vontade Divina e para trazer os pecadores a “Cristo”.


Unitaristas: nasce sem pecados; apesar de nascer sem pecados, adquire a capacidade tanto para o bem quanto para o mal, mas nunca está eternamente perdida; “salvação” pessoal é uma questão de crescimento e desenvolvimento social; está aqui para construir o Reino de Deus, ou seja, a boa sociedade, reconhecendo os laços da humanidade.


A VERDADE


Outros Cristãos: encontra sua base na Bíblia e/ou nos dogmas da igreja.


Unitaristas: é encontrada em todas as experiências humanas; é descoberta na busca e raciocínio de todas as pessoas.


A BÍBLIA


Outros Cristãos: é a Palavra de Deus revelada, inspirada pelo Espírito Santo e frequentemente considerada como fonte suficiente do que se precisa saber para alcançar a salvação; está aberta a interpretações, mas em geral deve ser aceita como a “Santa Palavra” de Deus; é a fonte autorizada de verdade religiosa revelada por Deus e essencial para a “salvação”; pode antever o futuro da existência da humanidade e o fim do mundo.


Unitaristas: é uma coleção de livros que registram o crescimento moral e religioso de dois grupos de povos (os antigos hebreus e os primeiros seguidores de Jesus de Nazaré); é uma narrativa franca das variadas experiências de um povo no decorrer de sua história; é uma das várias fontes de valores éticos e religiosos; registra as várias ideias de um povo particular a respeito da vida aqui e no porvir.


O REINO DE DEUS


Outros Cristãos: chegará através da miraculosa vinda de Cristo no fim do mundo; é concebido como sendo plenamente possível apenas na vida futura; será futuramente governado por Deus em benefício daqueles que tiverem sido “salvos”.


Unitaristas: é alcançado por meio dos esforços humanos; é concebido como sendo plenamente possível aqui na terra; será compartilhado por todas as pessoas.


PECADO


Outros Cristãos: é herdado por todas as pessoas como parte de sua natureza; será punido em algum estado futuro.


Unitaristas: é a rejeição deliberada da humanidade de fazer o bem; carrega sua própria punição.


A IGREJA


Outros Cristãos: é o meio básico de salvação; é a Santa Instituição.


Unitaristas: é uma comunidade unida em favor do crescimento moral e espiritual e uma escola de religião; é um grupo de pessoas organizadas para adorar a Deus e para servir a humanidade.


A IMORTALIDADE


Outros Cristãos: é um lar no céu onde o espírito humano individual vive para sempre.


Unitaristas: é uma ideia aberta à interpretação e aceitação pessoal.


A ORAÇÃO


Outros Cristãos: é uma comunicação e uma comunhão com Deus, que é concebido como sendo um ser sobrenatural que pode mudar a ordem natural do universo em favor da humanidade.


Unitaristas: é uma expressão dos pensamentos, sentimentos e aspirações mais profundas de alguém, uma tentativa de conhecer o certo e fazê-lo.


OS SACRAMENTOS


Outros Cristãos: para alguns, são dois, para outros, são sete; poder sobrenatural se faz presente em cada um deles, por virtude da presença do Espírito Santo.


Unitaristas: ordenanças não são consideradas como sendo mágicas; são símbolos humanos, criados para ajudar uma pessoa em sua busca pela boa vida.


NOTA: Como explicado no próprio título, esta comparação é muito geral e deveras simplista a respeito das crenças de outros cristãos e de cristãos unitaristas. Preparei esta lista apenas como uma forma didática (muito simplista e limitada) para ajudar a responder algumas perguntas que me são feitas com muita frequência pelos leitores deste blog.


+Gibson