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domingo, 22 de abril de 2012

A jornada de fé dum herege contemporâneo


Incontáveis vezes ouço aquelas mesmas provocações de ambos os lados do espectro: dos não religiosos, a provocação do como posso ser tão “estúpido” para acreditar em Deus e seguir uma religião – uma das razões para esse seu pensamento é que essas pessoas só conseguem enxergar a busca espiritual e religiosa como uma “necessidade de conforto” –; do outro lado, aqueles religiosos mais “tradicionais” (esse é um termo inapropriado para a ideia aqui, já que me considero muito tradicional, mas deixarei essa discussão semântica para depois!), que me provocam dizendo que não sou cristão por não entender a fé cristã da mesma forma que eles. Ambos os tipos de provocações já se tornaram uma rotina em minha vida ministerial e intelectual, a ponto de me cansarem de tédio!

Honestamente, preferiria que alguém – fora de minha comunidade de fé, isto é – quisesse gastar seu tempo e o meu com uma discussão mais útil sobre fé, vida, e serviço cristãos. Um cristão como eu, que possui um background múltiplo – mergulhado nas tradições unitarista, anglicana, e luterana, além da tradição liberal judaica – está inserido demais num mundo teologicamente diverso para abraçar versões exclusivistas do Cristianismo. Estou muito satisfeito com minha fé elástica, moldada por minha experiência do Divino e do mundo, com a qual minha compreensão daquele Mistério Eterno é moldada a cada novo instante.

Minha fé não é uma fé de certezas e conforto. É, antes, uma jornada de descoberta, ao longo da qual abraço a plenitude do desconhecido e tento ouvir a voz daquele Mistério Tremendo, que chamo pelo nome de “Deus”. Minha fé não me garante que alcançarei um destino certeiro, pois a jornada é o que mais me importa. Quero a presença de Deus – paz, perdão, reconciliação, compaixão, amor, etc – aqui e agora, e não numa suposta glória pós-mortal. Acredito que o Divino se revela a cada momento da caminhada: quando nos acordamos e quando dormimos; quando choramos e quando sorrimos; quando sozinhos ou quando acompanhados; quando nos amamos e quando aborrecemos uns aos outros; quando nos abraçamos e mesmo quando nos ofendemos – em cada um desses momentos, podemos descobrir um aspecto novo da manifestação do Divino.

Mais do que estar preocupado com a crença correta a ser abraçada pelo cristão (não que esta não seja importante, até certo ponto), preocupo-me com a ação correta daquele que se diz discípulo de Jesus. Para mim, é a prática correta – a ortopráxis – que define o verdadeiro cristão; e quando falo nesta “prática correta”, não me refiro à liturgia, mas à eticidade de nossas ações como cristãos para com todas as outras pessoas e para com o todo da Criação.

Todos que discordam de minhas ideias teológicas estão sempre muito dispostos a citar versos e mais versos das Escrituras para provarem que o que acredito é errado e não-cristão. É interessante como nossa prática cristã (especialmente no meio Protestante) tem sido a de tornar a Bíblia cúmplice de nossas concepções dogmáticas (religiosas ou políticas), com todos os lados fazendo uso da mesma coleção de escritos sagrados para legitimarem seus discursos. Não consigo deixar de pensar que a mesma Bíblia que era utilizada para legitimar a escravidão, até o século XIX, era também utilizada para denunciar essa prática como uma abominação diante de Deus; que a mesma Bíblia que era utilizada, por alguns, para legitimar a guerra, era também utilizada, por outros, para advocar o pacifismo; que a mesma Bíblia utilizada para justificar a submissão da mulher ao homem e de pessoas não-brancas a pessoas brancas, era (e ainda é) utilizada por outros para ensinar que o Evangelho proclama o fim dessas distinções diante de Deus.

Apesar de não querer reforçar aqui a ideia de que Bíblia e Cristianismo sejam sinônimos – para mim, não são, pois ambos se complementam: a Escritura surge a partir da Igreja e a Igreja forma seu pensamento a partir do testemunho bíblico –, quero mostrar, nas Escrituras, exemplos (equivocadamente deixados de lado por alguns cristãos) de uma fé que sobrepuja nossa preocupação com dogma, verdade, certeza, exclusivismo; exemplos duma fé extravagantemente graciosa, radicalmente inclusiva, e inflexivelmente compassiva. Exemplos bem diferentes daqueles tão frequente e convenientemente enfatizados pelos dois grupos de pessoas que costumam ter problemas com o pensamento de cristãos liberais como eu. Eis algumas dessas passagens das Escrituras que moldam minha fé cristã:

Não explore o imigrante nem o oprima […]” (Êxodo 22:20)

Quando um imigrante habitar com vocês no país, não o oprimam. O imigrante será para vocês um concidadão: você o amará como a si mesmo […]” (Levítico 19:33-34)

O jejum que quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente. Se você fizer isso, a sua luz brilhará como a aurora, suas feridas vão sarar rapidamente, a justiça que você pratica irá à sua frente e a glória do Senhor virá acompanhando você. Então você clamará, e o Senhor responderá: “Estou aqui!” Isso se você tirar do seu meio o jugo, o gesto que ameaça e a linguagem injuriosa; se você der o seu pão ao faminto e matar a fome do oprimido. Então a sua luz brilhará nas trevas e a escuridão será para você como a claridade do meio-dia […]” (Isaías 58:6-10)

Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (Miqueias 6:8)

Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve.” (Mateus 11:28-30)

Não há distinção entre judeu e grego, pois ele é o Senhor de todos, rico para com todos aqueles que o invocam. Porque todo aquele que invoca o nome do Senhor, será salvo.” (Romanos 10:12-13)

Que o amor de vocês seja sem hipocrisia: detestem o mal e apeguem-se ao bem; no amor fraterno, sejam carinhosos uns com os outros, rivalizando-se na mútua estima. […] Abençoem os que perseguem vocês; abençoem e não amaldiçoem. Alegrem-se com os que se alegram, e chorem com os que choram. Vivam em harmonia uns com os outros. Não se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afeiçoem às coisas modestas. Não se considerem sábios. Não paguem a ninguém o mal com o mal; a preocupação de vocês seja fazer o bem a todos os homens. Se for possível, no que depende de vocês, vivam em paz com todos. […] Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber; […] Não se deixe vencer pelo mal, mas vença o mal com o bem.” (Romanos 12:9-21)

Não fiquem devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo. Pois quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: não cometa adultério, não mate, não roube, não cobice, e todos os outros se resumem nesta sentença: “Ame o próximo como a si mesmo.” O amor não pratica o mal contra o próximo, pois o amor é o pleno cumprimento da Lei.” (Romanos 13:8-10)

Paremos, portanto, de julgar uns aos outros. Ao contrário, preocupem-se em não ser causa de tropeço ou escândalo para o irmão.” (Romanos 14:13)

Se alguém pensa que é religioso e não sabe controlar a língua, está enganando a si mesmo, e sua religião não vale nada. Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo.” (Tiago 1:26-27)

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta.” (Tiago 2:17)

Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.” (1 João 4:7-8)


Essas passagens falam por si mesmas. Àqueles que costumam me acusar de politizar minha fé em excesso, só me resta usar esses poucos exemplos bíblicos como minha defesa e evidência de que as raízes bíblicas da tradição cristã é que tornam a fé uma questão “política” (isto é, uma questão de nossa inter-relação com o todo da Criação de Deus). E é justamente por isso que a fé cristã tem relevância em minha própria experiência – porque Jesus e, consequentemente, o Cristianismo me chamam à ação, me convidam a participar na obra de reconciliação de Deus. Por isso posso acreditar em Jesus e ser seu seguidor!

+Gibson
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