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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O exílio da alma


Para mim, uma palavra-chave resume toda a tradição judaico-cristã de forma mais plenamente metafórica que qualquer outra: exílio. As Escrituras, que enxergamos como testemunhas de nossa fé e tradição, estão imersas na ideia de exílio. Nossa relação com o Divino, o Nome que traz-nos e o todo da Criação à existência, é uma relação de exílio. A história de nossa espécie sobre este planeta é uma história de exílio.

Exílio, êxodo, migração, errância e nomadismo são palavras que definem minha experiência humana e minha relação com a única verdade que continua ancorada em minha alma: Deus – o Mistério Eterno que aguça minha busca por uma permanência, em meio a todas as experiências de instabilidade identitária que têm modelado minha história até agora.

Nas tradições judaicas e cristãs, encontramos uma complexa e contínua narrativa de exílio. O exílio das almas humanas neste planeta, afastadas da esfera do domínio divino. O êxodo do povo hebreu na terra dos egípcios. A migração pelo deserto físico. A errância do Filho do Homem na terra da dor e sofrimento. E o nomadismo espiritual que é parte da jornada humana em sua busca pelo Divino. Nossa vida é uma existência de êxodo e exílio.

Por que, em seu sonho, Jacó não pode também subir as escadas que levavam ao domínio divino, como os anjos o faziam? Por que foi a terra do exílio que o Divino ofereceu-lhe, quando poderia ter-lhe oferecido o destino final? (Gênesis 28:10-15)

Aparentemente, o Deus de Jacó via o exílio como um privilégio, a possibilidade de ultrapassar o alcance das raízes identitárias que nos amarram e limitam; a oportunidade de ser divino também – no sentido de poder compreender a limitação da própria Criação. Por isso o sofrimento no deserto quente e seco do êxodo marca-nos a todos nós, mesmo aqueles que nunca deixaram os limites de seu próprio quintal. O filósofo Gilles Deleuze chamaria essa experiência exílica de “mobilidade”, e a compreenderia como sendo a essência do ser. Para ele, a mobilidade constituiria o instrumento da criatividade do ser. E eu não poderia discordar de Deleuze.

Desenraizar-se, ou, talvez, como diria o apóstolo Paulo sobre Jesus, esvaziar-se, é um ato revolucionário em si. É um ato corajoso de desafio àquilo que parece ser permanente em nós, mas que, ao nos tornarmos nômades, descobrimos ser transitório: nossa própria identidade.

Qualquer um que tenha experienciado a migração, qualquer um que tenha enfrentado a distância, a solidão, a saudade, conhece a sensação de se agarrar ao que restou para permanecer sendo o mesmo. Mas à medida que o novo e desconhecido se abre e desnuda diante de nossos olhos, deixamos de temer, e passamos, talvez, a inserir pequenos fragmentos daquela novidade em nossa própria identidade. E nascemos de novo.

Essa mobilidade, ou êxodo, ou exílio, é minha compreensão do “nascer de novo” da linguagem cristã. O exílio é o morrer e ressuscitar que devemos experienciar para que possamos nos tornar unos com Cristo.

Sim, Deus acertou em não ter permitido que Jacó subisse a escada que levava aos céus. A terra do exílio ensina-nos muito mais.

+Gibson


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