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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O “conservadorismo” dum autoproclamado herege


Enquanto conversava com um grupo de amigos ontem, alguém fez um comentário um tanto inesperado, no contexto do que discutíamos, mas, até certo ponto, verdadeiro. Fui chamado de “conservador” numa discussão teológica! Todos se entreolharam, alguns riram, alguém chegou a perguntar ao colega o sentido da palavra “conservador” para ele, e, em seguida, ele respondeu “Não falo teologicamente; acho que você seja um conservador socialmente!”. “Ufa! Que susto!” - brinquei.

Brincadeiras à parte, é engraçado o limite que enfrentamos quando tentamos classificar ideias e atitudes. Como alguém que se ocupa de pensar sobre minha tradição religiosa – leia-se o “Cristianismo protestante” –, sou geralmente visto como qualquer coisa, menos ortodoxo. E essa é uma visão não apenas alheia, como a minha própria autoclassificação. Gosto de enfatizar que sou, teologicamente, um herege, já que enfatizá-lo é afirmar a herança teológica na qual emergi como homo religiosus. [Essa auto-classificação per se já é problemática, pois quase ninguém entende o que significa o adjetivo “herege” quando este é usado no contexto da fé. Isso inclui pessoas supostamente bem informadas em se tratando da Teologia e de outras “ciências humanas”, por exemplo.]

Afirmar minha herança herética, entretanto, não é negar que a fé e a tradição religiosas exerçam um grande papel em minha vida. E não poderia ser diferente. Essa é a razão pela qual sou um Ministro religioso. Essa é a razão pela qual me engajo no estudo e discussão de minha tradição de fé. Nesse sentido, sou um conservador: alguém que busca manter viva a tradição de fé [herética] que me alimenta; alguém que se esforça para caminhar nos limites de minha própria tradição teológica, mesmo explorando caminhos paralelos que me ajudem a ampliar a dimensão do entendimento de minha própria tradição de fé.

Conheço as objeções que muitos fazem a essa ideia, mas partilho, até certo ponto, das perspectivas clássicas de Christopher Dawson da religião – ou da “dinâmica espiritual” – como modeladora da cultura duma sociedade. Para ele, claro, essa “religião” não precisaria ser algo explicitamente religioso, poderia ser uma “religião disfarçada”. Marcelo Gleiser, inclusive, fala desse mesmo disfarce quando sugere que mesmo ateus podem transformar sua busca por um ideal de perfeição – nos esportes, na ciência etc – em um ritual sacro. Então, quando meus amigos ateus zombam de minha “religiosidade”, não posso fazer nada mais além de zombar da sua também! Alguns deles se ocupam tanto em desacreditar a fé, por exemplo, que chegam a soar ainda mais visceralmente dogmáticos do que aqueles que tentam desacreditar! Nesse sentido, sua suposta descrença é sua religião!

Aqueles de fora de minha herança de fé têm um grande problema em compreender a relação entre minha fé e minha orientação emociono-sexual, por exemplo. Para eles, especialmente os que não são religiosos (por mais inacreditável que isso possa parecer!), ser um Protestante (claro que eles não compreendem absolutamente nada sobre o Unitarismo, o Anglicanismo, ou o Luteranismo – minhas tradições pessoais) é irreconciliável com uma identificação “gay”. Para os religiosos, especialmente os protestantes evangelicais – que enfatizam uma visão do papel das Escrituras aparentemente irreconciliável com a minha –, simplesmente não sou cristão! Para aqueles que tornaram a homossexualidade (como odeio esta palavra!) sua religião – sim, porque não conseguem se enxergar como nada mais além de gays; tudo o que supostamente sofrem resume-se ao “fato”(?) de serem homossexuais! –, minha fé é uma ofensa descabida, já que sou parte da “instituição” (i.e., a religião) que os oprime!... E a ladainha se repete ininterruptamente em minhas interações sociais!

Além disso, há ainda o fator político! Geralmente, só se consegue pensar em termos das posições diametralmente opostas do espectro político – as antigas “direita” e “esquerda” que, desculpe-me Norberto Bobbio, não sei se fazem tanto sentido no Brasil de hoje –, ignorando-se quaisquer perspectivas que não se encaixem perfeitamente a esse molde prefabricado. E essa monotonia ideológica que paira sobre nossos diálogos intermináveis é irritante! Esses supostos diálogos são, na verdade, um monólogo disfarçado – um monólogo de velhas ideias que temem ser desafiadas por novas fusões de ideias – que tenta acorrentar mentes jovens. Um verdadeiro enfado; um verdadeiro enfado que tenta acorrentar o próprio Deus!

Por isso sou um autoproclamado herege. Se a heresia é, etimologicamente, uma questão de escolha, então sou um herege! Um cristão herege. Um judeu herege. Um ortodoxo herege. Um liberal herege. Um conservador herege. Um herege herético. Um ser humano fundamentalmente à beira duma fé permanentemente herética!

+Gibson

DAWSON, Christopher. Progresso e Religião: uma investigação histórica. Tradução Fábio Faria. São Paulo: É Realizações, 2012.

GLEISER, Marcelo. O fim da Terra e do céu: o Apocalipse na Ciência e na Religião. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 31.
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