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quarta-feira, 27 de março de 2013

O mito da busca espiritual por Liberdade: uma mensagem pascoal


O mito pascoal sempre me fascinou. A beleza da narrativa, os símbolos, o sentido a eles atribuídos pelos diferentes leitores … tudo isso tem sempre falado à minha sensibilidade e imaginação – mais especialmente, talvez, por eu estar envolto em duas diferentes narrativas: a judaica e a cristã.

Da tradição judaica emerge o sentido de passagem do cativeiro à liberdade, do Êxodo à Terra Prometida. A metáfora do Pessah está tão presente em minha imaginação, que torna-se indelével de minha própria história. Ela guia e molda minha visão de mundo, minha compreensão filosófica, minha busca por “liberdade”, e minha esperança política. Como confio na realidade de Deus, essa passagem, essa busca, é um encontro com o Divino dentro do qual vivo, me movo e existo; e a narrativa tradicional do Pessah é um lembrete de que a liberdade está dentro de nosso alcance, mesmo que para atingi-la, tenhamos de atravessar as profundezas dos mares.

Da tradição cristã emerge o chamado à morte e à ressurreição. A metáfora do morrer e voltar a viver por meio da confiança e do abandono daquilo que nos acorrentava ao passado, a renúncia ao império da servidão – que, muitas vezes, está dentro de nós mesmos. Essa metáfora, que, para mim, está diretamente associada à narrativa sobre a morte e a ressurreição de Jesus, está tão presente em minha imaginação que é como se fora minha própria história. Como confio na mensagem de Cristo, essa morte e ressurreição, às quais essa mensagem me chama, é um lembrete de que a transformação de meu interior é um processo relacional contínuo de religação com o Divino, e um testemunho de que “nem mesmo a morte” pode nos separar do “amor de Deus”.

O interessante é que as tradições judaica e cristã não esgotam essa busca por liberdade e renascimento. Essas são buscas humanas, buscas comuns às mais diferentes tradições de fé. Se Moisés, por exemplo, lidera os israelitas através do deserto e do Mar Vermelho para alcançarem sua liberdade; e se, posteriormente, Jesus torna-se “o Caminho” que nos indica a jornada da morte à ressurreição, do cativeiro interior à deificação do nosso eu, também encontramos outros exemplos em outras tradições de fé.

O Buda, por exemplo, nos convida a seguirmos o Nobre Caminho que nos conduz à Terra Pura. O Nobre Caminho da “via media”, da renúncia aos extremos. O sentir correto, a fala correta, o comportamento correto, o viver correto, o esforço correto, a atenção correta e a concentração espiritual correta. Para ele, esse caminho nos leva à Iluminação – que é o equivalente budista à liberdade judaica e à vida cristã. A Iluminação, por outro lado, é dependente da ilusão e da ignorância, já que só pode existir por aquelas outras duas existirem, e vice-versa – se uma delas deixar de existir, as outras também cessarão. E quando alcançarmos a Iluminação, perceberemos que tudo contém, em si mesmo, uma Iluminação. É uma bela metáfora da busca por liberdade.

O profeta Muhammad, por exemplo, ensinou que a submissão a Deus é o caminho para essa liberdade. Assim, para a tradição islâmica, a fé deve ser afirmada pela língua, pelo coração e pelas ações. Nossa submissão a Deus é afirmada nas pequenas ações que realizamos no dia a dia: dos atos de adoração a Deus à maneira como cumprimentamos os estranhos na rua. A submissão a Deus é, para o profeta do Islã, o único caminho para a liberdade e a vida.

Com diferentes termos e conceitos, essas tradições nos ensinam o quanto nossa busca espiritual por liberdade – e não apenas a busca por liberdade espiritual – é essencial para a experiência humana. Nem sempre ela tomará um caminho religioso, já que podemos testemunhá-la também nas inúmeras empreitadas artísticas e filosóficas da humanidade, mas o que importa é que ela testifica o quanto “ser livre” é essencial para o nosso imaginário.

Como um cristão, penso que a Páscoa seja um tempo magnífico para refletir sobre essa busca por liberdade. E, mais especificamente, como um unitarista, escolho combinar esses diferentes conceitos religiosos de Liberdade, Vida e Iluminação em minha própria busca espiritual, modelando um sentido para a Páscoa que fale a todos os aspectos de minha vida.

Junto minha voz àquela de todos os cristãos, em todas as eras – independentemente de quão diferentes sejam nossas interpretações dessas palavras –, dizendo:

“Aleluia. Cristo ressuscitou!”

Pois, como nós unitaristas rezamos ao fim de nossas celebrações eucarísticas:

Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.”

Feliz Páscoa a todos!

+Gibson
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