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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Para “ler” as Escrituras Sagradas – parte 1


Como todos devem saber, as ditas religiões “abraâmicas” – pessoalmente, prefiro chamá-las de “jordânicas” (i.e., os judaísmos, os cristianismos e os islamismos) – têm sido tradicionalmente chamadas de religiões “do Livro”. E isso ocorre por uma óbvia razão: nossas compreensões teológicas emergem, em parte, de textos escritos que consideramos sagrados.

É importante enfatizar um trecho do que escrevi acima: em parte. A parcialidade de nossa dependência teológica de nossas Escrituras Sagradas é relevante aqui. Nenhuma de nossas tradições depende unicamente de seus livros sagrados para a compreensão de sua fé (seja a Bíblia Hebraica, a Bíblia Cristã ou o Corão). Assim, por exemplo, mesmo que alguém lhe fale sobre o Cristianismo, dizendo que a Bíblia é sua única “verdade” ou sua única fonte de “conhecimento sobre Deus” – independentemente de quão sincera seja essa pessoa –, sua afirmação não representa uma “factualidade”.

O Cristianismo ocidental, em suas formas mais tradicionais e mais numerosas – seja nas tradições católica ou protestante, por exemplo –, baseia sua fé em pelo menos três pilares: Escritura, Tradição e Razão – ou, no caso daquelas tradições protestantes que seguem o chamado “Quadrilátero Wesleyano”, Escritura, Tradição, Experiência e Razão. [Permitam-me apenas uma nota sobre o uso da expressão “Quadrilátero Wesleyano”: trata-se duma adjetivação um tanto problemática, já que John Wesley, o fundador do Movimento Metodista, nunca escreveu explicitamente sobre um “quadrilátero” – o nome surgiu como uma tentativa de reconstrução de sua reflexão teológica, por parte do teólogo metodista americano Albert Outler, apenas no século XX.]

Assim, por exemplo, se um protestante evangélico (são duas coisas distintas) – supostamente adepto duma compreensão um tanto equivocada do princípio reformado do sola Scriptura – lhe diz que tudo o que ele acredita vem da Bíblia, sua afirmação, na melhor das hipóteses, provém duma incompreensão do processo de leitura.

Ler é interpretar. Interpretar é selecionar. Selecionar é criticar… E isso é ainda mais verdadeiro quando se trata de textos religiosos. Para ler-interpretar-selecionar-criticar fazemos uma série de conexões entre o que conhecemos (ou o que pensamos conhecer) do/sobre o mundo e o texto que temos diante de nós; nos lançamos sobre o texto, isto é, lançamos (pre)conceitos sobre ele; enfim, lemos através da janela de nossa própria mente. Logo, o que lemos não é o texto baixo – o que está representado graficamente sobre o papel –, mas aquele que foi formatado em nossa mente por nosso contexto.

Mesmo se alguém fizesse referência à chamada “influência do Espírito Santo”, dizendo que sua leitura da Bíblia é guiada divinamente, teríamos um problema. Esse seria um reconhecimento explícito de que sua interpretação não se basearia unicamente no texto em si, mas (também) em algo que está além do texto, numa fonte externa – mesmo se essa fonte fosse divina. Ou seja, no final das contas, estaria reconhecendo que sua compreensão não se baseia unicamente na leitura do texto sobre o papel.

É justamente por isso que diferentes comunidades de fé leem o “mesmo texto” (ou melhor, as mesmas representações gráficas) de formas tão distintas. É justamente por isso que diferentes tradições ouvem a voz de Deus de formas diferentes – como se Deus os tivesse dizendo coisas completamente conflitantes. O problema não está nas Escrituras Sagradas – a Bíblia, no caso cristão. O problema não está em Deus. O problema está na leitura que fazemos, e mesmo na compreensão que temos do que e como estamos lendo.

Alguém afirma – inconscientemente baseado numa série de outros fatores – que lê em Êxodo apenas leis severas, vinganças divinas etc?… Eu – moldado por outras leituras prévias das Escrituras, pela tradição teológica que herdei, por minha história pessoal e pela forma como minha razão lida com tudo isso – leio: “Não explore o imigrante nem o oprima, porque vocês foram imigrantes no Egito. Não maltrate a viúva nem o órfão…” (Êxodo 22:20-21a)

Alguém, supostamente baseado apenas numa leitura do Novo Testamento, impõe uma ortodoxia teológica como requisito para ser cristão? Eu, moldado por outras partes das Escrituras, pela tradição teológica que herdei, por minha experiência e pela razão, leio que “religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição, e manter-se livre da corrupção do mundo” (Tiago 1:27).

Assim se processa a leitura das Escrituras em minha vida. Assim sempre se processou a leitura das Escrituras pela Igreja cristã. E é também assim que se processa a leitura de textos sagrados por qualquer das outras tradições jordânicas – ou “abraâmicas”, se preferir. Todos nós lemos a partir do lugar onde estamos; isso faz com que sempre ganhemos ou percamos algo, mas ignorar que o façamos é, no mínimo, “ingenuidade”.

Isso significa, contudo, negar a sacralidade das Escrituras? Não… Mas sacralidade é uma qualidade atribuída, ela não é natural. Os textos que fazem parte da Bíblia passaram por um longo processo de canonização – eles não caíram do “céu”. Foram humanos que os escreveram – e mesmo que afirmemos que o tenham feito sob “inspiração do Espírito Santo”, ainda assim foram eles que os escreveram! Para que fossem canonizadas e sacralizados tiveram de adentrar um longo processo bem humano.

Pense em questões como escravidão ou mesmo o apartheid sul-africano, por exemplo. Por um tempo, esses eram justificados com base numa “leitura” supostamente bíblica. Mas o que se escondia por trás daquela leitura supostamente literal era uma série de elementos culturais: história, filosofia, justificativas econômicas e políticas etc.

Mais recentemente, quando alguém condena relações homossexuais baseando-se supostamente em leituras bíblicas – e não percebe que os mesmos livros que usa como apoio condenam algumas de suas próprias práticas culturais –, essa pessoa talvez ignore que sua leitura baseia-se também numa série de elementos socioculturais. Assim, ele lê seu próprio mundo num texto de milênios atrás – como, a propósito, você e eu fazemos.

+Gibson
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