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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Cristianismo Unitarista - William Ellery Channing

William Ellery Channing

Pronunciado na Ordenação do Rev. Jared Sparks, na Primeira Igreja Independente de Baltimore em 5 de maio de 1819.

1 Tessalonicenses 5:21: "Examinem todas as coisas e fiquem com o que é bom."

As circunstâncias peculiares desta ocasião não só justificam, mas parecem exigir um desvio do curso geralmente seguido por pregadores na introdução de um irmão ao ofício sagrado. É costume falar da natureza, da concepção, dos deveres, e das vantagens do ministério cristão; e sobre estes tópicos eu deveria estar feliz agora em insistir, não lembrei que um ministro será dado hoje a uma sociedade religiosa, cujas peculiaridades de opinião têm trazido sobre ela muitas críticas, e devo acrescentar, muita reprovação. Muitas boas mentes, muitos cristãos sinceros, estou ciente, estão apreensivos de que as solenidades deste dia darão um grau de influência a princípios que consideram falsas e prejudiciais. Os medos e anseios desses homens eu respeito, e, acreditando que são fundamentados, em parte, em erro, penso ser meu dever explicar-vos, tão claramente quanto posso, algumas das opiniões distintas daquela classe de cristãos em nosso país, que são conhecidos por simpatizarem com esta sociedade religiosa. Devo pedir vossa paciência, pois tal assunto não pode ser discutido de maneira estreita. Não posso também deixar de pedir-vos que se lembrem, que é impossível expor, em um único discurso, nossos pontos de vista a respeito de cada doutrina da Revelação, muito menos as diferenças de opinião que sabemos subsistirem entre nós. Limitar-me-ei aos temas, sobre os quais os nossos sentimentos foram mal-compreendidos ou, que, mais amplamente, nos distinguem dos outros. Não posso eu esperar ser ouvido com sinceridade? Deus livre-nos de todos os preconceitos e maldades, e encha-nos com o amor à verdade e à virtude.

Há duas divisões naturais sob as quais meus pensamentos serão organizados. Tentarei expor, 1º, os princípios que adotamos na interpretação das Escrituras. E 2º, algumas das doutrinas, que as Escrituras, daquele modo interpretadas, parecem-nos expressar claramente.

I. Consideramos as Escrituras como os registros das sucessivas revelações de Deus à humanidade, e particularmente da última e mais perfeita revelação de Sua vontade por Jesus Cristo. As doutrinas que parecem-nos ser claramente ensinadas nas Escrituras, recebemos sem reserva nem exceção. Não atribuímos, contudo, igual importância a todos os livros nessa coleção. Nossa religião, acreditamos, reside principalmente no Novo Testamento. A dispensação de Moisés, comparada àquela de Jesus, consideramos como adaptado à infância da raça humana, uma preparação para um sistema mais nobre, e principalmente agora útil para confirmar e ilustrar as Escrituras cristãs. Jesus Cristo é o único mestre dos cristãos, e tudo o que ele ensinou, seja durante o seu ministério pessoal, ou por meio de seus Apóstolos inspirados, consideramos como tendo autoridade divina, e professamos torná-lo como regra da nossas vidas.

Essa autoridade, que damos às Escrituras, é uma razão, temos de conceber, para estudá-las com cuidado peculiar, e para estudarmos ansiosamente os princípios de interpretação, por meio dos quais seu verdadeiro significado pode ser alcançado. Os princípios adotados pela classe de cristãos em nome dos quais falo, precisam ser explicados, porque são muitas vezes incompreendidos. Somos particularmente acusados de fazer uso ilimitado da razão na interpretação das Escrituras. Dizem que exaltamos a razão acima da revelação, e que preferimos a nossa própria sabedoria em lugar da sabedoria de Deus. Acusações soltas e indefinidas dessa natureza circulam tão livremente, que pensamos que devemos a nós mesmos, e à causa da verdade, expressar nossos pontos de vista com alguma particularidade.

O nosso princípio orientador na interpretação das Escritura é este, que a Bíblia é um livro escrito por homens, na língua dos homens, e que o seu significado deve ser procurado nos mesmos moldes que de outros livros. Cremos que Deus, quando fala ao gênero humano, coaduna, se podemos falar assim, às regras estabelecidas de conversação e escrita. De que outra forma teriam as Escrituras valor para nós, se fosse comunicada em uma língua desconhecida?

Agora, todos os livros, e todas as conversas, exigem do leitor ou ouvinte o constante exercício da razão, ou a sua verdadeira importação só pode ser obtida por comparação contínua e inferência. A linguagem humana, bem sabeis, admite várias interpretações, e cada palavra, cada frase deve ser modificada e explicada, de acordo com o assunto que é discutido, de acordo com os propósitos, sentimentos, circunstâncias, e princípios do escritor, e de acordo com o gênio e expressões idiomáticas da língua que ele usa. Estes princípios são reconhecidos na interpretação dos escritos humanos, e um homem, cujas palavras devemos explicar sem referência a esses princípios, reprovar-nos-ia com uma acusação de falta de candura, e com a intenção de obscurecer ou distorcer o seu significado.

Se a Bíblia tivesse sido escrita em uma linguagem e estilo próprios, se consistisse de palavras que admitissem um único sentido, e de sentenças totalmente desligadas umas das outras, não haveria lugar para os princípios dos quais agora falo. Não poderíamos raciocinar a respeito delas, como fazemos com outros escritos. Mas tal livro seria de pouco valor, e, talvez, de todos os livros, as Escrituras correspondem menos a essa descrição. A Palavra de Deus ouve o carimbo da mesma mão, que vemos em suas obras. Tem infinitas ligações e dependências. Cada proposição está relacionada a outras, e deve ser comparada a outras; para que seu pleno e preciso sentido seja compreendido. Nada está isolado. O Novo Testamento é construído sobre o Antigo. A dispensação cristã é uma continuação do judaica, a realização de um vasto programa de providência, que exige uma grande medida de visão do leitor. Ainda mais, a Bíblia trata de assuntos sobre os quais recebemos idéias de outras fontes além de si mesma; assuntos tais como a natureza, paixões, relações, e os deveres do homem, e ela espera que retenhamos e modifiquemos sua língua através das verdades conhecidas, que a observação e a experiência fornecem-nos nestes tópicos.

Além das observações já feitas sobre suas infinitas ligações, podemos observar, que o seu estilo em nenhum lugar afeta a precisão da ciência, ou o rigor da definição. Sua linguagem é singularmente brilhante, forte e figurativa, exigindo mais freqüentes desvios do sentido literal, do que a da nossa própria época e país, e conseqüentemente exigindo um exercício mais contínuo do julgamento. -- Pensamos, também, que as diferentes partes deste livro, em vez de serem confinadas às verdades gerais, perpetuamente se referem aos tempos nos quais elas foram escritas, aos estados da sociedade, aos modos de pensar, às controvérsias na igreja, aos sentimentos e práticas que já passaram, e sem o conhecimento dos quais estamos em constante perigo de estender a todos os tempos, e lugares, o que era de aplicação temporária e local. -- Pensamos, também, que alguns desses livros são fortemente marcadas pelo gênio e caráter de seus respectivos autores, que o Espírito Santo não tenha orientado os Apóstolos a ponto de suspenderem as peculiaridades de suas mentes, e que um melhor conhecimento dos seus sentimentos, e das influências sob as quais estavam, é uma das preparações para a compreensão dos seus escritos. Com estes pontos de vista a respeito da Bíblia, sentimos ser nosso sagrado dever exercitar nossa razão sobre ela perpetuamente, para comparar, inferir, buscar o espírito para além da letra, para buscar a natureza do assunto, e o objetivo do escritor, seu verdadeiro sentido; e, em geral, para fazer uso daquilo que é conhecido, para explicar o que é difícil, e para descobrir novas verdades.

Preciso descer aos particulares, para provar que as Escrituras exigem o exercício da razão? Vejamos, por exemplo, o estilo em que elas geralmente falam de Deus, e observemos como habitualmente aplicam a ele paixões e órgãos humanos. Lembrem-se das declarações de Cristo, que veio não para trazer a paz, mas a espada; que, a não ser que comamos de sua carne, e bebamos de seu sangue, não temos vida em nós; que temos de odiar pai e mãe, e arrancar o olho direito; e um grande número de passagens igualmente fortes e ilimitadas. Lembrem-se da maneira inepta como se diz que os cristãos possuem todas as coisas, conhecem todas as coisas, e podem fazer todas as coisas. Lembrem-se da contradição verbal entre Paulo e Tiago, e do aparente confronto de algumas partes dos escritos de Paulo com as doutrinas gerais e as finalidades do cristianismo. Eu poderia prolongar indefinidamente a enumeração, e quem não vê que temos de limitar todas estas passagens pelos conhecidos atributos de Deus, de Jesus Cristo, e da natureza humana, e pelas circunstâncias sob as quais foram escritas, de forma a dar à língua um sentido totalmente diferente do que implicaria, caso tivesse sido aplicado a seres diferentes, ou usadas em diferentes ligações.

O suficiente foi dito para mostrar, em que sentido fazemos uso da razão para interpretar as Escrituras. A partir de uma variedade de interpretações possíveis, selecionamos aquela que está de acordo com a natureza do assunto e com o estado do escritor, com a ligação da passagem, com a cepa geral das Escrituras, com o caráter e a vontade conhecidos de Deus, e com as leis óbvias e reconhecidas da natureza. Em outras palavras, estamos convencidos de que Deus nunca contradiz, em uma parte das escrituras, o que ele ensina em outra; e nunca contradiz, na revelação, o que ele ensina em suas obras e em sua providência. E nós, por isso, desconfiamos de cada interpretação, que, após deliberada atenção, parece repugnante a qualquer verdade estabelecida. Raciocinamos a respeito da Bíblia precisamente como os cidadãos fazem a respeito da constituição sob a qual vivemos,‎ ‏que,‭ ‬vocês sabem,‭ ‬estão acostumados a limitar uma provisão daquele venerável instrumento a outros,‭ ‬e a fixar o preciso sentido de suas partes,‭ ‬apelando para o seu espírito geral,‭ ‬às intenções de seus autores,‭ ‬e aos sentimentos,‭ ‬impressões e circunstâncias predominantes no tempo no qual foi escrita.‭ ‬Sem esses princípios de interpretação,‭ ‬francamente reconhecemos,‭ ‬que não podemos defender a autoridade divina das Escrituras.‭ ‬Neguem-nos essa latitude,‭ ‬e abandonaremos este livro a seus inimigos.

Não anunciamos esses princípios como se fossem originais,‎ ‏ou peculiares a nós.‭ ‬Todos os cristãos ocasionalmente os adotam,‭ ‬não excluindo aqueles que mais veementemente se opõem a eles,‭ ‬quando esses princípios ameaçam algum artigo favorito de seu credo.‭ ‬Todos os cristãos são compelidos a usá-los em suas controvérsias com os‭ “‬infiéis‭”‬.‭ ‬Todos os grupos os empregam em suas guerras uns com os outros.‭ ‬Todos têm a disposição de usar a razão,‭ ‬quando esta pode ser usada em favor de seu próprio grupo,‭ ‬e apenas reclamam dela quando suas armas os ferem.‭ ‬Ninguém raciocina mais freqüentemente que aqueles de quem diferimos.‭ ‬É impressionante o tecido que fabricam de algumas poucas passagens a respeito da queda de nossos primeiros pais‭; ‬e como ingenuamente extraem,‭ ‬de passagens separadas,‭ ‬doutrinas misteriosas a respeito da natureza divina.‭ ‬Não os culpamos por raciocinarem da forma como fazem,‭ ‬mas por violarem as regras fundamentais do raciocínio,‭ ‬por sacrificarem aquilo que é claro em favor do obscuro,‭ ‬e por sacrificarem o estilo das Escrituras em favor de um número insuficiente de textos isolados.

Opomos-nos fortemente ao modo desdenhoso no qual nossos adversários falam a respeito da razão humana,‎ ‏porque isso leva,‭ ‬cremos,‭ ‬ao ceticismo universal.‭ ‬Se a razão é tão terrivelmente obscurecida pela queda,‭ ‬a ponto de seus raciocínios decisivos a respeito de religião serem indignos de confiança,‭ ‬então o Cristianismo,‭ ‬e até mesmo a teologia natural,‭ ‬deve ser abandonado‭; ‬pois a existência e veracidade de Deus,‭ ‬e a originalidade divina do Cristianismo,‭ ‬são conclusões da razão,‭ ‬e devem permanecer ou cair com ela.‭ ‬Se a revelação estiver em guerra com essa faculdade,‭ ‬ela se subverte,‭ ‬pois a grande questão de sua verdade é deixada por Deus para ser decidida no tribunal da razão.‭ ‬É digno de observação quão semelhantes são as abordagens dos fanáticos e dos céticos.‭ ‬Ambos aniquilariam nossa confiança em nossas faculdades,‭ ‬e ambos atiram dúvida e confusão sobre toda verdade.‭ ‬Honramos muito a revelação para torná-la antagônica à razão,‭ ‬ou para crer que ela nos chame a renunciar nossos maiores poderes.


Reconhecemos que o uso da razão na religião seja acompanhado de perigo. Mas peçamos a qualquer homem honesto para olhar para a história da igreja e dizer se a renúncia à razão não foi ainda mais perigoso.‎ ‏Além disso,‭ ‬é um fato claro que os homens raciocinam tão erroneamente sobre todos os assuntos quanto sobre religião. Quem não conhece as teorias selvagens e sem fundamentação, que têm sido divulgadas nas ciências físicas e políticas? Mas quem chegou a supor que tivéssemos de deixar de exercer a razão a respeito da natureza e da sociedade, por os homens terem cometido erros para explicá-las por eras? Reconhecemos, que as paixões continuamente e, por vezes, fatalmente, perturbam a faculdade racional nas suas investigações a respeito da revelação. Os ambiciosos dão um jeito de encontrar doutrinas na Bíblia que favoreçam seu amor ao poder.‭ ‬Os tímidos e desanimados descobrem lá um sistema sombrio,‭ ‬e os místicos e fanáticos descobrem uma teologia visionária.‭ ‬Os corruptos podem encontrar exemplos ou declarações sob as quais constroem a esperança de um arrependimento tardio,‭ ‬ou de aceitação em termos fáceis.‭ ‬Mas as paixões não distraem a razão nos assuntos religiosos,‭ ‬não mais do que em outros assuntos,‭ ‬que chamam o forte e geral interesse‭; ‬e esta faculdade,‭ ‬conseqüentemente,‭ ‬não deve ser renunciada na religião,‭ ‬a não ser que estejamos preparados para descartá-la universalmente.‭ ‬A verdadeira inferência vinda dos erros quase intermináveis,‭ ‬que puseram a teologia nas trevas,‭ ‬é,‭ ‬não que devamos neglicenciar e depreciar nossos poderes,‭ ‬mas exercê-los mais pacientemente,‭ ‬circunspectamente,‭ seriamente‬. Os piores erros, afinal, depois de terem se espalhado naquela igreja, que condena a razão, e exige de seus membros fé implícita. As mais perniciosas doutrinas são fruto dos tempos mais sombrios, quando a credulidade geral encorajou os homens maus e entusiastas a abordarem seus sonhos e invenções, e a abafarem as fracas manifestações da razão, pelas ameaças de perdição eterna. Digamos o que quisermos, Deus nos deu uma natureza racional, e vai chamar-nos para prestarmos conta dela. Nós podemos deixá-la dormir, mas fazemo-lo por nossa conta e risco. A revelação é dirigido a nós, como seres racionais. Podemos desejar, em nossa preguiça, que Deus tivesse-nos dado um sistema, que não exigisse comparação, limitação, e inferência. Mas tal sistema estaria em desacordo com todo o caráter de nossa existência atual; e é parte da sabedoria tomar a revelação como nos é dada, e interpretá-la com a ajuda das faculdades, que supõe-lo por toda parte, e sobre o qual se assenta.


Para as opiniões dadas agora, uma objeção é comumente feita a partir do caráter de Deus. Somos informados, que Deus sendo infinitamente mais sábio que os homens, suas descobertas ultrapassarão a razão humana. Em uma revelação de tal mestre, devemos esperar proposições, que não podem ser conciliadas umas com as outras, e que podem parecer contradizer verdades estabelecidas, e força-nos a não questioná-las ou explicá-las, mas crer, e adorar, e submeter nossas débeis e carnais razões à Palavra Divina. A esta objeção, temos duas respostas curtas. Dizemos, em primeiro lugar, que é impossível que um mestre de infinita sabedoria expusesse aqueles, a quem ele ensina, ao erro infinito. Mas, uma vez que se admita, que proposições, que em seu sentido literal parecem claramente repugnantes umas às outras, ou a qualquer verdade conhecida, ainda devam ser recebidas e entendidas literalmente, que limite possível podemos estabelecer para a crença em contradições? Que abrigo temos contra o fanatismo selvagem, que sempre pode citar passagens, que, em seu sentido literal e óbvio, dá apoio às suas extravagâncias? Como podem os protestantes escapar da transubstanciação, uma doutrina mais claramente nos ensinada, se a submissão da razão, agora sustentada, é um dever? Como podemos sequer nos apegarmos à verdade da revelação, se uma aparente contradição pode ser verdade, como pode outra, e a proposição, que o cristianismo é falso, embora envolvendo incoerência, ainda pode ser uma verdade?

Respondemos novamente, que, se Deus é infinitamente sábio, ele não pode brincar com os entendimentos de Suas criaturas. Um mestre sábio descobre sua sabedoria adaptando-se às capacidades dos seus alunos, não em perplexa-los com o que é ininteligível, não em angustiá-los com aparentes contradições, e não em preenchê-los com uma desconfiança cética dos seus próprios poderes. Um mestre infinitamente sábio, que conhece a exata medida das nossas mentes e, o melhor método de esclarecê-las, superará todos os outros instrutores trazendo verdade à nossa compreensão, e, mostrando sua beleza e harmonia. Deveríamos, aliás, esperar ocasional obscuridade em um livro como a Bíblia, que foi escrito para séculos passados e futuros, bem como para o presente. Mas a sabedoria de Deus é uma promessa, que o que for necessário para nós, e o que for necessário para a salvação, é revelado muito claramente para não ser mal compreendido, e muito consistentemente para que não seja questionado, por uma mente sã e honesta. Não é a marca da sabedoria usar uma terminologia ininteligível, comunicar o que está acima das nossas capacidades, perturbar e confundir o intelecto pelas aparências da contradição. Honramos muito nosso Mestre Celestial para que lhe atribuamos uma revelação desse tipo. Uma revelação é um dom da luz. Não pode aumentar nossa escuridão, e multiplicar nossas perplexidades.

II. Tendo assim declarado os princípios segundo os quais interpretamos as Escrituras, avanço agora para a segunda parte deste discurso, que é, declarar alguns dos pontos de vista que temos e que derivam daquele livro sagrado, em particular aqueles que nos distinguem de outros cristãos.

1. Em primeiro lugar, cremos na doutrina da unicidade de Deus, ou que há um Deus e um só. A esta verdade damos importância infinita, e sentimo-nos obrigados a dar-lhe atenção, para que nenhum homem nos afaste dela por meio de vã filosofia. A proposição de que há um Deus, parece-nos extremamente clara. Entendemos por isso, que há um ser, uma mente, uma pessoa, um agente inteligente, e apenas um, a quem pertencem perfeição e domínio infinitos. Concebemos que estas palavras poderiam ter transmitido nenhum outro significado ao povo simples e inculto que foram escolhidos para ser os depositários desta grande verdade, e que eram absolutamente incapazes de compreender essas distinções entre ser e pessoa, que a sagacidade de eras posteriores descobriram. Não encontramos nenhuma intimação de que esta linguagem devesse ser tomada em um sentido incomum, ou de que a unicidade de Deus fosse uma coisa completamente diferente da unicidade de outros seres inteligentes.

Nos opomos à doutrina da Trindade, que, ainda que reconhecendo em palavras, subverte em efeito, a unicidade de Deus. De acordo com esta doutrina, há três pessoas iguais e infinitas, possuindo divindade suprema, chamadas de Pai, Filho e Espírito Santo. Cada uma dessas pessoas, como descrito por teólogos, tem sua própria consciência, vontade, e percepções particulares. Eles amam-se, conversam um com o outro, e deleitam-se mutuamente em sua companhia. Eles desempenham diferentes partes na redenção do homem, cada um com seu ofício adequado, e nenhum fazendo o trabalho do outro. O Filho é mediador e não o Pai. O pai manda o Filho, e ele próprio não é enviado, nem está consciente, tal como o Filho, de tomar carne. Aqui, então, temos três agentes inteligentes, possuidores de diferentes consciências, diferentes vontades, e diferentes percepções, realizando diferentes ações, e mantendo diferentes relações; e se estas coisas não implicam e constituem três mentes ou seres, estamos profundamente perdidos quanto a saber como três mentes ou seres são formados. São as diferenças de propriedades, e ações, e de consciência, que nos levam à crença de diferentes seres inteligentes, e, se esta marca falha-nos, todo o nosso conhecimento desaba; não temos nenhuma prova de que todos os agentes e pessoas no universo não sejam uma única e mesma mente. Quando tentamos conceber três Deuses, não podemos fazer nada mais do que representar para nós mesmos três agentes, distintos um do outro por marcas e peculiaridades semelhantes àquelas que separam as pessoas da Trindade; e quando cristãos comuns ouvem a respeito dessas pessoas como se elas conversassem uma com a outra, amassem-se uma a outra, e realizasse diferentes ações, como podem evitar pensar nelas como sendo diferentes seres, diferentes mentes?

Nós, então, com toda seriedade, mas sem censurar os nossos irmãos, protestamos contra a doutrina da Trindade como sendo irracional e não baseada nas escrituras. "Para nós," como para o Apóstolo e os cristãos primitivos, "existe um Deus, o Pai". Com Jesus, adoramos o Pai, como o único e verdadeiro Deus vivo. Espantamo-nos, que qualquer homem possa ler o Novo Testamento, e evitar a convicção de que apenas o Pai seja Deus. Ouvimos continuamente nosso Salvador apropriar este caráter ao Pai. Encontramos o Pai continuamente distinguido de Jesus por este título. "Deus enviou seu Filho". "Deus ungiu Jesus". Agora, quão singular e inexplicável é essa fraseologia, que preenche o Novo Testamento, se este título pertence igualmente a Jesus, e se um objetivo principal deste livro é revelar-lhe como Deus, como co-participante em pé de igualdade com o Pai na divindade suprema! Desafiamos nossos oponentes a apontarem uma passagem no Novo Testamento, onde a palavra Deus signifique três pessoas, onde não esteja limitada a uma pessoa, e onde, salvo se retirada de seu sentido usual pela conexão, não signifique o Pai. Pode uma prova mais forte ser dada, de que a doutrina das três pessoas na divindade não é uma doutrina fundamental do Cristianismo?

Esta doutrina, se fosse verdadeira, deveria, a partir de sua dificuldade, singularidade e importância, ter sido estabelecida com grande clareza, mantida com muito cuidado, e afirmada com toda precisão possível. Mas onde é que essa afirmação aparece? Das muitas passagens que tratam de Deus, nós pedimos uma, uma só, na qual somos informados, que ele seja um ser triplo, ou que ele seja três pessoas, ou que ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Pelo contrário, no Novo Testamento, onde, pelo menos, poderíamos esperar afirmações expressas dessa natureza, declara-se que Deus é um, sem o mínimo esforço para impedir a aceitação das palavras em seu sentido comum; e dele sempre se diz e a ele sempre se dirige no número singular, ou seja, em linguagem universalmente entendida como se referindo a uma única pessoa, e para a qual nenhuma outra idéia poderia ter sido anexado, sem expressar uma admoestação. Tão inteiramente se abstêm as Escrituras de afirmar a Trindade, que quando os nossos adversários colocam-na em seus credos e doxologias, eles são obrigados a abandonar a Bíblia, e a inventar formas de expressão completamente não sancionadas pelo fraseologia das Escrituras. Que uma doutrina tão estranha, tão suscetível a má interpretação, tão fundamental como dizem ser, e que necessita desta cuidadosa exposição, é deixada de modo tão indefinido e desprotegido, a ser definida por inferência, e de ser caçada por meio de partes distantes e desligadas da Escritura, é uma dificuldade, que, pensamos, nenhum engenho pode explicar.

Temos uma outra dificuldade. O Cristianismo, devemos lembrar, foi plantado e cresceu no meio de inimigos, que não negligenciaram nenhuma parte censurável do sistema, e que devem ter se fixado com grande seriedade sobre uma doutrina que envolve contradições tão óbvias como a Trindade. Não podemos conceber uma opinião, contra o qual os judeus, que se orgulhavam de sua adesão à unicidade de Deus, teria levantado um igual clamor. Agora, como acontece, que nos escritos apostólicos, que se referem tanto às acusações contra o cristianismo, e às controvérsias que surgiram desta religião, não se diga uma única palavra, que implique que objeções tenham sido feitas contra o Evangelho por causa da doutrina Trindade, nenhuma palavra é proferida em sua defesa e explicação, nem uma palavra para resgatá-la da recriminação e engano? Este argumento tem quase a força de demonstração. Estamos convencidos que tivessem três pessoas divinas sido anunciada pelos primeiros pregadores do cristianismo, todas iguais, e todos infinitos, um dos quais foi o próprio Jesus que por fim morreu numa cruz, esta peculiaridade do cristianismo teria absorvido quase todos as outras, e o grande labor dos Apóstolos teria sido repelir os ataques contínuos, que isso teria despertado. Mas o fato é, que nem mesmo um sussurro de oposição ao cristianismo, por conta disso, chega a nossos ouvidos da idade apostólica. Nas Epístolas não vemos um rastro de polêmica causada pela Trindade.

Temos outras objeções a esta doutrina, traçadas a partir de sua influência prática. Consideramo-la como desfavorável à devoção, por dividir e distrair a mente em sua comunhão com Deus. É uma grande excelência da doutrina da unicidade de Deus, que ela oferece a nós UM OBJETO de suprema devoção, adoração, e amor, Um Pai Infinito, um Ser de seres, um original e fonte, a quem podemos remeter todo o bem, no qual todos os nossos poderes e afetos podem ser concentrados, e cuja natureza adorável e venerável pode permear todos os nossos pensamentos. A verdadeira piedade, quando dirigida a uma Deidade indivisa, tem uma pureza, uma singeleza, mais favorável ao espírito e amor religiosos. Agora, a Trindade apresenta diante de nós três objetos distintos de adoração suprema; três pessoas infinitas, com igualdade de créditos em nossos corações; três agentes divinos, realizando diferentes ofícios, e que devem ser reconhecidos e adorados em diferentes relações. E é possível, nós perguntamos, que a fraca e limitada mente do homem possa juntar-se a esses com a mesma força e alegria, como o Infinito Pai Único, a única Primeira Causa, em quem todas as bênçãos da natureza e da redenção reúnem-se como seu centro e origem? A devoção não deve ser distraída pela igual e rival exigência de três pessoas iguais, e não deve o culto dos cristãos conscienciosos e compatíveis ser perturbado por tal apreensão, a fim de que não lhe retire um ou outro destes, a sua devida proporção de homenagem?

Pensamos também, que a doutrina da Trindade prejudique a devoção, não só por incluir outros objetos de adoração além do Pai, mas por tomar do Pai o supremo afeto, que é devidamente seu, e transferi-la para o Filho. Este é mais um importante ponto de vista. Que Jesus Cristo, se exaltado à Divindade infinita, deveria ser mais interessante que o Pai, é precisamente o que se poderia esperar da história e dos princípios da natureza humana. Os homens querem um objeto de culto como eles mesmos, e o grande segredo da idolatria reside nesta tendência. Um Deus, revestido de nossa forma, e que partilha de nossos desejos e tristezas, fala a nossa débil natureza mais fortemente que um Pai no céu, um espírito puro, invisível e sem igual, salvo pela mente reflexiva e pura. -- Entendemos, também, que os ofícios peculiares atribuídos a Jesus pela teologia popular, torná-o a mais atraente pessoa na Divindade. O Pai é o depositário da justiça, o defensor dos direitos, o vingador das leis da Divindade. Por outro lado, o Filho, o brilho da misericórdia divina, permanece entre a enraivecida Deidade e a culpada humanidade, expõe sua mansa cabeça às tempestades, e seu compassivo coração à espada da justiça divina, assume toda a nossa carga de punição, e adquire com seu sangue cada bênção que desce do céu. Será preciso indicar o efeito dessas representações, especialmente nas mentes comuns, para quem o cristianismo foi concebido, e que visa trazer ao Pai como sendo o mais belo ser? Cremos que o culto de um Deus que sangra e sofre tende fortemente a absorver a mente e a distraí-la de outros objetos, assim como a ternura humana da Virgem Maria deu-lhe um lugar tão conspícuo nas devoções da Igreja de Roma. Acreditamos, também, que este culto, embora atraente, não seja mais adequado para espiritualizar a mente, que desperta desejos humanos, em vez de profunda veneração das perfeições morais de Deus, que é a essência da piedade.

2. Tendo, pois, dado as nossas opiniões da unicidade de Deus, continuo, em segundo lugar, a observar, que acreditamos na unicidade de Jesus Cristo. Nós acreditamos que Jesus é uma mente, uma alma, um ser, tão único como nós somos, e de igual modo distinto do Deus único. Queixamo-nos da doutrina da Trindade, que, não satisfeita com tornar Deus três seres, torna Jesus Cristo dois seres, e assim introduz confusão infinita em nossas concepções acerca do seu caráter. Esta corrupção do cristianismo, tanto repugnante ao senso comum quanto à linha geral da Escritura, é uma notável prova do poder de uma falsa filosofia em desfigurar a simples verdade de Jesus.

De acordo com essa doutrina, Jesus Cristo, em vez de ser uma mente, um princípio inteligente consciente, a quem podemos compreender, é constituído por duas almas, duas mentes: uma divina, a outra humana; uma fraca, a outra onipotente; uma ignorante, a outra onisciente. Agora, afirmamos que isso é tornar Cristo dois seres. Denominá-lo uma pessoa, um ser, e ainda supor que ele seja constituído de duas mentes, infinitamente diferente uma da outra, é abusar e confundir a língua, e lançar escuridão sobre todas as nossas concepções da natureza inteligente. Segundo a doutrina comum, cada uma dessas duas mentes em Cristo tem a sua própria consciência, a sua própria vontade, suas próprias percepções. Elas não têm, na verdade, nenhuma propriedade comum. A mente divina não sente nenhum dos desejos e tristezas da mente humana, e a humana está infinitamente afastada da perfeição e felicidade da divina. Pode-se conceber dos seres mais distintos no universo? Sempre pensamos que uma pessoa fosse constituída e distinta por uma consciência. A doutrina, que uma e a mesma pessoa tenha duas consciências, duas vontades, duas almas, infinitamente diferentes umas das outras, pensamos ser um enorme imposto sobre a credulidade humana.

Dizemos que, se uma doutrina, tão estranha, tão difícil, tão afastada de todas as anteriores concepções dos homens, é na verdade uma parte e uma parte essencial da revelação, deve ser ensinada com grande distinção, e pedimos aos nossos irmãos que apontem alguma passagem simples e direta, onde se diga que Cristo é composto de duas mentes infinitamente diferente, ainda que constitua uma pessoa. Nós não encontramos nenhuma. Outros cristãos, com efeito, dizem-nos, que esta doutrina é necessária para a harmonia das Escrituras, que alguns textos afirmam ser Jesus Cristo homem, e outras atribuem a ele propriedades divinas, e que para conciliá-las, devemos supor duas mentes, às quais estas propriedades possam ser submetidas. Em outras palavras, com o objetivo de conciliar certas passagens difíceis, que só uma crítica justa pode, em grande grau, se não na totalidade, explicar, temos de inventar uma hipótese muito mais difícil, envolvendo bruto absurdo. Temos de encontrar o nosso caminho para sair de um labirinto, por uma pista que conduz-nos em labirintos infinitamente mais inextricáveis.

Certamente, se Jesus Cristo pensava que ele consistia de duas mentes, e que esta era uma característica principal de sua religião, sua fraseologia a respeito de si mesmo teria sido colorida por esta particularidade. A linguagem universal dos homens está enquadrada na idéia de que uma pessoa é uma pessoa e uma alma; e quando a multidão ouviu esta linguagem vinda dos lábios de Jesus, eles devem tê-la entendido em seu senso comum, e devem ter entendido tudo o que ele disse como se referindo a uma única alma, a menos que expressamente instruídos a interpretá-lo de maneira diferente. Mas onde encontramos tal instrução? Onde se encontra, no Novo Testamento, a fraseologia que abunda nos livros trinitaristas, e que necessariamente vem da doutrina das duas naturezas em Jesus? Onde esse mestre divino diz: "Isto eu falo como Deus, e isto como homem; isto é verdade apenas a respeito de minha mente humana, isto apenas de minha mente divina"? Onde encontramos nas Epístolas traços desta estranha fraseologia? Em lugar nenhum. Não foi necessário naqueles dias. Foi exigida pelos erros de uma era posterior.

Cremos, então, que Cristo é uma mente, um ser, e, adiciono, um ser distinto do Deus único. Esse Cristo não é o Deus único, não é o mesmo ser com Deus, é uma inferência necessária de nosso ponto anterior, no qual vimos que a doutrina das três pessoas em Deus é uma ficção. Mas a respeito de um tema tão importante, adiciono algumas observações. Desejamos que aqueles de quem diferimos, levassem em consideração um fato importante. Jesus, em sua pregação, continuamente falou de Deus. Essa palavra esteve sempre em sua boca. Perguntamos, ele, com essa palavra, refere-se a si mesmo? Respondemos: nunca. Ao contrário, ele claramente distingue entre Deus e si próprio, e da mesma maneira o fazem seus discípulos. Como podemos reconciliar isso com a idéia de que a manifestação de Cristo, como Deus, fosse um objetivo básico do Cristianismo, nossos adversários devem determinar.

Se examinamos as passagens nas quais Jesus é distinto de Deus, veremos, que elas não só falam dele como sendo outro ser, mas parecem expressar sua inferioridade. Continuamente fala-se dele como sendo o Filho de Deus, enviado por Deus, recebendo todo o seu poder de Deus, realizando milagres porque Deus estava com ele, julgando justamente porque Deus o ensinara, recebendo nossa crença porque foi ungido e selado por Deus, e não tinha a capacidade em si mesmo de fazer nada. O Novo Testamento está repleto desta linguagem. Agora perguntamos, que impressão esta linguagem intencionava dar? Poderia qualquer um que a ouviu ter imaginado que Jesus fosse o mesmo Deus de quem ele tão industriosamente declarava ser inferior; o mesmo Ser por quem ele foi enviado, e de quem professava ter recebido sua mensagem e poder? Lembremo-nos que o nascimento humano, e forma corporal, e circunstâncias humildes, e sofrimentos mortais de Jesus, devem todos ter preparado os homens para interpretarem, da maneira mais desqualificada, a linguagem na qual sua inferioridade para com Deus foi declarada. Por que, então, foi essa linguagem usada tão continuamente, e sem limitação, se Jesus era a Deidade Suprema, e se esta verdade era uma parte essencial de sua religião? Eu repito, a condição humana e os sofrimentos de Cristo tendiam fortemente a excluir das mentes dos homens a idéia de sua Divindade; e, claro, deveríamos esperar encontrar no Novo Testamento um cuidado e esforço perpétuos para neutralizar esta tendência, de declará-lo como o mesmo ser com o Pai, se esta doutrina fosse, como fingem ser, a alma e base de sua religião. Deveríamos esperar encontrar a fraseologia das Escrituras moldadas por essa doutrina, ouvir familiarmente a respeito de Deus o Filho, de nosso Senhor Deus Jesus, e ouvir que para nós há um Deus, Jesus. Mas, em vez disso, a inferioridade de Cristo se difunde pelo Novo Testamento. Não é apenas implícita na fraseologia geral, mas repetida e decididamente expressa, e não acompanhada de qualquer admoestação que previna sua aplicação a toda a sua natureza. Poderia, então, ter sido a intenção dos autores sagrados exibir Jesus como o Supremo Deus?

Estou ciente de que essas observações serão contrapostas a dois ou três textos, nos quais Cristo é chamado de Deus, e por uma classe de passagens, não muito numerosas, nas quais propriedades divinas são atribuídas a ele. A essas oferecemos uma resposta simples. Dizemos que um dos mais estabelecidos e evidentes princípios de crítica é que a linguagem deve ser explicada de acordo com as propriedades conhecidas do assunto ao qual é aplicada. Todos sabem que as mesmas palavras expressam idéias muito diferentes, quando usadas em relação a diferentes seres. Assim, Salomão CONSTRÓI o templo de maneira diferente da do arquiteto que ele empregou; e Deus ARREPENDE-SE de maneira diferente do homem. Afirmamos que as propriedades e circunstâncias conhecidas de Cristo, seu nascimento, sofrimentos, e morte, seu constante hábito de falar de Deus como um ser distinto de si mesmo, o fato de ele orar a Deus, o fato de ele atribuir a Deus todo o seu poder e ofícios, essas propriedades reconhecidas de Cristo, dizemos, obrigam-nos a interpretar as comparativamente poucas passagens que são usadas para torná-lo o Deus Supremo, de uma maneira consistente com sua natureza distinta e inferior. É nosso dever explicar tais textos pela regra que aplicamos a outros textos, nos quais seres humanos são chamados de deuses, e onde é dito que partilham da natureza divina, que sabem e possuem todas as coisas, e que estão repletos da plenitude de Deus. Essas últimas passagens não hesitamos em modificar, restringir, e desviar de seu sentido mais óbvio, porque esse sentido é oposto às propriedades conhecidas dos seres aos quais se referem; e afirmamos que aderimos ao mesmo princípio, e não usamos uma latitude maior, ao explicar, como fazemos, as passagens que pensam apoiar a divindade de Cristo.

Os trinitaristas professam derivar importantes vantagens de sua maneira de ver Cristo. Ela oferece-lhes, eles dizem, uma expiação infinita, pois mostra-lhes um ser infinito sofrendo por seus pecados. A confiança com a qual esta falácia é repetida nos assombra. Quando pressionados pela pergunta, de se eles realmente acreditam que o Deus infinito e imutável sofreu e morreu na cruz, eles reconhecem que isso não seja verdade, mas que apenas a mente humana de Cristo passou pelas dores da morte. Como temos, então, um sofredor infinito? Esta linguagem nos parece uma imposição sobre mentes comuns, e muito derrogatória à justiça de Deus, como se esse atributo pudesse ser satisfeito por um sofisma e uma ficção.

Também nos dizem que Cristo é um objeto mais interessante, que seu amor e misericórdia são mais sentidos, quando ele é visto como o Deus Supremo, que deixou sua glória para tomar a forma humana e para sofrer pelo homem. Não negamos que os trinitaristas sejam fortemente movidos por esta representação; mas pensamos que suas emoções se baseiem numa compreensão errônea de suas próprias doutrinas. Eles falam da segunda pessoa da Trindade deixando sua glória e o seio do Pai, para visitar e salvar o mundo. Mas essa segunda pessoa, sendo o Deus imutável e infinito, foi evidentemente incapaz de abandonar sua perfeição e felicidade. No momento no qual tomou carne, ele era tão intimamente presente com seu Pai quanto antes, e igualmente com seu Pai preenchia o céu, a terra, e a imensidão. Esses trinitaristas reconhecem, e ainda proferem ser tocados pela surpreendente humilhação deste ser imutável! Mas não apenas sua doutrina, quando plenamente explicada, reduz a humilhação de Cristo a uma ficção, ela quase que completamente destrói as impressões com as quais sua cruz deveria ser vista. De acordo com sua doutrina, Cristo comparativamente não foi sofredor de maneira alguma. É verdade, sua mente humana sofreu; mas essa, eles dizem, era uma parte infinitamente pequena de Jesus, não representando uma proporção maior em sua natureza plena, que um fio de cabelo de nossas cabeças comparado ao todo de nossos corpos. A mente divina de Cristo, aquela que era mais propriamente ele, era infinitamente feliz, no próprio momento do sofrimento de sua natureza humana. Enquanto pendurado na cruz, ele era o ser mais feliz do universo, tão feliz quanto o Pai eterno, a ponto de suas dores, comparadas a sua felicidade, serem nada. Isso os trinitaristas reconhecem, e devem fazê-lo. Deriva necessariamente da imutabilidade da natureza divina, que eles atribuem a Cristo; então seu sistema, quando visto justamente, rouba o interesse de sua morte, enfraquece nossa simpatia para com seu sofrimento, e é, acima de tudo, muito desfavorável a um amor a Cristo, fundamentado num senso de seus sacrifícios pela humanidade. Estimamos nossas próprias opiniões como sendo vastamente mais comoventes. É nossa crença que a humilhação de Cristo foi real e plena, que o Salvador por inteiro, e não uma parte dele, sofreu, que sua crucificação foi uma cena de profunda e inconfundível agonia. Enquanto estamos ao reder de sua cruz, nossas mentes não são distraídas, nem nossa sensibilidade enfraquecida por contemplá-lo como se fora composto por mentes inconsistentes e infinitamente diferentes, e como se tivesse felicidade infinita. Reconhecemos no Jesus mortal apenas uma mente. Isto, pensamos, rende aos seus sofrimentos, e à sua paciência e amor em suportá-los, incomparavelmente mais impressão e comoção que o sistema ao qual nos opomos.

3. Tendo dado nossa crença a respeito de dois grandes pontos, nomeadamente, de que há um Deus, e que Jesus Cristo é um ser distinto de, e inferior a, Deus, agora prossigo a outro ponto, sobre o qual pomos ainda mais ênfase. Cremos na PERFEIÇÃO MORAL DE DEUS. Não consideramos nenhuma parte da teologia tão importante quanto aquela que trata do caráter moral de Deus; e valorizamos nossa visão do Cristianismo principalmente por afirmar seus amáveis e veneráveis atributos.

Pode-se dizer que, a respeito deste assunto, todos os cristãos concordam, que todos atribuem ao Ser Supremo justiça, bondade, e santidade infinitas. Respondemos que é muito possível falar de Deus magnificentemente, e pensar nele desprezivelmente; aplicar a sua pessoa epítetos elevados, e a seu governo, princípios que o tornam odioso. Os pagãos chamavam Júpiter de o maior e melhor, mas sua história era obscurecida com crueldade e luxúria. Não podemos julgar as reais idéias do homem a respeito de Deus por causa de sua linguagem geral, pois em todas as eras têm esperado acalmar a Deidade por meio de adulação. Temos de explorar suas opiniões particulares de seus propósitos, dos princípios de seu governo, e de sua disposição para com suas criaturas.

Entendemos que os cristãos têm geralmente se voltado a uma visão muito injuriosa do Ser Supremo. Eles têm freqüentemente sentido como se Deus tivesse se elevado, por causa de sua grandeza e soberania, acima dos princípios de moralidade, acima daquelas eternas leis de eqüidade e retidão, às quais todos os outros seres estão sujeitos. Cremos que em nenhum ser haja um senso de retidão tão forte, tão onipotente, quanto em Deus. Cremos que sua onipotência esteja inteiramente submissa a suas percepções de retidão; e esta é a base de nossa piedade. Não é porque ele é meramente nosso Criador, mas porque ele nos criou para propósitos bons e santos; não é por sua vontade ser irresistível, mas por sua vontade ser a perfeição da virtude, que rendemos-lhe lealdade. Não podemos nos prostrar diante de um ser, independentemente de quão grande e poderoso seja, que governe tiranicamente. Não respeitamos nada mais além da excelência, seja na terra ou no céu. Veneramos não a pompa do trono de Deus, mas a eqüidade e bondade sobre a qual está estabelecido.

Cremos que Deus é infinitamente bom, gentil, benevolente, no sentido próprio dessas palavras; bom em disposição, assim como em ação; bom, não para com poucos, mas para com todos; bom para com cada indivíduo, assim como para com o sistema geral.

Cremos, também, que Deus é justo; mas nunca esquecemos que sua justiça é a justiça de um ser bom, habitando na mesma mente da, e agindo em harmonia com, a perfeita benevolência. Por esse atributo, entendemos o respeito infinito de Deus à virtude ou dignidade moral, expressa em um governo moral; ou seja, dando leis excelentes e justas, e conferindo tais recompensas, e infligindo tais punições, que sejam melhor apropriadas para garantir sua observação. A justiça de Deus tem como seu fim a mais elevada virtude da criação, e pune apenas com esse objetivo, e assim coincide com a benevolência; pois virtude e felicidade, apesar de não serem o mesmo, estão inseparavelmente associadas.

A justiça de Deus vista assim, parece para nós estar em perfeita harmonia com sua misericórdia. De acordo com os sistemas de teologia predominantes, esses atributos são tão discordantes e chocantes que reconciliá-los é a tarefa mais difícil, e a conquista mais maravilhosa, de infinita sabedoria. Para nós parecem ser amigos íntimos, sempre em paz, respirando o mesmo espírito, e buscando o mesmo fim. Pela justiça de Deus, entendemos não uma compaixão instintiva e cega, que perdoa sem reflexão, e sem respeitar os interesses da virtude. Isso, reconhecemos, seria incompatível com a justiça, e também com a benevolência iluminada. A misericórdia de Deus, como a entendemos, deseja fortemente a felicidade do culpado, mas apenas por meio de sua penitência. Ela leva em consideração o caráter tão verdadeiramente quanto sua justiça. Ela finaliza a punição, e muito sofre, para que o pecador volte aos seus deveres, mas deixa o impenitente e o inflexível com a temerosa punição prometida na Palavra de Deus.

Para dar nossas visões de Deus em uma palavra, cremos em seu caráter Paternal. Atribuímos-lhe não apenas o nome, mas as disposições e princípios de um pai. Cremos que ele tenha uma preocupação de pai com suas criaturas, um desejo de pai com sua melhora, a eqüidade de um pai em proporcionar seus comandos aos poderes deles, a alegria de um pai com seu progresso, a disposição de um pai em receber o penitente, e a justiça de um pai com o incorrigível. Olhamos para este mundo como um lugar de educação, no qual ele treina os homens por meio da prosperidade e adversidade, por meio de ajudas e obstruções, conflitos entre razão e paixão, motivação para o dever e tentações para o pecado, por uma disciplina variada adequada a seres livres e morais para união com ele, e para uma sublime e crescente virtude no céu.

Agora, opomos-nos aos sistemas de religião que prevalecem entre nós, que são antagônicos, em grau maior ou menor, a essas visões purificantes, confortantes, e honráveis de Deus; que tomam de nós nosso Pai celestial, e o substituem com um ser, que não podemos amar se quisermos, e não devemos amar se pudermos. Particularmente nos opomos àquele sistema que usurpa para si mesmo o nome de Ortodoxia, e que está agora industriosamente propagado em todo o nosso país. Este sistema, de fato, toma várias formas, mas em todas elas lança desonra sobre o Criador. De acordo com sua forma antiga e genuína, ensina que Deus nos traz à vida completamente depravados, sendo assim, abaixo dos traços inocentes de nossa infância se esconde uma natureza avessa a tudo o que é bom e propensa a tudo o que é mal, uma natureza que nos expõe ao desagrado e à ira de Deus, mesmo antes de termos adquirido o poder de entender nossos deveres, ou de refletir sobre nossas ações. De acordo com uma exposição mais moderna, ensina que viemos das mãos de nosso Criador com uma constituição tal, e que somos postos sob influências e circunstâncias tais, que tornam certa e infalível a depravação total de cada ser humano, desde o primeiro momento de sua liberdade moral; e também ensina, que a ofensa da criança, que traz à vida esta incessável tendência ao crime, a expõe à sentença de condenação eterna. Agora, de acordo com os mais simples princípios de moralidade, afirmamos, que uma constituição natural da mente, infalivelmente dispondo-a ao mal e ao mal somente, a absolveria da culpa; que dar existência sob tal condição seria uma crueldade impronunciável; e que punir o pecado desta infeliz criança com a ruína eterna, seria um mal incomparável ao despotismo mais impiedoso.

Esse sistema também ensina que Deus seleciona dentre esta massa corrupta um número para ser salvo, e os tira, por meio de uma influência especial, da ruína comum; que o resto da humanidade, apesar de ser deixada sem aquela graça especial que sua conversão exige, é ordenada a se arrepender, sob a pena de agravada punição; e que o perdão é prometido a ela, sob condições que sua própria constituição infalivelmente os dispõe a rejeitar, e ao rejeitar pioram ainda mais as punições do inferno. Estas ofertas de perdão e exortações de correção, a seres nascidos sob uma maldição arruinante, enche nossas mentes de um terror que não temos palavras para expressar.

Que esse sistema religioso não produz todos os efeitos no caráter, que podem ser esperados, alegremente admitimos. É freqüentemente, muito freqüentemente, contrabalançado pela natureza, consciência, senso comum, pela tendência geral da Escritura, pelos exemplos e preceitos leves de Cristo, e pelas muitas declarações positivas a respeito da bondade universal e da perfeita eqüidade de Deus. Mas ainda assim, pensamos ver sua infeliz influência. Tende a desencorajar o tímido, dar desculpas ao mau, alimentar a vaidade do fanático, e a oferecer abrigo aos maus sentimentos do maligno. Ao chocar, como faz, os princípios fundamentais da moralidade, e ao exibir uma Deidade severa e parcial, tende fortemente a perverter a faculdade moral, tende a formar uma religião sombria, proibitiva, e servil, e tende a levar os homens a substituírem a caridade imparcial e terna com a censura, amargura, e perseguição. Pensamos, também, que esse sistema, que começa degradando a natureza humana, pode terminar em orgulho; pois o orgulho emerge de uma consciência de altas distinções, seja lá como forem obtidas, e nenhuma distinção é tão grande quanto aquela feita entre os eleitos e os abandonados por Deus.

As opiniões falsas e desonrosas a respeito de Deus, que agora foram declaradas, sentimos-nos obrigados a resistir incessantemente. Outros erros podemos ignorar com comparativa indiferença. Mas pedimos a nossos oponentes que nos deixem um DEUS, digno de nosso amor e confiança, em quem nossos sentimentos morais possam se regozijar, em quem nossas fraquezas e tristezas possam encontrar refúgio. Abraçamos as perfeições Divinas. Nós as encontramos em toda a criação, as lemos nas Escrituras, vemos uma imagem amável delas em Jesus Cristo; e gratidão, amor, e veneração convidam-nos a afirmá-las. Reprovados, como freqüentemente somos, pelos homens, é nosso consolo e alegria que uma de nossas ofensas principais seja o zelo com o qual defendemos a bondade e retidão de Deus.

4. Tendo assim falado da unicidade de Deus; da unidade de Jesus, e de sua inferioridade com relação a Deus; e das perfeições do caráter Divino; agora prossigo para dar nossas opiniões a respeito da mediação de Cristo, e dos propósitos de sua missão. A respeito do grande objetivo que Jesus veio realizar, parece não haver nenhuma possibilidade de engano. Cremos que ele foi enviado pelo Pai para efetuar a libertação moral ou espiritual da humanidade; ou seja, para resgatar os homens do pecado e de suas conseqüências, e para trazê-los a um estado de eterna pureza e felicidade. Cremos, também, que ele alcança este objetivo sublime por meio de uma variedade de métodos; por suas instruções a respeito da unicidade, do caráter paternal, e do governo moral de Deus, que são admiravelmente apropriadas para chamar o mundo da idolatria e da impiedade, ao conhecimento, amor, e obediência do Criador; por suas promessas de perdão ao penitente, e de ajuda divina àqueles que trabalham pelo progresso em excelência moral; pela luz que lançou no caminho do dever; por seu próprio exemplo imaculado, no qual a beleza e sublimidade da virtude brilham para aquecer e animar, assim como nos guiam rumo à perfeição; por suas ameaças contra a culpa incorrigível; por suas gloriosas descobertas da imortalidade; por seus sofrimentos e morte; por aquele importante evento, a ressurreição, que poderosamente testifica de sua missão divina, e trouxe para os sensos dos homens uma vida futura; por sua contínua intercessão, que obtém para nós ajuda e bençãos espirituais; e pelo poder com o qual ele é investido para erguer os mortos, julgar o mundo, e conferir as recompensas eternas prometidas aos fiéis.

Não temos o desejo de esconder o fato de que existe uma diferença de opinião entre nós, a respeito de uma interessante parte da mediação de Cristo; quero dizer, a respeito da precisa influência de sua morte em nosso perdão. Muitos supõem, que este evento contribui para o nosso perdão, já que foi um meio principal de confirmar sua religião, e de dar a ela um poder sobre a mente; em outras palavras, que ela consegue o perdão ao levar ao arrependimento e virtude, que é a grande e única condição sobre com a qual o perdão é conferido. Muitos de nós estão insatisfeitos com esta explicação, e pensão que as Escrituras atribuem a remissão do pecado à morte de Cristo, com uma ênfase tão peculiar, que devemos considerar este evento como tendo uma influência especial na remoção da punição, apesar de as Escrituras não revelarem a maneira como a morte de Cristo contribui para este fim.

Ainda assim, seja lá como diferimos em explicar a conexão entre a morte de Cristo e o perdão da humanidade, uma conexão que todos nós gratamente reconhecemos, concordamos na rejeição de muitos sentimentos que prevalecem a respeito de sua mediação. A idéia, que é trazida às mentes comuns pelo sistema popular, que a morte de Cristo tenha uma influência em tornar Deus manso, ou misericordioso, em despertar sua bondade para com os homens, rejeitamos com forte reprovação. Estamos felizes em ver que esta noção deveras desonrada é repudiada por cristãos inteligentes daquela classe da qual diferimos. Lembramos, entretanto, que, não há muito tempo atrás, era comum ouvir a respeito de Cristo, como se tivesse morrido para aplacar a ira de Deus, e para pagar o débito dos pecadores para com sua justiça inflexível; e temos uma forte persuasão de que a linguagem dos livros religiosos populares, e o modo comum de declarar a doutrina da mediação de Cristo, ainda comuniquem visões muito degradantes do caráter de Deus. Dão a multidões a impressão de que a morte de Jesus produza uma mudança na mente de Deus com relação ao homem, e que nisto consista sua eficácia. Nenhum erro para nós parece mais pernicioso. Não toleramos nenhuma sombra sobre a pura bondade de Deus. Nós sinceramente afirmamos que Jesus, em vez de trazer à tona, em qualquer grau, a misericórdia do Pai, foi enviado por essa misericórdia para ser nosso Salvador; que ele não é nada para a raça humana, a não ser aquilo que é pela nomeação de Deus; que ele não comunica nada, a não ser aquilo que Deus lhe dá o poder de comunicar; que nosso Pai celestial é original, essencial, e eternamente aplacável, e disposto a perdoar; e que seu amor imutável é a única fonte da qual flui para nós por meio de seu Filho. Entendemos que Jesus seja desonrado, e não glorificado, ao atribuirmos a ele uma influência que encobre o esplendor da benevolência Divina.

Também concordamos na rejeição, como não sendo baseada nas Escrituras e como sendo absurdo, da explicação dada pelo sistema popular da maneira na qual a morte de Cristo garanta perdão aos homens. Este sistema estava acostumado a ensinar como seu princípio fundamental que o homem, tendo pecado contra um Ser infinito, contraiu culpa infinita, e está conseqüentemente exposto a uma pena infinita. Cremos, entretanto, que este modo de raciocinar, se é que pode ser chamado de raciocínio, que ignora a máxima óbvia, que a culpa de um ser deve ser proporcional a sua natureza e poderes, caiu em desuso. Ainda assim, o sistema ensina que o pecado, seja qual for seu grau, exponha à punição eterna, e que toda a raça humana, estando infalivelmente envolvida por sua natureza em pecado, deva esta horrível pena à justiça de seu Criador. Ensina que esta pena não pode ser cancelada, em consistência com a honra da lei divina, a não ser que um substituto seja encontrado para suportá-la ou para sofrer o equivalente. Também ensina que da natureza do caso, nenhum substituto seja adequado para este trabalho, a não ser o próprio infinito Deus; e assim, Deus, em sua segunda pessoa, tomou a natureza humana, para que pudesse pagar à sua própria justiça o débito de punição ao qual os homens estão sujeitos, para que pudesse assim reconciliar o perdão com as exigências e ameaças de sua lei. Tal é o sistema predominante. Agora, para nós, esta doutrina parece carregar em sua testa fortes marcas de absurdo; e afirmamos que o cristianismo não deva ser sobrecarregado com ela, a não ser que ela esteja presente no Novo Testamento plena e expressamente. Pedimos a nossos adversário, então, que apontem algumas passagens claras onde ela seja ensinada. Pedimos um texto, no qual se nos diga que Deus tomou a natureza humana para que cumprisse uma satisfação infinita à sua própria justiça; um texto que nos diga que a culpa humana exige um substituto infinito; que os sofrimentos de Cristo devam sua eficácia ao fato de terem sido suportados por um ser infinito; ou que sua natureza divina dê infinito valor aos sofrimentos da humana. NENHUMA PALAVRA desta descrição pode ser encontrada nas Escrituras; nenhum texto, que dê pelo menos uma dica a respeito dessas estranhas doutrinas. Elas são completamente, cremos, ficções de teólogos. O Cristianismo, em nenhum grau, é responsável por elas. Espantamo-nos com seu predomínio. O que pode ser mais claro do que Deus não poder, de forma alguma sofrer ou receber a pena em lugar de suas criaturas? Quão desonrosa para ele é a suposição que sua justiça é agora tão grave, a ponto de impor castigo infinito pelos pecados de homens frágeis e débeis, e agora tão fácil e flexível, a ponto de aceitar as limitadas dores da alma humana de Cristo, como um equivalente pleno às intermináveis desgraças devidas do mundo? Quão evidente também é que, de acordo com esta doutrina, Deus, em vez de ser pleno de perdão, nunca perdoa; pois parece absurdo falar de homens como tendo sido perdoados, quando a totalidade de sua punição, ou um equivalente dela, é suportada por um substituto? Um esquema mais adequado para obscurecer o brilho do Cristianismo e da misericórdia de Deus, ou menos adequado para dar conforto a uma mente culpada e perturbada, não poderia, pensamos, ser facilmente enquadrado.



Cremos, também, que este sistema seja desfavorável ao caráter. Ele naturalmente leva os homens a pensarem que Cristo veio para mudar a mente de Deus, em vez de vir para mudar a mente deles; que o objetivo maior de sua missão era o de impedir a punição, em vez de comunicar a santidade; e que uma grande parte da religião consiste em menosprezar as boas obras e a virtude humana, pelo propósito de magnificar o valor dos sofrimentos vicários de Cristo. Desta maneira, um senso da infinita importância e da indispensável necessidade do aperfeiçoamento pessoal é enfraquecido, e o louvor da cruz de Cristo parece freqüentemente substituir a obediência a seus preceitos. Para nós, não aprendemos Jesus dessa maneira. Ao mesmo tempo que reconhecemos gratamente, que ele veio para salvar-nos do castigo, acreditamos, que ele foi enviado em uma missão ainda mais nobre, a saber, livrar-nos do próprio pecado, e para nos moldar para uma sublime e celestial virtude. Consideramos-lhe como um Salvador, principalmente porque ele é a luz, médico, e guia da mente escura, doente, e errante. Nenhuma influência no universo parece-nos tão gloriosa, quanto aquela que está sobre o caráter; e nenhuma redenção tão digna de agradecimento, quanto a restauração da alma à pureza. Sem isso, o perdão, se possível, seria de pouco valor. Por que retirar o pecador do inferno, se um inferno é deixado em seu próprio peito? Porque elevá-lo ao céu, se ele permanece como um estranho para a sua santidade e amor? Com essas impressões, estamos acostumados a valorizar o Evangelho principalmente como ele abunda em ajudas, motivações, emoções efetivas para uma generosa e divina virtude. Nesta virtude, como em um centro comum, vemos todas as suas doutrinas, preceitos, e promessas se encontrarem; e nós acreditamos, que a fé nesta religião não vale nada, e nada contribui para a salvação, a não ser que use essas doutrinas, preceitos, promessas, e toda a vida, caráter, sofrimentos, e triunfos de Jesus, como o meio de purificar a mente, de mudá-la para a semelhança de sua excelência celeste.



5. Tendo assim declarado nossos pontos de vista a respeito do objetivo mais alto da missão de Cristo, que é a recuperação dos homens à virtude, ou santidade, darei agora, em último lugar, nossa opinião sobre a natureza da virtude cristã, ou verdadeira santidade. Cremos que toda virtude tenha sua base na natureza moral do homem, isto é, em sua consciência, ou seu senso de dever, e no poder de formar seu temperamento e vida de acordo com a consciência. Acreditamos que essas faculdades morais sejam o fundamento da responsabilidade, e as mais elevadas distinções da raça humana, e que nenhum ato seja louvável, a não ser que emerja de seus empenhos. Acreditamos que nenhuma disposição infundida em nós, sem nossa própria atividade moral, seja da natureza virtuosa, e, portanto, rejeitamos a doutrina da divina influência irresistível sobre a mente humana, moldando-a para o bem, assim como o mármore é moldado em uma estátua. Tal bondade, se esta palavra pode ser utilizada, não seria objeto de aprovação moral, mais do que qualquer dos afetos instintivos de animais inferiores, ou o amabilidade constitucional dos seres humanos.



Com estas observações, não queremos negar a importância da ajuda ou do Espírito de Deus; mas por seu Espírito, queremos dizer uma influência moral, esclarecedora, e persuasiva, não física, não obrigatória, não envolvendo a necessidade de força. Nós opomos, fortemente, a idéia de muitos cristãos a respeito da impotência do homem e da irresistível influência de Deus sobre o coração, crendo que elas subvertam nossa responsabilidade e as leis de nossa natureza moral, que elas tornem os homens em máquinas, que elas culpem Deus por todas as maldades, que elas desencorajem boas mentes, e inflamem os fanáticos com conceitos selvagens de inspiração imediata e sensata.



Entre as virtudes, damos o primeiro lugar ao amor de Deus. Cremos que este princípio seja a verdadeira felicidade e o fim do nosso ser, que nós fomos feitos para a união com o nosso Criador, que a sua infinita perfeição seja o único objetivo suficiente e verdadeiro lugar de descanso para os desejos insaciáveis e ilimitadas capacidades da mente humana, e que, sem ele, os nossos sentimentos, admiração, veneração, esperança e amor mais nobres, murchariam e decairiam. Cremos, também, que o amor de Deus não seja apenas essencial para a felicidade, mas para a força e perfeição de todas as virtudes; que a consciência, sem a sanção da autoridade e justiça retributiva de Deus, seria um fraco guia; que a benevolência, a não ser que alimentada pela comunhão com sua bondade, e encorajada por seu sorriso, não poderia prosperar em meio ao egoísmo e ingratidão do mundo, e que o auto-governo, sem um senso da divina inspeção, dificilmente se estenderia além de uma pureza parcial. Deus, como ele é essencialmente bondade, santidade, justiça, e virtude, então ele é a vida, motivação, e sustentador da virtude na alma humana.



Mas, embora fervorosamente inculquemos o amor de Deus, cremos que um grande cuidado é necessário para distingui-lo de farsas. Pensamos que muito do que chamam de piedade seja inútil. Muitos têm caído no erro, que não pode haver excesso em sentimentos que tenham Deus como o seu objeto; e, desconfiando como frieza daquela auto-posse, sem a qual a virtude e a devoção perderiam toda a sua dignidade, têm se abandonado a extravagâncias, que têm trazido desprezo à piedade. E certamente, se o amor de Deus for aquele que muitas vezes recebe esse nome, quanto menos tivermos dele melhor. Se a religião for o naufrágio da compreensão, não podemos nos manter longe o suficiente. Sobre este assunto, sempre falamos claramente. Não podemos sacrificar a nossa razão pela reputação de zelo. Devemos à verdade e à religião, afirmar que o fanatismo, loucura parcial, súbitas impressões, e impulsos ingovernáveis, são qualquer outra coisa menos piedade.



Nós concebemos que o verdadeiro amor de Deus é um sentimento moral, fundado sobre uma clara percepção, e que consiste em uma grande estima e veneração, de suas perfeições morais. Desta forma, coincide perfeitamente, e é na verdade a mesma coisa, que o amor da virtude, retidão, e bondade. Pode-se facilmente julgar, então, que o que estimamos seja o sinal correto e unicamente decisivo de piedade. Não pomos nenhuma ênfase em emoções fortes. Estimamos unicamente um homem piedoso, que praticamente se conforme às perfeições morais e ao governo de Deus; que mostre seu deleite na benevolência de Deus, amando e servindo seu próximo; seu deleite na justiça de Deus, sendo resolutamente reto; seu senso da pureza de Deus, regulando seus pensamentos, imaginação e desejos; e cuja conversa, negócios, e vida doméstica sejam influenciados pela presença e autoridade de Deus. Em todas as outras coisas os homens podem enganar a si próprios. Nervos desordenados podem dar-lhes visões, e sons, e impressões estranhas. Textos da Escritura podem vir a eles como se viesse do Céu. Toda a sua alma pode ser movida, e sua confiança no favor de Deus ser indubitável. Mas em tudo isto, não há religião. A pergunta é: Eles amam os mandamentos de Deus, nos quais seu caráter é plenamente expresso, e abandonam esses hábitos e paixões suas? Sem isso, o êxtase é um escárnio. Não julgamos as inclinações das mentes dos homens por causa de seus êxtases, não mais do que julgamos a direção natural de uma árvore durante uma tempestade. Muito suspeitamos de declarações de fé barulhentas, já que temos observado que o sentimento profundo é geralmente silencioso, e procura se mostrar o mínimo possível.



Não deveriam, por conta dessas observações, entender que nós desejamos excluir da religião o calor, e até mesmo o ânimo. Honramos, e muito valorizamos, a verdadeira sensibilidade religiosa. Cremos que o cristianismo é destinado a agir vigorosamente sobre toda a nossa natureza, sobre o coração, bem como sobre a compreensão e a consciência. Concebemos o céu como um estado onde o amor de Deus será exaltado em um infinito fervor e alegria; e nós desejamos, em nossa peregrinação aqui, beber do espírito daquele mundo melhor. Mas pensamos, que o calor religioso apenas deva ser valorizado quando nasce naturalmente de um caráter aperfeiçoado, quando vem sem que seja forçado, quando é a recompensa da obediência, quando é o calor de uma mente que entende Deus sendo como ele é, e quando, em vez de desordenar, exalta o entendimento, revigora a consciência, dá prazer aos deveres comuns, e é visto como existindo em relação à alegria, sabedoria, e um estado mental razoável. Quando observamos um fervor, chamado religioso, em homens cujo caráter geral manifesta pouco refinamento e elevação, e cuja piedade parece estar em guerra com a razão, prestamos-lhe pouco respeito. Honramos muito a religião para dar o seu sagrado nome a um zelo febril, forçado, flutuante, que tem pouco poder sobre a vida.



Outro ramo importante da virtude, acreditamos ser o amor a Cristo. A grandeza da obra de Jesus, o espírito com o qual ele a executou, e os sofrimentos que ele suportou para nossa salvação, sentimos exigir nossa gratidão e veneração. Não vemos na natureza nenhuma beleza que possa ser comparada com a beleza de seu caráter, nem encontramos sobre a terra um benfeitor com quem tenhamos uma dívida igual. Lemos sua história com deleite, e aprendemos com ela a perfeição de nossa natureza. Somos particularmente tocados por sua morte, que foi suportada por nossa redenção, e pela força da caridade que triunfou sobre suas dores. Sua ressurreição é o fundamento da nossa esperança de imortalidade. Sua intercessão nos dá a ousadia de nos aproximarmos do trono da graça, e olhamos para o céu com uma nova vontade, quando pensamos que, se nós o seguirmos aqui, lá veremos o seu semblante benigno, e desfrutaremos de sua amizade eternamente .



Não preciso expressar-lhes nossa opinião a respeito do tema das virtudes benevolentes. Nós atribuímos-lhes tanta importância que somos acusados algumas vezes de exaltá-las acima da piedade. Consideramos o espírito de amor, caridade, mansidão, perdão, generosidade, e beneficência, como o distintivo dos cristãos, como a imagem mais brilhante de Deus que podemos carregar, como a melhor prova de devoção. Sobre este assunto, eu não preciso, e não posso ampliar; mas há um ramo da benevolência que eu não devo passar sem comentar, porque pensamos que o consideramos mais elevada e justamente do que muitos de nossos irmãos. Refiro-me ao dever de imparcialidade, de julgamento caridoso, especialmente para com aqueles que divergem em opinião religiosa. Pensamos, que em nada têm os cristãos tão amplamente se afastado de sua religião como neste particular. Lemos com espanto e horror, a história da igreja; e às vezes quando olhamos para os fogos da perseguição, e para o zelo dos cristãos em construir muros de separação, e em condenar uns aos outros à perdição, sentimos como se estivéssemos lendo os registros de um reino infernal, em vez de um reino celestial. Um inimigo de toda religião, se lhe fosse pedido para descrever um cristão, o descreveria, com alguma razão, como um idólatra de suas próprias distintas opiniões, coberto com emblemas de seu partido, fechando os olhos para as virtudes, e seus ouvidos para os argumentos, dos seus adversários, arrogando toda a excelência para sua própria seita e todo o poder salvador para o seu próprio credo, abrigando sob o nome de zelo piedoso o amor ao poder, a presunção de infalibilidade, e o espírito de intolerância, e pisando os direitos dos homens sob o pretexto de salvar suas almas.



Não podemos conceber uma obrigação mais clara de seres de nossa natureza frágil e falível, que são instruídos quanto ao dever de julgamento imparcial, que o de se abster de condenar homens da aparente seriedade e sinceridade, que não são imputáveis de crime algum a não ser aquele de diferir de nós na interpretação das Escrituras, e diferindo, também, sobre temas de grande e reconhecida obscuridade. Admiramo-nos com a dureza daqueles que, com as advertências de Cristo soando em seus ouvidos, tomam para si a responsabilidade de fazer credos para a igreja de Cristo, e expulsam professores que possuem vidas virtuosas por conta de erros imaginários, pela culpabilidade de pensarem por si mesmos. Sabemos que o zelo pela verdade é a cobertura para esta usurpação da prerrogativa de Cristo; mas pensamos que o zelo da verdade, como é chamado, é muito suspeito, exceto nos homens, cujas capacidades e vantagens, cuja paciente deliberação, e cujas melhorias na humildade, benignidade, e franqueza, dá-lhes o direito à esperança de que suas opiniões sejam mais justas do que as dos seus próximos. Muito do que passa por um zelo da verdade, olhamos com pouco respeito, pois muitas vezes parece prosperar mais viçosamente onde outras virtudes são mais fracas; e não temos nenhuma gratidão por aqueles reformadores, que nos forçariam uma doutrina que não tenha adoçado seu próprio temperamento, ou os tenha tornado homens melhores que seus vizinhos.



Estamos acostumados a pensar muito sobre as dificuldades presentes nos inquéritos religiosos; dificuldades que emergem do lento desenvolvimento de nossas mentes, do poder de impressões anteriores, do estado da sociedade, da autoridade humana, da negligência geral dos poderes do raciocínio, da necessidade de princípios justos de crítica e de importantes auxílios na interpretação das Escrituras, e de várias outras causas. Achamos, que em nenhum outro assunto, têm os homens, e mesmo os bons homens, enxertado tantos conceitos estranhos, teorias selvagens, e ficções de fantasia, como na religião; e lembrando, como fazemos, que nós mesmos partilhamos da fragilidade comum, não ousamos presumir infalibilidade no tratamento de outros cristãos, ou incentivar em cristãos comuns, que têm pouco tempo para a investigação, o hábito de denunciar e condenar outras denominações, talvez mais esclarecidas e virtuosas do que as suas próprias. Caridade, paciência, um deleite nas virtudes das diferentes seitas, uma recusa em censurar e condenar, estas são virtudes, que, mesmo sendo imperfeitamente praticadas por nós, admiramos e recomendamos; e é preferível juntar-nos à igreja na qual elas abundam, que a qualquer outra comunhão, independentemente de quão orgulhosa com a crença em sua própria ortodoxia, independentemente de quão estrita em guardar seu credo, independentemente de quão zelosa contra erros imaginários.



Tenho, assim, dado os distintos pontos de vista daqueles cristãos, em cujo nome falo. Temos abraçado este sistema, não apressada ou levemente, mas depois de muita ponderação; e nos apegamos a esse sistema, não apenas porque acreditamos que seja verdade, mas porque o consideramos verdade purificadora, como uma doutrina segundo a piedade, como capaz de "trabalhar poderosamente" e de "fazer brotar frutos" naqueles que crêem. Que queremos difundi-lo, não temos nenhum desejo de esconder; mas pensamos, que desejamos sua difusão, porque o consideramos mais amigável à piedade prática e à moral pura do que as doutrinas contrárias, pois dá visões mais claras e nobres de dever, e motivações mais fortes para o seu desempenho, porque recomenda a religião de uma vez ao entendimento e ao coração, porque afirma os adoráveis e veneráveis atributos de Deus, porque tende a restaurar o espírito benevolente de Jesus à sua igreja dividida e aflita, e porque corta todas as esperanças do favor de Deus, exceto aquela que emerge da conformidade prática com a vida e preceitos de Cristo. Não vemos nada em nossas opiniões que ofenda, a não ser sua pureza, e é a sua pureza que nos faz procurar e esperar sua extensão por todo o mundo.



Meu amigo e irmão - Tomas hoje sobre ti funções importantes; ser revestido com um ofício, que o Filho de Deus não desdenhou; dedicar-se àquela religião, que os lábios mais abençoados pregaram, e o mais precioso sangue selou. Estamos confiantes de que trarás para este trabalho uma mente disposta, um firme propósito, um espírito de mártir, uma disponibilidade para trabalhar duro e sofrer pela verdade, uma devoção de teus melhores poderes para os interesses da piedade e virtude. Falei das doutrinas que provavelmente pregarás, mas não quero dizer que devas dar-te a controvérsias. Lembrarás que a boa prática é o fim da pregação, e te esforçarás para tornar o teu povo em pessoas de vidas santas, em vez de hábeis oponentes. Tenhas cuidado, para que o desejo de defender aquilo que consideras verdade, e de repelir a recriminação e a deturpação, não te afaste de tua grande obra, que é fixar na mente dos homens uma viva convicção da obrigação, nobreza, e felicidade da virtude cristã. A melhor forma de defender teus sentimentos, é mostrar, em tua pregação e vida, a sua íntima relação com a moral cristã, com um elevado e delicado senso de dever, com lisura para com os teus oponentes, com integridade inflexível, e com uma reverência habitual por Deus. Se alguma luz pode atravessar e dispersar as nuvens do preconceito, é aquela de um puro exemplo. Meu irmão, possa a tua vida pregar mais alto que teus lábios. Seja para estas pessoas um modelo de todas as boas obras, e possam tuas instruções derivar sua autoridade de uma crença muito bem fundamentada em teus ouvintes, que fales do coração, que pregues a partir da experiência, que a verdade que dispensas tenha trabalhado poderosamente em teu próprio coração, que Deus, e Jesus, e o céu, não sejam meramente palavras em teus lábios, mas realidades muito poderosas em tua mente, e fontes de esperança e consolo, e força, em todas as tuas tribulações. Trabalhando assim, que possas colher abundantemente, e ter um testemunho de tua fidelidade, não apenas em tua própria consciência, mas na estima, amor, virtudes, e desenvolvimentos de teu povo.



Para todos os que me ouvem, eu diria, com o Apóstolo: "Examinem todas as coisas, e fiquem com o que é bom". Não se esquivem, irmãos, do dever de buscar a Palavra de Deus sozinhos, por medo da censura e acusação humanas. Não pensem que podem inocentemente seguir as opiniões que prevalecem ao redor de vocês, sem investigação, no campo, que o cristianismo seja agora tão purificado de erros, a ponto de não necessitar de nenhuma investigação trabalhosa. Há muita razão para acreditar que o cristianismo esteja, neste momento, desonrado por corrupções grosseiras e acarinhadas. Se lembrarem-se da escuridão que pairou sobre o Evangelho por eras; se considerarem a união impura, que ainda subsiste em quase todos os países cristãos, entre a Igreja e o Estado, e que alista o egoísmo e ambição dos homens ao lado do erro estabelecido; se lembrarem o quanto o espírito de intolerância impediu a livre busca, não apenas antes, mas desde a Reforma; verão que o cristianismo não pode ter se libertado de todas as invenções humanas, que o desfigurou sob a tirania papal. Não. Muito restolho ainda está para ser queimado; muito lixo a ser removido; muitas decorações de mau gosto, que um falso gosto pendurou ao redor do cristianismo, devem ser varridos; e as neblinas vindas da terra, que há muito o envolvem, devem ser espalhada, antes que esse tecido divino suba até nós em sua majestade nativa e magnífica, em sua harmoniosas proporções, na seus esplendores suaves e celestiais. Esta gloriosa reforma na igreja, esperamos, sob a benção de Deus, do progresso do intelecto humano, do progresso moral da sociedade, do conseqüente declínio do preconceito e da intolerância, e, da subversão da autoridade humana em matéria de religião, da queda daquelas hierarquias, e outras instituições humanas, pelas quais as mentes dos indivíduos são oprimidas sob o peso dos números, e um reino papal é perpetuado na igreja protestante. A nossa fervorosa oração a Deus é, que ele derrube, e destrua o forte da usurpação espiritual, até que venha aquele, cujo direito é guiar as mentes dos homens; que a conspiração das eras contra a liberdade dos cristãos possa ser finalizada; que a afirmação servil, há tanto tempo ligada a credos humanos, possa dar lugar a honesta e devota busca nas Escrituras; e que o Cristianismo, assim purificado do erro, possa afirmar sua onipotente energia, e provar que é, ao enobrecer sua influência sobre a mente, verdadeiramente "o poder de Deus para salvação".

William Ellery Channing

terça-feira, 25 de novembro de 2008

LITURGIA DA LUZ - Acendimento do Cálice ou Vela de Advento

PRIMEIRO DOMINGO DE ADVENTO

Líder: Nesse período, nós nos voltamos para símbolos como nosso cálice (ou vela) para proclamar nossa crença na luz inextinguível. Em esperançosa antecipação, nos preparamos para a vinda do Reino de Deus. Ouçam a Palavra nas palavras do profeta para este primeiro Domingo deste novo ano cristão:

Todos: Abrimos nossos corações para a Palavra nas palavras.

Leitor: Uma leitura do Profeta Isaías, Capítulo 64, versos 1 a 9. (A passagem é lida)

Todos: Ao iniciarmos nossa jornada à luz, confessamos que nossas vidas nem sempre têm sido vividas da melhor maneira. Nossa vergonha tem nos feito sentir distantes Daquele que é tanto Mãe e Pai de todos nós, em quem vivemos, nos movemos e existimos. Mesmo assim, nossa busca faz com que o Divino se acenda como fogo em nossa alma. E mesmo agora, enquanto aguardamos, ousamos ter esperança.

Líder: Nós que estamos plenos de antecipação, sentimos a esperança se elevar dentro de nós. E assim, acendemos essa primeira vela (esse primeiro cálice) e lhe damos o nome de Esperança.

SEGUNDO DOMINGO DE ADVENTO

Líder: O Advento nos convida a prepararmos nossos corações para a vinda de Jesus. Ao nosso redor, as pessoas se preparam para festas, jantares e presentes. Esses eventos podem nos distrair da verdadeira razão de nossa antecipação. Por outro lado, também podem nos preparar; podem ser as vozes clamando num deserto de materialismo: "Preparem o caminho para a vinda do que é realmente importante."

Todos: Em vez de nos perdermos no deserto das distrações, deixaremos a música e as luzes nos tornarem sensíveis à voz que mesmo agora chama nossos nomes. Ouviremos a Palavra em meio às palavras e mesmo no barulho.

Leitor: Uma leitura do Profeta Isaías, Capítulo 40, versos 1 a 11. (A passagem é lida)

Todos: Nesta época de pressa e agitação, somos tentados a comprar o espírito natalino. Neste momento, resistimos essa tentação e escolhemos, em vez disso, estar em paz com quem somos e com onde estamos nessa jornada. Deixaremos que esse tempo nos prepare, e ouviremos o chamado de Deus para sermos aqueles que preparam o mundo.

Líder: Neste segundo Domingo de Advento, escolhemos ser uma presença pacífica nesta época agitada. Então, hoje, acendemos a segunda vela (o segundo cálice) como um ato de preparação e lhe damos o nome de Paz.

TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO

Líder: Esta época de preparação já está na metade, e hoje acendemos nossa terceira vela (nosso terceiro cálice). É rosa para que lembremos que há muito pelo qual devemos nos regozijar.

Todos: Em meio a todas as festas e celebrações, somos um povo que busca a verdadeira alegria nos braços daquele que vem trazê-la. Nós sentimos a vinda da luz que iluminará nossos dias, e por isso ouvimos a Palavra nas palavras do profeta.

Leitor: Uma leitura do Profeta Isaías, Capítulo 61, versos 1 a 4; 8 a 11. (A passagem é lida)

Todos: Nos regozijamos no ungido, que veio e que vem. Com corações alegres, unimos a energia de nossa vida à vida cujo nascimento antecipamos. Com Jesus, nós, também, traremos boas novas aos oprimidos, curaremos os corações feridos, proclamaremos liberdade aos cativos e poremos em liberdade os prisioneiros, e proclamaremos o ano da graça divina.

Líder: Para nós, Deus substituiu nosso choro com o óleo da alegria, e por isso acendemos esta terceira vela (este terceiro cálice) e lhe damos o nome de Alegria.

QUARTO DOMINGO DE ADVENTO

Líder: A lembrança do amor é longa. Ao chegarmos ao último domingo de Advento, nos recordamos das muitas vezes que estivemos aqui antes com tanta coisa que ainda não fizemos e tanto amor que ainda não expressamos. A leitura da Bíblia Hebraica hoje relembra uma promessa ao Rei Davi, que a igreja cristã entende como tendo sido cumprida no nascimento de Jesus. A promessa do Amor é freqüentemente mantida de maneiras inesperadas.

Todos: O Amor divino dura para sempre. Num mundo no qual mesmo as folhas verdes secam e morrem, o Amor divino é a única realidade da qual podemos depender. Hoje nos preparamos para a expressão desse amor, ao ouvirmos a Palavra nas palavras.

Leitor: Uma leitura do Segundo Livro de Samuel, Capítulo 7, versos 1 a 11; 16. (A passagem é lida)

Todos: O Amor divino dura para sempre. Por meio de atos tão simples e comuns quanto o nascimento de uma criança, Deus transforma o mundo, e as promessas de Deus são cumpridas. É essa expressão de amor fiel que antecipamos e celebramos hoje. É essa promessa que traz luz à nossa escuridão mais profunda.

Líder: Assim, acendemos a quarta vela (o quarto cálice) em antecipação à promessa divina, o que mais podemos fazer além de lhe darmos o nome de Amor?

VÉSPERA/DIA DE NATAL

Líder: Por semanas temos ouvido mensagens obscuras de antigos profetas. Em suas palavras podemos ver imagens da luz prometida. Agora, apesar de todas as velas (todos os cálices) de antecipação terem sido acesas, ainda há uma última profecia para ser ouvida.

Todos: Com olhos abertos, ouvidos atentos e corações destrancados, nos reunimos mais uma vez para recebermos a Palavra dentro das palavras.

Leitor: Uma leitura do Profeta Isaías, Capítulo 9, versos 2 a 7. (A passagem é lida)

Todos: Hoje essas palavras se cumprem em nosso ouvir e em nosso viver, pois a promessa de Deus veio até nós. Nossas vidas são a manjedoura na qual o Cristo nasce. Não buscamos mais luz em outros lugares; agora a luz arde em nossos corações e nós nos tornamos a lâmpada do amor.

Líder: Assim, acendemos a vela (o cálice) no centro de nossa guirlanda e de nossa fé. Acendemos em nome daquele que é a luz, e, como Maria fez há muito tempo atrás, chamamos essa luz de Jesus.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Características do Cristianismo Liberal

Como muitos já devem ter percebido, a expressão "Cristianismo Liberal" é muito importante para nós. Nossa fé religiosa é uma fé cristã liberal - liberal numa época na qual o rígido fundamentalismo e o conservadorismo dogmático parecem dominar o Cristianismo - aqui em nossa região, em nosso país, e em todo o mundo.

A expressão "Cristianismo liberal" nos liga a um movimento crítico do Protestantismo que começou em fins do século XVIII e que incluiu pessoas como William Ellery Channing, Jabez T. Sunderland, Henry Ward Beecher, Harry Emerson Fosdick, John Arthur Thomas Robinson, Paul Tillich, Howard Thurman, e muitos outros. Afirmamos essa tradição toda vez que nos chamamos de "cristãos liberais".

Mas, afinal de contas, o que é o Cristianismo Liberal? O dicionário dá várias definições à palavra liberal: generoso; dadivoso; franco; amigo da liberdade; que tem idéias avançadas sobre a vida social; tolerante, indulgente. Essas são boas palavras para definir nosso tipo de fé.

Em sua coleção de três volumes a respeito da história da teologia liberal americana, Gary Dorian escreveu: "A teologia cristã liberal deriva da tentativa protestante de fins do século XVIII e começo do século XIX de reconceitualizar o significado do ensino tradicional cristão à luz do conhecimento moderno e de valores éticos modernos". E ainda escreveu: "A teologia liberal é definida por sua abertura à investigação intelectual moderna; seu comprometimento com a autoridade da razão e experiência individuais; sua concepção do Cristianismo como uma forma de vida ética; e seu compromisso em tornar o Cristianismo digno de confiança e socialmente relevante às pessoas modernas".

Então, deixem-me expandir essa definição com uma lista do que chamo de as oito características fundamentais do Cristianismo liberal - características que nos diferenciam dos cristãos tradicionais, ortodoxos.

Primeiro, o Cristianismo Liberal exige integridade intelectual. Respeitamos a mente humana e queremos usar nossas mentes na busca da verdade religiosa. O Bispo John Shelby Spong disse: "O coração nunca deve adorar o que a mente rejeita". Isso é teologia liberal!

Harry Emerson Fosdick, que foi um ministro batista e presbiteriano em Nova York em inícios do século XX, disse: "Todo o melhor sentido da religião pessoal pode ser meu sem a crucificação do intelecto". Isso é Cristianismo liberal!

O Cristianismo liberal exige a coragem de testarmos nossas noções religiosas por meio de estudos rigorosos; nunca vê o aprendizado secular como um inimigo da fé.

Segundo, o Cristianismo Liberal garante a liberdade de pensamento. Cristãos liberais são livres para acreditarem no que suas mentes, consciências, experiências e emoções os levam a afirmar. Cada um de nós é livre para moldar sua própria jornada de fé. O Cristianismo Liberal afirma: "Pensem sozinhos, o seu ministro pode estar errado". O Cristianismo Liberal diz aos alunos das aulas de religião: "Pensem sozinhos, seus professores podem estar errados".

Aqui, em nossa comunidade, Peter e eu, os ministros, apenas compartilhamos nossa compreensão de fé, oferecendo a cada um de vocês a oportunidade de pensar a respeito dos mesmos assuntos, de fazerem as mesmas perguntas, independentemente de vocês concordarem conosco. O Cristianismo Liberal garante o livre pensamento.

Terceiro, as igrejas cristãs liberais são comunidades de investigadores e, portanto, devem ser inovadoras. Quando os fundamentalistas primeiro desafiaram a teoria da evolução nos EUA em inícios do século XX, os ministros liberais não só defenderam a ciência da evolução, como clamaram por uma teologia evolutiva. O Cristianismo Liberal vê cada uma de nossas jornadas de fé como parte de um processo evolutivo.

Vemos nossas vidas como uma peregrinação que evolui, que se move, que muda. Não somos uma comunidade de crentes; somos uma comunidade de buscadores que estão sempre caminhando, que ainda não chegamos ao nosso destino final.

Esta manhã usarei um texto que exemplifica o Cristianismo Liberal. Em vez de usar a Bíblia, farei uma leitura do fragmento de um papiro do século II da era cristã, encontrado onde antes era o depósito de lixo da antiga cidade egípcia de Oxirincus. Esse fragmento, número 840, possui apenas esta narrativa:

"Levando os discípulos consigo, Jesus os levou ao interior do santuário e começou a andar pelo precinto do templo.

Levi, um fariseu, um sacerdote, também entrou, correu até eles e disse ao Salvador: 'Quem te deu permissão de caminhar neste santuário e deitar teus olhos sobre esses objetos sagrados, quando não realizaste o banho ritual, e teus discípulos sequer lavaram seus pés? Invadiste este lugar sagrado, que é ritualmente limpo, em um estado impuro.'

O Salvador imediatamente respondeu: 'Já que estás aqui no templo, suponho que estejas limpo'. Levi respondeu: 'Estou limpo. Banhei-me na piscina de Davi. Ritualmente me vesti com roupas brancas e limpas. Só depois disso vim aqui, e pus meus olhos sobre esses objetos sagrados.'

Em resposta, o Salvador disse a ele: 'Malditos os cegos que não vêem. Vocês se banham nessas águas estagnadas onde os cães e porcos espojam-se dia e noite. Vocês lavam e esfregam a pele. Mas meus discípulos e eu nos banhamos em água viva e vivificante'."

Tenha ou não esta narrativa qualquer validade histórica, é mais uma narrativa antiga que exibe a recusa de Jesus em ser aprisionado por costumes, hábitos e dogmas do passado. Ele ofereceu às pessoas uma nova água, uma nova forma de vida, uma que era livre, sem medo de mudança.

Cristãos liberais devem estar abertos a novas idéias, novas formas de ver as coisas, novos símbolos, novas práticas religiosas. A teologia não é um acúmulo demonstrável como a ciência, nem é uma sucessão de momentos contínuos como a arte. A teologia deve sempre desfiar-se e ser recosturada.

Seria mais fácil se esse não fosse o caso, e essa é uma das atrações do fundamentalismo - você não precisa pensar e se esforçar, você simplesmente aceita o dogma. Mas o Cristianismo Liberal exige que nós buscadores constantemente desfiemos nossa fé e a recosturemos, de forma a dar-lhe um novo sentido para um novo tempo. Cristãos liberais são chamados a pensar infinitamente e a explorar novas visões de quem somos e do que acreditamos.

Quarto, o Cristianismo Liberal honra e respeita a sabedoria de outras religiões. Nas palavras desenvolvidas pelo Centro do Cristianismo Progressista: "Reconhecemos a fidelidade de outras pessoas que têm outros nomes para o caminho que as levam a Deus, e reconhecemos que seus caminhos são verdadeiros da mesma maneira como nossos caminhos são verdadeiros para nós".

Podemos celebrar a vitalidade de nossa própria fé cristã sem precisar declarar a superioridade de nossas visões em relação às outras. Jesus se torna para nós uma janela para o amor de Deus, mas reconhecemos que para outros, Muhammad ou o Buda pode ser tal janela. O Cristianismo Liberal se vê como apenas um caminho para o divino.

Quinto, a fé e a prática religiosas envolvem mais que apenas o intelecto. Isso é um desafio porque muitos liberais, como eu, tendem a ser cerebrais em nossa forma de ver a vida. Mas o Cristianismo Liberal reconhece que o papel da fé seja alimentar o coração e o espírito juntamente com a mente.

Freqüentemente isso significa que os cristãos liberais reivindicam e redefinem antigos ritos e rituais, tanto da tradição cristã como das tradições de outras religiões. Hoje, por exemplo, reivindicaremos o ritual da comunhão, mas para a maioria de nós ele não tem nenhuma relação com o corpo e sangue de Jesus, a velha teologia da redenção. Nós batizamos crianças, não em nome do "Pai, Filho, e Espírito Santo", mas em nome do "mistério da vida, do mistério do amor, e do mistério do ser". Nós tomamos rituais cristãos tradicionais, como a unção com óleo ou os ofícios de cura, e damos um novo significado a esses rituais, redefinindo-os à luz da teologia evolutiva.

Enriquecemos nosso cristianismo com práticas espirituais budistas e islâmicas, alimentando nossos corações e espíritos cristãos.

Sexto, cristãos liberais afirmam o valor e a dignidade de cada ser humano - pessoas de todas as raças e religiões, de ambos os sexos e os transgêneros, de todas as orientações sexuais, de todas as classes, de todas as habilidades. E por afirmamos a unidade universal, devemos ser radicalmente receptivos a todas as pessoas - fazendo com que ninguém sinta que devesse ficar fora de nosso círculo.

Sétimo, para a maioria dos cristãos liberais a Bíblia é uma coleção de antigas e úteis reflexões a respeito de Deus, e o Jesus humano é um caminho para se entender o amor de Deus e o sentido da vida. Apesar de a Bíblia ser menos a Palavra de Deus e muito mais uma coleção de palavras humanas a respeito de Deus, ela continua a ser uma rica coleção de materiais que nos ajudam e inspiram em nossas próprias jornadas de fé.

E apesar de a maioria dos cristãos liberais não ver Jesus como uma figura divina enviada por Deus para pagar pelos pecados de uma humanidade caída, o Jesus humano assume um novo sentido como o modelo mais elevado da vida religiosa. Jesus é visto, pela maioria de nós, como um ser humano exemplar. Jesus é nosso mestre, um guia em nossa jornada pela vida.

Finalmente, o Cristianismo Liberal insiste que a maneira como tratamos toda a criação é mais importante do que o que acreditamos. Na maioria das chamadas igrejas tradicionais, a ênfase está na crença - crer nas palavras de um credo antigo ou crer que Jesus tenha morrido por nossos pecados.

Mas o Cristianismo Liberal diz: "Mostre o que você acredita pela maneira como vive". O que você faz é mais importante do que o que você diz. E é por isso que para cristãos liberais é tão importante cuidar das pessoas menos privilegiadas, trabalhar para criar um mundo livre de guerra e tortura, abrir nossos braços e corações para recebermos todas as pessoas, para que todos possam ter um lugar em nossa mesa e em nossos corações.

Jesus não deu um credo às pessoas. Ele ensinou como viver e se portar de novas maneiras justas e pacíficas, e ele modelou essas novas maneiras em sua própria vida. A forma como nos comportamos é mais importante que nossas crenças.

Essas são as características do Cristianismo Liberal que tentamos passar para a próxima geração, além da nossa própria.

O Cristianismo Liberal afirma a integridade intelectual, protege o livre pensamento, e constrói comunidades de buscadores inovadores.

O Cristianismo Liberal respeita e aprende de outras religiões; presta atenção ao coração e à alma, assim como à mente; e afirma o valor e dignidade de cada ser humano.

O Cristianismo Liberal respeita a Bíblia como uma coleção de antigas e úteis reflexões humanas, vê o Jesus humano como a janela de nossa comunidade para o amor de Deus, e sabe que a maneira como tratamos uns aos outros é mais importante que o que acreditamos.

Esses são meus pensamentos a respeito do tipo de religião que praticamos aqui em nossa comunidade.

(Sermão pregado na Congregação Unitarista de Pernambuco, em 10 de agosto de 2008.)

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

História Unitarista: O Movimento da Religião Livre

O Movimento da Religião Livre no Unitarismo:
Abrindo as Portas Para os Não-Cristãos


Durante o século XIX, a reputação do Unitarismo como uma religião inclusiva e adogmática atraiu muitos não-cristãos, muitos dos quais poderiam ser descritos como teístas científicos ou deístas. Eles ansiavam encontrar um lugar onde pudessem se reunir e adorar, mas não conseguiam encontrá-lo nas igrejas tradicionais. Era natural que encontrassem esse lugar que buscavam nas igrejas unitaristas, onde eles encontravam a força e o encorajamento da comunidade, mesmo que o foco dos sermões e liturgias fossem cristãos. Em alguns lugares, congregações liberais que não eram cristãs em caráter se formaram, e estas se associaram às organizações unitaristas. Os não-cristãos eram uma minoria até boa parte do século XX, mas eles provaram ter uma voz muito forte, e alguns fatos garantiram sua sobrevivência e influência dentro do Unitarismo.

Durante a década de 1860, o "movimento da religião livre" ganhou força nas igrejas unitaristas. Apoiadores desse movimento tinham a intensão de levar a liberdade religiosa à sua conclusão lógica: uma abertura completa a todos os sentimentos e persuasões religiosos. Em 1865, no primeiro congresso anual da Conferência Nacional de Igrejas Unitaristas em Nova York, eles tentaram convencer a assembléia a permitir que todas as igrejas liberais, cristãs ou não, pudessem se tornar membros da Conferência. Entretanto, a maioria não era a favor disso, e no preâmbulo da nova constituição, o caráter cristão da organização foi afirmado. No ano seguinte, o assunto continuou a ser debatido em sermões, panfletos, e periódicos. No congresso anual seguinte, Francis Ellingwood Abbott propôs um novo preâmbulo para a constituição da Conferência, que declarava que as igrejas da Conferência, "desconsiderando todas as diferenças sectárias ou teológicas, e oferecendo uma irmandade cordial a todos os que se juntarem a elas na obra cristã, se unem em uma organização comum, a ser conhecida como A Conferência Nacional de Igrejas Unitaristas e Outras Igrejas Cristãs". A emenda foi rejeitada. Entretanto, por sugestão de James Freeman Clarke, concordou-se em mudar o nome da associação para A Conferência Nacional de Igrejas Unitaristas e Outras Igrejas Cristãs. Foi explicado que a expressão "Outras Igrejas Cristãs" não intencionava "excluir sociedades religiosas que não tenham uma distinta organização eclesiástica, e que não sejam nominalmente cristãs, se essas desejam cooperar com a Conferência no que ela considera como obra cristã".

Muitos dos progressistas não estavam satisfeitos com a concessão, e no trem de volta a Boston, um grupo deles decidiu organizar uma associação para eles mesmos que garantisse a liberdade religiosa que eles estavam buscando e lhes provesse uma forma de expressar suas idéias. Em 30 de maio de 1867, nasceu a Associação Religiosa Livre. Octavius Brooks Frothingham foi nomeado como o presidente. Outros membros notáveis eram Cyrus A. Bartol, Francis Ellingwood Abbott, William J. Potter, John Weiss, David Wasson, John White Chadwick, Louisa May Alcott e Ralph Waldo Emerson. O grupo defendia a universalidade da religião e defendia que todas as fases da opinião religiosa devessem ser representadas em sua membresia e plataforma. Na revisão de sua constituição em 1872, declarou-se que "nada no nome ou constituição da Associação poderá ser interpretado como se limitasse a membresia a qualquer teste de opinião ou crença especulativas, ou como se definisse a posição da Associação, coletivamente considerada, com referência a qualquer opinião ou crença, ou como se interferisse de qualquer outra maneira na absoluta liberdade de pensamento e expressão que é o direito natural de cada ser racional". Os dois principais jornais da organização eram "The Radical", editado por Sidney H. Morse, e "The Index", editado por Francis E. Abbott. Sempre se argumentava nas páginas desses periódicos que era hora de ir além do Cristianismo e abraçar um teísmo universal que rejeitasse qualquer tentativa de se manter uma teologia com a qual todos concordassem e permitisse que cada indivíduo encontrasse Deus de sua própria maneira. Alguns enfatizavam a intuição; outros enfatizavam o avanço da ciência.

Nos anos seguintes, a Conferência Nacional se esforçou para trazer os membros da Associação Religiosa Livre de volta à Conferência. Entretanto, todas as tentativas forma mal-sucedidas, já que ou as concessões não eram suficientemente conciliatórias para o movimento da religião livre ou eram radicais demais para os cristãos. A tensão entre os dois grupos permaneceu grande pois muitos membros da Associação Religiosa Livre continuaram a ocupar púlpitos unitaristas e a freqüentar igrejas unitaristas. Uma controvérsia surgiu em 1873, quando os nomes de ministros associados à ARL começaram a ser removidos da lista de ministros no Livro Anual da Associação Unitarista Americana. Depois de uma forte reação, decidiu-se que nenhum nome deveria ser removido a não ser que o ministro em questão o requisitasse ou que ele tivesse oficialmente deixado a denominação.

A Associação Religiosa Livre eventualmente desapareceu, mas alguns de seus membros se tornaram notáveis filósofos desse período, e sua palavra teve um impacto sobre seus antigos associados nas igrejas unitaristas. Durante a década de 1880, a controvérsia surgiu mais uma vez na Conferência Unitarista do Oeste, mesmo que de uma forma um pouco diferente. Enquanto ainda enfatizando o teísmo universal, um significativo elemento humanista também começou a se formar, que deixou de lado o conceito de "Deus" e se focou na ética. A influência do movimento da religião livre podia ser vista claramente na decisão de 1882 de se aceitar para a Conferência Unitarista do Oeste o lema "Liberdade, Irmandade, e Caráter em Religião", que é muito similar ao lema da Associação Religiosa Livre ("Liberdade e Irmandade na Religião"). Os líderes do movimento no Oeste eram Jenkin Lloyd Jones e William Channing Gannett, cujas opiniões eram expressas em seu jornal, "Unity", e aqueles em simpatia com eles eram alcunhados de "Unity men". Sua influência muito preocupou os cristãos, e Jabez T. Sunderland, o secretário da Conferência Unitarista do Oeste, publicou um panfleto em 1886 intitulado "O Problema no Oeste", no qual ele falava de sua apreensão a respeito da situação das coisas: "Este novo Unitarismo tem demonstrado uma especial simpatia pelo movimento da Religião Livre e pelo movimento ético, tem buscado se diferenciar do Unitarismo do Leste como se fora algo "mais amplo" e "mais avançado" que aquele, tem há muito sido averso ao uso do nome cristão, e pelos últimos anos tem cada vez mais se distanciado até mesmo de uma base teísta, até agora declara abertamente que mesmo a crença em Deus não deva mais ser declarada como algo essencial do Unitarismo... que o Unitarismo deve defender crenças éticas e crenças em assim-chamados "princípios", mas não crenças em qualquer coisa que o comprometa com o teísmo ou o cristianismo".

Apesar das objeções de Sunderland, o movimento Unity permaneceu forte, e no congresso anual da Conferência Unitarista do Oeste naquele ano, por um voto de 34 a 10, uma resolução foi adotada, composta por William Channing Gannett, que declarava: "A Conferência Unitarista do Oeste condiciona sua membresia a nenhum teste dogmático, mas recebe a todos que queiram juntar-se a ela a fim de estabelecer verdade, retidão, e amor no mundo". Muitas das igrejas mais conservadoras na conferência ficaram insatisfeitas com a direção que a Conferência tomara e deixaram-na. No congresso seguinte em 1887, uma tentativa foi feita para se efetuar uma reconciliação, e Gannett compôs uma declaração adicional, "Coisas Nas Quais Comumente Acreditamos". Essa declaração não satisfez os conservadores, e a controvérsia continuou por alguns anos mais.

Finalmente, no congresso anual da Conferência Nacional em 1894, todas as partes concordaram em adotar um novo preâmbulo para a constituição, que declarava: "A Conferência reconhece o fato de que a tradição e política de seus constituintes seja Congregacional. Portanto, declara que nada nesta constituição seja considerada como um teste de autoridade; e cordialmente convidamos à nossa irmandade qualquer um que, mesmo diferindo de nós em crença, esteja em simpatia geral com nosso espírito e nossas metas práticas". Esta declaração preparou o terreno para o que estava por vir.
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A Congregação Unitarista de Pernambuco apóia a liberdade religiosa. Entendemos que há diferentes, e mesmo assim legítimos, caminhos para Deus, e reconhecemos que outras tradições religiosas, crenças, filosofias, e textos religiosos enfatizam amor a Deus e à humanidade. Seguimos princípios religiosos que permitem que pessoas com outros conceitos monoteístas de Deus, fora da tradição cristã, e não-cristãos possam ser membros. Neste respeito, abraçamos o movimento da religião livre. Entretanto, apesar de crermos que a absoluta liberdade religiosa seja um direito que deva ser garantido pelo Estado e pela sociedade, não cremos que a absoluta liberdade religiosa seja em si uma religião. Uma organização religiosa é um grupo de pessoas que praticam uma religião distinta, e não um grupo de pessoas de diferentes religiões fazendo algo que não seja a prática de uma religião distinta. James Freeman Clarke disse certa vez: "A Religião Livre sacrifica o poder motivo derivado da associação e simpatia religiosa em favor de uma maior liberdade intelectual". Essa é uma armadilha na qual caiu o movimento da religião livre, e o resultado é que a religião distinta do Unitarismo se diluiu e se perdeu em muitas partes do mundo.

A Congregação Unitarista de Pernambuco promove o Unitarismo como a religião distinta que ele é. Mantemos uma tradição de fé distinta, monoteísta, e enraizada na tradição ocidental. Isso não significa que definimos conceitos de Deus e outros temas religiosos; e não significa que rejeitemos grupos religiosos e indivíduos que não sejam parte de nossa tradição. Ser abertos a outras interpretações e compreensões de Deus é parte da tradição unitarista. Entretanto, a Congregação Unitarista de Pernambuco é uma instituição que promove e ensina a tradição unitarista e honra as bases cristãs dessa tradição. O fundamento dessa tradição é a fé em um Deus.

Ortodoxia: O Pior Inimigo do Cristianismo (Jabez T. Sunderland)


Jabez Thomas Sunderland (1842-1936)


“Estou a serviço do Deus de nossos pais, segundo o Caminho, que eles chamam de seita”. - ATOS 24:14

É sempre a incumbência de um povo que persiste em manter uma diferente forma de doutrina religiosa ou de culto da maioria das pessoas da comunidade ou país onde vivam, estarem prontos, na ocasião apropriada, a darem suas razões.

Ocuparei o tempo que temos esta manhã em declarar, tão breve e claramente quanto posso, porque me encontro compelido a tomar uma posição fora da assim chamada ortodoxia, e a adorar o Deus de meus pais da forma que a maioria das pessoas deste país e da Cristandade chamam de heresia.

Creio que nada mais valioso que o Cristianismo tenha jamais aparecido dentre os homens.

Mas creio que o que é geralmente entendido como Cristianismo hoje, seja nos países protestantes ou católicos, não é o Cristianismo puro, original, como o ensinado por Jesus em palavras e em sua vida, mas que seja um Cristianismo corrompido, e corrompido pela introdução de elementos inteiramente estranhos a ele e essencialmente maus.

Estes elementos maus, claro, pelo menos até certo ponto, não destroem o Cristianismo com o qual estão mesclados; mas eles são, entretanto, até onde vão, corruptores e nocivos a ele.

Que elementos maus e corruptores são esses? Sem hesitação, respondo, em meu julgamento, antes de tudo, é aquela filosofia religiosa, ou teologia, ou séries de doutrinas a respeito de Deus e do homem e da religião, que recebe o nome popular de ortodoxia, e que inclui em sua lista, entre outros, a doutrina da queda da raça humana em Adão, a doutrina da depravação total universal, a doutrina de um inferno infinito, a doutrina da Trindade, a doutrina da vinda à terra da segunda pessoa da Trindade para morrer no lugar do homem e satisfazer a justiça de Deus, o que significa aceitar a idéia de que Jesus morreu para reconciliar Deus ao homem, ou para tornar Deus um pouco mais disposto ou pronto ou capaz de salvar os homens, ou seja, um pouco mais Pai do que Ele sempre foi, e finalmente, para não mencionar outros, a doutrina do culto a Jesus, que é tão popular em nossos tempos, e que praticamente impede o culto a Deus.

Eu digo que de todas as coisas que ferem o Cristianismo hoje e o fazem sangrar, de todas as coisas que o corrompem e o envenenam e o tornam outra coisa diferente daquela coisa doce e sadia e divina que era quando Jesus a deu ao mundo; de todas as coisas que tendem a torná-lo uma ofensa ao melhor pensamento e inteligência de nosso tempo, sem hesitar digo, segundo meu julgamento, o sistema de teologia que inclui estas doutrinas que mencionei, e que é conhecido popularmente como ortodoxia.

Você pergunta por que julgo a ortodoxia como sendo o pior inimigo que o Cristianismo tem hoje? Eu respondo, de forma geral, primeiro, por causa de onde está, e segundo, por causa do que é.

Quanto a onde está, está dentro da igreja. Se estivesse fora, seria comparativamente inofensivo, pois é sempre comparativamente fácil defender-se contra um inimigo externo. Mas quando um inimigo adentra o campo, como a ortodoxia fez, então a dificuldade e o perigo cresceu grandemente.

Há muito tempo atrás, na era das trevas, a ortodoxia abriu seu caminho rumo ao centro da igreja cristã, e lá, por meio da intolerância e proscrição e por todos os meios, se enraizou. E agora, em nosso tempo de maiores luzes, quando os homens começam a descobrir que aquilo não é o Cristianismo, mas um intruso e um inimigo, e está tão fortificado em sua posição que é apenas com a maior das dificuldades que pode ser movido. Na verdade, até grande ponto, capturou a religião cristã. E assim, hoje, onde quer que vamos, encontramos a ortodoxia sendo pregada de forma descarada como sendo o Cristianismo, e que tudo que se oponha a ela não é Cristianismo. É principalmente por essa condição das coisas que aquele grupo de, no geral homens muito inteligentes e sinceros, conhecidos como Religiosos Livres, se posicionaram fora do nome cristão. Tão claramente eles vêem que o nome cristão foi capturado, e que agora se identifica nas mentes da massa da humanidade com a ortodoxia – algo que eles acreditam ser falso e degradante – que eles declaram ser inútil tentar resgatar o nome.

Mas enquanto sinto a força de seu raciocínio, não posso concordar com sua conclusão. Não penso ser inútil tentar resgatá-lo. Levará uma longa e dura batalha para fazê-lo, mas todas as melhores forças de nossa civilização estão se juntando para nos ajudar, e nós, aos poucos, venceremos. As transformações da história são muito estranhas e freqüentemente escuras. Mas, dentre todas elas, isto sabemos -

"A verdade lançada à terra se reerguerá; os eternos anos de Deus são dela”.

E isto também sabemos: "Toda planta que não foi plantada por meu Pai celeste será arrancada” (mais cedo ou mais tarde) [Mateus 15:13].

Mas, ademais, creio que a ortodoxia seja o pior inimigo contra qual o Cristianismo tenha que contender hoje, não apenas por ela ter conseguido para si uma posição interna e clamores de que seja apenas ela o Cristianismo, mas também por ser tão inteiramente anti-cristã em sua natureza. Prestem atenção ao que digo, para que eu não seja mal-entendido, não digo que as pessoas que crêem na ortodoxia não sejam cristãs. Muitas delas, ao menos no que tange ao caráter e à vida prática, são inqüestionavelmente cristãs. Entretanto, seu Cristianismo não está em nenhum sentido em sua ortodoxia. Ao contrário, é algo incomparavelmente mais elevado, mais amplo, mais doce, mais divino, e completamente diferente de sua ortodoxia. Seu Cristianismo permaneceria o mesmo se sua ortodoxia desaparecesse, e, de fato, apenas encontraria um crescimento mais vigoroso e digno se nunca tivesse o íncubo da ortodoxia pesando sobre si.

Então esta é minha posição, considerando que os ortodoxos são, em grande número, sem dúvida alguma verdadeiros cristãos em caráter e vida, apesar de sua teologia, mesmo a ortodoxia como teologia, em tudo o que é particular a ela como ortodoxia, ser essencialmente e eternamente anti-cristã, e tem sempre e em todos os lugares ferido e não ajudado a causa da verdadeira religião na terra.

Mas, movendo do geral ao específico, precisamente em que ela é anti-cristã? Respondo, principalmente em quatro aspectos:

Primeiro. A ortodoxia não é ensinada por Cristo, mas, em vez disso, contradiz muitos de seus ensinos mais claros.

Segundo. Ela é irracional.

Terceiro. Ela é essencialmente imoral.

Quarto. O tempo e maneira de sua usurpação de um lugar na igreja cristã pode ser claramente traçado na história.

1. A primeira acusação específica, então, que faço contra a ortodoxia é de que ela não é ensinada por Jesus, mas, em vez disso, está em clara contradição com muitos de seus ensinamentos mais proeminentes e repetidos com mais freqüência.

Para começar, Jesus em nenhum lugar faz qualquer insinuação de que ele saiba qualquer coisa a respeito de qualquer Trindade; ele expressamente chama seu Pai de Deus único; ele usualmente refere-se a si mesmo como sendo o filho do homem; ele nunca clama para si mesmo qualquer título que mesmo sugira que ele seja Deus; ele declara diretamente que seu Pai é maior do que ele. E, sobre sua unidade com o Pai, ele declara que esta seja do mesmo tipo que sua unidade com seus discípulos, e do mesmo tipo que a unidade de Deus com todos os filhos amorosos e obedientes, a saber, claramente, unidade de espírito, de amor, de propósito, de desejo.

A ortodoxia, por outro lado, declara que há três Deuses em um Deus (não simplesmente um mistério, mas uma declaração auto-contraditória), e que Jesus é o Deus verdadeiro – eterno, onipotente, e o Criador do mundo.

Por outro lado, Jesus ensina que o melhor e mais verdadeiro conceito de Deus que podemos ter é aquele de um Pai, que sempre amou e sempre amará cada um de seus filhos humanos, que sempre deseja o melhor bem-estar de seus filhos, e que nem tem seu coração endurecido contra eles quando eles pecam, de forma que não os deseje salvar, e nem suas mãos estão amarradas por imaginações de leis ou justiça, de forma que ele não os possa salvar, mas, em vez disso, que ele é um Pai que espera todo o dia que seu filho errante retorne a ele, como o pai na parábola do Filho Pródigo espera – pronto, regozijante, feliz em sempre perdoar; ele também não quer que ninguém morra em lugar deles, antes que ele perdoe, da mesma maneira como o pai do Pródigo não queria que alguém sofresse antes que ele perdoasse seu filho errante. Contrário a tudo isso, entretanto, a ortodoxia ensina que Deus sempre esteve enfurecido com seus filhos humanos quando eles pecavam, e ou não podia ou não queria (você pode agarrar qualquer um dos chifres do dilema que você escolher) perdoá-los, não importando o quão profundamente eles se arrependessem, até que uma pessoa inocente tivesse morrido em seu lugar.

Novamente, Jesus ensinou que a salvação é basicamente e essencialmente salvação do pecar, ou seja, salvação para santidade presente e conseqüente alegria. A ortodoxia, por outro lado, ensina que a grande e toda-importante idéia de salvação é escapar do tormento penal eterno no mundo vindouro, e a entrada num céu distante, no qual, certamente, uma grande parte daqueles que amamos estará impedida de entrar.

Novamente, Jesus ensinou que o reino do céu vem não “com observação”, mas que está “dentro de você” - uma coisa do coração e da consciência e do caráter, silenciosa, escondida, começando nas menores sementes do bem plantadas na mente, e crescendo e se desenvolvendo, silenciosa e naturalmente, como a influência da levedura na comida, ou como o milho que cresce no campo – primeiro a folha, depois a espiga, depois o milho completo na espiga.

A ortodoxia ensina, por outro lado – é muito dizer isso? - que o reino do céu vem com a observância, e veja! Aqui, com multidões, com excitações de pregações e cânticos e exortações, com profissões (de crença) barulhentas, com conversões proclamadas ao mundo, e todo esse tipo de coisa.

Novamente, Jesus ensinou que aqueles que serão aceitos no dia do juízo e que ouvirão as palavras de boas-vindas, “venham abençoados de meu Pai e herdem o reino preparado para vocês desde a fundação do mundo”, não serão aqueles que disseram “Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome?” - mas aqueles que fizeram a vontade do Pai ao alimentar os famintos, vestir os desnudos, visitar os doentes, receber os estrangeiros, ministrar às necessidades e sofrimentos de seus irmãos humanos neste mundo. A ortodoxia, entretanto, ensina que aqueles que serão aceitos no julgamento serão aqueles que simplesmente acreditaram que -

“Nada, grande ou pequeno,
Restou para eles fazerem;
Jesus morreu e pagou por tudo,
Sim, todo o débito deles”.

Finalmente, para não mencionar outros antagonismos entre os dois, Jesus ensinou que o único objeto apropriado de adoração para os seres humanos é Deus, o Pai de todos, editando uma forma de oração que começa: “Pai nosso que estás no céu”, e nunca dando nenhum sinal de encorajamento a qualquer outra coisa que indicasse na direção dele como objeto de adoração. A ortodoxia, entretanto, ou seja, a ortodoxia protestante dos assim chamados evangélicos, que tem sido tão popular na Inglaterra e América de hoje, reverteu tudo isso e elevou Jesus a, não simplesmente um objeto, mas ao principal objeto de adoração humana. A adoração à Virgem Maria é raramente mais visível nos países católicos que a adoração a Jesus está se tornando neste país. Não apenas nas pregações, mas em hinos e orações, Deus tem caído em segundo plano, e Jesus tomou seu lugar.

Outros pontos de antagonismo entre a ortodoxia e os ensinos de Jesus, quase tão importantes quanto esses, continuam, mas eu devo deixá-los de lado. Tenho tempo apenas para uma ou duas palavras de caráter geral.

Não há muito tempo atrás, ao conversar com um irmão ministro a respeito do Sermão na Montanha, ele observou que este sermão de Cristo era muito notável, e por várias razões. E, primeiramente, era notável por não dizer – tão notavelmente por isso como pelo que diz – pois não se pode fugir da verdade, ele realçou, que, naquele mais longo e completo de todos os discursos públicos de Jesus, no qual ele estabeleceu as verdades que tinha a oferecer aos homens mais plenamente que em qualquer outro lugar, o grande Mestre omitiu completamente tudo o que se conhece como sendo as doutrinas da ortodoxia. Ele explicou e anunciou o Cristianismo que ele tinha a oferecer aos homens, com tudo aquilo deixado de fora. E se seguirmos os ensinos de Jesus desde aquele tempo até o fim, não sei como alguém poderia negar que sempre o encontramos anunciando um Cristianismo que tem todas essas doutrinas que são peculiares à ortodoxia persistentemente deixadas de fora. A Trindade, a queda de Adão, a depravação total, o “plano de redenção”, e todas as outras, não estão lá. A única aparente exceção é a doutrina de um inferno eterno. Mas, mesmo quanto a essa, a exceção é mais aparente do que real; pois, naqueles casos nos quais Jesus se refere a uma punição no mundo vindouro, e usa a palavra “eterna” para se referir a ela, em cada caso a palavra grega Αιων ou Αιωνος, traduzida como “eterna(o)”, é a mesma palavra usada repetidamente em outros lugares no Novo Testamento para se referir a coisas que têm um fim.

E, se as doutrinas da ortodoxia não são apoiadas, mas, ao contrário, são quase todas elas claramente negadas e combatidas pelos ensinos de Jesus, então também, declaro que estão da mesma maneira rebatidas, em vez de estabelecidas, pela Bíblia como um todo. Eu admito que há mais que parece apoiar essas doutrinas em outras partes da Bíblia do que os Evangelhos. E você percebe que quando alguém vem diante de você, tentando provar quase que qualquer doutrina da ortodoxia, como regra ele vai para suas principais provas, não para o grande Mestre, mas para algum discípulo, ou para algum escritor do Antigo Testamento, cuja luz não era tão clara, e cuja compreensão dessas coisas não era tão perfeita como aquela de Jesus. Em outras palavras, ele lhe leva à luz do candeeiro, e não à luz do sol. Por que ele não lhe leva à luz do sol do Sermão da Montanha, e aos capítulos quatorze, quinze, e dezesseis de João, e aos Evangelhos em geral, para ver como esses temas aparecem lá? Se elas são as grandes doutrinas centrais do Cristianismo, como se afirma, certamente elas se encontrarão nos ensinamentos do Fundador do Cristianismo. Mas, não, em vez de levá-lo lá, ele leva você aos escritos de homens que viveram antes de Jesus, e que tinham apenas a luz do Judaísmo, ou então para os discípulos, que estavam bem abaixo de seu Mestre, e que certamente, durante todo o ministério de Jesus, estavam sempre entendendo-o erroneamente, mesmo quando se tratava dos mais simples de seus ensinos. E mesmo assim, não posso admitir que mesmo seus escritos, interpretados candidamente e à luz de uma ampla cultura, realmente ensinem quaisquer das distintas doutrinas da ortodoxia. E é notável, que aqueles escritores da Bíblia que estão mais avançados, e mais próximos do nível intelectual, moral, e espiritual de Jesus, sempre dão menos do que pelo menos aparente aprovação às doutrinas da ortodoxia, e se harmonizam mais plena e claramente com Jesus no ensino de verdades que antagonizam a ortodoxia em todos os pontos. Mas já me demorei muito nesta parte de meu assunto, apesar de que eu ficaria feliz, se o tempo permitisse, em tocar mais nesse assunto. Sigo agora para meu próximo ponto.

2. A ortodoxia é irracional. Eu a acuso de ser tão antagônica à razão quanto aos ensinos de Cristo. E isso não é algo para se considerar ligeiramente. Ela menospreza a razão, e diz que a razão é do homem natural, e que deve sempre se manter subordinada à fé. A coisa mais importante a ser feita, a coisa mais agradável a Deus, a coisa sem a qual não há nenhuma segurança ou salvação, é crer, simplesmente crer. E a explicação do mistério, de como a velha teologia é capaz de manter seu controle das mentes das pessoas como faz, está, mais do que qualquer outra coisa, neste simples fato, que ela ensina que o homem não deve duvidar, não deve questionar; os homens devem acreditar. Usar sua razão com a religião, além de um certo limite muito estreito, é do diabo.

Jamais esquecerei minha própria longa e amarga experiência com isso. Após dúvidas e receios a respeito de diferentes doutrinas da velha teologia começarem a surgir em minha mente e me perturbarem, fui mantido na trilha da tortura mental por meses e anos por todos aqueles a quem fui em busca de luz me dizerem que minhas dúvidas eram tentações do Maligno. Eu tinha de orar contra elas. Eu tinha que lutar contra elas. Tinha que derrubá-las, pois as gloriosas doutrinas da verdadeira fé eram doutrinas a serem reverente e implicitamente cridas, e não racionalizadas. A razão humana era uma faculdade depravada. Tinha caído com a queda de Adão, e assim deveria ser suspeita.

Bem, claro, uma teologia que uma vez tenha se apoderado da mente popular – e essa teologia se apoderou, devemos lembrar, em eras mais obscuras que a nossa, ela não poderia fazer isso agora – mas tendo uma vez se apoderado da mente popular, logicamente ela estaria muito firme e difícil de mover, pois ela guarda o início – coibindo seus adeptos no memento em que comecem a duvidar, dizendo: “Você não deve duvidar ou questionar ou racionalizar, pois isso é a essência do pecado”.

E, obviamente, também, uma teologia que se defende proibindo ou limitando a busca, e tornando a razão um tabu, deve necessariamente ser uma teologia irracional. Ela se declara ser destituída de razão em sua própria condenação da razão. Se ela mesma fosse racional, não faria nenhuma objeção a ser submetida aos testes da razão e investigação. Coisas nascidas da luz não temem a luz.

Os mais inteligentes apoiadores da ortodoxia sabem muito bem que cada aumento de luz e inteligência tende a mostrar a debilidade de sua teologia. Essa é a razão pela qual essa teologia tem lutado contra a ciência como faz. A ortodoxia parece instintivamente ter percebido desde o início que a ciência é sua inimiga. E assim, mesmo tendo feito barulhentas declarações de amizade com a ciência, e enquanto muitos de seus crentes têm sido verdadeiramente devotos à ciência, e não em poucos casos terem sido eles mesmos os promotores da ciência, como teologia, ela não tem sido amigável, mas hostil à ciência. Raramente qualquer coisa na história da civilização tem sido mais distinto do que foi sua amarga oposição ao sistema copérnico de astronomia, a não ser sua ridícula oposição posterior à ciência da geologia. E hoje se apodera com força de uma larga proporção dos mais importantes cientistas do mundo – especialmente da Alemanha, França, e Grã-Bretanha, e essas são as nações mais científicas do mundo – e amontoando sobre esses homens os epítetos de “céticos”, “infiéis”, e coisas semelhantes. E por que outra razão, apenas por ver que a tendência dessas ciências e das investigações desses homens seria minar o fundamento sobre o qual sua doutrinas mais importantes se baseiam? Ela se torna apreensiva; treme com a chegada de novas luzes, pois não sabe qual de suas outras teorias derreterá diante de si como uma ilusão da noite. Não, as investigações da razão já criaram uma devastação tão assombrosa das doutrinas da ortodoxia que não me surpreendo que os choros soem com mais fervor pelo resto do caminho - “Creia, apenas creia; tenha fé; confie e aceite, mesmo quando não puder ver; e acima de todas as coisas, não ponha sua confiança na razão”. Digo, não me surpreendo que esse clamor soe, com ardor quase desesperado, por toda a linha de frente ortodoxa.

3. Venho agora ao meu terceiro ponto. A ortodoxia é imoral. Afirmo que não seja apenas, primeiro, contrária aos ensinos de Jesus, e segundo, irracional, mas que é, em terceiro lugar, essencialmente imoral. Note, eu não digo que as pessoas que acreditam na ortodoxia sejam necessariamente pessoas imorais; nem digo que os homens que pregam a ortodoxia nunca pregam em adição a ela, ou, mais acuradamente falando, em oposição a ela, moralidade. Certamente alguns homens de morais irrepreensíveis são homens que consideram indubitavelmente a ortodoxia como verdadeira; e alguns pregadores, que pregam com grande vigor e poder contra o pecado e a favor da retidão, são pregadores das comunhões ortodoxas. O que digo é que a ortodoxia como uma teologia está misturada com idéias que são imorais em sua tendência, e que quase toda doutrina essencial dela está ou fundamentada sobre, ou necessariamente involve, princípios que, quando legitimamente praticados, levam à degradação de Deus e à injúria moral dos homens.

O fato de que essas tendências sejam até certo ponto controladas, e que esses princípios nem sempre fluam para seus legítimos resultados, não muda a natureza do caso de maneira alguma. Se eu puser sobre minha mesa pão no qual haja veneno, e serví-lo à minha família, seria apenas uma desculpa fraca que eu também servisse com ele outra comida que fosse saudável, ou mesmo que eu provesse algum remédio ou antídoto para o veneno. O fato é, veneno é veneno, seja veneno material ou moral, e nunca deveria ser dado nem ao estômago nem ao cérebro, e isso não pode ocorrer impunimente.

Observemos por um momento algumas das mais importantes doutrinas da ortodoxia separadamente.

Por exemplo, a doutrina tão energeticamente pregada da infalibilidade da Bíblia, ou a idéia de que cada palavra da Bíblia seja palavra de Deus, e que o livro deva ser aceito de capa a capa, sem nenhuma reserva. Veja o que essa doutrina envolve. Ela envolve crer que foi certo, por exemplo, que Josué conquistasse Canaã, que expulsasse um povo pacífico, que nunca o ofendera, de suas casas, e mais ainda, que era correto matá-los, não apenas os homens, mas mulheres e crianças indefesas, aos milhares e milhares, já que se dá a entender que tudo isso ocorreu com a aprovação de Deus. E alguns dos mais ultrajantes casos de todos, de crueldade e assassínio indiscriminado de mulheres e crianças, são expressamente declarados terem sido mandamento de Deus. Agora, que tipo de moralidade é essa?

Essa doutrina também envolve crer que fosse certo que Davi fizesse contra seus inimigos as mais vingativas, cruéis e chocantes orações para que eles fossem mutilados, destruídos, tivessem seus ossos quebrados, que a vingança de Deus estivesse sobre eles, que eles nunca fossem perdoados, que suas esposas e filhos passassem necessidade e não encontrassem ninguém para ajudá-los, que seus pequeninos fossem arremessados contra uma rocha. Eu nem preciso perguntar se era correto que Davi orasse por tais coisas. Entretanto, elas aparecem nos Salmos, e se os Salmos são plenamente inspirados de forma que sejam infalivelmente perfeitos, então essas imprecações horríveis e vingativas devem ser aceitas como tendo vindo de Deus.

Você certamente se lembra da conduta de Jacó, de como com a conivência de sua mãe ele enganou seu pai cego e moribundo, e fez com que seu pai pensasse que ele era seu irmão mais velho, Esaú, conseguindo assim a benção de seu pai, que Esaú deveria ter recebido, suplantando seu irmão da maneira mais flagrantemente desonesta, e levando uma vantagem sobre ele em termos da maior vantagem que um homem poderia levar sobre outro naquela época. E nenhuma palavra de condenação é jamais mencionada contra Jacó no relato bíblico, mas, ao contrário, ele é em todo lugar representado como o favorito especial de Deus. Que tipo de moralidade é essa? Mas todo homem que afirma que a Bíblia é infalível, e que ela deve ser aceita como se cada parte e partícula viesse de Deus, e como perfeita, é obrigado a receber todas essas coisas e outras semelhantes (e há incontáveis casos semelhantes no Antigo Testamento) como corretas. Agora, o que faz isso além de minar a moralidade e degradar o caráter de Deus, da maneira mais horrível?

Então, quem negará que a doutrina ortodoxa da infalibilidade da Bíblia seja, definitivamente, uma doutrina imoral?

Mas agora pense a respeito da doutrina da queda da raça humana em Adão. Essa doutrina ensina que por causa do pecado de um homem, toda a raça humana, nenhum deles que tenha nascido, e alguns deles que ainda não existiriam até milhares de anos mais tarde, deva ser considerada culpada, e tão terrivelmente culpada que a punição para eles é o tormento eterno. Pode-se imaginar qualquer outra coisa palpavelmente mais injusta, e moralmente ultrajante?

E agora, a doutrina da eleição e predeterminação. Essa ensina, em essência, que um pai escolhe e aponta desde a eternidade alguns de seus próprios filhos para serem salvos e outros para serem perdidos. Que tipo de paternidade é esta que pode fazer isso? Você poderia fazer isso, ou eu, mesmo sendo os seres pobres, errantes e imperfeitos que somos? E se não, então você pensa que Deus pode, aquele que é o Pai perfeito, infinito em poder e sabedoria, e bondade e amor?

E a doutrina da expiação como ensinada pela ortodoxia. De acordo com esta doutrina, a humanidade é culpada; Jesus é inocente. O inocente é punido; os culpados saem livres. Que tipo de moralidade é essa? Por que foi o inocente punido, eu pergunto? Para que a justiça fosse satisfeita, é respondido. Mas, eu respondo, essa é precisamente a maneira como a justiça é insatisfeita. A justiça, que é justiça real, e não uma falsidade, nunca encontra satisfação na punição da inocência, não importando se o inocente se oferece, de sua própria vontade, para ser punido. Para satisfazer as exigências da justiça, a culpa deve ser ou punida, ou perdoada, perdoada honesta e diretamente pela boa causa. E em qualquer transação que puna uma pessoa inocente, e que finja que foi a pessoa culpada que foi punida, a justiça não pode tomar parte. Ela lava suas mãos de toda coisa desse tipo.

Finalmente, a doutrina da conversão repentina – o ensino que alguém possa sair de uma condição merecedora do inferno, para uma condição digna do céu, por simplesmente realizar o ato mental de acreditar em algo! Que estranha mudança da ordem moral isso envolve! Suponha um caso como exemplo. Suponha que haja um homem aqui que viveu uma vida tão má quanto seja possível a um homem. Ele se tornou um bruto; ele blasfemou contra Deus, e feriu seu próximo com todo seu poder. Ele é um mentiroso, um ladrão, um adúltero, um assassino. Finalmente, depois de muitas fugas, ele é preso, julgado, sentenciado à morte. Dando-se conta que foi realmente pego, sem nenhuma chance de fuga, ele fica alarmado. Dizem a ele que acredite em Jesus e assim ele será salvo. Ele se converte, é enforcado, e vai para o céu. Eis um outro homem que viveu a vida mais exemplar; ele foi um filho zeloso, um marido amoroso, um pai fiel, um bom cidadão, alguém que sempre cuidou dos pobres e necessitados e dos sofredores, um amigo de toda boa causa, até mesmo alguém que apoiou a igreja e sustentou a religião, e, que de sua própria maneira, de acordo com os ditames de sua própria consciência, adorou a Deus. Mas ele nunca passou pela experiência mental chamada pela ortodoxia de crença em Jesus. Ele morre – e está perdido. O assassino que disse “Eu creio”, ergue seus olhos no céu; o bom homem que omitiu dizer isso, ergue os seus no inferno.

Esse tipo de doutrina é moral? Ou não é ela imoral da pior maneira? De fato, poderia se imaginar qualquer ensinamento que tendesse mais fortemente a dar um prêmio ao vício e ao crime, e desencorajar a virtude e a moralidade do que esse? Se se pudesse, eu não poderia pensar qual seria.

Outras doutrinas da ortodoxia podem se mostrar tão más quanto essas que acabei de mencionar. Mas já citei o suficiente. Se os exemplos já observados não forem suficientes para condenar todo o sistema como sendo, em sua natureza, desonrosos a Deus e destrutivos à virtude nos homens, então sou incapaz de julgar.

4. Eu chego agora à minha quarta e última acusação contra a ortodoxia, ou seja, a de que o tempo pode ser fácil e claramente traçado na história da igreja cristã, quando todas as mais importantes dessas doutrinas surgiram, e a maneira pela qual elas surgiram e se impuseram sobre o Cristianismo.

A doutrina da Trindade surgiu, como bem se sabe, nos séculos III e IV, tendo sua origem, inquestionavelmente, no Neo-Platonismo especulativo e excessivamente místico de Alexandria. Uma batalha teológica ocorreu sobre ela, que se espalhou por toda a Cristandade, despedaçando as igrejas gregas e latinas da maneira mais terrível, e despertando em todo lugar alienação e ódio onde antes houvera paz e harmonia. O Concílio de Nicéia, que a estabeleceu como ortodoxia, e como sendo a partir de então a fé da igreja, por muito tempo impôs um equilíbrio sobre ela; e quando, finalmente, o concílio se pôs a favor da doutrina, foi por uma maioria tão pequena quanto insignificante; enquanto não faltam evidências (e essas de fontes ortodoxas) de que a real influência que virou a balança foi o Imperador Constantino, um homem que moldou todo o seu trajeto pelo que pensava ser política, tendo diferentes épocas em sua vida nas quais mudara entre o Unitarismo e o Trinitarismo. E assim, não fosse a influência do astucioso imperador, que no momento estava sendo treinado pelo partido Trinitarista, o Unitarismo, a crença da igreja até aquele tempo, em vez do Trinitarismo, seria sem dúvida alguma a doutrina predominante na Cristandade hoje em dia.

Avançando um século ou dois, encontramos uma outra nova doutrina, vinda do cérebro sombrio e metafísico de Agostinho, se apresentando à Igreja. Desta vez é a doutrina da depravação total. A controvérsia envolvendo essa doutrina (chamada na história de Controvérsia Pelagiana) desolou a Cristandade por quase um século. No fim, ela favoreceu a especulação de Agostinho, e daquela época em diante a depravação total, com a queda da humanidade em Adão, se tornou parte da fé da igreja cristã.

Avançando ao século doze, encontramos a doutrina da expiação ou do sacrifício vicário de Cristo surgindo. A antiga igreja não declarava tal doutrina. Por muito tempo depois da morte de Cristo e dos apóstolos, os cristãos estavam contentes com as simples representações e declarações do Novo Testamento. E quando finalmente, com as eras metafísicas surgindo, eles começaram a moldar teorias especulativas, a primeira teoria que moldaram, olhando na direção da doutrina moderna da expiação, foi a de que Jesus morreu, não para pagar nenhum débito para com Deus, ou para diminuir a ira de Deus, ou qualquer coisa desse tipo, mas que ele morreu para pagar um débito para com o diabo. Um pacto havia sido acordado entre Deus e o diabo, que se Deus desse Cristo nas mãos dele (do diabo) para que ele fosse afligido e morto, ele (o diabo) abriria mão da raça humana e permitiria que Deus os salvasse do inferno. E essa doutrina continuou como a doutrina recebida, até o século XII, quando o grande teólogo escolástico Anselmo publicou um livro (Cur Deus Homo, no ano de 1109), contendo uma nova doutrina de que Jesus morreu como um sacrifício exigido pela justiça de Deus. A justiça de Deus exigia a condenação de toda a humanidade por causa de sua queda em Adão, e Cristo morreu em seu lugar, para que eles pudessem ser livres. Bem, essa doutrina, proposta como foi no tempo mais sombrio da noite medieval, e imposta pela grande habilidade intelectual de seu autor, finalmente foi aceita. E assim a temos diante de nós hoje, como uma doutrina que nos pedem que aceitemos, ou percamos a salvação.

Avançando na corrente histórica um pouco mais, encontramos no século XVI a doutrina de Lutero da justificação pela fé surgindo, e um pouco mais adiante, aquele conjunto de doutrinas conhecidas como Calvinismo.

A história do surgimento de todas essas doutrinas foi essencialmente similar. Cada uma delas teve sua origem no cérebro de algum especulador teológico; cada uma delas ganhou aceitação numa era de escuridão comparativa, e algumas em eras de grande escuridão, e somente depois de uma batalha, que durou muito tempo e que dividiu a igreja em facções hostis da maneira mais triste e horrenda.

E agora, em nossos dias, todas essas doutrinas têm a audácia de vir diante de pessoas inteligentes e exigir que sejam aceitas como cristãs. Nascidas no tempo em que nasceram, e tendo entrado na igreja cristã como entraram, nenhuma delas tendo sido apoiada pela igreja em suas primeiras e mais puras eras, elas ainda têm a petulância de afirmarem ser a essência do Cristianismo. Para dizer o mínimo, é estranho, muito estranho! Mas isso é o suficiente.

Já falei muito sobre algumas das razões mais proeminentes que tenho a oferecer como explicação do por quê me encontro compelido a rejeitar a ortodoxia como não sendo cristianismo em nenhum senso real, e de me posicionar como cristão fora dela, de adorar o Deus de meus pais da maneira como tantos chamam de heresia. Um ou dois pensamentos e terminarei.

Freqüentemente ouvimos lamentos a respeito do declínio do Cristianismo, do ceticismo e materialismo de nossa era, da indiferença das classes mais inteligentes e educadas para com a religião. Dizem que físicos são geralmente céticos, que advogados raramente freqüentam igrejas, que nossos mais importantes editores e escritores geralmente manifestam pouco interesse em coisas espirituais, que nossos políticos e estadistas não se importam com a religião cristã, exceto como uma forma de força política com as massas que deve ser usada para sua vantagem pessoal. Também, freqüentemente se diz que os empresários mais importantes de nossas grandes cidades vão cada vez menos à igreja. Agora, o que tudo isso significa? Pois tudo isso tem um significado. Qual é o significado? Ah! Essas coisas que falei esta manhã apenas dizem claramente o que isso significa. Apenas significa que a inteligência desta era e deste país está se afastando de uma religião muito estreita e muito irracional. Coisas são ensinadas como sendo a essência da religião que vastos números desses homens vêem como triviais e absurdas para que eles dêem seu tempo e atenção. Assim, enquanto eles respeitem as instituições do Cristianismo, e em muitos casos contribuam com a construção de igrejas, e que cheguem mesmo a favorecer suas esposas e filhos por irem à igreja, eles evitam ir à igreja o quanto puderem, preferindo ficar em casa e ler Tyndall, e Spencer, e Proctor, e as revistas, e os jornais diários, de onde podem aprender algo que apela à razão e que nutre sua inteligência, em vez de irem a igrejas e ouvirem doutrinas que já ouviram centenas de vezes, e que soa como o mais óbvio absurdo toda vez que as escutam. Não faz muito desde que o Evangelista de Nova York, falando a respeito desse tema, usou essas palavras:

“Dentre todos os jovens inteligentes, que neste momento estou na liderança do pensamento e ação na América, nos aventuramos a dizer que quatro dentre cinco são céticos dos grandes fatos históricos do Cristianismo. O que é ensinado como doutrina cristã pelas igrejas não é considerado por eles, e entre eles há uma desconfiança geral a respeito do clero, como uma classe, e uma repugnância contra o aspecto do Cristianismo moderna e contra a adoração da igreja. Esse ceticismo não é petulante; pouco é dito sobre ele. Não é uma peculiaridade de radicais e fanáticos; muitos dos que o abraçam são homens de mentes calmas e equilibradas. Não é mundano e egoísta. Não, os que duvidam lideram da forma mais corajosa e mais altruísta os nossos dias”.

Disse o Rev. Newman, em um recente discurso veiculado em um jornal secular: “Na próxima década, e nos próximos cinco anos, o Cristianismo será julgado como nunca foi julgado antes. Há homens na Inglaterra e na América hoje, que atacarão com seu conhecimento acadêmico, com o poder do intelecto, e com uma amplitude de opiniões, inigualável no passado, e há homens e mulheres diante de mim esta noite que estão destinados a ter sua fé terrivelmente abalada”.

Não faz muito que o Bispo Simpson declarou publicamente que o tempo havia passado no qual a igreja cristã (significando, claro, a igreja cristã ortodoxa) podia recrutar homens adultos; a única esperança que lhes restava eram os jovens, especialmente as crianças. Portanto, ele exortou seus partidários religiosos a duplicar sua diligência nos esforços de assumir o controle de seus filhos antes que eles crescessem, e, claro, ficassem tão inteligentes (apesar de ele não ter se expressado exatamente com essas palavras) a ponto de virarem as costas às igrejas.

O que tudo isso significa? Alguém é tão cego a ponto de não poder ver? Pois bem! Pois bem! Significa que esses homens, cujas palavras citei, estão começando a discernir que o Cristianismo está entrando em uma crise tal que nunca foi vista antes, nem mesmo nas perseguições do século II, ou nos arremessos da Reforma alemã. Mas significa muito mais que isso; e o estranho é que esses homens não o vêem. Significa que a ocasião e causa da crise é basicamente a imensa bobagem e cegueira da própria igreja cristã em continuar, em face de toda a luz e inteligência de nossa era, a se prender a uma teologia que aquela luz e inteligência estão descobrindo tão rapidamente ser falsa.

A inteligência de nossa era realmente se afasta do ensino das igrejas desta era, porque tem que; e continuará a fazê-lo, cada vez mais, tão certo quanto a verdade é verdade, e tão certo quanto Deus reina, até que chegue uma época na qual as igrejas cristãs tenham uma teologia a oferecer aos homens que não se oponha aos ensinos mais claros do Fundador do Cristianismo; que não ataca a razão e o senso comum, que não viola o senso mais profundo de justiça do homem, e que não se impôs ao Cristianismo vindo de fora, como fez a ortodoxia.

Eu vos digo que os homens que se levantam nesta época iluminada e neste país para reafirmarem as doutrinas da ortodoxia, estão apenas bombardeando os melhores cérebros e cultura deste país diretamente de suas igrejas. Não importa se esses homens lotam auditórios e ganham momentaneamente o que parece ser sucesso. É sempre o mesmo. Seu sucesso é um relâmpago. Um simples vento de razão sóbria os vence. A longo prazo, no efeito profundo e permanente e real que produzem, eles afastam os melhores cérebros e inteligências do Cristianismo e, triste como é, em direção à descrença de toda religião. A única coisa que pode segurar a inteligência dessa era, sem falar das inteligências maiores das eras vindouras, é um Cristianismo que seja puro, racional, claro e limpo do que sobreviveu dos séculos das trevas – em uma palavra, cristão. Tal Cristianismo, uma vez mantido em sua beleza divina, não pode falhar em se recomendar às mentes honestas e devotas desta e de todas as eras.

E, creiam em mim, amigos e irmãos, tal Cristianismo é o herdeiro certo do futuro. Podemos não viver para ver o dia no qual ele prevalecerá, mas ele prevalecerá com certeza, pouco a pouco.

(Sermão pregado pelo Rev. Jabez T. Sunderland em Northfield, Massachusetts. Outubro de 1875.)

Citação Unitarista 2

Entre 1735 e 1805, duas gerações de religiosos liberais, comumente chamados de Arminianos, rejeitaram os padrões tradicionais calvinistas de pensamento e desenvolveram um novo conjunto de teorias a respeito da natureza humana e do destino humano.

A posição doutrinária dos liberais combinou três tendências que podem ser logicamente distinguidas: o Arminianismo, o racionalismo sobrenatural, e o anti-trinitarismo. O Arminianismo afirmava que os homens nasceram com a capacidade tanto para cometer o pecado quanto para praticar a retidão; que eles podem responder ao impulso para a santidade e ceder à tentação para fazer o mal; e que a vida é um processo de teste e disciplina pelo qual, com a assistência que Deus dá a todos, a escravidão ao pecado pode ser gradualmente vencida. Essa afirmação da habilidade humana contrasta com a crença calvinista de que a natureza inata humana seja pecaminosa, que Deus decretou felicidade infindável para alguns e tormento eterno para outros, e que a salvação vem como um presente imerecido do Espírito Santo de Deus.

O racionalismo sobrenatural, aceito por muitos calvinistas além dos liberais, foi virtualmente a teologia ortodoxa da Era da Razão. Afirmava que a razão não-auxiliada pode estabelecer o essencial da religião natural: a existência de Deus, as obrigações da moralidade, e uma ordem divina de recompensas e punições. Mas diferentemente do Deísmo, insistia que a religião natural devesse ser suplementada por uma revelação especial da vontade de Deus. A Bíblia é tal revelação, que reforça a religião natural, declarando suas obrigações mais clara e impressivamente; e proclama o evangelho da redenção por meio da perfeita obediência de Cristo, que a razão não-auxiliada jamais poderia ter descoberto...

Finalmente, os liberais tendiam a ser anti-trinitários, principalmente por não estarem convencidos de que a doutrina da Trindade estivesse nas escrituras. A maioria deles eram arianos, crendo que Cristo, enquanto não parte da Divindade, fosse um ser de nível mais elevado na Criação que um mero homem.

- Conrad Wright, The Beginnings of Unitarianism in America, Beacon Press, 1966.

Citação Unitarista 1

O Cristianismo Unitarista afirma Jesus como a figura central na história humana, e sua vida, morte e vitória como seu evento básico. Afirma a vida em seus altos e baixos, sua amplitude e vivacidade. Afirma o homem como tendo nascido de Deus e lutando contra o medo, desprezo e orgulho, para ser digno de renascer em amor abrangente. Afirma o caráter pessoal da fé, e a difícil estrada da justificação. Afirma a personalidade como dada à imagem de Deus, e se esforça para que essa personalidade possa existir livre e incorrupta. Afirma a universalidade da idolatria e da alienação, e perdoa o ódio e paga o mal com o bem. Afirma Deus como um espírito reconciliador, Jesus como Seu instrumento, e o homem como consumação. Afirma o passado como revelação, o presente como liberdade, o futuro como esperança frágil. Afirma a grandiosidade da alma humana, viva ou morta, e crê na herança e retorno como sendo semelhante à imortalidade. Afirma a Divindade nos olhos brilhantes das crianças, no... sacrifício simples e heróico, no silêncio, na música e na dança, e no sonho de ordem que une os homens. Afirma o amor em todas as suas formas, renuncia a gritante violência da guerra, dá paz e alegria infindáveis. Afirma não a si mesmo, mas Deus, na misericórdia de cujo cuidado e na glória de cuja presença é santificado e curado. Afirma o próximo momento como tempo suficiente para que a luz ilumine a escuridão, e para que a alma do homem seja liberta.

- David B. Parke, “A Integridade do Unitarismo”, Fé e Liberdade, Outono, 1960.