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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

LIBERDADE ESPIRITUAL (Extratos)

O todo-sábio Árbitro se satisfez em nos cercar desde o nascimento de dificuldades e seduções, em nos colocar em um mundo onde o mau procedimento é frequentemente lucrativo, e o respeito é duro e perigoso, onde muitos vícios opõem-se aos ditames do controle interior, onde o corpo pressiona como se fora um peso sobre a mente, e a matéria, por sua perpétua ação sobre os sentidos, se torna uma barreira entre nós e o mundo espiritual. Estamos em meio a influências, que ameaçam o intelecto e o coração; e ser livre é resistí-las e conquistá-las.

Chamo de livre aquela mente que domina os sentidos, que se protege contra apetites animais, que despreza o prazer e a dor em comparação com sua própria energia, que penetra o corpo e reconhece sua própria realidade e grandeza, que percorre a vida, sem perguntar o que comerá ou beberá, mas tendo fome e sede de justiça.

Chamo de livre aquela mente que foge da prisão da matéria, que em vez de parar no universo material e torná-lo um muro de prisão, vai além dele rumo ao seu Autor, e encontra nas assinaturas radiantes que em todos os lugares dão testemunho do Espírito Infinito, e que ajuda sua própria iluminação espiritual.

Chamo de livre aquela mente que ciosamente guarda seus direitos e poderes intelectuais, que não chama nenhum ser humano de 'mater', que não se contenta com uma fé passiva ou hereditária, que abre-se à luz de onde quer que venha, que recebe novas verdades como um anjo vindo do céu, que, enquanto consultando outros, consulte ainda mais o oráculo dentro de si mesma, e use instruções de fora, não para suplantar mas para avivar e exaltar suas próprias energias.

Chamo de livre aquela mente que não põe limites ao seu amor, que não é aprisionada a si mesma ou a uma seita, que reconhece em todos os seres humanos a imagem de Deus e os direitos de seus filhos, que se deleita na virtude e se condói do sofrimento onde quer que ele seja visto, que conquista o orgulho, o ódio, e a preguiça, e se oferece como uma vítima à causa da humanidade.
Chamo de livre aquela mente que não é passivamente emoldurada por circunstâncias externas, que não é varrida pela torrente de eventos, que não é a criatura de impulsos acidentais, mas que dirige os eventos para seu próprio melhoramento, e age movida por uma fonte interior de princípios imutáveis que ela deliberadamente abraçou.

Chamo de livre aquela mente que por meio da confiança em Deus e no poder da virtude, se despiu de todo medo, com exceção do medo de agir de forma errada, que nenhuma ameaça ou perigo pode escravizar, que é calma em meio aos tumultos, e que se possui mesmo que todo o resto esteja perdido.

Chamo de livre aquela mente que resiste à escravidão do hábito, que não se repete mecanicamente e copia o passado, que não vive de velhas virtudes, que não se escraviza a regras precisas, mas que esquece o que passou, ouve admoestações novas e mais elevadas da consciência, e se regozija com esforços novos e mais elevados.

Chamo de livre aquela mente que é zelosa de sua própria liberdade, que se protege contra ser fundida com outras, que guarda seu império sobre si mesma como sendo mais nobre que o império do mundo.

Finalmente, chamo de livre aquela mente que, consciente de sua afinidade com Deus, e confiando em suas promessas por meio de Jesus Cristo, devota-se fielmente ao desenvolvimento de todos os seus poderes, que ultrapassa os limites do tempo e da morte, que espera avançar para sempre, e que encontra poder inesgotável, na ação e no sofrimento, na perspectiva da imortalidade.

Tal é a liberdade espiritual que Cristo veio dar. Ela insiste na força moral, no auto-controle, no alargamento do pensamento e da afeição, e na livre ação de nossos melhores poderes. Este é o bem maior do Cristianismo, e não poderíamos conceber um maior no dom de Deus. Sei que para muitos, isto parecerá um bem muito refinado para ser proposto como a grande finalidade da sociedade e do governo. Mas nosso ceticismo não pode mudar a natureza das coisas. Sei o quão pouco esta liberdade é compreendida e desfrutada, quão escravizados os homens estão aos sentidos, à paixão, e ao mundo; e eu sei, também, que esta escravidão os torna infelizes, e que enquanto ela durar nenhuma instituição pode trazer-lhes felicidade.
William Ellery Channing
"Liberdade Espiritual", 1830
(Extratos)
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