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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A Fé Progressista versus A Ilusão de Controle

Nunca pensei na igreja progressista como uma resposta à direita religiosa ou à igreja conservadora ou dogmática ou ortodoxa. Desde meus primeiros dias de seminário, sempre supus que a igreja progressista fosse uma resposta à verdade de Deus como revelado em Jesus e em outros mestres e profetas iluminados. É uma resposta ao lento desvendar dos segredos do universo que continuam a expandir nossa compreensão dos temas bíblicos, do Jesus histórico e do desenvolvimento das religiões em geral. Sempre supus que a igreja progressista fosse tanto uma resposta à verdade quanto uma busca pela mesma. Em outras palavras, uma igreja progressista está baseada na aceitação de uma fé progressista.

Progresso por definição significa “marchar adiante”. Obviamente isto implica mudança, transição ou a necessidade de revisar nosso pensamento. Progresso sempre significa mudança, e mudança raramente é fácil, especialmente quando estamos lidando com assuntos subjetivos e mesmo sagrados em nossas vidas.

A verdade é que o movimento cristão, ou o que agora chamamos de igreja, foi sempre progressista. Jesus e seus seguidores eram agentes de mudança, e foi isto que lhes meteu em encrenca. De acordo com o autor do Evangelho de Marcos, Jesus disse: “A lei do Sábado foi feita para a humanidade e não a humanidade para a lei do Sábado”, quando ele intencionalmente quebrou a sagrada lei do Sábado de sua religião. É difícil para nós entendermos como disputar a respeito disso seria difícil para pessoas de seu tempo. Você pode ter uma idéia, entretanto, se for para Israel hoje e quebrar a lei do Sábado. Jesus curou no Sábado, ele comeu com os chamados “impuros”, e confrontou os poderes e principados de sua cultura, assim como sua religião. Ele exigia mudança no sistema de crença religiosa de seu povo se este fosse injusto ou opressor àqueles que eram banidos ou marginalizados.

É difícil para eu entender como bons fundamentalistas bíblicos deixam isso passar. Penso ser cômico, por exemplo, quando bons cristãos me contam quão mal se sentem a respeito de gays e lésbicas, mas, o que podem fazer? Sempre dizem com tristeza: “Você sabe o que a Bíblia diz”. Bem, vou lhes contar o que a Bíblia me diz. Quando alguma lei, seja ela de Moisés ou algum sacerdote de Levítico, for injusta ou opressiva a uma minoria, ela deve ser ignorada ou mudada. Foi isso que Jesus fez, e ele entregou sua vida por isso. E é isso que a igreja que segue Jesus de Nazaré deve fazer. Não vejo nenhuma outra forma de ler isto. Mas sempre que confrontamos o status quo de qualquer coisa, estamos pedindo encrenca; e se as diferenças forem suficientemente grandes, as conseqüências podem ser ameaçadoras (podem chegar a ameaçar vidas, inclusive).

Mesmo Paulo foi por definição progressista em sua teologia para o seu tempo. Em sua carta aos Gálatas, Paulo toma a posição de que como cristãos não somos mais escravos da lei mas escravos do amor, uma declaração surpreendente e progressista para um judeu de sua época.

A antiga igreja era conhecida por sua vasta variedade de interpretações dos eventos de Jesus, algumas das quais estão refletidas em nossos evangelhos hoje. Por toda a história numerosos renomados teólogos e sábios progressistas, pessoas de muita fé, têm tido perspectivas da fé cristã que são muito diferentes daquelas mantidas pela igreja cristã normativa. Infelizmente, a maioria deles foram considerados hereges e foram aprisionados, mortos, ou forçados a se retratar. Infelizmente, seus estudos e escritos foram frequentemente escondidos ou destruídos. Bispo Ário, no século III, Meister Eckhart no século XIV e D.F. Strauss no século XIX são só alguns das dezenas de outros.

Hoje enfrentamos o mesmo desafio que enfrentaram aqueles que já se foram. O que consideramos crença, conhecimento e fé?

O teólogo Karl Rahner uma vez escreveu: “...o que é chamado de conhecimento na fala cotidiana, é apenas uma minúscula ilha em um vasto mar que ainda não foi explorado... Assim, a questão existencial para o conhecedor é esta: O que ele ama mais, a minúscula ilha de seu assim chamado conhecimento ou o mar de infinito mistério?

Karl Rahner escreveu isso muito antes da física quântica, da descoberta dos buracos negros, e da maioria das descobertas de que cerca de 90% do universo pareça estar em dimensões que nunca podemos ver.

A questão se torna então, amamos a minúscula ilha de conhecimento mais ou nos importamos em navegar no “mar de infinito mistério”? É muito mais fácil, e certamente mais confortável ficar na minúscula ilha de conhecimento e ser um especialista em um paradigma familiar do que se aventurar no desconhecido.

Talvez essa seja a razão pela qual o renomado teólogo Karl Rahner tenha escrito: “Teologia significa levar encrenca racional ao mistério”.

I.I. Mitroff e W. Bennis, dois sociólogos, escreveram um livro em 1989 chamado “A Indústria da Irrealidade” (The Unreality Industry). Eles sugerem que a “dialética fundamental de nossos tempos é entre a realidade e a irrealidade, especialmente agora que temos poder de influenciar e criar ambos”. A razão por estarmos criando “realidades substitutivas”, eles argumentam, é que o mundo se tornou tão complexo que “ninguém ou nenhuma instituição pode plenamente entendê-lo ou controlá-lo”.

“Se os humanos não podem controlar as realidades com as quais se deparam, então eles inventarão irrealidades sobre as quais possam manter a ilusão de controle”. A questão é, eles escrevem, temos a coragem de enfrentar direta e honestamente as complexas realidades que somos capazes de criar e descobrir ou nos afastaremos da realidade e investiremos nossa energia na negação da realidade? Pergunto-me como as palavras desses dois estudiosos poderiam se aplicar às religiões de nossos dias. Tem algo a ver com o que tem sido chamado de movimento fundamentalista nas religiões do mundo hoje? Tem algo a ver com a religião neste país hoje?

Uma fé progressista é aquela que está disposta a desafiar as suposições e testar o paradigma sob o qual operamos. Ela não tem medo de fazer perguntas difíceis e de admitir a dúvida.

Como argumentam Bennis e Mitroff, a maioria de nós se sente desconfortável com coisas desconhecidas e mistérios, então criamos irrealidades para preencher os espaços em branco. Queremos sentir que estamos sobre bases sólidas. Não apenas queremos saber onde está o caminho, mas também aonde ele leva.

Hoje, em nosso mundo multi-cultural, em nossa economia interdependente, numa era com buracos negros, física quântica, e quarks, quando se nos diz que não há tempo ou espaço, podemos nos sentir muito vulneráveis. Temos muita dificuldade em identificar uma base sólida ou uma senda iluminada. É compreensível que as pessoas queiram simplificar seu pensamento. Uma religião progressista, como uma fé progressista, não é uma senda fácil pois pode questionar o próprio chão sobre o qual pensávamos estar caminhando.

O ponto é que é sempre mais fácil não questionar ou duvidar. É geralmente mais fácil ignorar a verdade se ela requer que mudemos. Frequentemente será mais fácil permanecermos no mesmo lugar.

Este é um tempo excitante no qual vivermos. Creio que se seguirmos o exemplo de Jesus, e deixarmos de lado a necessidade de dogma ou de sistemas de crença inflexíveis, e se aprendermos a nos mover com o fluxo do espírito, poderemos ter a dinâmica experiência de sermos lançados no “mar de infinito mistério”.

A fé progressista pode ser assustadora, mas sempre será excitante.
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