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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O teólogo entrevistado, o Islã e a mentecapta naturalidade


Ontem, ouvi um comentário que me fez não saber se ria ou se chorava, enquanto ouvia uma entrevista. Aquele entrevistado, apresentado como “teólogo”, resumia o cenário dum capítulo infeliz da história de 2015 – um capítulo que parece querer reescrever uma narrativa já conhecida de “caça às bruxas”. O “teólogo”, fazendo uma comparação histórica e teologicamente desinformada entre o Islã e o Cristianismo, dizia que não havia nada de naturalmente pacífico no Islã, já que – em sua opinião – só o Cristianismo era naturalmente pacífico!

Sua infeliz afirmação continha uma verdade inegável: não há nada de naturalmente pacífico no Islã!... E considero-a inegável porque, em minha visão, ideias não são naturais, conceitos não são naturais, crenças não são naturais... Logo após esse reconhecimento da não-naturalidade das ideias islâmicas, entretanto, ele inadvertidamente se contradisse, cometendo o equívoco de afirmar que essa naturalidade podia ser encontrada em sua própria tradição religiosa (da qual também partilho)!

O indivíduo cuja entrevista ouvi, aparentemente não compreendia que o Islã é uma noção contestada – assim como o Cristianismo (e mesmo a Paz). E isso porque o uso de todas essas noções é reflexivo: isto é, seu uso reflete mais o lugar onde o usuário se encontra no espectro do debate religioso/político/ideológico do que, propriamente, as continuidades e mudanças de sentido dado a eles (Islã e Cristianismo) por todo o diverso corpo de seus adeptos ao longo do tempo.

Assim, se dissermos que o Cristianismo (uma noção contestada ao menos pelas diferentes tradições autoidentificadas como “cristãs”) é “naturalmente” pacífico, a qual versão do mesmo estaríamos nos referindo? [Não poderia ser a de Jesus, já que ele não era cristão!]: À versão do imperador romano que o oficializou? À versão dos cavaleiros cruzados que dizimaram populações não cristãs? À versão dos inquisidores católicos que caçaram não-conformistas no mundo ibérico? À versão dos calvinistas bôeres que criaram/apoiavam o sistema do apartheid na África do Sul? À versão dos quakers (quacres) que proclamaram e viveram uma versão extremada de pacifismo?... É impossível falar em “naturalidade” duma mensagem quando não se consegue nem definir quem sejam seus agentes. [Para que não reste dúvida quanto à minha visão: o Cristianismo – minha fé – é uma criação histórica múltipla, e todas as suas faces são “cristãs”! Não é uma entidade ou objeto “natural”, que caiu pronto do “céu”. O Cristianismo, enquanto existir, continuará a seguir seu processo de formação – como toda e qualquer tradição de fé existente.]

É “interessantíssimo” que a maioria dos denunciadores do Islã que aparecem nos meios midiáticos, incluindo a internet, tenham uma leitura bem seletiva das fontes islâmicas. Isto é, facilmente citam trechos descontextualizados do Corão para “provar” o quão violenta é a mensagem do Islã. E isso é ainda mais “interessante” quando o assunto é política (e não exatamente religião).

Uma contextualização intelectualmente íntegra do Islã exige que incluamos aqueles antecedentes que os próprios muçulmanos utilizam como fonte para a interpretação de sua própria fé: a narrativa sobre Muhammad e os primeiros muçulmanos; a perspectiva teológica mediada pelo Corão e pelos ditos de seu Profeta; os arranjos institucionais e legais que se desenvolveram ao longo da emergência do Islã como uma força política e sociocultural; e sua própria experiência contemporânea. Grupos de fanáticos “terroristas” (lembre-se que mesmo esse conceito é contestável, se estivermos dispostos a analisar cuidadosamente a raison d'être de seu uso!) não podem ser os definidores do que mais de 1 bilhão e meio de pessoas acreditam – são elas, a partir de suas diferentes tradições e de suas próprias convicções e práticas, que devem definir suas próprias crenças.

Por que utilizaríamos citações da al-Qa'ida ou do Da'ish para definir o que os muçulmanos acreditam ser o Islã ou sua relação com a paz e com o mundo em geral? Por que nenhuma citação do atual establishment ortodoxo sunni ou shia? Por que toda uma tradição – que, na verdade, é multifacetada – seria definida por vozes marginais em seu próprio interior?

A equalização desinformada do Islã com o terrorismo e a violência é tão absurda quanto afirmar que o Cristianismo e o Fascismo, por exemplo, sejam sinônimo. O Fascismo pode ter emergido no seio duma sociedade majoritariamente (ao menos nominalmente) cristã; seus líderes podem ter se apropriado de símbolos cristãos; muitos cristãos podem ter abraçado o Fascismo; mas nada disso é suficiente para supor ou afirmar que o Cristianismo e o Fascismo sejam o mesmo – o Cristianismo é muito mais do que o pensamento ou a experiência de um certo grupo de fieis. [A comparação aparentemente exagerada, a propósito, se justifica pelo simples fato de os movimentos jihadistas serem movimentos políticos – e politizarem o Islã, utilizando-o a seu próprio favor –, de forma semelhante ao que ocorreu entre movimentos fascistas e membros do clero ou fiéis católicos italianos, eslovacos e croatas.]

O Islã não é “naturalmente” nem violento nem pacífico. Isso porque, para um não-muçulmano como eu, o Islã não é uma entidade ou objeto “natural”. É uma construção histórica. E, como construção histórica, pode ser tanto pacífico quanto violento. Tudo depende a partir de que perspectivas olhemos para seus frutos.

O Islã é uma tradição viva e multifacetada, na qual a maioria dos fiéis se esforça para discernir as ligações entre a narrativa histórica tomada como padrão exemplar e sua experiência contemporânea. Exatamente o que fazem os seguidores de todas as demais tradições enraizadas no texto escrito. Seus textos sagrados, as interpretações desses feitas pelas primeiras autoridades da tradição, as narrativas das experiências das primeiras comunidades de seguidores, e as ideias e práticas que se desenvolveram ao longo do tempo, contribuem para que os fieis judeus, cristãos, muçulmanos, etc, etc, etc, construam uma interpretação de sua fé relevante para sua experiência contemporânea – mesmo quando pensam que a única coisa que fazem é seguir o que já foi dado!... Ignorar isso, enquanto se apresenta como “teólogo”, é uma estarrecedora manifestação de ignorância voluntária!

+Gibson
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