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terça-feira, 18 de maio de 2010

Não Acredito em Deus

Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos disseram para ele: “Nós vimos o Senhor.” Tomé disse: “Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.”


Uma semana depois, os discípulos estavam reunidos de novo. Dessa vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: “A paz esteja com vocês”. Depois disse a Tomé: “Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque o meu lado. Não seja incrédulo, mas tenha fé”. Tomé respondeu a Jesus: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus disse: “Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto”.


Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham vida em seu nome. (João 20:24-31)



No último curso de preparação para confirmação que tivemos aqui, pelo menos um jovem disse claramente “Não acredito em Deus” e outros se declararam como sendo céticos ou agnósticos. E, mesmo assim, nós os confirmamos como membros desta congregação.


Crença. Certeza. Dúvida. Fé. No Cristianismo ocidental contemporâneo, especialmente no meio protestante brasileiro, essas palavras passaram a significar certas coisas, passaram a carregar em si um certo peso. Mas há um grande problema com o uso dessas palavras, por causa das noções que vêm atreladas a elas.


Quando alguém me diz “Não acredito em Deus”, como vários jovens já me disseram e como aquele jovem repetiu no curso de preparação para a confirmação, minha resposta tem sempre sido: “Me fale um pouco sobre esse Deus no qual você não acredita – eu provavelmente também não acredito nele”.


O que geralmente se fala no meio cristão é que Deus é um ser sobrenatural onisciente e todo-poderoso que age com intenção e intervém na história humana. Muitas pessoas acreditam que Deus tem uma vontade, um plano para a humanidade, e que Deus manipula os eventos em nossas vidas, como se fôramos marionetes.


As crenças que se tornaram padrão no Cristianismo incluem a aceitação de que a Bíblia seja de alguma forma uma comunicação da mensagem de Deus e plano para como devamos viver juntos como comunidade humana. A ortodoxia cristã inclui as crenças em Jesus como filho único de Deus, sendo divino e humano em sua natureza, e que ele foi o mensageiro da vontade de Deus e que morreu para reconciliar uma humanidade caída e corrupta com Deus.


O problema que muitos de nós aqui nesta sala tivemos é que, em algum ponto, essas crenças não são mais críveis, não fazem mais sentido. Mas porque é assim que o Cristianismo é ensinado e compreendido na cultura brasileira, não acreditar naquelas doutrinas significa que se está pisando fora do território do Cristianismo.


Um amigo meu está no meio dessa jornada de não mais acreditar na verdade literal da mitologia de nossa narrativa cristã, e me disse: “Acho que não posso continuar a ser cristão”. Como ele, um grande número de pessoas está abandonando a fé, ou ridicularizando-a, ou foi deixado com um senso de perda e desespero por causa do como identificamos a aceitação de doutrinas – algumas delas antigas e sem sentido – como sendo a verdade sobre a experiência religiosa cristã.


É exatamente aí que me afasto plenamente da ortodoxia cristã. Não creio que o Cristianismo possa ser definido como sendo o que acreditamos. Não em sua essência. Não em seu início. Penso que se tornou isso, mas não penso que seja isso que ele deva ser.


A passagem que eu li do evangelho de João fala um pouco sobre isso. A narrativa sobre o duvidoso Tomé e como ele teve de tocar a ferida de Jesus antes de poder acreditar tem sido interpretada e usada através dos séculos para tentar incutir culpa nas pessoas, para forçá-las a abandonar suas dúvidas e fazê-las aceitar algo que é inacreditável – que Jesus apareceu em carne após ter sido executado. Tomé é ridicularizado e usado como um exemplo do que não deveríamos ser, como se para que nossa fé fosse vista como mais autêntica, não exigiríamos tais provas.


Há vários níveis no livro de João, e ele, como um livro e como um documento teológico, tem um relacionamento único com o evangelho de Tomé – e não é por acaso que o discípulo duvidoso nesta narrativa é chamado de Tomé. E, tanto no evangelho de João como no de Tomé, o que é importante é que se acredite. Não em nome da própria crença, mas por causa de onde ela lhe levará.


Em seu início, o Cristianismo era uma experiência que as pessoas tinham. Era um visão radical de comunidade inclusiva. Uma nova sociedade que praticava um amor transformador. Crer na possibilidade disso, comprometer sua vida com isso, vivendo essa realidade, isso é que era o Cristianismo – e é isso que eu penso ser o Cristianismo agora. Há uma pista disso naquela passagem de João – mesmo estando pavimentada com a linguagem da crença.


Os últimos dois versos dizem o seguinte: “Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham vida em seu nome”. Em outra parte do livro de João, lemos que Jesus tenha dito: “Eu vim para que vocês tenham vida, e a tenham de forma plena” - outras traduções dizem: “e a tenham em abundância”.


O Cristianismo não é, creio eu, sinônimo de aceitação de noções não científicas a respeito da origem do universo, ou que Maria tenha sido uma virgem, ou que Jesus tenha andado sobre a água. Não é sinônimo de aceitar Deus como sendo um ser todo-poderoso que tenha um plano específico ou que tenha poder sobre a decisão dos brasileiros nas próximas eleições presidenciais, nos resultados da Copa ou sobre o tempo. Não é sinônimo de como pensamos que o mundo terminará ou se há ou não uma vida pós-mortal.


Para mim, a experiência religiosa é abraçar o mistério que nos cerca. É reconhecer que há algo sagrado nesta vida que vivemos. Que há um ímpeto à criação que nos traz vida, e nos move em direção ao bem e eleva na humanidade uma resposta de admiração diante da vida. É a fonte de nossa poesia, de nossa música, e da profunda ligação que sentimos com as pessoas que amamos e com a própria criação. É isso que nos move à gratidão e, às vezes, nos faz cair de joelhos.


Escolho permanecer dentro da tradição cristã, porque ela é meu lar. Fui criado nela, eu a compreendo, sua linguagem e seus rituais me tocam. Mas não penso que o Cristianismo seja exclusivamente certo ou que seja melhor que qualquer outro caminho religioso que nos levará à essência da experiência humana – a essência que identifico como Deus.


Essa essência, esse caminho sagrado de vida, é o que nos faz formar uma comunidade, é o que dá sentido a nossas vidas, e é o que nos convoca ao trabalho pelo bem-estar de toda a família humana e de nosso planeta. Isso é Deus para mim, isso é fé religiosa para mim, e é nisso que eu acredito.


E como aqui em nossa comunidade não exercemos monólogos, convido todos vocês a participarem desse diálogo. Você acredita em Deus?





[Sermão na Congregação Unitarista de Pernambuco. Domingo, 16 de maio de 2010.]

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Meditação da Paz

Que tudo que falo

seja abençoado, ó Deus.

Que tudo que ouço

seja abençoado, ó Deus.

Que tudo que vejo

seja abençoado, ó Deus.

Que tudo que experimento

seja abençoado, ó Deus.

Que cada passo que dou

seja abençoado, ó Deus.


Paz entre meu Deus e eu.

Paz entre meu Deus e eu.


Que eu percorra a trilha da paz.

Que eu percorra a trilha da paz.


Em tua trilha, ó meu Deus,

e não na minha própria,

sejam todas as minhas jornadas.

Guia este meu coração

em todas as minhas jornadas.


Paz entre meu Deus e eu.

Paz entre meu Deus e eu.


Que a Paz de Deus me envolva

e envolva todos ao meu redor,

nas jornadas da vida

e no momento da morte.


Paz entre meu Deus e eu.

Paz entre meu Deus e eu.


Que eu percorra a trilha da paz.

Que eu percorra a trilha da paz.

Vinde - um chamado ao serviço

Vinde, se buscais coragem para seguir a estrela da justiça e da paz: paz entre as nações e entre os povos, paz em nossos lares e em nossos corações.


Vinde, se buscais a graça de seguir a estrela da compaixão e da misericórdia, mesma se ela levar à porta de um inimigo.


Vinde, se buscais a fé para seguir a estrela do sofrimento, mesmo até o fim da vida, ao fim da morte, e ao além.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Suprema Vingança de Cristo?!?

Hoje ouvi um discurso abominável. Um pregador (pseudo)cristão dizia que quem não ouvisse sua mensagem seria "devorado pela suprema vingança de Cristo", e que Deus "feria com a morte seus inimigos". Confesso que fiquei horrorizado por seu discurso e mais horrorizado ainda pelo fato de outras pessoas concordarem com suas palavras.

De que cristo ou que deus aquele homem falava eu não sei. Sei que não poderia ser o mesmo Cristo que eu julgo seguir, nem o mesmo Deus que creio ser a Vida do universo. Pois esse Cristo que sigo - prefiro chamá-lo por seu nome: Jesus - pregou amor, misericórdia, perdão, compaixão, justiça (em seu sentido mais nobre)... ao menos, é o que afirmam os vários relatos nos Evangelhos e é o que afirma a tradição cristã; e o Deus no qual acredito é chamado de "amor" pelas Escrituras cristãs (e pelas escrituras da maioria das outras grandes tradições religiosas). Jamais li em lugar algum nos Evangelhos que quem não ouvisse a voz de Cristo seria "devorado por sua suprema vingança" - até porque para que esse cristo pudesse "devorar" todos os que não são cristãos (é o que entendi pelo discurso daquele pregador), sua vingança teria de ter uma enorme boca!!!

Não acredito que esse tipo de crença seja saudável e, na verdade, creio que represente aquilo que chamo de sinal duma esquizofrenia fundamentalista, o tipo de doença malévola que faz com que o indivíduo julgue ser portador de uma verdade única e excludente, e que todos aqueles que não a abraçam estejam condenados. É um verdadeiro desperdício e contradiz todo aquele espírito presente na tradição cristã!

Realmente espero que um dia sejamos capazes de excluir a violência de nossas ideias religiosas. Esse tipo de crença religiosa excludente é a motivação que mentes doentias precisam para se tornarem bandidos de "cruzadas" ou "jihads" às avessas. Nosso mundo não precisa disso; Deus não precisa disso; religião nenhuma precisa disso.

sábado, 10 de abril de 2010

Lembrando de um amigo

Scott foi um dos seres humanos mais nobres que já conheci, e tenho um imenso orgulho de ter sido abençoado por sua companhia e sua amizade. Com ele aprendi muitas coisas, uma delas foi o exercício constante e infindável de abrir meu coração para amar a todos, "independentemente de...".

De forma geral, não me preocupo com uma suposta vida pós-mortal, ou seja, não alimento ideias de que nos encontraremos com as pessoas que amamos depois de nossa morte, assim como não alimento esperanças de que vivamos conscientemente (d'alguma forma) após esta vida. Entretanto, acredito que a vida daqueles que se foram continua presente aqui naqueles que foram, d'alguma forma, tocados por eles. Scott tocou muitas pessoas. Ele amou intensamente aqueles que o cercaram - e provou isso em sua vida diária -, assim como foi amado intensamente por todos que o conheceram, especialmente por aqueles que, como eu, tiveram a oportunidade de dividir suas vidas com ele. Com ele aprendi a dar vida àquelas ideias nobres que costumamos apenas alimentar intelectualmente; ele me ensinou a pô-las em prática.

Se meu amigo estivesse aqui agora, faria questão de dizer o quanto o amo da forma como ele mais gostava: faria uma daquelas piadas que ninguém consegue entender, só ele, no que chamávamos entre nós de "witty fashion"...

Aquele frio dez de abril nunca sairá de minha lembrança, nem da lembrança de todos os nossos amigos. "O Riverfront nunca se esquecerá", foi o que disse Dawson. Nem o Riverfront, nem a grande comunidade dos amigos de Scott.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Carta Pela Compaixão - Charter for Compassion




O princípio da compaixão
é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão nos impele a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem exceção, com absoluta justiça, equidade e respeito.

É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, nos abstermos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a fim de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.

Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres ~ a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião ~ a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo ~ garantir que os jovens recebam informações exatas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas ~ incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural ~ cultivar uma empatia bem-informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos.

É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes em uma determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífca.




http://charterforcompassion.org/ - assine a Carta Pela Compaixão, e se junte a nós!




quinta-feira, 1 de abril de 2010

Batistas - uma conversa com Nilo

Caro Nilo,

Essa nossa conversa se iniciou na seguinte postagem http://cristianismoprogressista.blogspot.com/2009/05/universalismo-cristao-uma-breve.html
Por questões de espaço, e mesmo de relevância, decidi responder seu questionamento aqui, em separado.

Devo, antes de tudo, enfatizar que a visão que tenho dos batistas brasileiros (dos vários grupos que existem) é aquela de alguém que vê a partir de uma perspectiva externa, já que não tenho contato formal com comunidades batistas brasileiras. Tenho uma forte ligação (institucional mesmo) com os batistas gerais britânicos (que como afirmei antes, são unitaristas), e com o movimento progressista batista nos Estados Unidos, devido a minha ligação com a Alliance of Baptists.

O que diferencia os batistas gerais unitaristas dos batistas "gerais" brasileiros? Esta não é tão fácil assim de responder. Ou talvez seja! A diferença básica está na "lealdade" (por falta de uma expressão melhor) à tradição batista, falta essa muito presente na maioria dos assim chamados batistas hoje em dia.

Em um livro que considero interessantíssimo, The Baptist Identity, escrito por Walter Shurden, publicado em 1993 e ainda não traduzido ao português, o autor discute alguns dos princípios históricos batistas e a situação atual do movimento batista americano com relação a esses princípios. Muitas das coisas discutidas ali são válidas para o movimento batista aqui no Brasil.

Em seu livro, Shurden - diretor executivo do Centro Para Estudos Batistas da Universidade de Mercer, EUA - discute o que ele chama de quatro frágeis liberdades, que representam a base do movimento batista: 1) Liberdade Bíblica - que significa ter livre acesso às Escrituras, estar livre de restrições dogmáticas para a sua compreensão, e ter acesso à liberdade de interpretação individual das Escrituras; 2) Liberdade Espiritual - que significa não sofrer imposições doutrinárias, interferências clericais, ou intervenção do governo civil em nossa relação com Deus; 3) Liberdade Eclesiástica - ou seja, liberdade das igrejas individuais (congregações) com relação a quaisquer autoridades denominacionais; 4) Liberdade Religiosa - ou seja, a absoluta separação entre igreja e Estado.

Essas liberdades citadas por Shurden são um resumo do que significa ser batista, e se você atentar bem para esses "princípios" (percebe a linguagem? não doutrinas, mas "princípios", como nós unitaristas falamos!), verá que são os mesmos princípios defendidos pelos Batistas Gerais da Grã-Bretanha - da mesma forma como são os mesmos princípios defendidos pelos Unitaristas, pelos Universalistas, pelos Presbiterianos Não-Subscritos da Irlanda do Norte, e por muitos outros grupos protestantes pelo mundo afora. O interessante é que esses batistas que se mantêm fiéis à sua antiga tradição de liberdade é que são acusados de heresia, enquanto aqueles que, por muitas razões que não poderia discutir agora, abraçaram uma forma dogmática de definir sua fé que entra em conflito com as mais nobres tradições batistas são vistos como os "verdadeiros" batistas, os ortodoxos! É fascinante ver como os valores foram mudados e as perspectivas completamente alteradas. Isso obviamente não ocorreu apenas entre os batistas, já que ocorre entre outros grupos, mais marcadamente no meu próprio berço anglicano!

Agora faça uma comparação entre esses princípios e o que se ensina nas igrejas batistas brasileiras; faça uma real comparação. Será que os batistas brasileiros são ensinados a interpretar as escrituras de maneira individual, mesmo que essa interpretação entre em conflito com a mente da comunidade da qual são parte? São os batistas brasileiros realmente livres de imposições doutrinárias e clericais para se relacionarem com Deus, ou seja, podem entrar em conflito com seus ministros e igrejas sem serem punidos por isso? O que acontece com uma congregação que seja parte de uma associação ou denominação batista qualquer e tenha uma visão que entre em conflito com aquela defendida pela maioria? Os batistas brasileiros têm defendido suficientemente a distinção entre igreja e estado no Brasil, ou têm se aproveitado para chegar ao poder fazendo uso de instrumentos religiosos?... Não posso responder essas perguntas por você, mas tenho certeza que verá a diferença entre o que se ensina na maioria das igrejas batistas no Brasil e o que se ensina em igrejas batistas gerais, já que as últimas se mantêm fiéis a esses PRINCÍPIOS a qualquer custo. Também é importante que eu diga que esses princípios (até certo ponto) são reconhecidos e abraçados por grupos batistas no Brasil (estou agora pensando na Convenção Batista Brasileira).

Espero que possamos conversar um pouco mais sobre isso, e convido outros batistas a entrarem na discussão.

Paz e Feliz Páscoa!

Rev. Gibson da Costa

quinta-feira, 4 de março de 2010

Uma resposta ao comentário de Simone de Oliveira

Querida Simone [http://www.blogger.com/profile/01161810013307003898]


Como lhe propus anteriormente, resolvi escrever aqui a respeito do tema que você tocou em seu comentário na seguinte postagem http://cristianismoprogressista.blogspot.com/2007/10/cristianismo-progressista.html


Seria impossível falar a respeito do tema “salvação”, sem citar o fato de nós dois termos visões bem distintas a respeito deste tema, assim como de outros, como, por exemplo, a missão do próprio Jesus. Na realidade, talvez possa dizer que representamos duas formas bem diferentes de entender a tradição cristã.


Todos nós, e isso inclui você, utilizamos uma filosofia para construir nossas concepções teológicas (ou se preferir, religiosas). A teologia cristã toma muitas diferentes filosofias como molde para construir uma interpretação da vida e obra de Jesus. Você e eu interpretamos as Escrituras, por exemplo, com base num conjunto de concepções filosófico-teológicas que já existiam antes da leitura que fazemos e que usamos para servir de guia a nossas conclusões. Todos nós fazemos isso, independentemente de termos consciência disso ou não.


Sei o quanto isso pode ser difícil para você compreender, já que em sua comunidade religiosa (a Assembleia de Deus) tradicionalmente condenam a Filosofia e utilizam o termo de forma pejorativa. Então, dizer-lhe que mesmo você faz uso de uma filosofia para interpretar a mensagem cristã, deve deixá-la na defensiva, se você não compreende o meu uso da palavra “filosofia”.


Como membro da Assembleia de Deus, você lê a Bíblia a partir de uma perspectiva que a julga como sendo literalmente “palavra de Deus”, ou seja, sua compreensão (=filosofia) de “inspiração divina” é aquela que chamamos de “inspiração plenária” - a noção de que toda a Bíblia tenha sido literalmente ditada por Deus, e que, por isso, esteja livre de erros (“inerrância bíblica”). Talvez, ninguém tenha lhe dito que essa ideia (=filosofia) a respeito da autoridade da Bíblia só tenha surgido, nesses termos, no século XVII, tendo sido proclamada pelo luterano Johann Quenstedt. Nem mesmo os mais dogmáticos dos primeiros reformadores haviam ido tão longe em sua noção de inspiração divina das Escrituras.


Essa noção de “inspiração plenária” faz com que seus seguidores afirmem que acreditam em tudo o que está escrito na Bíblia, apesar de não perceberem que acreditam, na verdade, em sua interpretação da Bíblia (ou melhor, na interpretação que outras pessoas fazem dos textos sagrados!), e não no que diz os textos, com suas infindáveis e, muitas vezes, irreconciliáveis representações. Esquecem que muitas das coisas nas quais acreditam (doutrinariamente falando) não podem ser validadas apenas pela Bíblia – ao menos, não nos termos que utilizam para definir essas crenças. Eu poderia citar muitos exemplos, mas se o fizesse, me alargaria muito aqui. Cito o exemplo do dogma da Trindade. Você, como membro da Assembleia de Deus, (supostamente) acredita na doutrina/dogma da Trindade – palavra que não é bíblica e só foi inventada por Tertuliano, tendo sido ele o primeiro a utilizar também outros termos teológicos como “persona” (pessoa) e “substantia” (substância) para falar de Deus. A maneira como o cristianismo tradicionalmente define e explica a “Trindade” - sendo esta uma forma de explicar as referências neotestamentárias à “divindade” de Cristo e à sua relação com o Deus dos hebreus – não pode ser encontrada na Bíblia; tendo surgido de explicações dadas por teólogos cristãos que fizeram empréstimos de noções presentes no pensamento grego.


Um outro grande exemplo de base não exclusivamente bíblica para uma doutrina, à qual você faz referência em seu comentário, é o da expiação redentora de Cristo. Explicarei para que os demais leitores possam entender: para você, a missão de Jesus era morrer pelos pecados daqueles que o aceitassem como “seu Salvador pessoal”; em sua teologia, a morte de Jesus na cruz foi uma transação por meio da qual ele pagou pelos pecados daqueles que acreditam nele, conseguindo, assim, para essas pessoas, a vida eterna; o objetivo fundamental da vida de Jesus, na teologia que você abraça, foi o de realizar o ato da expiação (ou sacrifício vicário, ou seja lá que outro termo prefira usar). Só que, muito provavelmente, não lhe explicaram que esta doutrina (da maneira como é apresentada) só foi ensinada a partir de Agostinho, no século V da nossa era. Não há absolutamente nada nas palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos que faça menção a esta doutrina. A ideia de que a única maneira possível de sermos salvos seria o sacrifício de Cristo por nós foi se desenvolvendo através dos primeiros séculos cristãos até culminar nos ensinos de Agostinho.


Apesar de haver uma linguagem sacrificial presente no Novo Testamento, essa linguagem é, para mim, claramente metafórica. Tornar uma figura metafórica em verdade factual, em se tratando da execução de Jesus, é extremamente ofensivo para minha noção de Deus. Especialmente por eu saber que o próprio Jesus não pensava que o propósito de sua vida fosse morrer pelos pecados de quem quer que seja. Ele morreu em decorrência do que ele mesmo estava dizendo e fazendo em seu ministério religioso e político.


A interpretação sacrificial dada à vida e morte de Jesus é ofensiva para mim, e para outros cristãos de minha tradição liberal, por diversas razões. Uma dessas razões é o fato de esta visão teológica limitar o perdão de Deus, afirmando que Deus só pode perdoar se um sacrifício pertinaz for feito – sacrifício este que deveria ser feito por alguém sem culpa (que noção de justiça maravilhosa por parte de Deus: um inocente pagar pelos pecados/crimes/etc de todos os culpados!), sendo que esse alguém era curiosamente o próprio Deus, já que, para os seguidores dessa teologia, Deus é uma Trindade e Jesus é um membro desta mesma Trindade, ou seja, Jesus é Deus! Em outras palavras, Deus não pode perdoar os pecados da humanidade, a não ser que uma parte de si mesmo morra para pagar pelos erros que não cometeu. Ou seja, Deus não é capaz de demonstrar o mesmo tipo de amor que nós humanos somos capazes de demonstrar a outros humanos, como por exemplo, aos nossos filhos; e mais do que apenas não ser capaz de perdoar livremente, ele exige que sangue inocente seja derramado. Alguém de bom senso consegue realmente respeitar um Deus como esse? Eu não consigo. Essa ideia de Deus soa como uma horripilante aberração aos meus ouvidos, e contradiz tudo aquilo que foi atribuído à voz de Jesus.


A interpretação que nós unitaristas fazemos do “sacrifício de Cristo”, assim como a interpretação que fazemos de outras coisas nas Escrituras (Bíblia), é contextual. A linguagem que se refere à execução de Cristo como um sacrifício por nossos pecados surge no contexto da teologia sacrificial judaica, que se centrava no templo de Jerusalém. Essa teologia sacrificial afirmava que alguns tipos de pecados podiam ser perdoados apenas por meio de sacrifícios no templo, criando, assim, um monopólio institucional de perdão dos pecados e, como consequência, um monopólio institucional de acesso a Deus (já que uma pessoa tinha de ter seus pecados perdoados para que pudesse entrar na presença de Deus). Sendo assim, afirmar que Jesus seja um sacrifício pelos pecados era negar que o templo tivesse o monopólio de perdão e acesso a Deus, e não deixava de ser uma negação de qualquer monopólio institucional referente a Deus. Usar esta metáfora sacrificial para falar de Jesus era subverter o sistema sacrificial centrado no templo de Jerusalém, era negar que Deus necessitasse de uma instituição para prover perdão à humanidade, ou que necessitasse de uma instituição para que a humanidade tivesse acesso a Si. E é irônico que o mesmo movimento que afirmara isso no princípio, séculos depois construiria ao redor de si mesmo um sistema sacrificial ainda mais monopólico que o antigo sistema sacrificial do templo de Jerusalém!


Jesus não morreu pelos nossos pecados. Jesus morreu porque ele desafiou um sistema político/religioso que ele condenava. Jesus morreu porque ele disse e fez coisas que não deixaram líderes políticos e líderes religiosos felizes. Foi por isso que ele morreu. A comunidade cristã que se desenvolveu ao redor das lembranças que tinham de Jesus, e que surgiu em sociedades bem diferentes daquela da qual ele mesmo era parte, teve de construir novas interpretações a respeito de quem era e o que havia dito e feito Jesus. Eu não condeno essas comunidades ou indivíduos por terem desenvolvido as compreensões que desenvolveram. Mas eu não tenho a mínima obrigação de abraçar as crenças que eles abraçaram. Tenho o direito de julgar suas crenças e suas construções ideológicas como inválidas para mim. A vantagem que tenho (se é que posso chamá-la de vantagem) é a de saber onde, quando, por quem e por que essas ideias surgiram; assim, sou livre para construir minha própria interpretação daqueles textos sagrados que são, eles mesmos, nada mais além de interpretações dadas às antigas narrativas de várias comunidades cristãs (no caso do Novo Testamento).


Vejo a morte de Jesus como o fim natural de seu ministério de amor a altruísmo, e como um símbolo do infinito amor de um Mestre por seus amigos e discípulos (podendo também simbolizar o amor de Deus pela humanidade). Jesus viveu não para que pudesse sacrificar sua vida por nós, mas para ensinar-nos que Deus ama a todos, da mesma maneira que pais amam a seus filhos. A salvação, para mim, não representa uma vida num suposto “céu” no tempo e espaço, mas sim, uma união com Deus que supera o tempo e que pode ser experimentado aqui e agora, nesta vida, neste momento. Não acredito em coisas como Satanás e demônios; vejo-os apenas como metáforas para aquilo que identificamos como mal. Além disso, não acredito que, em nossa natureza, sejamos seres caídos e corruptos (isso entraria em contradição com as noções que possuo a respeito de Deus, e que nascem de minha leitura [=interpretação] das Escrituras cristãs), e, assim, também não acredito que precisemos de um suposto “sacrifício” para que sejamos “resgatados” por Deus – essa crença ridícula diminuiria a capacidade de Deus ser sábio, amoroso, e torna-lo-ia um “ser” incapaz, vingativo, e selvagem. Eu rejeito aberta e francamente tais ideias.


Em se tratando de interpretação das Escrituras, creio que seja mais do que hora de os cristãos contemporâneos se darem conta de que os antigos teólogos da Igreja, e a própria igreja institucional – aquela que criou os credos e as declarações de fé, e que instituiu interpretações fixas dos textos sagrados -, não são donos do cristianismo. Nós, como seres humanos, e como membros dessa grande comunidade de fé, que chamamos de igreja, somos parte desse “diálogo em construção” que é a teologia cristã, e temos o direito de nos envolvermos, individualmente, nessa construção e/ou ressignificação.


É importante que eu enfatize minha noção de leitura aqui. Ler é interpretar. Interpretar é se envolver num texto, tomando-o como ponto de partida e recriando-o dentro de um contexto que nos seja próprio. Ninguém lê os textos bíblicos sem condicioná-los a um dado contexto – muito provavelmente, o seu próprio contexto. Quando eu leio as Escrituras, minha leitura [=interpretação] é guiada por minhas concepções de mundo, por minhas visões históricas, por meus princípios éticos, por minha teologia. Como sou um unitarista, pacifista, como tenho uma visão a respeito da dignidade humana, e como prestigio a riqueza de nossa diversidade (em todos os seus aspectos), além de possuir minha própria compreensão a respeito de Deus, as conclusões às quais chegarei, a partir de minha leitura das Escrituras, são bem diferentes das conclusões às quais você chegará. Eu posso desprezar muitas das crenças que você abraça, da mesma maneira como você faz com minhas crenças, mas isso não significa, em nenhum momento, que eu possa pensar que falo “em nome de Deus”. Quando falo, falo em nome de mim mesmo, ou, no máximo, em favor de outros cristãos que pensam como eu ou que sejam membros de minha comunidade de fé. Enfatizar isso é extremamente importante para mim, já que isso é um ponto que distingue-me como um cristão liberal e como unitarista.


Espero que minha posição tenha ficado um pouco mais clara a respeito deste tema.


Paz!


+Gibson


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Fé e Ortopraxia

Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta.” (Tiago 2:17)

Religião pura e sem mancha diante de Deus, nosso Pai, é esta: socorrer os órfãos e as viúvas em aflição... (Tiago 1:27)

Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que o Senhor exige de você: praticar a justiça, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (Miqueias 6:8)



Tenho uma grande antipatia pela palavra “religião”. A razão é porque, para grande parte das pessoas, religião é sinônimo de “dogma”. Para essas pessoas, ter uma religião – especialmente quando se trata do cristianismo – é abraçar definições dogmáticas a respeito da humanidade, de Deus, de Jesus, da Bíblia, do certo e do errado, do destino do universo, etc.
Prefiro usar a palavra “fé” em vez de religião. Isso porque faço questão de distinguir fé de dogma. Diferentemente do dogma, a fé nunca é ameaçada pela dúvida e pelas perguntas difíceis que podemos fazer. Na verdade, a fé não busca explicações definitivas e imutáveis da realidade, ela leva a um constante processo de reavaliação e reconstrução de significados. O dogma, ao contrário, é sempre ameaçado pela dúvida e pelas perguntas difíceis e honestas, porque ele é rígido, é fossilizado, é petrificado, é ossificado, é congelado e quebra sob a luz do pensamento livre – e por essa mesma razão, merece ser ameaçado pela dúvida.

O dogma é uma verdade absoluta, que não pode e, na visão daqueles que a mantêm, não deve ser questionada. A fé, por outro lado, é um elo relacional bem mais amplo que nos faz enxergar nossa tradição religiosa (ou nossa tradição de fé, como eu prefiro dizer) – o cristianismo – não como uma lista de crenças às quais devemos subscrever, mas como um caminho que devemos percorrer. Não podemos esquecer que esse é justamente um dos primeiros nomes que recebeu o “cristianismo”: o Caminho (Atos 19:23). [Obviamente, utilizo "dogma" aqui com um sentido "leigo" apenas como provocação. Este não é o sentido teológico do termo.]

Quando critico o dogma, não estou necessariamente negando a importância de crenças ou declarações teológicas. Mesmo cristãos liberais como eu, reconhecem a importância da fé entendida como “assensus”, ou seja, como “crença”. E é justamente a minha crença religiosa, o meu entendimento teológico, o meu “assensus”, que me faz abominar o dogma – que me faz abominar a ideia, que está inerentemente entrelaçada ao dogmatismo religioso, de que o Deus celebrado pelos cristãos seja tão mesquinho, tão pequeno, tão intransigente, tão infantil, tão intolerante, que se sinta ameaçado pelos questionamentos de quem quer que seja, e que afaste de si aquelas pessoas que pensem diferentemente daqueles antigos que escreveram os credos da igreja, por exemplo. Obviamente, apenas pessoas que compreendem Deus como sendo um “ser pessoal” poderiam pensar assim – o que não é exatamente o meu caso.

A fidelidade, a confiança, a visão, e a crença, que constituem os quatro sentidos básicos da ideia de “fé” (na interpretação de Marcus Borg), devem nos mover à “prática correta” - que eu chamo de “ortopraxia” e que elevo acima da tradicional “ortodoxia”, a “crença correta”.

Se podemos, por meio do senso comum, ser levados a pensar que é a crença correta que nos leva à prática correta, a história cristã nos mostra claramente que esse não é o caso – pelo menos se entendermos “crença correta” como sendo a “ortodoxia” defendida pelas maiores comunidades cristãs.

O próprio relato dos Evangelhos a respeito das palavras e ações atribuídos a Jesus nos indicam o que deveria constituir a crença e práticas corretas – logo, a fé (ou se preferir, a religião) correta. Um exemplo encontra-se em Mateus 25:31-46. Lá, descrevendo uma imagem metafórica do “juízo final”, Jesus não cita nenhuma questão de “crença” certa ou errado como sendo a razão para o veredito recebido pelos povos da terra. Pelo contrário. É o tratamento dado aos famintos, aos sedentos, aos estrangeiros, aos desnudos, aos doentes e aos encarcerados que serve de base para o julgamento.

Não poderia ser diferente. Jesus e seus primeiros seguidores eram judeus. E na tradição hebraica, crença e ações são inseparáveis. Na verdade, o “assensus” (assentimento, aceitação, crença) intelectual, como exigida na tradição cristã, era desconhecida como uma exigência entre os hebreus naquela época. A fé hebraica era manifesta nas ações do dia a dia, e não em declarações dogmáticas a respeito de pormenores teológicos.

Pode-se acompanhar esse espírito de “ortopraxia” ao longo de toda a Bíblia, onde o ouvinte ou leitor é convidado a pôr sua fé em prática, e é repetidamente lembrado que a fé, quando não acompanhada de ações, é morta (para desespero daqueles adeptos do “sola fides” que enxergam o “fides” apenas como sinônimo de “assensus”).

Como um seguidor de Jesus, como um cristão, sou desafiado diariamente a abraçar a prática correta – a ortopraxia. Com isso não quero dizer que eu conheço o (único) caminho correto e outras pessoas não. A ortopraxia – a prática correta – à qual me refiro consiste no espírito que deve guiar meu pensamento e minhas ações, espírito esse que encontro nos ensinamentos e exemplos atribuídos a Jesus, espírito presente na tradição cristã, e também presente em outras tradições de fé e nas palavras e ações de outras figuras religiosas.

Foi esse espírito da prática correta que já me fez alterar o percurso muitas vezes. Já me fez enxergar o quanto estava errado. Já me fez ver que muitas vezes contribuí com um sistema de dominação injusta; que muitas vezes já deixei de valorizar o que realmente importava, supervalorizando o que era secundário; que muitas vezes já doei tempo e talentos – mesmo sem ter plena compreensão disso – a uma causa que não salvava o mundo, mas apenas maximizava a violência ideológica e suas consequências.

Infelizmente, continuo e certamente continuarei a cometer erros de julgamento e a errar em minhas ações. Mas espero que minha “fé” (=assensus, fiducia, fidelitas, visio) também continue a me mostrar o caminho, continue a me apontar os erros que cometo, e continue a ser minha motivação para mudanças.
Certamente não represento o que a maioria esperaria de um cristão. Não interpreto a Bíblia de forma literal; não acredito que Jesus tenha morrido para pagar pelos pecados de ninguém, nem que seja a segunda pessoa de um Deus trino – se isso for entendido de maneira factual. Na verdade, em minha visão, mesmo se Jesus sequer tivesse existido factualmente, isso não faria diferença. O que realmente importa é seu espírito, que está vivo naqueles relatos a seu respeito nos evangelhos, e o espírito que cerca a tradição cristã. Esse espírito me motiva a amar e querer transformar o mundo ao meu redor. É o espírito que motiva a fé que me faz percorrer o Caminho.


+Gibson da Costa


NOTA: Uso a palavra ortopraxia como um trocadilho com a palavra ortodoxia. O termo, como o usamos em teologia, é, na verdade, ortopráxis, que se refere à prática correta, da mesma forma como o termo ortodoxia se refere à crença correta. Meus paroquianos, amigos e alunos estão acostumados a esse meu aportuguesamento forçado do termo ortopráxis (que julgo soar um tanto pretenciosamente incompreensível para a maioria das pessoas).

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Mudança de Rota - Uma Confissão e Um Filme

Às vezes, gostaria de poder falar sobre minhas próprias experiências (aquelas mais pessoais), e de como elas transformaram-me na pessoa que sou hoje - e de como as experiências que agora tenho continuarão a me transformar futuramente. Acredito em mudanças, nada permanece para sempre, e isso inclui nossos pensamentos e, queira Deus!, nossas ações.

Tenho passado por certos desafios nos últimos anos que me têm ensinado, às vezes de maneira bem dolorosa, que eu não deveria trilhar mais um certo caminho, que eu deveria refazer minha rota. Tenho realmente tentado fazer o que posso para ajudar outras pessoas, especialmente aqueles jovens mais idealistas, a analisarem muito bem suas escolhas, e a não se dedicarem a causas que apresentam soluções muito fáceis; entretanto, nem sempre tenho sido tão bem sucedido quanto gostaria.

Reescrever uma rota de vida nem sempre é muito fácil, e nem sempre recebemos o apoio que necessitamos para tanto; mas minha própria experiência me tem mostrado que vale a pena ter a coragem de analisar nossas ideias, nossa visão do mundo, e então, fazer escolhas mais ponderadas.

Não sei o que ainda acontecerá como consequência de todas as escolhas que fiz no passado. Posso garantir que alguns dos resultados foram bem infelizes para mim, e não perderei meu tempo em tentar pôr a culpa em quem quer que seja. Sei, entretanto, que, de alguma forma, ainda posso criar meu futuro, e é com isso que me importo.

Um dia, falarei mais sobre isso. Só precisava compartilhar com vocês esses pensamentos.

Como sugestão, indico um filme (baseado no romance de Dan Willman, "Way of the Peaceful Warrior"): PODER ALÉM DA VIDA (EUA, 2006) - "Peaceful Warrior" - com Scott Mechlowicz, Nick Nolte e Amy Smart. Espero que o filme possa servir de inspiração a todos vocês!

Um grande abraço, e paz a todos!

+Gibson