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quarta-feira, 12 de março de 2014

Sobre ser cristão e "homossexual"

[De vez em quando, recebo um ou outro e-mail, ou uma ou outra mensagem aqui no blog, que me deixa acordado durante a madrugada, pensando sobre a pessoa que me escreveu e como ajudá-la. Isso aconteceu na noite passada. Recebi uma mensagem através do blog e meu correspondente (que se identificou como “R”, um batista formado em teologia num seminário “evangélico” e, hoje, distanciado de sua igreja por ser homossexual) não deixou um e-mail para contato, então tentarei respondê-lo aqui mesmo. O que segue é uma resposta a cada um dos pontos levantados por “R”.]

Caro “R”:

Não, você não está sozinho! Há inúmeras pessoas, homens e mulheres, na Igreja cristã como um todo, que se reconhecem como “homossexuais” e como cristãs ao mesmo tempo. E por que deveria ser diferente? Por que elas deveriam separar uma coisa da outra?

Você me relatou sobre a conversa que teve com o ministro da igreja que costumava frequentar. Tenho certeza que ele acreditava estar lhe dando os melhores conselhos, e que aquilo o ajudaria a ser mais feliz. Mas, ao que parece, ele confundiu homossexualidade com crime – e isso é, no mínimo, uma opinião teológica, filosófica, sociológica, psicológica e juridicamente desinformada.

Os seres humanos são extremamente complexos. Somos, no que tange aos aspectos biológicos, muito semelhantes aos outros mamíferos; mas, em outros aspectos – ao menos aparentemente –, somos muito diferentes. Nós temos a capacidade – supostamente, única entre os seres deste planeta – de refletir criticamente sobre nós mesmos e sobre nossa relação com o visível e o invisível. Temos a capacidade de aprender diferentes tipos de linguagens, técnicas, métodos, ideias, etc, etc, etc. Somos seres espirituais, que buscam sentido para nossa existência e ações. Somos, em minha compreensão cristã, “filhos de Deus” – ou seja, mantemos uma ligação com uma Realidade que ultrapassa nossa compreensão racional.

Mas além de tudo isso que somos, somos – todos nós – seres sexuais. Mesmo monges que vivam celibatariamente em mosteiros nos Montes Athos ou no Himalaia, são seres sexuais. Isso quer dizer que nossos corpos e nossas mentes lidam, no mínimo, com atrações, desejos, interesses, etc, de “natureza” sexual – mesmo que esses não sejam materializados em ações voluntárias.

Não posso dizer o que seja certo ou errado na compreensão que outras pessoas, ou outras tradições cristãs, tenham da fé cristã. Acredito na verdade relativa das diferentes tradições teológicas – ou seja, o que uma comunidade pentecostal, por exemplo, aceita como “verdade” cristã será, para eles, verdade, da mesma forma como o que outra comunidade cristã veria como sendo verdade para si mesma. Logo, o que penso ser certo ou errado é válido apenas para mim mesmo ou, no máximo (e apenas em certos pontos, talvez), para aqueles que compartilhem de [parte de] minha visão teológica.

Discordo do que aquele ministro lhe disse quando falou que ser homossexual é uma escolha, por, pelo menos, duas razões. A primeira razão é que não sei até que ponto se possa dizer que se “é homossexual”, e não que se “está homossexual”. Não sei se o “ser” homossexual – que me parece referir-se a algo permanente – acontece com todos, ou se podemos dizer que alguns “estejam” homossexuais em algum período de sua vida e em outros não. Essa é uma questão muito complexa para discutirmos aqui, mas creio que algumas pessoas possam não se sentir num estado de permanência, e sim, num estado de questionamento de sua orientação emociono-sexual – converso com muitos jovens que passam por esse questionamento.

A segunda razão, e a mais importante, é que, em minha experiência, você não escolhe ter uma determinada orientação emociono-sexual – seja esta heterossexual, homossexual ou bissexual. Você pode escolher o que faz, uma vez se dê conta dela, mas não pode escolher a orientação em si. Ao menos, essa tem sido minha experiência. Desde muito jovem já sabia que me sentia emocional e sexualmente atraído por rapazes, e não por moças. Isso foi algo que descobri, e não que escolhi. Não me acordei, numa manhã de verão, e decidi que a partir dali me interessaria por outros rapazes. Isso foi algo que fui descobrindo a meu respeito com o passar dos anos, desde a infância. Só na adolescência me dei conta do que aqueles sentimentos significavam. Não escolhi me sentir daquele jeito, nem aprendi a ser assim de outra pessoa. O que escolhi foi apenas a forma como lidaria com aqueles sentimentos.

Para mim, é importante não falar apenas em “orientação sexual”, mas em “orientação emociono-sexual”. Por isso, sinto um grande desconforto com o uso dos termos “homossexual” ou “heterossexual”, etc, já que esses apontam para esse aspecto humano como sendo apenas algo mecânico. Quando você diz que ama seu companheiro – um outro homem –, você não está dizendo que apenas tem um interesse sexual por ele; você está dizendo muito mais que isso – acredito que o aspecto sexual seja apenas um elemento do que você sente por ele. Isso vale para pessoas de todas as orientações emociono-sexuais. Um homem que ame sua companheira – uma mulher –, sente muito mais que apenas atração sexual por ela; novamente, o componente sexual é apenas uma parte de seus sentimentos por ela. Amar romanticamente é estar ligado a outra pessoa de forma muito mais complexa e profunda do que apenas sentir-se atraído física ou sexualmente por ela. Qualquer pessoa que ame ou já tenha amado outra, romanticamente, sabe disso. [À propósito, falo em amor romântico pois acredito haver diferentes tipos de amor – o amor que sinto pelos meus pais ou irmãos não envolve todos os elementos que o amor que sentiria por meu cônjuge envolveria, por exemplo.]

Assim, quando alguém se refere ao amor entre dois homens ou duas mulheres como sendo algo apenas físico ou sexual, está, em minha opinião, sendo intelectualmente desonesto – ao menos, supondo que essa pessoa já tenha experienciado o amor romântico em sua vida. Qualquer pessoa, heterossexual ou homossexual, que já tenha amado romanticamente alguém sabe quão complexa é a ligação que sente pelo objeto de seu afeto. Obviamente, há relacionamentos que não envolvem amor mútuo, envolvimentos entre pessoas que não passam de parceiras sexuais – e isso, à propósito, acontece com pessoas de toda e qualquer orientação emociono-sexual –, mas esse tipo de relacionamentos não é o objeto de nossa conversa! Entendo que sexualizar a conversa sobre relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo seja um instrumento discursivo dos que querem desmoralizar tais relacionamentos – levando em consideração sua compreensão do que seja pecado e sua noção de moralidade, é muito fácil convencer que a relação entre pessoas do mesmo sexo seja uma “abominação” –; mas, por outro lado, a sexualização do debate também por parte daqueles que se apresentam ou são vistos como “representantes” de todos os outros “homossexuais” só reforça essa visão distorcida e intelectualmente desonesta.

Em se tratando da questão mais explicitamente teológica sobre esse tema, é importante que eu reafirme o que já é notório aqui: não sou um protestante evangelical, ou seja, não afirmo encontrar minhas justificativas teológicas exclusivamente nas Escrituras. Ademais, também não faço uma leitura supostamente literal das Escrituras. Como um protestante liberal, faço uso conjunto das Escrituras (a Bíblia), da Tradição, da razão, da experiência pessoal, de certos princípios teológicos específicos, etc, como instrumentos para minha compreensão teológica. Minha leitura das Escrituras é moldada por aqueles outros elementos. E, na verdade, não acredito que absolutamente ninguém faça uma leitura literal das Escrituras. Nenhuma igreja, nenhum teólogo, nenhum ministro cristão, que afirme fazer uma leitura literal da Bíblia, conseguiria inquestionavelmente harmonizar todas as afirmações, interditos etc, bíblicos, já que o conjunto desses textos se contradiria se fosse lido literalmente e de forma comparativa.

Outra coisa importante é que não tenho interesse algum em me envolver em discussões sobre passagens específicas na Bíblia – especialmente na Bíblia Hebraica – que, supostamente, fariam referência à homossexualidade. Meu conhecimento das Escrituras, em hebraico e grego, e meu conhecimento das discussões teológicas e eclesiásticas que envolvem esses escritos, é suficiente para me convencer de que, pastoralmente, discuti-los é irrelevante para a vida cristã da maioria das pessoas. A compreensão linguística, histórica e teológica que tenho daquelas passagens é extremamente distinta das que você aprendeu no seminário onde se formou e na comunidade da qual era parte. Logo, penso que discutir o sentido desta ou daquela palavra, deste ou daquele hábito cultural da antiga Israel ou da Igreja primitiva, etc, etc, etc, provavelmente não fará nenhuma diferença na maneira como você se sente sobre você mesmo e sua relação com o Divino e com outras pessoas; e, não fará nenhuma diferença sobre a forma como sua antiga comunidade compreende a sexualidade humana. Considero mais importante refletir sobre sua vida à luz de sua própria compreensão de sua fé, construindo uma autonomia espiritual em relação ao que outras pessoas lhe digam ser certo ou errado – essa é, devo enfatizar, uma das características históricas do Protestantismo, especialmente de sua própria tradição batista.

O Cristianismo, em minha opinião é – e não apenas o Cristianismo – uma fé ética, uma fé que enfatiza as relações humanas com outros humanos, com o todo da Criação e com Deus. E é com base nessas relações que se estabelecem, na tradição cristã, as noções de pecado e retidão. Assim, pecado é aquilo que agride ao próprio indivíduo, aos demais seres humanos, ao resto da Criação e a Deus. Pecar é violar o valor e a dignidade do ser humano e da criação, já que todos fomos, metaforicamente, “feitos à imagem de Deus”. É assim que compreendo o sentido de “pecado”. Logo, amar, respeitar, honrar, valorizar, apreciar outro ser humano, e se relacionar com alguém que, voluntária e legalmente, entre num relacionamento com outra não pode ser descrito como pecado, apenas porque os parceiros são pessoas do mesmo sexo. [Falo em “legalmente”, já que as leis brasileiras atuais estabelecem tipos de relacionamentos que são abusivos, como, por exemplo, a pedofilia – na qual um adulto pode estar se aproveitando da inexperiência ou desvantagem dum menor, mesmo que o menor em questão pense estar envolvido por sua própria escolha.]

Em se tratando da classificação de relacionamentos como sendo “morais” ou “imorais”, me preocuparia com outros detalhes. Quão “moral” seria a relação entre um homem e uma mulher casados, se entre eles houvesse desrespeito, desonra ou agressão? Quão “imoral” seria a relação entre dois homens ou duas mulheres, se entre eles houvesse respeito, honra e cuidado? Contrapor dois casos extremos assim pode parecer uma comparação injusta – e é –, mas é essa a lógica utilizada na conversa que você me relatou. Prefiro pensar que, em termos da moralidade cristã, a preocupação se centre na presença do “amor” naquela relação – i.e., amor como respeito, devoção, cuidado, atenção, honra, lealdade etc. Acredito numa ética do relacionamento, na honra e no valor do compromisso mútuo.

Se estivéssemos tendo uma conversa acadêmica sobre este tema, faria questão de apontar as origens históricas das variadas opiniões teológicas cristãs sobre o tema – inclusive das opiniões teológicas que defendo –, mas, como escrevi antes, você saber como essas opiniões se desenvolveram, no fim das contas, não alteraria a maneira como outros compreenderão a questão. Você não pode mudar a forma como os outros sentem o mundo. O que você pode mudar é a si mesmo: a forma como você enxerga a si mesmo; como se relaciona consigo mesmo, com outras pessoas e com o resto do mundo.

Para finalizar, se você realmente quer saber o que penso sobre cada uma daquelas coisas sobre as quais escreveu, deixe-me dizer que minha fé me ensina que cada um de nós, você inclusive, é imensuravelmente importante. Cada um de nós nasce com a capacidade de fazer tanto o bem quanto o mal, de amar e odiar, de ser feliz ou infeliz. Eu, pessoalmente, não acredito na noção de que o ser humano seja depravado e mau por natureza. Acredito, sim, que certos relacionamentos sejam inapropriados, mas o status moral dum relacionamento romântico não advém do sexo daqueles que se relacionam. Esse tipo de discussão, entretanto, sempre causará conflitos entre diferentes pessoas ou grupos – e não apenas entre aqueles que professem uma religião. Também não acredito que grupos religiosos devam mudar suas doutrinas para que pessoas sintam-se bem-vindas; afinal de contas, a filiação a uma comunidade de fé é voluntária, e aqueles que escolhem ser parte de qualquer uma supostamente estão cientes (ou deveriam estar) dos compromissos que estão assumindo com aquela comunidade e consigo mesmos. Então, não posso dizer muita coisa que possa ajudá-lo a lidar com os conflitos com a disciplina duma outra comunidade de fé, mas posso garantir como há igrejas protestantes aí em São Paulo onde seria muito bem-vindo independentemente de sua orientação emociono-sexual e de seu relacionamento conjugal com outro homem. Se tiver interesse em contatar tais comunidades, envie-me seu endereço de e-mail ou me escreva diretamente por meio do e-mail de contato em meu perfil.

Grande abraço!


+Gibson

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Verdade e Cristianismo


“[...] Se vocês guardarem a minha palavra, vocês de fato serão meus discípulos; conhecerão a verdade, e a verdade libertará vocês.
(João 8:31-32)


Quando penso em minha própria experiência de fé, percebo que tenho, de diversas maneiras, nadado contra duas grandes correntezas: primeiro, aquela no meio cristão que insiste que haja apenas uma leitura válida do todo da tradição cristã; segundo, aquela no meio secular que zomba daqueles que, como eu, confiam na realidade de Deus e da experiência cristã. Essas duas correntezas – com suas mais variadas manifestações – parecem tentar sabotar uma sabedoria que sobrepuja a simplificação exagerada das categorias que utilizamos para organizar o mundo, uma sabedoria que emerge de nossa (i.e., minha e sua) experiência do Divino. Aqui, me referirei apenas à primeira dessas correntes, aquela formada por compreensões exclusivistas da verdade cristã.

Como sempre tenho dito, confio em Deus. Confio na realidade de Deus. Sinto a presença divina em minha vida e no mundo do qual sou parte. Tenho, contudo, problemas para utilizar verbos como “acreditar” ou “crer” quando me refiro a Deus, pois creio que a fé não seja uma mera ação intelectual, mas uma “rendição” à graça de Deus. Sim, eu acredito/creio em Deus – já que exerço um esforço intelectual em minha fé –, mas penso que os verbos “acreditar” e “crer” sejam limitados demais para lidarem com a realidade divina. Por essa razão, prefiro utilizar o verbo “confiar”. Minha compreensão de Deus muda com o passar dos anos, mas a realidade de Deus é permanente.

Dizer coisas como essas pode parecer uma contradição para alguns. Tenho a impressão, a julgar pelos comentários feitos por alguns de meus ouvintes ou leitores, que pensem ser eu um absoluto relativista – o que, definitivamente, não sou. Meu relativismo é seletivo. Para mim, em se tratando da fé cristã, há verdades absolutas. O que não há, é, talvez, a capacidade de plenamente apreendermos essas verdades. Para mim, por exemplo, Deus é uma verdade absoluta; Jesus é uma verdade absoluta; o mandamento de amar ao meu próximo é uma verdade absoluta. Como apreendo cada uma dessas verdades, entretanto, é uma outra questão. Dizer que Deus é uma verdade absoluta, por exemplo, significa dizer que ele seja uma pessoa que vive sobre um trono, num reino em algum lugar espacial? E se minha compreensão de Deus não for essa? E se eu tiver diferentes compreensões de Deus em diferentes épocas de minha vida? Significaria que não tenho fé em Deus?…

É por essa razão que enfatizo tanto a diferença entre “verdade” e “factualidade”. Algo não precisa ser factual – i.e., objetivamente verificável – para que seja verdadeiro; assim como nem tudo que é factual é verdadeiro para todos. E nem tudo que é verdadeiro para alguém numa determinada época de sua vida, continuará a sê-lo para sempre. Há não muito tempo atrás, uma criança, por exemplo, poderia acreditar que o Papai Noel trouxera seu presente de Natal. Para ela, naquela época de sua vida, aquela crença era uma verdade. Com o passar dos anos, entretanto, ela deixou de confiar no Papai Noel, e aquela deixou de ser uma verdade para si. Ela, talvez, tenha se dado conta do fato de que seu pai ou sua mãe – ou outra pessoa – perguntara-lhe o que ela queria de presente e fizera compras um pouco antes do Natal. A factualidade, assim, contribuiu para um ajuste da percepção de verdade.

A noção com a qual me preocupo, no tocante à fé, é a de “verdade”, e não “factualidade”. A verdade religiosa não precisa ser mensurada, pesada, observada sob um microscópio. Ela simplesmente é. Em minha experiência, especificamente, ela é mais uma prática que propriamente uma noção. Quando articulamos essa verdade por meio de nossos artefatos linguísticos e, tolamente, elevamos essa articulação à posição de asserção dogmática – ou seja, quando “factualizamos” a verdade –, então arrogantemente supomos que sejamos maiores que a verdade que dizemos proclamar. Deus, assim, deixa de ser, metaforicamente, aquele Pai de amor e passa a ser acorrentado por nossa interpretação da metáfora original. Jesus deixa de ser o Mestre que deveríamos ouvir e emular, e passa a ser um “cristão” – i.e., apenas um seguidor da interpretação específica que fizemos de sua suposta mensagem.

Com isso não quero, em absoluto, dizer que não haja necessidade de articularmos nossa fé num corpo doutrinário. Mesmo tendo a antipatia que tenho pela maneira como muitos apreendem o conceito de “dogma” na vida da Igreja cristã, minha fé se articula num edifício dogmático (i.e., doutrinário). O que importa, entretanto, é que sei que minha compreensão da fé cristã não é a única válida ou verdadeira. Como acredito que o Espírito continua a se mover na Igreja hoje, confio que possamos “descobrir” diferentes formas de sermos fiéis ao que compreendemos ser o caminho de Cristo, mesmo se discordarmos em nossas compreensões. É assim, ao menos, que leio as Escrituras e a tradição da Igreja. É com esse espírito que me esforço para celebrar a Presença Divina no seio da comunidade de fé. Todos somos diferentes, pensamos de formas diferentes, mas assumimos o compromisso de tomarmos sobre nós o nome de Cristo. Isso, para mim, basta para chamá-los de “irmãos” na fé.

Assim, rejeito asserções exclusivistas da verdade como propriedade desta ou daquela tradição cristã. Deus, Jesus, as Escrituras, a Tradição, a fé etc, não são propriedades duma instituição eclesiástica, duma tradição teológica ou duma mente individual. Em minha experiência e compreensão, a verdade cristã é encontrada num cristianismo vivido no dia a dia em nossas relações conosco mesmos, com outras pessoas, com o todo da criação e, consequentemente, com o Divino. É no caminho dessa verdade – sim, porque a verdade cristã, para mim, é uma senda e não um destino – que encontro minha liberdade. E é assim que experiencio mais proximamente Jesus como meu Salvador: tentando ouvir os ensinamentos que lhes foram atribuídos e emular seus supostos exemplos.

+Gibson

domingo, 23 de junho de 2013

Dos protestos e da democracia: resposta a um leitor


Recebi um e-mail hoje que merece uma resposta pública, apesar de eu estar um tanto cansado dessas discussões políticas às quais fui meio que empurrado no decorrer da semana que se passou. Meu interlocutor, em sua mensagem, demonstrou uma certa incompreensão e preocupação de/com minhas perspectivas políticas em relação às minhas perspectivas teológicas. Ele afirma não compreender como um “teólogo e ministro liberal e gay” pode ter expresso opiniões contrárias ao “movimento popular que tomou conta das ruas do Brasil”, e afirma que eu apenas demonstro “uma inclinação política conservadora e direitista”.

Bem, não sei exatamente que sentidos meu leitor atribui aos termos “liberal”, “conservador” e “direitista”, e como creio que, provavelmente, atribua-lhes sentidos distintos dos quais lhes atribuo, é bom que eu defina meu posicionamento político aqui.

Em primeiro lugar – para lidar com a adjetivação “teólogo e ministro liberal” –, definir o sentido do que seja uma teologia liberal é algo complexo. Acredito, porém, que os pensamentos que divulgo neste blog são suficientes para demonstrar minha compreensão da tradição teológica liberal. Uma coisa, contudo, posso e devo acrescentar: o Cristianismo Liberal não é sinônimo de um “tudo é válido”, e, para o que discuto agora, não é sinônimo de nenhuma tradição política específica (i.e., ser um cristão ou judeu liberal não significa, necessariamente, ser um adepto do liberalismo político). Em meu caso específico, ademais, a Teologia Liberal que molda minha fé não é sinônimo de Teologia da Libertação. A tradição teológica liberal tem mais a ver com nossa atitude para com a relação entre nossa tradição de fé e o conhecimento produzido pelo homem – i.e., a ciência, a filosofia, as artes, a cultura etc. Essa atitude, obviamente, influencia nossas atitudes e crenças políticas, mas não significa que cheguemos às mesmas conclusões – e, talvez, seja justamente a diversidade de opiniões que cristãos (e judeus) liberais mantêm entre si, no interior de sua própria tradição, o que mais marque a tradição liberal. Isso significa que haverá cristãos (e judeus) teologicamente liberais que abraçarão as mais diversas perspectivas do espectro político. Eu, por exemplo, sou, politicamente, um liberal democrata – um democrata que se move na tradição do liberalismo político clássico.

Quando se fala, no Brasil, em liberalismo político, geralmente as pessoas levantam as sobrancelhas por tenderem a equiparar o termo à ditadura, à violência, à antidemocracia, à exploração etc. Criou-se a tradição de demonizar esse termo. Assim, o liberalismo político (no Brasil, compreendido como ideologia da “direita”) está associado, no discurso político dominante no país, à ditadura, à não-democracia, à exploração, à permanente miséria das “classes” menos privilegiadas. Isso, obviamente, para qualquer um que se dê ao trabalho de ler um pouco mais, não é verdade. Ser um liberal, por exemplo, é acreditar que a presença excessiva do Estado na vida do cidadão é um obstáculo à sua liberdade – o que está em oposição à compreensão de socialistas, por exemplo. O liberalismo político emergiu, historicamente, como uma resposta contrária ao poder coercitivo do Estado absolutista; defendendo, assim, a liberdade política, intelectual, religiosa e econômica do indivíduo. Conceitos como liberdades fundamentais, Estado de direito, liberdade de pensamento, liberdade religiosa etc, são noções básicas no pensamento liberal. Essas noções estão intrinsecamente atreladas à minha própria tradição de fé. A defesa desses princípios é essencial em minha compreensão e prática políticas.

Em minha compreensão do que seja um Estado de direito – na verdade, minha compreensão é uma ampliação da noção clássica liberal, sendo chamada de Estado democrático de direito –, neste vigora o império da lei. À lei, estabelecida por meio de representantes eleitos democraticamente, estão submetidas as relações entre o Estado e os cidadãos e desses entre si. Não pode haver liberdade e democracia onde não haja respeito às leis democráticas. Esta é uma compreensão básica para minha forma de compreender a eticidade da vida na pólis.

Por que me opus às manifestações nas ruas, então? Bem, na verdade, não me opus às manifestações per se. Opus-me à maneira como elas se deram. Opus-me ao aberto desrespeito aos princípios democraticamente estabelecidos da Constituição brasileira. O exemplo mais claro desse desrespeito? O impedimento ao livre movimento da maioria dos outros cidadãos! Para o meu leitor, isso é “irrelevante e insignificante”, mas o fato é que esse é um direito estabelecido pela Constituição Federal, e se começarmos a definir o que seja irrelevante ou insignificante dentre os princípios constitucionais, para onde caminharemos como uma democracia?

Ademais, essa não foi a única razão pela qual me opus ao “movimento popular que tomou conta das ruas do Brasil”. Opus-me aos métodos e às concepções políticas que serviram de base ao início do movimento. Por trás do que se iniciou em São Paulo há uma ideologia contrária ao que defendo política, social e economicamente; há um enorme vale que me separa filosoficamente daquele movimento. Mesmo reconhecendo que, talvez, a maioria dos manifestantes que se levantaram no resto do país não partilhem das bases filosóficas dos grupos que lideraram os protestos em São Paulo – dentre eles, em várias partes do Brasil, há pessoas que amo e respeito muitíssimo, há amigos com os quais convivo ou convivi –, esses utilizaram dos mesmos métodos que ferem minha noção de eticidade democrática e de minha noção de justiça. Acredito e confio nas instituições democráticas e constitucionais; essas são o que mantêm o Estado brasileiro de pé. Essas instituições são necessárias à minha noção de civilidade, e delas não posso abrir mão – pois se o fizesse, estaria desacreditando a democracia, e como já disse, sou um democrata.

Muitos de meus conhecidos e leitores, incluindo meu interlocutor a quem respondo aqui, se ofenderam com alguns de meus comentários. Ofenderam-se com minhas escolhas semânticas. Prefiro pensar que a causa de seu sentimento seja apenas a paixão que os levaram às ruas, e o fato de eu ter tratado do tema enquanto a coisa acontecia. Se leram o que já escrevi antes, saberão que sou um defensor do direito democrático e das liberdades civis. Saberão que defendo o direito de, mesmo meus opositores mais vocíferos, dizerem o que pensam. Saberão que, por exemplo, defendi publicamente o direito de um pastor “conservador”que prega uma mensagem percebida como anti-gay ser livre para dizer oque ele pensa, mesmo eu estando entre aqueles que ele condena. E isso porque sou um ardoroso defensor da liberdade e da democracia. Mas a liberdade e a democracia na qual acredito e confio só existe dentro do domínio da lei democrática. Quando grupos minoritários de cidadãos resolvem que o seu direito é mais relevante e mais significante que os dos outros, não me resta outra coisa senão me opor a eles. Protestos devem se dar dentro da lei (que, em nosso atual cenário, é democrática) e da ordem, respeitando os direitos de todos os demais cidadãos. Quando se abre mão disso, legitima-se a ação de criminosos, como aqueles que arruaçaram as cidades brasileiras nos últimos dias. Se eu posso ilegalmente interditar vias públicas (causando o caos em cidades já tão problemáticas), não há nenhuma razão moral pela qual possa esperar que outros respeitem outros direitos dos demais cidadãos. É uma questão de princípio. Se isso me torna um “direitista” e um “conservador”, que seja, então. Não me interessam os rótulos, interessam-me os conteúdos – e os meus conteúdos intelectuais foram expostos!

Minhas orações e minhas ações cidadãs são sempre pelo fortalecimento da democracia neste país! Paz a todos!

Gibson da Costa

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Meu único compromisso é com o Estado Democrático de Direito!


Estamos em 2013, mas tenho a impressão de que há um saudosismo extremado das décadas de 1960 e 1970 na mente de muitos. O Brasil não vive mais um regime ditatorial. As pessoas podem quase que dizer tudo o que pensam – claro, se elas não agridem a sensibilidade de correção política de multiculturalistas pós-modernos, dos crentes no messianismo vétero-marxista ou no salvacionismo neo-socialista etc. E, mais importante ainda para o que acontece hoje, os cidadãos podem escolher livremente aqueles que os governarão e representarão legislativamente.

Os cidadãos brasileiros não são vítimas da incompetência e corrupção de seus governantes e legisladores. Não! São cúmplices! Foram os cidadãos que escolheram aqueles contra os quais supostamente protestam – se bem que algumas mentes “esclarecidas” dentre eles dizem protestar contra aquilo que chamam de “Direita”, como se o Brasil fosse governado agora pelo DEM ou PSDB, grupos que são mais prontamente identificados como essa entidade abstrata designada como “Direita” (se bem que é bom reconhecer logo agora que sua atual minoria e insignificância política, entretanto, não os absolve de sua culpa passada no cenário Federal e, muito menos, nos variados cenários municipais e estaduais presentes!). São esses cidadãos quem legitimam a incompetência de muitos desses cretinos que extraem benefícios do eleitorado, defendendo os interesses de todos, menos de sua suposta “base” eleitoral.

Aqueles que protestam nas ruas, e dentre eles, o populacho ensandecido que se auto-adjetiva como “revolucionário” (vide discursos de “instruídos” universitários que conclamam seus iguais à revolução nas redes sociais), têm algum objetivo claro com seu movimento (que, sim, até certo ponto – muito limitado, talvez – possui legitimidade racional)? Ou estariam apenas sendo levados pela ânsia de aproveitarem a presença maciça da imprensa internacional para mostrarem que também podem ser “revolucionários”?

O fato é que vivemos numa democracia – imperfeita, sim, mas uma democracia assim mesmo –, num Estado Democrático de Direito. Isso exige um comprometimento com as liberdades civis, independentemente de quão insatisfeitos estejamos com a situação econômica, política ou social. Como cidadão, como um Ministro religioso e como um educador, tenho um compromisso com a Democracia e com o direito. É isso que ensino a meus paroquianos e alunos. É nisso que acredito. É em favor disso que voto. É isso que espero dos demais cidadãos, que estão presos ao mesmo contrato constitucional que eu. Minha vida como cidadão está comprometida com aqueles princípios estabelecidos pela Constituição Federal. Assim, anseio pelos direitos que possuo, mas também reconheço que estou preso a deveres.

A Constituição estabelece algumas coisas sobre as quais tenho pensado como consequência do que tem ocorrido no Brasil nos últimos dias. Ela, por exemplo, estabelece que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei”, e que “é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz” (Art. 5º). Comparando isso com as notícias disponíveis sobre os “protestos” Brasil afora – nos quais algumas das liberdades de outros cidadãos lhes são negadas –, me pergunto se poderíamos confiar nessa empreitada nas ruas como um movimento “democrático”. Que tipo de movimento “democrático” se empenharia em retirar de outros cidadãos, que não compartilham de suas expectativas ou não concordam com seus métodos – ou, quem sabe, simplesmente querem voltar para casa depois de um dia de trabalho –, dois de seus direitos constitucionais?... Minha ética democrática, os princípios que regem minha vida social, cidadã e profissional, me obrigam a responder esse questionamento com um simples: “nenhum”! Nenhum movimento que se suponha democrático sabotaria princípios que mantêm a própria Democracia de pé. Não me importa o quão impopular seja minha compreensão de Democracia, e muito menos os adjetivos comuns que aqueles que pensam como eu têm recebido dos “iluminados” do mundo virtual. O meu único compromisso, neste caso específico, é com o Estado Democrático de Direito.

Os noticiários já veicularam o que pretendem fazer hoje aqui no Recife. O Jornal do Commercio online, por exemplo, divulgou ontem à noite o seguinte:

“O percurso só será definido de última hora pelas lideranças do movimento, mas os destinos mais prováveis são Marco Zero, pela Avenida Conde da Boa Vista, ou Centro de Convenções, sede provisória do governo do Estado, pela Avenida Agamenon Magalhães. Grupos se articulam para ir juntos ao Derby, saindo dos quatro cantos da cidade e de outros municípios do Grande Recife. Pelas redes sociais, ao menos 4 mil pessoas prometem se encontrar às 14h no cruzamento entre a Avenida Rui Barbosa e a Rua Amélia, nas Graças, Zona Norte.
Membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e integrante da Frente de Luta pelo Transporte Público, o estudante Pedro Josephi diz que a manifestação principal será a saída do Derby, mas que haverá ativistas posicionados estrategicamente em alguns Terminais Integrados (TIs) do Recife. “Não podemos revelar todos os direcionamentos, mas faremos outras ações, como barricadas nos TIs. São várias frentes de atuação”, afirma.” (http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/geral/noticia/2013/06/19/uma-quinta-feira-para-ficar-marcada-na-historia-do-recife-87203.php)

Não preciso comentar o pequeno trecho acima. A atitude dos supostos “organizadores” demonstra onde não está seu compromisso – não está com o direito alheio, logo, não está com a Democracia.

O mesmo artigo acima, termina da seguinte forma:

“[...] Diante do temor de o protesto pacífico descambar para atos de vandalismo, como ocorreu noutros locais, empresas, comércio, escolas e universidades reduziram o expediente. A Secretaria de Defesa Social (SDS) alerta que pessoas podem se infiltrar na multidão para depredar o patrimônio público. Mas o movimento garante que o pacifismo é bandeira de que não abrem mão. Tanto que a concentração se dará diante do Comando-Geral da Polícia Militar.”

E, acompanhando o que divulgavam nas redes sociais, encontrei esta pérola digitada por um estudante de curso de Licenciatura em História (sim, um possível futuro professor!) de uma Universidade Federal em Recife:

“Gostaria de informar pra os "pacifistas" de plantão que na história, a única revolução que foi vitoriosa sem violência aconteceu na Índia. E ainda assim o sangue de muitos manifestantes escorreram pelas ruas. E outra coisa, x9 tem vida curta...” [sic]

...Ele não só não parece acreditar muito em ideias como paz e democracia, como acredita estar iniciando uma “revolução”! É numa hora como essa que tenho vontade de perguntar, junto com Paula Cole: “Where have all the cowboys gone?”

O “movimento” parece ser levado por uma crença em um mundo populado por bandidos e heróis presa ao século passado. Não possui um objetivo claro. É politicamente inconsistente. E não possui um compromisso com a ordem democrática. É por essa e por outras razões que me recuso a participar de toda esta loucura. Não poderia falar em Democracia se contribuísse com essa incoerência pseudo-popular!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A "Lei" cristã


É engraçado como alguns desses pregadores da televisão e rádio se esquecem do sentido de "Lei" para as Escrituras cristãs:

"Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas." (Mateus 7:12)

"Não fiquem devendo nada a ninguém, a não ser o amor mútuo. Pois quem ama o próximo cumpriu plenamente a Lei. De fato, os mandamentos: não cometa adultério, não mate, não roube, não cobice, e todos os outros se resumem nesta sentença: 'Ame o seu próximo como a si mesmo'. O amor não pratica o mal contra o próximo, pois o amor é o pleno cumprimento da Lei.” (Romanos 13:8-10)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Do Confronto ao Diálogo: o estilo Batista de ser e a questão ecumênica no Brasil


Nilo Tavares, um amigo do Rio de Janeiro, que fiz por meio deste blog, lançou o livro:

"Do Confronto ao Diálogo: o estilo Batista de ser e a questão ecumênica no Brasil"

190 páginas - R$ 36,90


Maiores informações sobre o livro:



Maiores informações sobre o autor:


"Perfeitos como o Pai que está no céu" - uma resposta a Pedro


Caro Pedro,

Como é óbvio em nossa experiência ocidental moderna – alguns a chamariam de pós-moderna, mas deixarei essa discussão para outros –, falar sobre qualquer coisa é uma empreitada complexa. No caso da fé, da teologia, essa complexidade parece ser ainda maior, já que – no caso do Cristianismo – estamos tão fragmentados que não conseguimos enxergar aquilo que nos deveria unir. Muitas vezes, utilizamos os mesmos termos, mas eles ganham um sentido e uma intenção tão distintos que é difícil acreditar que falemos a mesma língua, e muito menos que partilhemos a mesma fé. Isso, para mim, é triste (quando não cômico).

Na verdade, essa é uma das razões pelas quais me preocupo tão pouco em discutir teologia sistemática neste espaço. Prefiro me ater àquilo que julgo ser o básico do básico, àquilo que acredito ser o espírito da tradição cristã. Quando me recuso a, geralmente, tratar de detalhes teológicos específicos sobre o quê, como, onde, por quem, para quê etc, é por julgar que essas questões – apesar de serem importantes para o fazer teológico – são irrelevantes para o viver cristão. Você, por exemplo, cita trechos bíblicos para falar sobre comportamentos culturais (o que comer, como se vestir, os papeis do homem e da mulher etc) como se esses fossem o Cristianismo; eu não preciso dizer que discordo plenamente de sua compreensão.

Por exemplo, você citou Mateus 5:48 (“...sejam perfeitos como é perfeito vosso Pai que está no céu”), mas, a julgar pelo sentido que deu ao trecho, acredito que não tenha lido os versículos anteriores a ele. Se tentar reler o trecho a partir de, pelo menos, o versículo 43, verá que a discussão ali se trata do amor divino que, segundo o trecho, se estende sobre todos – e é justamente essa perfeição divina que seria esperada dos discípulos de Jesus:

Vocês ouviram o que foi dito: 'Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo!' Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês terão? […] Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.” (Mateus 5:43-48)

As Escrituras certamente contêm inúmeras condenações, e, infelizmente, parece ser sobre essas que recaem as preocupações de boa parte dos fiéis cristãos. Eu, como já escrevi várias vezes aqui, prefiro me preocupar mais com o lado do “fazer” do que com o “acreditar” ou “não fazer” do Cristianismo. Não estou preocupado se acredito ou não em determinado dogma ortodoxo cristão, pois se Deus for realmente o que as Escrituras dizem ser, “se importará” mais com a forma como vivo minha vida em relação a meus semelhantes e à criação do que com as palavras nas quais digo acreditar.

Para mostrar um outro exemplo, tirado do mesmo conjunto de discursos no Evangelho de Mateus que você cita, veja este trecho (Mateus 7:12):

Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas.”

Quando penso em religião, é com isso que estou preocupado. O que me preocupa é a fé materializada na prática do dia a dia. Obviamente, as formulações teológicas são importantes para mim; mas, em se tratando da forma como encaro o ministério religioso, esse é um aspecto secundário. É o que a tradição ensina sobre como construir relações que me interessa, e não detalhes sobre quantos anjos podem dançar na cabeça de uma agulha. Estou mais interessado numa religião viva, que me ensine a trazer Deus para a realidade do mundo, do que numa religião que se preocupa com os supérfluos da vida. Não é uma questão de quem interpreta o Cristianismo da maneira certa ou errada, trata-se apenas de diferentes perspectivas - essa perspectiva preocupada com a "ortopraxia" é o caminho que escolho seguir, é minha forma de compreender a fé cristã.

Um grande abraço!

+Gibson

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Qual caminho escolher: condenação ou compaixão?


Não julguem, e vocês não serão julgados; não condenem, e não serão condenados; perdoem, e serão perdoados.
(Lucas 6:37)

Ele gritava freneticamente palavras de condenação. Deus, para ele, estaria furioso com a humanidade, e, por isso, enviava sinais de Sua ira para que nos arrependêssemos de nossos pecados antes que não tivéssemos mais tempo para tal. A ênfase na “moralidade” sexual era clara, já que era praticamente apenas sobre isso que ele falava…

Testemunhei essa cena num lugar público da cidade. Mas também poderia ter sido num ambiente mais privado duma igreja, ou através da televisão, das ondas de rádio, ou por meio da internet. Esse tipo de cena se torna cada vez mais comum no universo cristão brasileiro. O Cristianismo é sequestrado e traído por um ambiente político cada vez mais polarizado.

O que mais me incomoda em tudo isso é que a mensagem cristã – sim, o Evangelho – parece ter sido transformada de um chamado à salvação em uma afirmação categórica de condenação. Jesus parece não ser mais, para esses pregadores presentes nas mais diferentes tradições cristãs, o Salvador do homem; ele parece ser, ao menos para esses anunciadores do desespero, o condenador do mundo – aquele que trará a fúria divina, o fogo e enxofre do sofrimento, para aqueles que não aderem à sua [i.e., desses pregadores] interpretação específica do Cristianismo! É importante reconhecer que essa não é uma atitude nova – ela é recorrente, em diferentes momentos históricos, e não apenas na tradição cristã –, mas essa ênfase numa teologia da condenação não deixa de ser tristemente equivocada, a despeito de sua permanência na história do Cristianismo. [Por outro lado, é bom que eu deixe claro aqui que a ênfase excessiva na bondade humana dada por nós cristãos liberais também pode ser equivocada, já que pode nos levar a uma aparente – sim pois é aparente apenas – tolerância àquilo que atenta contra a dignidade humana; então, os excessos são cometidos por todos nós, apesar de aqui eu estar me debruçando apenas sobre um desses equívocos.]

Como um discípulo do rabino galileu, vejo Jesus de Nazaré como meu “Salvador”, independentemente do sentido que atribuo ao termo. Diferentemente da maioria dos demais cristãos, vejo a salvação oferecida por Cristo não como uma expiação pelos meus pecados, e, assim, não apenas como relacionada com sua “morte e ressurreição” – apesar de essas duas palavras serem essenciais à narrativa que se construiu em torno de Jesus e de sua importância para a emergência do movimento que se organizaria posteriormente em torno de sua memória –, mas por meio de seus ensinamentos e de seu exemplo. Geralmente, não penso em Jesus como alguém que morreu por mim, mas como alguém que viveu por sua halakha e que, assim, tornou-se meu caminho para Deus. Seja como for, Jesus representa salvação, e não condenação; vida, e não morte. Então, quando alguém prega um Jesus de ódio, um Jesus condenador; quando alguém transforma a halakha de Jesus – aquele caminho da compaixão, a via do sola caritas – num sinônimo de fúria e ira, de condenação e incompassividade, de pena de morte, então esta pessoa está, para mim, dando voz àquele discurso que os Evangelhos dizem ter Jesus condenado. Se trata de uma traição à tradição atribuída ao grande Rebbe galileu.

Sim, acredito que o mal deva ser condenado. Os seguidores de Jesus devem continuar a condenar aquilo que viola a dignidade do ser humano: a violência, a injustiça, a corrupção – e, talvez, alguns de nós tenhamos discordâncias sobre quais sejam essas coisas numa vida cada vez mais complexa –, mas essa condenação não significa nos tornarmos juízes da vida de outros seres humanos, como se fôssemos a encarnação da pureza e da divindade e os outros fossem os “pecadores”. Prefiro pensar a condenação do mal no mundo como um testemunho em nossas ações da compaixão que somos convocados a compartilhar com todos os seres humanos e com toda a criação. Assim, mais “cristão” do que apontar os “pecados” alheios seria abrir os braços para aquele que julgamos estar “perdidos” (só para repetir o termo utilizado pelo “pregador” que citei no início desta conversa). É assim que compreendo a mensagem atribuída a Jesus – um caminho de compaixão absoluta, aqui e agora. Para mim, é assim que Jesus nos salva – apontando para a necessidade de uma interdependência e de uma religação entre cada um de nós, já que perdão e compaixão dependem da presença do outro [o que torna a fé cristã algo que só pode ser posto em prática em nossa relação com as pessoas, com absolutamente todas elas!].

+Gibson

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Uma resposta à amiga Sarah


Olá Sarah!


Bem, duma certa forma, já respondi a essa mesma questão sobre veracidade da Bíblia em diferentes ocasiões aqui, e meu pensamento continua a ser basicamente o mesmo nessa questão. Não posso pensar numa resposta a essa questão sem fazer outras perguntas para decidir o que é essencial e relevante nas Escrituras para minha relação com Deus. A primeira pergunta a fazer, talvez, seja “O que é a Bíblia, afinal de contas?” – a resposta que dou a essa pergunta definirá a resposta que darei à sua questão. Se a resposta for algo como “A Bíblia é a Palavra literal de Deus, e não humana, infalível, sem erros, inquestionável” etc, então fim de história; não posso tentar descobrir diferentes níveis de sentido em suas palavras; ponto final. Claro que, se assim pensasse, estaria ignorando tudo o que sei sobre a forma como o mundo e a sociedade funcionam, sobre a mente humana, sobre as leis da física, sobre a história de Israel e da Igreja etc. Essa, obviamente, não é a resposta que eu ofereceria a essa pergunta!

A Bíblia é, em minha compreensão, um livro humano (na verdade, um conjunto de livros), escrito por seres humanos, e que se tornou sagrado por meio dum processo de canonização. A Bíblia não nasceu como Escritura Sagrada, ela foi tornada sagrada por meio dum longo processo que demorou séculos. A história da Igreja cristã mostra como esse processo foi complexo e quão ligado ele está àquilo que costumamos chamar de “tradição” – por isso, podemos dizer que a Bíblia é, na verdade, um produto da tradição de duas comunidades distintas, a antiga Israel e a Igreja. A complexidade reside, parcialmente, no fato de que essas duas tradições são múltiplas; por exemplo, no caso da Igreja cristã, não havia no início da história da Igreja (como não há hoje) uma forma única de ser cristão nem uma concordância absoluta sobre todos os pontos doutrinários da tradição. Assim, Jesus, por exemplo, foi compreendido de diferentes formas – i.e., quando os cristãos ouviam (sim, porque a maioria deles não liam, mas ouviam!) os relatos de determinado Evangelho que era lido em sua comunidade (nem todas as comunidades tinham acesso a todos os Evangelhos que hoje chamamos de canônicos), esse relato podia ser compreendido de diferentes formas, a depender do pensamento preponderante naquele meio. Só após o Cristianismo tornar-se a religião oficial do Império Romano é que surge a preocupação com uniformidade de crenças – já que para que se tornasse um braço do Estado romano, era importante que a Igreja apresentasse-se de uma única forma. Após séculos e séculos de toda a construção duma tradição de leitura, parece ser anormal que determinados relatos das Escrituras sejam lidos de maneira diferente daquela estabelecida pela tradição “católica” (com este termo não me refiro apenas ao Catolicismo Romano, mas ao pensamento cristão dominante no Ocidente).

Na história da Igreja se desenvolveram diferentes formas ortodoxas de interpretação das Escrituras – tradições hermenêuticas que, conjuntamente, ainda são reconhecidas pelas grandes famílias cristãs (católicos romanos e orientais, e protestantes). Tradicionalmente, na Igreja Oriental, existiam duas grandes tradições, uma centrada numa interpretação literal que apelava ao sentido alegórico das Escrituras (chamada de Escola Alexandrina de exegese bíblica – cujos membros incluíam Clemente e Orígenes, por exemplo); e outra que apelava ao contexto histórico para interpretá-las (chamada de Escola Antioquina de exegese bíblica – Diodoro de Tarso e João Crisóstomo, por exemplo, eram parte dessa tradição). Ademais, podemos pensar em três tradições de interpretação das Escrituras na Igreja Ocidental: 1) A do Bispo de Milão, Ambrósio, que desenvolveu uma compreensão tripla do sentido das Escrituras → um sentido natural, um sentido moral, e um sentido racional; 2) A de Agostinho de Hipona, que defendeu uma compreensão dupla do sentido das Escrituras → um sentido histórico, e um sentido espiritual; e 3) a Quadriga, que foi o método interpretativo padrão no Ocidente, durante a Idade Média, e buscava quatro sentidos básicos nos textos das Escrituras → um sentido literal, um sentido alegórico, um sentido moral (tropológico), e um sentido anagógico (um sentido que nos conduza a Deus). [A Igreja Católica Romana, por exemplo, em seu Catecismo oficial, faz uso de todos esses elementos em sua interpretação das Escrituras – veja mais em: CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 4ª ed. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Loyola; Paulinas; Ave-Maria; Paulus; 1998. p. 41-42.)

Minha maneira de interpretar as Escrituras se ancora numa combinação de todas essas tradições. Assim, busco um sentido metafórico (mais que real) nas Escrituras, tendo como guia a compreensão do contexto histórico de seus textos, e desses na Igreja cristã. Como sou um homem que vive no mundo moderno, que é influenciado pela ciência e pela filosofia de minha própria época – e não pela filosofia do mundo grego antigo, como os primeiros cristãos –, então é mais que normal que minha leitura esteja condicionada por meu próprio contexto histórico. E mais, nesse processo de interpretação, entra minha experiência pessoal no mundo real – o que chamo de senso comum. É a combinação de tudo isso que me leva a entender as narrativas bíblicas duma forma que pode ser muito diferente daquela dos primeiros cristãos, por exemplo – muito provavelmente, diferente da leitura que o próprio Jesus fazia… É uma questão de escolha, uma questão de integridade intelectual – e, consequentemente, moral!

Não pense que isso seja fácil. Não é. Se prestar atenção, isso faz com que eu rejeite certos conceitos que outros cristãos fiéis – talvez a maioria deles – julgam imprescindíveis. Enquanto acredito na possibilidade da permanência de muitas verdades, outras, para mim, são temporárias e secundárias, já que estão condicionadas a determinadas experiências históricas. Como conciliar, por exemplo, o papel atribuído por Jesus – ao menos, de acordo com os Evangelhos – às mulheres com aquele a elas atribuído supostamente pelo apóstolo Paulo? Nos relatos sobre Jesus, as mulheres estão no centro – ele quebra todas as regras sobre a separação entre homens e mulheres –, mas, para Paulo, as mulheres deveriam continuar em seu papel de submissão à autoridade masculina. Como lidar com este problema? Os dois relatos não podem ser vistos como sendo absolutamente “verdadeiros”, já que se contradizem!… Minha resposta: a única solução é entender qual seja a mensagem básica do Evangelho, e, a partir daí, decidir o que se encaixa nessa visão, e o que é apenas tradição cultural – pode soar muito herético para aqueles que se declaram “cristãos bíblicos”, por exemplo, mas eles mesmos fazem isso de sua própria forma (na verdade, todos nós o fazemos o tempo todo!).

Para esclarecer o que penso sobre a maneira como Jesus compreendia Deus e sua relação com o Divino, deixe-me afirmar que Jesus era um judeu. Como judeu, Jesus provavelmente compreendia Deus de diferentes formas, dependendo do momento – já que sua tradição de fé não possuía uma declaração teológica como os credos cristãos, definindo Deus de forma objetiva. Deus era uma Realidade que podia ser definida de forma positiva quanto negativa – ou seja, Deus era e Deus não era etc. Eu discordo que a visão que Jesus tinha de Deus fosse “teísta”, já que essa visão (quando historicamente definida) emerge apenas a partir do encontro do movimento de Jesus com o pensamento grego. Para que Jesus fosse um teísta, ele teria que possuir uma visão objetiva de Deus como algo que pudesse ser quase que matematicamente definido – e isso não surge até mais tarde. O que podemos afirmar é que Jesus certamente possuía uma visão de Deus como uma Realidade pessoal, e mais que pessoal – mas dizer isso não é o mesmo que dizer que ele fosse um teísta!

Essas questões dogmáticas não geram constrangimento entre nós unitaristas, pois a maioria de nós – ou pelo menos dos ministros unitaristas – as tratariam da forma como as estou tratando com você agora: sem oferecer uma definição objetiva em nome de todos! Assim, posso dizer a você: sim, Deus, Jesus, ressurreição, vida eterna etc, são temas importantes para mim – só que, aceito que diferentes pessoas compreendam esses temas de diferentes formas, desde que sua conclusão seja dirigida pelos princípios que julgo indispensáveis ao Evangelho, e que resumo com uma frase em latim – sola caritas (só a compaixão, a caridade, o amor). Isso porque os Evangelhos e as demais Escrituras ensinam que Deus é amor e que somos chamados a amar, então esse amor deve ser o padrão de minha compreensão da mensagem de Cristo; não o “amor” enquanto uma palavrinha da moda para mostrar o quão legal sou, mas o amor enquanto uma força de transformação de mim mesmo e do mundo ao meu redor – um amor que deve se manifestar em como trato o próximo, cuido do planeta, respeito aos diferentes de mim, recebo meus inimigos à minha mesa, voto em meus representantes, cumprimento aos estranhos etc; é uma forma dolorosa e desconfortável de ler a Bíblia e a tradição cristã.

Isso é enfatizar só aquilo que me convém?! É claro que é! Acredito e tento praticar essas coisas, leio as Escrituras e a tradição dessa forma porque, de certa forma, isso é conveniente. Da mesma forma como é, em algum nível, conveniente para todas aquelas pessoas que acreditam em outras coisas acreditarem naquilo! Como vivemos numa sociedade na qual somos livres para escolher nossa religião, escolhemos aquilo que nos é conveniente! Isso não desacredita minha fé mais do que desacreditaria a fé de nenhuma outra pessoa, já que todas elas – mesmo que não estejam plenamente cientes disso – escolherem a tradição onde, pelo menos, se sentiam mais satisfeitas (e isso, em si, já é uma forma de conveniência!). Mas, se escolho um caminho no qual a mulher e o homem, o heterossexual e o gay, terão acesso a Deus da mesma forma; se escolho uma tradição na qual minha visão científica não tenha de ficar do lado de fora, quando atravesso as portas da igreja, sendo forçado a fingir que acredito em outra coisa e não sendo íntegro comigo mesmo e com os outros, esta é uma questão de fé pessoal – é assim que experiencio Deus!

Poderia, talvez, escolher falar aqui sobre minhas crenças pessoais sobre ressurreição, Deus, a natureza de Jesus etc. Entretanto, a não ser que esteja em discussões teológicas muito específicas, escolho não o fazer, porque julgo ser esse tipo de discussão irrelevante para mim. Concordo quando você diz, por exemplo, que o mesmo Paulo que fala sobre amor, fala sobre ressurreição – mas, para este mesmo Paulo (isso se eu acreditasse que os autores de todas as cartas que levaram seu nome fosse a mesma pessoa!), diferentemente de Jesus, eu sequer poderia estar trocando mensagens com uma mulher! Então, como pode ver, é realmente uma questão de se fazer escolhas!

Como poderia te ajudar se me recuso a dar uma resposta sobre o que é “verdadeiro” ou não nas Escrituras? [Já discuti várias vezes neste blog o sentido que dou ao termo “verdade”: em se tratando de minha fé, o termo não é sinônimo de factualidade!] Não sei. Penso que a única pessoa que pode construir uma resposta que lhe seja satisfatória é você mesma: você tem de fazer escolhas que levem em consideração sua relação com o Divino, a pessoa que você é, a maneira como compreende o mundo, sua experiência de vida etc. Só assim você descobrirá o que é verdade, e, talvez, poderá descobrir que a verdade é algo que toma diferentes formas em diferentes momentos da vida, dependendo de um sem número de razões. Eu continuarei aqui, orando para que você possa alcançar esta “verdade”, mas não serei presunçoso a ponto de pensar que possa dizer a você – ou a quem quer que seja – o que é a “verdade” válida para todos, em todos os tempos, em todos os lugares.

Bençãos! Espero que possamos continuar nossas conversas e, quem sabe, um dia vê-la em pessoa!

+Gibson

terça-feira, 2 de abril de 2013

Cristianismo... ainda relevante?


Numa conversa muito agradável com um grupo de jovens universitários – i.e., pessoas mais jovens que eu –, ouvi as inquietações que frequentemente abatem a confiança que esses têm em sua tradição de fé. Na visão daqueles meus amigos, seria difícil confiar numa instituição religiosa – i.e., na igreja – que estaria associada a tudo aquilo que aprenderam ou experienciaram ser opressivo ou corrupto; assim como seria impossível acreditar em fórmulas de fé que contradizia o que conheciam sobre o mundo. Para eles, o que compreendiam ser a fé cristã tornara-se irrelevante.

Aquele tipo de inquietação não me é estranha. Em primeiro lugar, não estou tão distante assim da idade daqueles meus amigos – que estão entre os vinte e os vinte e cinco anos de idade, e eu em meus trinta e quatro –, logo, posso lembrar-me claramente das transformações psíquicas e intelectuais pelas quais passamos àquela altura da vida, quando estamos nos aventurando nas correntes de novos conhecimentos, novas experiências de vida e novas escolhas que nos marcarão profundamente. Ademais, lido constantemente com os relatos de experiências semelhantes na vida de outros jovens com os quais converso ou me correspondo. Assim, estou sendo plenamente honesto quando lhes digo que não estão sozinhos quando passam por aquelas correntezas de sentimentos de dúvidas e incertezas. Esses sentimentos são naturais e, acredito, necessários ao nosso crescimento intelectual e espiritual; e, mais importante, não são nada de que tenham de se envergonhar.

Para que eu seja o mais direto e objetivo possível, deixem-me declarar que confio plenamente na relevância da fé cristã para nosso mundo. O Cristianismo oferece uma narrativa do sagrado que tem moldado positivamente a vida de milhões de pessoas há pelo menos dois milênios – que continua a oferecer uma jornada espiritual a incontáveis pessoas no mundo contemporâneo. O Cristianismo tem me oferecido uma narrativa do sagrado capaz de construir uma corrente de relações entre minha vida e o Divino, oferecendo-me uma interpretação vivificante para a realidade que experiencio. Em termos mais seculares, por exemplo, é fácil esquecermos que nossas instituições ocidentais de direitos humanos, cidadania, liberdade etc, emergem dum imaginário judaico-cristão. O sentimento anticlerical da modernidade fez com que, ingenuamente(?), desassociássemos essas instituições da herança greco-romana-abraâmica na qual foram moldadas. Ouso supor que aqueles traços “ocidentais” só vieram à tona da forma e no tempo no qual passaram a existir por haverem emergido em sociedades cristãs – o que teria ocorrido não tivesse o Cristianismo se casado com o pensamento greco-romano no mundo Mediterrâneo, e vice-versa? O cinismo característico de nossa atitude intelectual moderna se nega a reconhecer essas associações, mas elas estão lá!

Penso que o problema que alguns de nós encontramos para achar sentido no Cristianismo, ou em qualquer uma das outras duas tradições jordânicas – i.e., o Judaísmo e o Islã –, é o de termos sido “treinados” para associar a fé a crenças dogmáticas e a definições objetivas duma suposta realidade teológica. Acostumamo-nos a declarações como “Deus disse”, “a verdade é”, “só Jesus salva” etc, mas não a descobrir novos níveis de sentido para essas declarações. “Deus” torna-se um problema, então, não porque Deus seja um problema, mas simplesmente porque fomos treinados a compreender o Divino como se fora um rei absolutista ou uma equação matemática. A “verdade”, nesse sentido que aprendemos a dar ao Cristianismo, é algo que pode ser equacionado, metrificado, verificado, quantificado – é, enfim, um absoluto. Então, se minha experiência me leva a compreensões que contradigam essa “verdade”, Deus e, consequentemente, o Cristianismo deixam de fazer sentido e tornam-se irrelevantes.

A coisa mais relevante sobre a tradição cristã é que ela, na verdade, são várias tradições. Não há algo que possamos chamar de Cristianismo único – para mim, há Cristianismos, no plural. Com isso quero dizer que há várias maneiras diferentes de compreender a mensagem cristã, e que nós, cristãos, podemos experienciar algo como aquilo sobre o qual fala Brian McLaren, em seu “A Generous Oxthodoxy”, quando aponta diferentes perspectivas em diferentes tradições cristãs que formam seu eu cristão pessoal. Em minha experiência Unitarista-Anglicana-Luterana (não necessariamente nesta ordem sempre), com a forte presença judaica, consigo uma latitude interpretativa maior para minha própria vida. Posso reler a narrativa cristã a partir de diferentes posições no espectro teológico, enxergando Deus duma perspectiva nova, descobrindo um novo nível de sentido para uma declaração atribuída a Jesus ou a um dos apóstolos, por exemplo. Assim, não são os detalhes minuciosos que passam a ter relevância, mas a Realidade para a qual a metáfora aponta: por exemplo, não faz diferença se Jesus ressuscitou a um homem morto, mas sim a cadeia de sentido que está por trás desse relato etc.

O Cristianismo é relevante para mim por ser um testemunho do caminho da Compaixão. Esse caminho é o que tenho chamado de sola caritas – o amor, a caridade, a compaixão é o único caminho que nos leva a Deus. Dizemos que Jesus é esse caminho porque ele nos aponta – na verdade, exige que sigamos – o caminho da Compaixão; assim, seguir a Jesus é seguir o caminho que ele percorreu: é viver pela presença do Divino aqui e agora, é ser essa presença para outras pessoas. Para mim, não outra mensagem mais relevante que essa, já que seu chamado não é para que eu largue minhas dúvidas ou inseguranças, mas sim, para que eu faça, para que eu ame, para que eu “caminhe”.

Não posso definir Deus. Não consigo encontrar uma maneira suficientemente ampla para falar sobre essa Realidade dentro da qual tenho minha existência. Também não consigo estar sempre acima da dúvida e dos questionamentos, quando presencio o sofrimento e a dor daqueles que amo e minhas próprias. Mas escolho pensar que se há verdade, essa tem de se materializar em nosso dia a dia, por isso – como me ensinou um sábio mestre –, tenho de trazer Deus para dentro da realidade do mundo (não necessariamente Deus como um ser, mas Deus como a compaixão ensinada pelo rabino galileu). O mandamento de “restaurar o mundo” – e a vida daqueles cristãos celebrados como santos é um exemplo disso – torna-se o padrão por meio do qual avalio o valor da mensagem cristã; uma mensagem que escolho interpretar como um caminho, um modo de vida.

Tenho certeza que vocês também podem encontrar uma forma de o Cristianismo ser relevante em suas vidas, ao mesmo tempo em que conseguem se manter intelectualmente íntegros.

+Gibson