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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

A CRÍTICA BÍBLICA

Por muitos séculos os cristãos têm considerado a Bíblia como “Escritura Sagrada” e a têm estudado sem críticas, como se fosse um documento sacrossanto cujas narrativas são todas historicamente verdadeiras e cujos mandamentos são todos divinos, e portanto devem ser obedecidos. Esta filosofia, conhecida como Fundamentalismo, não é exclusiva ao Cristianismo, mas no contexto cristão, ela enfatiza a infalibilidade e inerrância da Bíblia em todos os seus detalhes, vendo a Bíblia como a verdade de Deus. Como resultado disso, aqueles que abraçam esta visão crêem que nada na Bíblia possa ser negado, ignorado ou questionado. A origem de um movimento explicitamente conhecido como “Fundamentalismo” é geralmente identificado com a publicação entre 1910 e 1915, nos Estados Unidos, de doze volumes conhecidos como “Os Fundamentos” - que surgiram no Evangelicalismo em reação à teologia liberal nas igrejas, ao darwinismo e às mudanças nos valores culturais.

A Crítica Bíblica (um termo técnico para o estudo histórico moderno da Bíblia) é a expressão mais comumente usada para o estudo da Bíblia que não acredita que essa abordagem literalista seja verdadeira para com os fatos, e que busca, por meio de uma análise mais científica, chegar a uma opinião crível de como e quando os livros da Bíblia surgiram.

Muitas pessoas podem ter a impressão de que a abordagem crítica ao texto bíblico seja um fenômeno comparativamente moderno, mas eles estariam incorretos; tais estudos nos escritos de estudiosos judeus e cristãos já aconteciam no século V da era cristã, apesar de ter sido no século XVIII que o processo começou a acelerar. No século XIX, o alemão Julius Wellhausen propôs a Hipótese Documental, declarando que o Pentateuco foi composto em vários estágios (a cada um do qual ele deu um título), que se estenderam de um período dos séculos IX ao VI a.C.. Ele descobriu inconsistências textuais, repetições, uso de diferentes nomes divinos, e outros fatores para substanciar suas opiniões.

Também no século XIX, o crescimento dos estudos arqueológicos no Oriente Médio levou a descobertas fascinantes (como o épico babilônico da Criação e a narrativa babilônica do Dilúvio) que substanciaram a opinião de que a Bíblia não fosse um texto único, mas um que fosse parte de seu ambiente cultural e histórico; mas que também corroborou a historicidade de muitas de suas narrativas, especialmente aquelas que datam de séculos mais recentes, como Reis, Isaías e Jeremias.

A obra de Wellhausen inspirou outros a olharem de forma crítica para o resto dos livros da Bíblia, e sua análise objetiva de textos específicos os esclareceu e o contexto nos quais foram escritos, assim como sua provável data.

Inevitavelmente tal ataque por parte dos estudiosos “objetivos” inspirou uma reação fundamentalista, e alguns indivíduos notáveis se puseram a desaprovar as teorias de Wellhausen e de seus discípulos. Quão convincentes eles conseguem ser é uma questão de preferência pessoal. Mais de cem anos depois de Wellhausen ter proposto suas teorias, elas não têm mais o nível de influência que já tiveram no biblicismo acadêmico, apesar de terem aberto (sem dúvida alguma) a porta para a compreensão acadêmica do texto bíblico que é seguido pela maioria hoje e ao qual, de forma mais ou menos extensa, a maior parte dos judeus e cristãos de mentes abertas subscrevem.

Para um cristão fundamentalista, todas essas teorias são anátemas, e um insulto à autoria e autoridade divinas; retire essas (a autoria e autoridade divinas), e você retira qualquer razão para se seguir a Bíblia, e até mesmo para se viver uma vida cristã.

Tais atitudes são inaceitáveis e desnecessariamente monolíticas. Para os Cristãos Progressistas, a crítica bíblica tem sustentado o que para nós é uma realidade óbvia, que a Bíblia é um documento humano. Sentimo-nos livres para dizer que há muito nela de inspirador, eterno, e além da reprovação; mas a análise dos estudos bíblicos acadêmicos também nos têm encorajado a dizer que há muitas coisas que são imperfeitas, triviais, e enraizadas em culturas e políticas antigas. Recusamo-nos a aceitar que o Deus no qual cremos tenha proposto alguns desses conceitos e leis, como, por exemplo: o apedrejamento até a morte de um filho rebelde; o ostracismo permanente da comunidade israelita para com os membros das antigas tribos canaanitas; as idéias machistas presentes nos ensinos do Novo Testamento; o exclusivismo cristão; etc. Só podemos compreendê-los como tendo emanado de uma mente humana, e como estando enraizados na cultura e na moralidade de seu tempo.

Isto não significa dizer que necessariamente excluamos a possibilidade de inspiração divina no texto bíblico, longe disso; a Bíblia é, apesar de tudo, um documento notável, repleto de sabedoria e discernimentos e expressa pensamentos e ideais que não podem ser facilmente concebidos como tendo emanado de algo que não fosse um extraordinário intelecto. Para muitos, o reconhecimento de que a Deidade esteja por trás dessa coleção de livros é nada menos que o óbvio, mas de nenhuma forma isso diminui o sentimento de que seja a obra de seres humanos e de que deva ser respondida como tal.

Especialistas da crítica bíblica, e os arqueólogos e outros cujo trabalho complementa o daqueles, têm libertado os cristãos e judeus modernos das correntes do dogma fundamentalista, têm acentuado a dignidade da Bíblia enquanto demonstram que ela é uma obra ricamente composta que deve sua inspiração a Deus, e têm mostrado a historicidade de muitos de seus textos em grau inigualável.

Suas teorias podem ser rejeitadas por tradicionalistas, para quem a análise científica e o dogma religioso sejam incompatíveis, mas elas são difíceis de rejeitar sob quaisquer outras alegações. Devemos muito à coragem daqueles cuja busca pela verdade os levou a tomar uma posição contrária à sabedoria recebida de forma não-crítica, e dos frutos de cuja pesquisa somos todos beneficiários.
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