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domingo, 7 de outubro de 2007

LIÇÃO 1 - UMA "RE-VISÃO" DA BÍBLIA

Um grande conflito divide os cristãos protestantes nos dias de hoje. O conflito de como ver e ler a Bíblia são o grande divisor de águas no cristianismo protestante. De um lado estão os cristãos fundamentalistas e muitos evangélicos conservadores. Do outro lado estão os cristãos moderados e liberais, a maioria deles em denominações mais antigas do mundo protestante (com quem a Igreja Católica Romana, em sua visão da Bíblia, tem mais coisas em comum). Os dois grupos possuem duas maneiras muito diferentes de ver três questões fundamentais sobre a Bíblia: questões sobre sua origem, sua autoridade, e sua interpretação.

O primeiro grupo, muitas vezes chamado “cristãos bíblicos”, tipicamente vêem a Bíblia como a infalível Palavra de Deus. Esta convicção se origina na forma como eles vêem a origem da Bíblia: ela vem de Deus. Como um produto divino, ela é a verdade de Deus, e sua origem divina é a base de sua autoridade. Para estes cristãos, a Bíblia deve ser interpretada literalmente, a não ser que a linguagem de uma dada passagem seja claramente metafórica. De seu ponto de vista, permitir interpretações não-literais abre a porta para burlar a autoridade da Bíblia e fazer ela dizer o que queremos que ela diga. Eles tipicamente se vêem como pessoas que tomam a Bíblia seriamente, e freqüentemente criticam os cristãos moderados e liberais por diminuírem e evitarem a autoridade da mesma. Eles também comumente se vêem como os que afirmam “a religião tradicional” – ou seja, o cristianismo como era antes do período moderno. Na verdade, entretanto, sua abordagem é que é moderna, sendo principalmente o produto de uma teologia protestante dos séculos XIX e XX. Além do mais, em vez de permitir à Bíblia sua voz plena, essa abordagem na verdade confina a Bíblia dentro de uma estreita estrutura teológica.

O segundo grupo de cristãos, a maioria dos quais está nas igrejas históricas, são menos claros sobre a forma como vêem e não vêem a Bíblia. Eles estão fortemente convencidos que muitas partes da Bíblia não podem ser interpretadas literalmente, nem como historicamente factuais nem como expressão da vontade de Deus. Algumas pessoas que chegam a esta conclusão deixam a igreja. Mas muitas continuam na igreja, e estão buscando uma forma de ver a Bíblia que mova além do literalismo bíblico e que seja atrativo e persuasivo. Apesar de estes cristãos saberem com certeza que não podem apoiar o literalismo bíblico, eles estão menos certos de como exatamente vêem a origem e autoridade da Bíblia. Eles freqüentemente estão incertos do que significa dizer que a Bíblia é “a Palavra de Deus” ou “inspirada por Deus”. Apesar de rejeitarem a base da autoridade da Bíblia em sua infalibilidade, eles não estão muito seguros sobre o que “autoridade bíblica” possa significar. Assim, não é uma surpresa que mesmo entre as denominações históricas do cristianismo protestante, haja conflito sobre como ver e ler a Bíblia.

O conflito sobre a Bíblia é mais publicamente visível em discussões sobre três assuntos. Primeiro, em alguns círculos cristãos, “criação versus evolução” se tornou o teste primário de lealdade à Bíblia. O segundo assunto é a homossexualidade: Pode gays e lésbicas praticantes ser membros plenos da igreja? Podem os relacionamentos de gays e lésbicas ser abençoados? Podem gays e lésbicas ser ordenados? Este debate é freqüentemente lançado na forma de aceitação ou rejeição da autoridade bíblica. Um terceiro assunto é o estudo contemporâneo sobre o Jesus histórico. Nos últimos tempos, a busca pelo Jesus histórico tem atraído muita atenção da mídia e o interesse público, especialmente entre os membros das igrejas históricas; mas também tem gerado uma forte reação negativa entre os cristãos fundamentalistas e evangélicos conservadores (do ponto de vista destes, questionar a factualidade histórica dos evangelhos, desafia os fundamentos do cristianismo).

As Raízes do Conflito

Os limites entre cristãos fundamentalistas e evangélicos conservadores é difícil de demarcar. Um fundamentalista já foi definido como sendo “um evangélico que está com raiva de algo” (atribuído a Jerry Falwell por George M. Marsden). Mas alguns evangélicos conservadores não são fundamentalistas e não têm interesse em defender, por exemplo, a factualidade literal do relato da Criação na Bíblia ou a completa exatidão histórica de todas as palavras atribuídas a Jesus. Mas o que eles compartilham é uma compreensão comum da autoridade da Bíblia baseada em sua origem: é verdade porque vem de Deus.

O próprio fundamentalismo – seja ele cristão, judaico, ou muçulmano – é moderno. É uma reação à cultura moderna. O fundamentalismo cristão como um movimento religioso identificável originou-se em princípios do século XX nos Estados Unidos, com suas raízes imediatas na segunda metade do século XIX. Ele enfatizava a infalibilidade e inerrância da Bíblia em todos os seus aspectos, especialmente contra o Darwinismo e o que chamava de “o alto criticismo” (o estudo acadêmico da Bíblia que tinha se desenvolvido principalmente na Alemanha no século XIX).

As raízes da compreensão evangélica da Bíblia são mais antigas, residindo na Reforma Protestante do século XVI. A Reforma substituiu a autoridade da igreja e da tradição da igreja, pela autoridade única da Bíblia. João Calvino e Martinho Lutero, os dois maiores líderes da Reforma, tinham uma forte convicção da autoridade bíblica. Mas foi na segunda e terceira gerações da Reforma que clamores pela verdade infalível da Bíblia foram feitos. “Inspiração plenária” - a noção de que as palavras da Bíblia foram ditadas por Deus, e que estão, assim, livres de erro – foi enfatizada por reformadores de épocas posteriores, como o luterano Johann Quenstedt (1617-88).

A compreensão de que estes desenvolvimentos são relativamente recentes é importante. A descrição explícita da Bíblia como inerrante e infalível por fundamentalistas e alguns evangélicos conservadores não pode ser afirmada como sendo a voz primitiva e tradicional da igreja. Entretanto, o fundamentalismo e a noção da Bíblia com sendo a “verdade de Deus” (e, assim, sem erro) têm suas raízes em uma maneira mais antiga e convencional de ver a Bíblia, amplamente compartilhada pela maior parte dos cristãos por um longo tempo.

Uma Velha Forma de Ver a Bíblia

Pessoas comuns não liam a Bíblia até tempos relativamente recentes. Até cerca de quinhentos anos atrás, a Bíblia podia ser lida apenas pelos pouquíssimos que conheciam latim, grego, ou hebraico, e que tinham acesso a manuscritos, que eram de produção cara e, assim, relativamente raros. Dois desenvolvimentos mudaram isto. Em meados do século XV a impressão foi inventada. Menos de cem anos mais tarde, principalmente em decorrência da Reforma Protestante, a Bíblia foi traduzida das antigas línguas “sacras” para as línguas contemporâneas.

A acessibilidade da Bíblia a qualquer um que possa ler tem sido uma benção confusa. Positivamente, resultou em uma democratização do cristianismo. As riquezas da Bíblia não são mais conhecidas apenas por uma elite educada. Mas também resultou em conseqüências negativas. Tornou possível interpretações individualistas da Bíblia; e isto, junto com o elevado status dado à Bíblia pela Reforma Protestante, levou à fragmentação do cristianismo em uma multidão de denominações e movimentos sectários, cada um baseado em diferentes interpretações da Bíblia.

Além disso, antes da invenção da imprensa, virtualmente ninguém havia visto os livros da Bíblia juntos em um único volume. Ao contrário, a Bíblia era mais comumente vista como uma coleção de manuscritos separados. Na realidade, durante a Antiguidade e as Idades Médias, referia-se à Bíblia freqüentemente usando-se o plural “escrituras” - ou seja, uma coleção de livros. Após a Bíblia começar a ser impressa em um único volume, tornou-se mais fácil pensar nela como se fora um único livro com um único autor (nomeadamente, Deus).

Desde então e até recentemente, a maioria dos cristãos (especialmente protestantes) compartilhavam uma forma de ver e ler a Bíblia. Na realidade, aquela forma era tão difundida que a maioria dos cristãos não se davam conta dela.

Esta forma mais antiga de ver a Bíblia tem sido chamada de “literalismo natural”. Em um estado de literalismo natural, a Bíblia é lida e aceita literalmente, sem esforço. Porque alguém neste estado não tem nenhuma razão para pensar diferentemente, uma leitura literal da Bíblia não representa um problema.

Literalismo natural é muito diferente de “literalismo consciente”, uma forma moderna de literalismo que se tornou consciente dos problemas criados por uma leitura literal da Bíblia, mas que mesmo assim insiste nela. Enquanto o literalismo natural existe sem esforço, o literalismo consciente é trabalhoso. Ele exige “fé”, entendida como a crença em coisas difíceis de acreditar. Mas o literalismo natural não insiste na interpretação literal. Ao contrário, ele o toma por certo, e não requer “fé” para tal.

Fundamentalistas e muitos evangélicos são literalistas conscientes. Mas sua forma de ver a Bíblia está em considerável continuidade com o literalismo natural de séculos passados. Ver a Bíblia através das lentes do literalismo natural leva os leitores às seguintes conclusões sobre a origem, autoridade, e interpretação da Bíblia – conclusões que são similares àquelas do literalismo consciente:

1) ORIGEM. A Bíblia é um produto divino. Tal é o significado natural ou imediato de como os cristãos têm falado da Bíblia através dos séculos. A Bíblia é a Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo; é escritura sagrada. A Bíblia, assim, não é um produto humano, mas vem de Deus, diferentemente de qualquer outro livro.

2) AUTORIDADE. A Bíblia é, assim, verdadeira e possui autoridade. A verdade e autoridade da Bíblia baseiam-se em sua origem. Como um produto divino, possui a garantia divina de ser verdadeira e deve ser tomada seriamente como a autoridade final sobre o que crer e como viver.

3) INTERPRETAÇÃO. A Bíblia é historicamente e factualmente verdadeira. Em um estado de literalismo natural, toma-se por certo que o que a Bíblia diz que aconteceu realmente aconteceu. As únicas exceções são manifestamente a linguagem metafórica (por exemplo, “montanhas batendo suas mãos de alegria”). Literalistas naturais podem reconhecer e apreciar metáforas. Mas quando a Bíblia parece estar contando algo que realmente aconteceu, então aquilo realmente aconteceu. Além disso, crer na factualidade da Bíblia não exige esforço; em um estado de literalismo natural, não há razão para crer diferentemente.

Apesar de, talvez, a maioria dos leitores deste texto não virem a Bíblia desta forma, a perspectiva, no entanto, é familiar. Sua familiaridade emana, em parte, da posição convencional que manteve até recentemente no cristianismo. Na realidade, essa é uma visão ainda bem viva nas expressões cristãs do Brasil.

Esta velha forma de ver a Bíblia anda de mãos dadas com uma velha forma de ver o cristianismo. A razão para a conexão é óbvia: a Bíblia tem sido fundamental para o cristianismo através dos séculos. A visão de alguém da Bíblia e sua visão do cristianismo andam de mãos dadas.

Uma Velha Forma de Ver o Cristianismo

Esta velha compreensão do cristianismo era o cristianismo convencional até tão recentemente quanto um século atrás. Ainda é a compreensão comum entre fundamentalistas e muitos cristãos conservadores. Eu a descreverei com seis adjetivos, explicando cada um brevemente.

Primeiro, como já mencionado, esta velha forma de ver o cristianismo era literalista.

Segundo, era dogmática. Ser um cristão significava crer nos ensinos doutrinários cristãos. Em igrejas que usavam ou o Credo Apostólico ou o Credo Niceno regularmente, você seria um cristão verdadeiro se pudesse dizer o credo sem cruzar os dedos ou ficar calado durante qualquer das frases.

Terceiro, era muito moralista. Com isto quero dizer duas coisas. Primeiro, ser cristão significava tentar ser bom, e ser bom significava tentar viver de acordo com os ensinos éticos da Bíblia, entendidos como a “lei de Deus”. O segundo aspecto do moralismo visto nesta velha forma de se encarar o cristianismo emergiu do fato de que não somos bem sucedidos em sermos bons. Esta velha forma de ser cristão era centrado na dinâmica do pecado, culpa, e perdão.

Quarto, esta velha forma de ver o cristianismo era patriarcal. Não apenas usava uma linguagem predominantemente masculina para Deus e para as pessoas, mas também legitimava hierarquias dominadas por homens na igreja, na sociedade, e na família.

Quinto, era exclusivista. Em uma forma radical, o exclusivismo cristão é a insistência de que Jesus seja o único caminho à salvação, e que o cristianismo seja a única religião verdadeira. Há também uma forma menos radical abraçada por cristãos que se sentem desconfortáveis com o exclusivismo radical, mas que temem em abandonar a crença tradicional do exclusivismo cristão para não parecerem não-cristãos.

Sexto e finalmente, esta velha forma de ver o cristianismo era preocupada com a vida após a morte. No cristianismo que muitos de nós aprendemos na infância, o significado primário de salvação era “ir para o céu”. O “céu” era a própria razão de ser cristão. Expressando esta mesma noção de forma diferente: “Creia no cristianismo hoje para ir para o Céu mais tarde”. E a ênfase sempre esteve no “crer” - crer que tudo isso seja verdade.

Mas esta maneira de ver a Bíblia e o cristianismo se desfez para a maioria das pessoas na cultura ocidental. O literalismo natural de nossos ancestrais, de muitas maneiras, desapareceu. O literalismo consciente, é claro, permanece. Mas para muitos de nós, não é uma opção.

É importante notar que esta velha visão é percebida como o cristianismo tradicional tanto por cristãos quanto por não-cristãos, e tanto por conservadores (que a defendem) quanto por liberais (que a rejeitam). Mas esta velha maneira de ver a Bíblia e o cristianismo não é a “tradição cristã”. Ao contrário, é uma forma historicamente condicionada de ver a tradição (incluindo a Bíblia) que tem sido formatada pelas circunstâncias dos últimos séculos. Sendo assim, a questão não é de manter-se ou abandonar-se a tradição cristã, mas uma transição de uma forma de ver para outra. A questão concerne às lentes através das quais vemos e lemos a Bíblia e a tradição cristã como um todo.

NOSSO CONTEXTO CULTURAL

Por que esta velha forma de ver e ler a Bíblia deixou de ser persuasivo? Por que as velhas lentes não mais funcionam? A razão básica: quem nós nos tornamos. Quando digo “nós”, quero dizer a maioria de nós na moderna cultura ocidental no início deste século XXI. Descreverei quem nos tornamos com quatro afirmações. Apesar de não representarem uma descrição muito ampla de quem nós somos, estas afirmações nomeiam quatro fatores que afetam a forma como vemos a Bíblia, o cristianismo, e a religião de forma mais ampla.

Pluralismo Religioso

Estamos conscientes do pluralismo religioso. Estamos cientes das religiões do mundo de formas que a maioria das pessoas não foram durante a maior parte da história humana, tão recentemente quanto um século atrás. Sabemos sobre outras religiões de diferentes maneiras; é simplesmente parte de nossa crescente consciência global.

Assim, muitos de nós vemos as afirmações exclusivistas da tradição cristã como impossíveis de aceitar. Isto ocorre por razões de bom senso e por razões teológicas. Faz algum sentido dizer que o criador de todo o universo tenha escolhido ser conhecido em apenas uma tradição religiosa, que por sorte é a nossa?

Há, ainda, uma razão especificamente cristã para se rejeitar o exclusivismo cristão: a clássica ênfase cristã na “graça”. Se alguém tem de ser cristão para ter um relacionamento correto com Deus, então há um requerimento, e não estaríamos mais falando em “graça”, mesmo que estivéssemos usando a linguagem da “graça”. Se nosso relacionamento com Deus é baseado na graça, então não é baseado em requerimentos, nem mesmo o requerimento de ser cristão.

Relativismo Histórico e Cultural

Estamos cientes do relativismo histórico e cultural. Nós sabemos a respeito dos condicionamentos históricos e culturais. Estamos cientes que nossos pensamentos são universalmente moldados pelo tempo e lugar nos quais vivemos, além de nossas classes sociais e econômicas.

Isto se aplica não apenas às pessoas de outros tempos e outros lugares, mas se aplica a nós também. Nossos conceitos, imagens, linguagens, conhecimentos, crenças – até mesmo nossos processos de pensamento – são todos profundamente moldados pela cultura. Eles são todos condicionados por e relativos ao tempo e lugar no qual se originam.

Modernidade

Somos pessoas modernas. Com isso quero dizer que vivemos naquele período da história cultural ocidental conhecido como “modernidade”. A modernidade é o pensamento cultural que começou com o Iluminismo do século XVII e continua até hoje. A modernidade é um fenômeno complexo, com conquistas impressionantes e também com importantes limitações. Para os nossos propósitos, mencionarei dois de seus traços centrais, que estão interligados.

Primeiro, a modernidade é caracterizada pelo conhecimento científico. Na realidade, o surgimento da ciência moderna representou o surgimento da modernidade. Com a ciência moderna surgiu uma nova epistemologia (a teoria filosófica do conhecimento; de como nós sabemos): diferentemente de pessoas de eras mais antigas, sabemos que alguma é verdade hoje através de experimentação e verificação.

Segundo, a modernidade é marcada pelo que às vezes é chamado de “a moderna visão de mundo” ou a “a visão de mundo newtoniana”. Uma “visão de mundo” é uma imagem da realidade – uma compreensão do que seja real e do que seja possível. A moderna visão de mundo é baseada em modos científicos de saber: o que é real é aquilo que pode ser conhecido através dos métodos da ciência. A epistemologia (como nós sabemos) se tornou ontologia (o que é real).

A moderna visão de mundo produz uma compreensão material da realidade. O que é real é o mundo do espaço-tempo da matéria e da energia. A realidade é formada por pequenos pedaços de “coisas”, todos eles interagindo com os outros de acordo com “leis naturais”. O resultado é uma imagem do universo como um sistema fechado de causa e efeito. Apesar de esta visão de mundo já ter sido superada pela física teórica, ela continua a operar em nossas mentes.

A modernidade produziu muitas coisas valiosas. Suas conquistas mais óbvias estão nas ciências, tecnologia, e medicina. Mas suas conquistas se estendem além desses territórios e avançam sobre sistemas de governo, direitos humanos, o estudo do passado, a consciência empática sobre outras culturas, e muito mais. Eu aprecio muito a modernidade, mesmo sendo forçado a mencionar, a partir de agora, dois de seus efeitos destrutivos sobre a religião em geral, e sobre o cristianismo e a Bíblia em particular.

O primeiro desses efeitos: a modernidade nos tornou céticos sobre a realidade espiritual. A compreensão material de realidade da modernidade tornou a realidade de Deus problemática para muitos de nós. Não é acidental que a teologia da “morte de Deus” tenha emergido no período moderno. É o resultado lógico de se tornar absoluta a visão de mundo moderna.

Segundo, a modernidade nos tornou preocupados com factualidade – com fatos cientificamente verificáveis e historicamente confiáveis. Na realidade, a cultura moderna ocidental é a única cultura na história humana que tem identificado verdade com factualidade. Nós somos “fundamentalistas do fato”: se uma declaração não for cientificamente ou historicamente fatual, não é verdadeira.

Na igreja, tanto fundamentalistas bíblicos quanto cristãos liberais são freqüentemente fundamentalistas do fato. Para os primeiros, a Bíblia deve ser factualmente verdadeira para que seja verdadeira (assim, eles enfatizam a factualidade literal e histórica dos textos bíblicos). Os liberais têm tido a tendência a seguir uma estratégia diferente, tentando resgatar alguns fatos do fogo. Mas fundamentalistas e liberais concordam: fatos são o que importa.

A preocupação moderna com factualidade tem tido um efeito penetrante e pervertedor na maneira como vemos a Bíblia e o cristianismo. Durante a maior parte dos séculos XIX e XX, muitos cristãos e grande parte da teologia cristã se prenderam a duas escolhas estéreis de literalismo e reducionismo. O primeiro tentava defender a exatidão factual e imparidade da Bíblia e do cristianismo. O segundo tendia a reduzir a Bíblia e o cristianismo ao que fazia sentido na visão de mundo moderna. Ambos são posições completamente modernas.

Um resultado adicional: o cristianismo no período moderno se tornou preocupado com a dinâmica do crer ou do não-crer. Para muitas pessoas, crer que certas afirmações sejam verdadeiras tornou-se o significado central da fé cristã. É uma noção curiosa – como se o que Deus mais quisesse de nós fosse a crença de que afirmações muito problemáticas sejam factualmente verdadeiras; e se alguém não pode acreditar nelas, então não tem fé e não é cristão.

O caráter completamente moderno desta noção de fé pode ser visto ao se comparar ao que fé significava nas Idades Médias cristãs. Durante aqueles séculos, basicamente todos na cultura cristã pensavam ser a Bíblia verdadeira. Eles não tinham nenhuma razão para pensarem diferentemente; as estórias da Bíblia da criação até o fim do mundo eram parte da sabedoria convencional do tempo. Aceitá-las não exigia “fé”. Fé tinha a ver com o relacionamento de alguém com Deus, não com se alguém pensava ser a Bíblia verdadeira.

Pós-modernidade

Vivemos na fronteira da pós-modernidade. Não somos apenas pessoas modernas; estamos vivendo na fronteira de um novo período da história cultural. As características centrais e definidoras deste novo período ainda não se tornaram claras, então ainda não sabemos como chamá-lo. Então simplesmente o chamamos de pós-modernidade: é o que vem a seguir.

Como a modernidade, a pós-modernidade é um fenômeno grande e complexo. Sendo assim, não tentarei descrever amplamente ou definir a pós-modernidade, mas simplesmente enfatizarei três características de importância fundamental para nossos propósitos.

Primeiro, a pós-modernidade é caracterizada pela percepção de que a modernidade é uma construção histórica culturalmente condicionada e relativa. A visão de mundo moderna não é a palavra final sobre a realidade, da mesma forma que as prévias visões de mundo não o foram. A pós-modernidade sabe que um dia a visão de mundo newtoniana será tão estranha e arcaica quanto a visão ptoloméica o é para os modernistas, algo que já acontece entre os teóricos físicos.

Segundo, a pós-modernidade é caracterizada por uma virada em direção à experiência. Em um tempo no qual os ensinamentos religiosos tradicionais tornaram-se suspeitos, tendemos a confiar naquilo que conhecemos por meio de nossa própria experiência. Esta busca pela experiência é vista no notável ressurgimento de interesse pela espiritualidade nas igrejas históricas. A espiritualidade é a dimensão experimental (empírica) da religião.

Terceiro, a pós-modernidade é caracterizada por um movimento além do fundamentalismo do fato para uma percepção de que estórias podem ser verdadeiras sem serem literalmente e factualmente verdadeiras. Isto é refletido em muito da ênfase da teologia contemporânea em teologia metafórica. Um ponto óbvio que tem freqüentemente sido esquecido durante o período da modernidade: metáforas e narrativas metafóricas podem ser profundamente verdadeiras mesmo que não sejam literalmente ou factualmente verdadeiras. Esta percepção é central para a forma que estarei sugerindo em nosso curso de vermos e lermos a Bíblia.

Dado quem nos tornamos, uma das necessidades imperativas de nosso tempo é a re-visão da Bíblia e do cristianismo. Eu deliberadamente hifenizo a palavra “re-visão” para distinguir o que quero dizer do significado comum de “revisão” (sem um hífen). Geralmente usamos a palavra “revisão” para descrever a melhoria de algo que foi mal feito – por exemplo, um manuscrito ou uma dissertação. Mas isso não é o que quero dizer.

Ao contrário, “re-visar” significa “ver novamente”. A ênfase em “ver novamente” também nos lembra que a velha forma de cristianismo não é o “cristianismo tradicional”, mas foi uma velha maneira de ver a Bíblia e a tradição cristã. O que é necessário em nosso tempo é uma forma de ler a Bíblia que leve a sério as formas importantes e legítimas nas quais diferimos de nossos antepassados.

A forma de ver e ler a Bíblia que eu descrevo no resto deste curso leva a uma maneira de ser cristão que tem pouco a ver com crença. Ao contrário, o que emergirá será uma compreensão relacional e sacramental da vida cristã. Ser cristão, argumentarei, não tem nada a ver com crer na Bíblia ou crer no cristianismo. Tem a ver com um relacionamento aprofundante com o Deus ao qual a Bíblia nos aponta, vivido dentro da tradição cristã como um sacramento do sagrado.
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