.

.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fé e Ciência - realmente diferentes?

Numa discussão amigável com colegas na noite passada, mais uma vez deparei-me com a recorrente questão das distinções entre “religião” e “ciência”. Para os dois colegas com quem conversava – pessoas muito instruídas e de vasta cultura, devo enfatizar –, a distinção mais marcante entre as duas (religião e ciência) é que enquanto a religião opera por meio da fé, a ciência o faz por meio da razão; sendo, então, a diferença de métodos sua principal distinção. Simples assim! Nem um pouco diferente do que tenho ouvido da maioria das pessoas durante a maior parte de minha vida; em minha visão, uma explicação deveras simplista, equivocada, e discriminatória.

Aqueles meus dois amigos, um químico e uma bióloga, não se dão conta do quão falsa é sua ideia. Pensemos um pouco: a teologia cristã tradicional – que era o objeto de nossa discussão –, não opera apenas por meio de fé (com “fé” aqui tendo um sentido um tanto distinto do que habitualmente lhe atribuo, sendo, para eles, apenas um sinônimo de “assensus” → o que eles chamaram de “fé”, chamo de “teologia”), já que depende plenamente de argumentação, dedução e razão lógicas; um exemplo disso pode ser encontrado nas obras dos teólogos medievais, que eram obras-primas de análise lógica e argumentação racional.

Em nossa discussão ontem, nos centramos apenas no Cristianismo – já que foi algo que minha amiga ouvira que serviu para iniciar a conversa –, mas as maiores tradições religiosas do mundo, especialmente as que chamo de tradições jordânicas (Judaísmo, Cristianismo, e Islã, em suas mais variadas formas), são tradições intelectuais que envolvem a transmissão dum conhecimento específico e a crítica racional do mesmo (=Teologia → desta vez com “T” maiúsculo!).

Para facilitar, deixem-me explicar isso doutra maneira: TRADIÇÃO aqui refere-se à transmissão dum conhecimento (seja ele prático ou teórico) duma geração à outra; nesse sentido, tanto a ciência quanto a religião são tradições. As duas – ciência e religião – são tradições intelectuais, já que o que transmitem é uma forma de conhecimento que requer uma crítica racional. Enquanto a ciência busca a descoberta de novos conhecimentos, a religião busca a compreensão e consequente fidelidade a (e, dependendo do caso, a proclamação de) uma mensagem ou revelação já recebida.

Voltando ao exemplo dos teólogos medievais, poder-se-ia dizer que sua argumentação, apesar de racional, baseava-se ou estava limitada por certos aspectos da “fé” (assensus) religiosa. Entretanto, se pensarmos bem, veremos que a argumentação dita “científica” não se diferencia tanto assim daquela usada pela Teologia (mais uma vez, com “T” maiúsculo!). A ciência, como a conhecemos, incorpora um grande número de “afirmações de fé” simplesmente para que continue a funcionar. Enquanto a ciência supostamente emerge da evidência empírica, que é uma das características que a definem, ela também lança mão de muitas suposições implícitas: por exemplo, muitos cientistas naturais abraçam a “fé” de que estão estudando algo real, de que o mundo físico que estudam realmente existe, de que tem uma existência independente fora deles mesmos; outra suposição é a de que o mundo seja uniforme, que siga uma “lei” regular; uma outra, ainda, é a de que se pode confiar em nossos sentidos – ou seja, de que podemos confiar que estamos recebendo informações confiáveis, seja por meio de contato direto com o objeto estudado ou por meio de informações recolhidas por instrumentos, e que podemos confiar em nossa capacidade de interpretar essas informações corretamente. Todas essas são suposições que não podem ser comprovadas como verdades factuais; entretanto, sem elas, a ciência seria impossível. Elas possuem a mesma natureza da “fé” como compreendida por meus dois amigos: assensus.

O reconhecimento dessas suposições implícitas não diminui a importância ou sentido que atribuo à ciência, apenas demonstra que a base para nossas afirmações de conhecimento acerca de nossa realidade se encontra fora do domínio da razão. Isso, entretanto, não implica que seja irracional. Apenas demonstra que o exercício da razão humana tem seus limites, e que é moldado por suposições/crenças (“fé”, na linguagem de meus dois amigos) sobre as quais construímos nossas próprias representações do mundo.

+Gibson

sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal!

Esta é aquela data especial do calendário cristão. Nossas mentes se voltam para o início da narrativa cristã, o início da vida de nosso Mestre, o rabino galileu, Jesus de Nazaré. Talvez compreendamos o significado desta data de diferentes maneiras, mas a verdade é que ela simboliza algo de extrema importância para todos os cristãos: o Divino adentra nossa realidade recorrentemente. Na Encarnação, o Divino adentrou este mundo através de Jesus; no dia a dia, o Divino invade a realidade objetiva por meio de nossa ação no mundo, já que quando amamos, manifestamos a realidade de Deus no mundo.


Minha oração é que todos nós possamos ser esse meio para a contínua manifestação do Divino na vida de outros seres humanos, independentemente de qualquer coisa. Que a metáfora natalina possa contagiar nossas vidas diárias durante todos os outros dias do ano. Feliz Natal para todos! Bençãos!

+Gibson

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Minha duplicidade identitária e o espírito do Advento

Esta é a época do ano na qual mais tenho de lidar com as dificuldades em minha multiplicidade de identidades religiosas. Vivo num terreno nem sempre muito confortável de contínuas escolhas que, para outras pessoas – alheias a meu universo cultural –, podem parecer problemáticas. Como explicar a essas pessoas que sou um judeu e um cristão ao mesmo tempo? Adentremos a confusão!

Em primeiro lugar, devo enfatizar que não sou nem um judeu nem um cristão tradicionais. Também não sou um “messiânico”. Não sou um judeu que acredita que Jesus de Nazaré seja o Maschiah – o Messias de Israel. Também não sou um cristão judaizante! E, obviamente, não sou um trinitarista – ou seja, não acredito que o homem Jesus de Nazaré (se, de fato, foi um personagem histórico – o que acredito positivamente) fosse divino, no sentido de ser “um” em essência com Deus. Também não sou um teísta sobrenaturalista – não acredito num Deus pessoal que reja o Universo de algum ponto da realidade.

Sou um judeu étnico, herdeiro da tradição Reconstrucionista, e que, como tal, enxerga o Judaísmo como uma civilização religiosa da qual sou parte – e da qual, até certo ponto, escolho ser parte. Essa civilização é, metaforicamente, meu “direito de nascença” e escolho abraçá-la de forma que faça sentido para mim. Logo, vejo o Judaísmo, primariamente, como a (principal?) janela intelectual através da qual vejo o mundo e dou sentido à minha existência.

Ao mesmo tempo, também me considero um cristão, e pelas mesmas razões. Como filho duma família multireligiosa, vejo a tradição cristã que herdei – a tradição Unitarista Anglicana – como a janela religiosa através da qual enxergo representações do divino, filtradas por minha janela intelectual. É um casamento perfeito para mim.

Essa duplicidade cultural – que a maioria dos judeus veriam como assimilação, e a maioria dos cristãos como heresia – é parte de quem sou, e é algo do qual não me envergonho. Essa é, até certo ponto, a experiência de muitos outros judeus e unitaristas no mundo ocidental. Diferentes famílias se juntam, trazendo para a nova que se forma duas diferentes tradições religiosas, e o que resulta disso?... Bem, em minha experiência, uma fidelidade àquilo que é comum a ambas tradições, e uma rejeição daquilo que as separa. Como o Reconstrucionismo (o meu lado judaico) e o Unitarismo (o meu lado cristão) têm tantos pontos comuns, essa ponte não é tão complicada assim de ser construída.

A aparente confusão que se configura – especialmente para os brasileiros, que não estão acostumados a esse tipo de duplicidade identitária, tão comum na América do Norte – torna-se ainda mais escandalosa quando ouso dizer que gosto de pensar em mim mesmo como religiosamente cristão, cultural e intelectualmente judeu, eticamente humanista, e politicamente secularista, além de simpático às espiritualidades budista e muçulmana. Nada mais unitarista que isso!

E agora, ao adentrarmos o Advento, uma dificuldade caracteristicamente minha se apresenta. O que faz um ministro unitarista, que se apoia sobre um território de dupla fidelidade cultural-religiosa, para proclamar o espírito do Advento? Minha resposta: proclama aquilo que, oxalá, caracteriza a todos nós... a humanidade. O espírito que o Advento traz à minha espiritualidade é a de reafirmar a condição de humanos de todos nós – mesmo que para isso, faça uso duma linguagem metafórica acerca da “encarnação” do divino em um homem de Nazaré há dois milênios atrás. Todos nós somos seres humanos – seja lá o que isso queira dizer – e partilhamos o mesmo mundo, devendo, assim, encontrarmos formas de vivermos juntos neste mundo, em paz. Deus – essa metáfora criada por nós para nos referirmos àquilo que não podemos compreender plenamente acerca de nós mesmos e dos mistérios do cosmo – torna-se durante esta época do calendário cristão o canal através do qual damos nome à nossa esperança de convívio pacífico entre nós. Para mim, o nome mais apropriado deveria ser “humanidade”!

Rev. Gibson da Costa

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Música Pop é uma Inutilidade?!

Muitos podem pensar que seja inútil refletir acerca da música pop – uso o termo mais no sentido de música comercial do que num estilo específico –, e, assim, podem pensar que o tempo que tenho gasto escrevendo e discutindo o papel da música como instrumento de busca espiritual seja extravagância. Entretanto, como teólogo, tenho aprendido que refletir sobre o mundo que nos cerca é algo que pavimenta o caminho para descobrirmos um pouco mais acerca de nós mesmos e de nossas crenças e práticas religiosas/espirituais, e nada mais ostensivamente parte de nosso mundo do que a música que embala nossas imaginações e corpos e dá forma às ideias que habitam nossas mentes.

Alguns podem pensar que não podemos falar em música pop sem nos referirmos aos interesses comerciais que manipulam a criatividade mecânica de alguns artistas e empresas apenas interessados em lucros. Esses esperam que quando falo sobre música, utilize termos como “capitalismo”, “burgueses”, “manipulação”, “alienação” etc. Para esses, os consumidores da cultura pop – música, cinema, literatura etc – são, na verdade, seres alienados que injetam-se com a droga do mercado. Pode ser que parte disso seja verdade – mas, para mim, os seres humanos são mais racionais que isso. O que consumimos musicalmente tem uma grande relação com nossas necessidades e anseios mais profundos – necessidades e anseios esses que considero “espirituais” (não num sentido usual do termo). “Espirituais” porque se relacionam com uma dimensão mais profunda de nossa personalidade; porque interligam nossa visão do mundo objetivo aos sentimentos mais profundos que moldam nossa existência enquanto humanos.

Não acredito que seja o único a viajar no tempo enquanto ouço uma canção. Ouvimos uma canção especial e ela parece nos levar a uma outra dimensão da realidade – talvez um sentimento semelhante ao que certas pessoas têm ao utilizarem alguma droga, não sei. Às vezes, as letras parecem um conjunto de palavras vazias e sem sentido, mas, na verdade, elas podem revelar muito mais sobre quem somos hoje, ou sobre quem fomos ontem, e sobre as esperanças que temos para o futuro enquanto sociedade. Por essa razão, não sou tão rápido em descartar a cultura pop – a música em particular – tão rapidamente. Meu estudo pessoal da música pop num contexto mais amplo – fazendo uso de História, Psicologia, Antropologia, Linguística, Literatura e Teologia – tem me ensinado muito sobre nós, e não estou disposto a parar só porque alguns não levam isso à sério!

+Gibson

Os artigos de fé do século XXI - Julian Baggini


Julian Baggini, um filósofo britânico, autor de muitos livros sobre filosofia para o público geral, e que escreve para o The Guardian, publicou um artigo no último dia 21 de novembro no qual articula quatro artigos de fé apropriados para o século XXI – artigos que, devo enfatizar, são muito compatíveis como nossa tradição religiosa liberal (em suas mais variadas formas, não apenas o unitarismo)!

Abaixo eis a tradução apenas de seus artigos de fé – e não de todo o artigo do jornal, que se encontra aqui: http://www.guardian.co.uk/commentisfree/belief/2011/nov/21/articles-of-21st-century-faith?INTCMP=SRCH


“Preâmbulo: Reconhecemos que a religião se apresenta em muitas formas e que, portanto, qualquer tentativa de definir o que a religião “realmente” é seria uma estipulação, e não uma descrição. Todavia, temos uma opinião sobre o que a religião deveria ser, em sua melhor forma, e estes quatro artigos descrevem aspectos que uma religião apropriada para o mundo contemporâneo precisa ter. Esses aspectos não devem ser encarados como completos e eles também não capturam necessariamente o que é mais importante para um dado indivíduo. São, na verdade, um conjunto mínimo de aspectos sobre os quais podemos concordar, independentemente de nossas diferenças, e cremos que outros podem com eles concordar também.

  1. Ser religioso é, basicamente, concordar com um conjunto de valores, e/ou praticar uma forma de vida, e/ou pertencer a uma comunidade que compartilha desses valores e/ou práticas. Quaisquer credos ou alegações factuais associados a essas coisas, especialmente aquelas sobre a natureza e origem do universo natural, são, no máximo, secundárias e frequentemente irrelevantes.
  2. A crença religiosa não exige, e não deveria exigir, a crença de que quaisquer eventos sobrenaturais tenham acontecido aqui na Terra, incluindo milagres que dobrem ou quebrem as leis naturais, a ressurreição dos mortos, ou visitas de deuses ou mensageiros angélicos.
  3. Religiões não são cripto- ou proto-ciências. Elas não deveriam fazer nenhum alegação sobre a natureza física, a origem ou estrutura do universo natural. Aquilo que a ciência pode estudar e explicar empiricamente deve ser deixado para a ciência, e se uma religião faz uma alegação que seja incompatível com nossa melhor ciência, a explicação científica, e não a religiosa, deve prevalecer.
  4. Textos religiosos são a criação do intelecto e imaginação humanos. Nenhum deles deve ser tomado como se expressasse os pensamentos de uma mente divina ou sobrenatural que exista independentemente da humanidade.”


Julian Baggini

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Espiritismo e Reencarnação - uma resposta à Sarah

Sarah,

ofereço aqui, em separado, uma resposta às perguntas que você fez em: http://cristianismoprogressista.blogspot.com/2011/10/deus-e-o-sofrimento-humano.html - Aqui responderei suas questões acerca do Espiritismo apenas. Esclareço que quando falo em “espiritismo” aqui, refiro-me à tradição chamada de “kardecista”.

Não gosto de tratar sobre questões como “reencarnação” ou “espiritismo” aqui, já que não as considero como temas tradicionalmente cristãos. A noção de reencarnação, e as ideias a ela atreladas, tais como ensinadas pelo Espiritismo (kardecista, isto é) não é ensinado pela maioria das diferentes tradições teológicas cristãs ocidentais ou orientais, não estão explicitamente expressas na Bíblia (para aqueles que precisam duma confirmação bíblica para construir sua teologia pessoal – o que me parece razoável em se tratando de tradição cristã), e não fazem parte das discussões teológicas cristãs protestantes. (Por que cito tradições teológicas protestantes? Pelo simples fato de eu ser um protestante – mesmo que liberal – e, logicamente, preocupar-me com temas que circulam em minha própria tradição.)

Devo deixar bem claro que, como um unitarista – um cristão protestante liberal – não julgo aqui a natureza da identidade religiosa da tradição espírita, ou seja, se os espíritas consideram-se como cristãos, eles são cristãos para mim. Não poderia negar que também sejam discípulos de Jesus, apesar de compreenderem-no duma maneira diferente da maioria dos outros cristãos – exatamente como ocorre comigo como um unitarista, que também compreendo Jesus duma maneira diferente daquela compreensão da maioria dos outros cristãos. O que direi aqui refere-se à minha própria compreensão do tema, e não a uma visão de como outros unitaristas pensam. Minha visão, devo enfatizar, é a percepção duma pessoa de fora, que não partilha das mesmas ideias defendidas pelos espíritas no que tange à “espiritualidade” (a relação de “espíritos” com este mundo, reencarnação etc). E mesmo minha compreensão das doutrinas espíritas são limitadas, já que não são uma área de interesse para mim, em minhas discussões teológicas etc. O que conheço sobre essa tradição é ou através de minhas leituras, ou através dos exemplos dados pelos espíritas que conheço – que, na maioria das vezes exibem um espírito cristão exemplar.

Para responder à sua pergunta, cito um trecho do Livro dos Espíritos, de Allan Kardec:

“Deus sabe esperar: não apressa a expiação. Entretanto, Deus pode impor uma existência a um Espírito, quando este, por sua inferioridade ou sua má vontade, não está apto a compreender o que poderia ser-lhe mais salutar e quando vê que essa existência pode servir à sua purificação e adiantamento, ao mesmo tempo que encontra nela uma expiação.”
[…]
“Ele [o espírito] escolhe as [provas] que podem ser para ele uma expiação, segundo a natureza de suas faltas, e o faça avançar mais rapidamente. Alguns se impõem uma vida de misérias e privações para tentar suportá-la com coragem. Outros querem se experimentar nas tentações da fortuna e do poder, bem mais perigosas pelo abuso e mau uso que delas se pode fazer, e pelas más paixões que desenvolvem. Outros, enfim, querem experimentar-se pelas lutas que devem sustentar ao contato do vício.” (KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Salvador Gentile. Araras, SP: Instituto de Difusão Espírita, 2002. p. 147.)

Independentemente de as condições da reencarnação se darem por escolha do “espírito” em questão ou por escolha divina, há um sério problema teológico para mim com esta noção. O problema aqui não é a noção de “reencarnação” per se, mas a noção de “expiação”. Pode parecer muito sofisticado, muito justo, eliminar a noção duma expiação efetuada por um Salvador – como aquela na qual creem a maioria dos cristãos protestantes, católicos e ortodoxos, na qual Jesus, o inocente, paga (i.e., expia) pelos pecados dos culpados – em favor de uma, que se constitui num processo, efetuada pelo próprio culpado. Entretanto, eu, não julgo a noção de expiação como necessária, nem muito menos coerente com minha visão de Deus, de justiça, de amor, de eternidade, de vida etc. A noção – ou melhor, o dogma espírita – de reencarnação baseia-se numa série de premissas extremamente problemáticas para mim; para aceitar tal visão, eu teria de aceitar a noção espírita de Deus, de espírito, de verdade, de justiça, de eternidade etc, que contradizem as minhas próprias crenças pessoais sobre esses temas. É, na verdade, uma visão de universo irreconciliável com a minha própria. Em se tratando deste tema, o espiritismo é muito dogmático, já que acorrenta-se a uma noção sem a qual todo o seu edifício teológico desaba.

Nesse sentido, mantenho o que disse anteriormente sobre o dogma da “reencarnação”, no texto no qual essa nossa conversa se iniciou. A ideia pode servir de conforto para muitas pessoas – e eu respeito isso profundamente –, penso que se ela tem o poder de fazê-lo, cumpre uma função e, por isso mesmo, continuará a existir. Entretanto, para mim, ela é ainda mais problemática do que o dogma da expiação de Cristo, pois em si mesma carrega uma noção de justiça e de Deus que eu não aceitaria intelectual nem religiosamente. Mas, novamente, se essa é uma ideia que faz sentido para outras pessoas, os respeito por isso, mesmo que discorde deles.

Espero poder ter respondido parte de suas dúvidas. Separadamente, depois responderei suas outras questões.

Grande abraço! Paz!

+Gibson

domingo, 23 de outubro de 2011

Deus e o sofrimento humano

Sempre fico muito aborrecido quando ouço pessoas – pessoas que creio estarem sinceramente muito bem intencionadas – insinuarem ou dizerem a outras que há um propósito para o sofrimento pelo qual passam, que Deus faz uso da dor para ensinar-nos alguma lição cósmica.

Para algumas dessas pessoas, tudo na vida acontece por uma razão espiritual. Para elas, Deus utiliza a dor e o sofrimento para tornar-nos pessoas melhores e mais elevadas espiritualmente. Elas acreditam que Deus faz uso das guerras, da violência, da tortura, da fome, dos desastres naturais para trazer-nos de volta aos “seus caminhos”.

Minha resposta, obviamente, tem sempre sido a de que não posso acreditar num Deus que utilize violência, tortura, e assassinato de seres humanos para ensinar-nos qualquer lição que seja. Não posso aceitar um plano divino que inclua estupro, homicídio, e tragédias, por exemplo. Essas pessoas me dizem que todos nós aprendemos com essas experiências e, logo, não podemos negar que tenham um sentido. Minha resposta a isso é que algumas pessoas realmente conseguem extrair algum aprendizado de situações trágicas como essas, mas outras (talvez a maioria) são destruídas e definham por dentro, nunca se recuperando.

Enquanto posso aceitar que crescemos e aprendemos com o sofrimento e com a dor, não posso aceitar uma religião que ensine que essa é a razão pela qual sofremos na vida. O grande problema com esse pensamento é que se tudo que ocorre tem uma razão de ser, então não há nada bom nem mau, e tudo é moralmente neutro. Não posso aceitar que a violência cometida contra uma pessoa ou contra um povo seja útil nem, especialmente, que seja o plano de um Deus inteligente e benevolente.

A coisa mais patética a respeito dessa forma de pensar é que ela culpa a vítima pelo que lhe ocorreu. A vítima da tragédia é culpada porque se ela tivesse sido mais inteligente, teria aprendido a vontade divina antes, e não precisaria passar por aquilo!

Às vezes, alguns aparecem com uma visão que parece ser mais sofisticada, dizendo que a razão para passarmos por sofrimento aqui é porque devemos ter feito algo errado numa vida passada. Esse pensamento os ajuda a manterem a ideia de que o mundo é justo e perfeito. Eu, entretanto, não acredito que o mundo seja justo nem perfeito. Desastres naturais acontecem. Pessoas boas adoecem e morrem.

Desastres naturais acontecem, por exemplo, porque é desta forma que o universo físico está estruturado, e não porque as pessoas que morreram nesses desastres mereciam morrer dessa forma, ou porque as pessoas que ficaram precisavam aprender uma lição. Pessoas morrem em decorrência de doenças porque nossos corpos físicos são mortais, limitados, e eventualmente desfalecerão, morrerão, e se desfarão em pó, e não porque seja um plano de Deus para ensinar aos sobreviventes uma lição. Eu não posso aceitar um Deus que ensine lições por meio do assassínio de crianças e adultos. Não posso apreciar uma religião que ensine ideias horríveis como essas.

Ao conversar com pessoas que acreditam nessas coisas, tenho o desejo de ajudá-las a abrirem suas mentes e tentarem enxergar um metro à sua frente. E oro para que usem o intelecto e a liberdade com os quais foram abençoadas para sonharem, viverem, sofrerem e mesmo morrerem de maneira mais digna.

+ Gibson

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Meu encontro com o Divino

Muitos falam como se Deus devesse ser buscado em milagres espetaculares que abalam o mundo. Eu, entretanto, encontrei-o no sorriso duma criança no parque, no vento que derruba as folhas secas das árvores, na música que envolve-me com sua melodia inebriante. Não, não que Deus não possa ser encontrado em milagres, ele certamente o é. No milagre da alegria diante das coisas mais simples e comuns da vida. No milagre do êxtase que toma conta de dois amantes em seu momento mais íntimo. No milagre do raciocínio que nos leva a fazer o bem em nossas vidas diárias. No milagre do sentir-se encantado pela própria vida. Lá encontrei o milagre. Lá encontrei o Divino!

domingo, 4 de setembro de 2011

Leituras de Hoje - Lecionário Comum Revisado

Próprio 18 (23) - 4 de setembro de 2011


-->
  • Primeira Leitura e Salmo
    • Êxodo 12:1-14 (ou Ezequiel 33:7-11)
    • Salmo 149 (ou Salmo 119: 33-40)

  • Segunda Leitura
    • Romanos 13:8-14

  • Evangelho
    • Mateus 18:15-20

O Credo de Theophilus Lindsey


“Há UM DEUS, uma única pessoa que é Deus, o único Criador e Senhor Soberano de todas as coisas.

O santo Jesus foi um homem da nação judaica, o servo desse Deus, altamente honrado e distinguido por ele.

O Espírito, ou Espírito Santo, não era uma pessoa ou ser inteligente, mas apenas o extraordinário poder ou dom de Deus, primeiro para nosso próprio Senhor Jesus Cristo em sua vida, e depois para os Apóstolos e muitos dos primeiros cristãos, para capacitá-los a pregar e propagar o Evangelho com sucesso.”

Esse Credo é estritamente unitarista, ou o que seria chamado de sociniano. Nele não encontramos a ideia ariana da pré-existência da alma humana de Cristo, ou que ele originalmente possuísse uma natureza superangélica; ou que seus sofrimentos e morte fossem de alguma maneira considerados como propiciatórios, ou que honras divinas lhe fossem devidas. Tradicionalmente, o cristianismo unitarista anglófono rejeita essas visões como absurdas e afirma a simples humanidade de Jesus.

*O sacerdote anglicano Rev. Theophilus Lindsey (20 de junho de 1723 – 3 de novembro de 1808) foi o fundador da primeira igreja explicitamente unitarista da Inglaterra (em 1774).