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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Presença e Fé


Há inúmeras coisas que podemos ganhar, e outras inúmeras que podemos perder, quando discutimos nossa fé com toques de racionalidade autodeclarada. Essa é, ao menos, minha experiência. Ensinar teologia, participar de discussões acadêmicas sobre minha fé, escrever para um público que não necessariamente partilha de minhas convicções, dentre tantas outras coisas, parece funcionar como um empecilho para expressar aquilo que, para mim, é tão simples e sublime: minha própria fé – sem aquela necessidade de recorrer às argumentações da Teologia Histórica para explicar isso ou aquilo.

Muitas vezes me perguntam, por exemplo, se acredito nisto ou naquilo. Sempre repito, para enfatizar a importância do valor semântico em discussões teológicas, que depende do que se quer dizer com os verbos e/ou substantivos utilizados naquela pergunta. Aqueles que não compreendem a complexidade de minha posição automaticamente veem-me como um relativista sem convicções. Esse é um risco que corro por raramente falar sobre minha fé de forma direta.

Em uma de minhas passagens favoritas do Novo Testamento (Atos 17), narra-se um sermão do apóstolo Paulo no Areópago, em Atenas, no qual ele recorre à sabedoria dos não judeus daquele local para ensinar-lhes sobre “o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe” (v.24). O que sempre admirei naquele relato é o aspecto de ele haver utilizado o que estava ao alcance da compreensão de seu público – a referência ao “Deus desconhecido” e a citação dum texto do poeta Arato de Solos (“Aparências”) – para compartilhar sua fé. Assim, aprendi que quando falamos com diferentes públicos, e quando temos diferentes intenções, fazemos uso de diferentes recursos.

Como nem todos os que vêm a essas páginas buscam a mesma coisa, gostaria de compartilhar minha fé de forma mais direta hoje.

Geralmente, recuso-me a utilizar verbos que limitem minhas convicções a noções muito determinadas ou que tragam em si a noção de que eu seja o operador de minha relação com o Divino; assim, evito o verbo “acreditar”, preferindo o verbo “confiar” quando falo sobre Deus. Eu confio em Deus; acredito em Deus – se com esse verbo quiser exprimir a noção de que minha confiança se estende à minha compreensão intelectual. Confio e escolho seguir Jesus. Não penso, entretanto, que a fé enquanto “assensus” – isto é, enquanto assentimento ou concordância intelectual –, seja essencial para minha confiança em Deus ou em Jesus.

Em minha experiência, Jesus é irresistível. Os ensinamentos e os exemplos atribuídos a ele são irresistíveis. Seu espírito de compaixão é irresistível. E isso independe de sua factualidade histórica pretérita. Mesmo que Jesus de Nazaré tenha sido só um personagem criado por um movimento judaico no primeiro século de nossa era – o que tenho fortes razões para crer não ser o caso –, que não tenha existido na “vida real”, ainda assim ele seria um poder irresistível em minha vida espiritual. E ele é irresistível porque tem o poder de transformar algo dentro de mim, tornando-se, assim, uma realidade presente no tempo presente.

Essa presença à qual me referi é muito mais importante que qualquer sofisticação teológica ou correção dogmática. É aquela presença que experiencio em meus momentos de oração privada, em meus momentos de celebrações litúrgicas, quando estou compartilhando momentos de alegria ou tristeza com outras pessoas, quando leio algo edificante, quando converso com alguém em busca de ajuda, ou quando eu mesmo recebo o apoio de alguém. É essa presença que chamo de “milagre”, porque é quando Deus se faz presente – mesmo que naquelas aparentemente pequenas coisas da vida. É essa presença que se torna fé. É assim que escolho confiar ou crer em Deus.

A paz dessa Presença, que chamo Deus, pode ser compartilhada com todos, independentemente de suas crenças ou descrenças, independentemente de quem sejam ou de como sejam suas vidas; e é por isso que o dogma se torna tão secundário em minha fé. Se isso é não ter convicções, então, que seja – prefiro ter confiança em Deus e Jesus do que certeza dogmática incompassiva, algo que me esforço muito para abandonar.

+Gibson

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Uma opção para uma "ex-mórmon" nos EUA: uma resposta a Dayla


[Recebi por meio da caixa de contato uma mensagem de Dayla, uma brasileira residente nos EUA, que compartilhou comigo sua história de abandono da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – tradição frequentemente chamada de “mormonismo” – e o desafio para encontrar uma nova comunidade de fé. Aqui, tento oferecer uma resposta a algumas de suas colocações.]

Cara Dayla,

Sua experiência se repete nas vidas de inúmeras pessoas, não apenas daquelas saídas da tradição dos santos dos últimos dias, como também de outras tradições cristãs advindas do restauracionismo. Seu desconforto em outras comunidades cristãs – principalmente por lhe tratarem como uma “estranha” – são comuns às experiências de outras pessoas com as quais converso sobre o temo, e são plenamente compreensíveis.

Como compreendo a tradição SUD como sendo mais que apenas uma fé (é também uma cultura própria), para mim é perfeitamente normal que você se sinta desconfortável com a forma como outros cristãos compreendem sua fé, e a maneira como a vivem no mundo exterior à igreja. Especialmente porque você ainda acredita em pontos importantíssimos de sua herança de fé – no Livro de Mórmon, nas profecias atribuídas a Joseph Smith etc –, mesmo que discorde da forma como a Igreja na qual foi educada funcione e discorde de muitas de suas doutrinas.

Suponho que, já que me escreveu, saiba de meu trabalho com o grupo de apoio a “ex-mórmons” aqui. Assim, realmente posso imaginar pelo que você têm passado durante esse tempo. Algo que conta a seu favor é morar onde mora hoje, já que se ainda estivesse em Utah provavelmente sentiria uma dificuldade maior para lidar com seus amigos e conhecidos.

Meu primeiro conselho é simples: não tenha medo, você não está sozinha. Você encontrará – se ainda não o fez – muitas pessoas que atravessaram a dificuldade de romper laços sociais tão fortes em busca de novos rumos em sua vida eclesiástica. Com confiança, você conseguirá sobrepujar esses sentimentos sobre os quais fala. Tenho certeza disso, porque vejo isso se repetir com frequência. Você não está sozinha!

Você enumerou as três opções que encontrou: 1) lidar com suas dúvidas e retornar à Igreja SUD; 2) trair algumas de suas convicções e tentar ser aceita em outra igreja cristã; ou 3) continuar a sentir o que sente estando longe duma comunidade cristã. Essas realmente podem ser opções para você, mas não são as únicas. Você esqueceu que também poderia tentar encontrar outra comunidade na própria tradição restauracionista do movimento dos santos dos últimos dias! Não, não me refiro a encontrar outra ala ou estaca na Igreja SUD; me refiro a tentar encontrar outra denominação na tradição “mórmon”! A Comunidade de Cristo pode ser, talvez, uma opção para você.

Tendo morado em Utah por tanto tempo, você deve ter ao menos ouvido falar na Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias – a denominação, em 2001, mudou seu nome para “Comunidade de Cristo”. Muitas das convicções liberais que você abraçou ao longo do tempo são parte do que a Comunidade ensina em sua tradição. Ela é, na verdade, a única denominação do movimento dos santos dos últimos dias – não ligada à Salt Lake City – que além de se manter ligada à tradição “mórmon”, professa uma compreensão teológica muito próxima de outras igrejas protestantes liberais ou moderadas. A denominação, inclusive, mantém relações ecumênicas com outras igrejas cristãs membros do National Council of Churches, que você citou. Assim, nela, você encontra um pouco das duas perspectivas.

A Comunidade, que tem uma congregação onde você vive agora, apesar de haver mudado muito nas últimas décadas, ainda está enraizada na tradição restauracionista do movimento dos santos dos últimos dias; assim, o Livro de Mórmon ainda é visto, entre eles, como escritura; Joseph Smith é visto como profeta. Então, ao menos nesse aspecto, você não se sentiria uma “estranha”, encontraria elementos de sua identidade religiosa originária. Isso também pode, entretanto, trazer outros estranhamentos, já que você estaria muito próxima de recordações de sua antiga igreja, ao mesmo tempo em que experienciaria coisas novas. Mas, ainda penso que, em seu caso, é uma opção possível.

Se quiser, posso pedir que a pastora da congregação que existe aí em sua cidade entre em contato com você. Somos amigos e tenho certeza que ela ficaria muito feliz em tirar suas dúvidas e ajudá-la no que for possível, sem exercer nenhum tipo de pressão sobre você. Para tal, me envie um e-mail, e acertaremos como fazer isso.

Bem, Dayla, fique em paz. Agora que você chegou num lugar novo, poderá fazer novos amigos e se sentir mais livre para trilhar seu próprio caminho. Você não está sozinha, é só dar tempo para conhecer outras pessoas em seu novo lar. Mesmo que fisicamente longe, estou aqui para ajudá-la a encontrar outras pessoas por aí. Você estará em meus pensamentos e orações!

Grande abraço!
+Gibson

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

"Descristianizando" a fé cristã?... Uma resposta a Fernando


Prezado Fernando,

Obrigado por compartilhar a história de sua jornada espiritual comigo. Aparentemente, você teve a oportunidade de descobrir diferentes respostas aos anseios de sua alma, por mais que hoje você perceba limitações no que você encontrou anteriormente.

Bem, não enxergo nenhuma religião como sendo uma resposta perfeita e não-contraditória a todos os nossos anseios ou questões; em minha experiência, isso é especialmente verdadeiro no que tange aos Cristianismos (isso mesmo, no plural) – e isso por serem eles meu lar espiritual e, assim, posso enxergar algumas das fontes de conflito em seu interior. Assim, independentemente da alternativa teológica cristã que se escolha, sempre haverá questões não respondidas, dúvidas não esclarecidas, algo contraditório. E isso pela simples razão, em minha opinião, de a religião (aqui, os Cristianismos) não ser algo pronto, acabado.

Falo em Cristianismos, no plural, por desde o início serem plurais as manifestações cristãs. Desde seu início, enquanto apenas um movimento judaico marginal, a grande tradição cristã teve inúmeras vozes em seu meio, tendo levado séculos até que se pudesse falar numa fé cristã “oficial”. Assim, absolutamente nenhum de nós (católicos romanos, ortodoxos “orientais”, protestantes liberais, protestantes evangelicais, cristãos restauracionistas etc) pode, de fato, reclamar um status de veracidade exclusivista para nossa versão da fé cristã. Em minha visão, todos nós abraçamos a fé plena e apenas uma pequena parcela dessa plenitude ao mesmo tempo – e é justamente isso que torna a tradição cristã tão fascinante para mim.

Entretanto, se perceber o que já escrevi tantas vezes, afirmo o mesmo no tocante ao Judaísmo – parte de minha herança familiar. Não pratico o “Judaísmo” como minha fé pessoal, mas o compreendo com uma fé plural que oferece desafios e fascínios semelhantes àqueles dos “Cristianismos” (no que tange à diversidade e incompletude). Enxergo o mesmo no que tange ao Islã, ao Budismo ou a qualquer outra tradição de fé.

Tendo dito isso, posso me referir mais diretamente às questões que você levantou.

Abandonar algumas daquelas concepções teológicas ditas tradicionais – como o do sacrifício expiatório de Cristo – implicaria numa “descristianização” do Cristianismo? Em minha opinião, isso depende de a qual dos “Cristianismos” você se refere, e a quem, quando e onde você faça essa pergunta.

Sou um protestante liberal, ancorado nas tradições do Unitarismo e Anglicanismo norte-americanos. A liturgia tradicional cristã desempenha um papel muito importante em minha vida devocional, mas meu universo teológico pode ser muito distinto daqueles do Catolicismo Romano, do Cristianismo Ortodoxo ou do Protestantismo Evangelical. Para mim, a fé é uma jornada de perguntas, não um destino de respostas. Logo, as “respostas” são sempre transitórias – e isso, ao menos em minhas tradições de fé, não implica numa “descristianização” da fé, mas numa centralização no Divino (isto é, as respostas não precisam ser plenamente coerentes e certeiras para que eu possa encontrar-me com Deus e percorrer o caminho de Jesus, já que não estou em busca de respostas). Assim, se você fizesse essa pergunta a mim como um indivíduo, minha resposta seria “NÃO”, a diversidade teológica no meio cristão não implica numa “descristianização”, já que diferentes cristãos expressam diferentes concepções acerca de sua fé (e compreendem suas expressões teológicas individuais como sendo autenticamente cristãs).

Você perguntou: “...se abandonarmos ensinamentos como o do sacrifício na Cruz pelos nossos pecados o que pregaremos? O que você prega na sua igreja?

Para minha fé pessoal, a tradição cristã ensina que Jesus fez coisas que considero mais importantes e mais relevantes que apenas morrer numa cruz. Para os contextos de sua própria época, ele parece ter sido um rabino muito compassivo e caridoso. Ele parece ter sido muito radical em sua prática da hospitalidade, por exemplo. As palavras e exemplos que lhes foram atribuídos – sim, porque não poderíamos garantir que Jesus fez ou disse isto ou aquilo – são, em minha tradição teológica e em minha prática homilética, o “Cristianismo”. Particularmente, em minha prática homilética, deixo de lado pormenores teológicos sobre o quê, como, quando, onde, quem, pois isso contribui muito pouco para a vida espiritual da congregação à qual sirvo como ministro, e à minha própria. Em nosso meio, cada um de nós pode construir sua compreensão pessoal sobre temas teológicos como esses, então, não faria nenhum sentido, para mim, tentar impor esta ou aquela visão a meus paroquianos, por exemplo.

Minha experiência, entretanto, não é a mesma da de outros cristãos, de outros membros do clero cristão. E eles/as – sejam fieis individuais ou membros do clero – necessitarão articular sua fé de forma que faça sentido para si. Assim, para a maioria, aquilo que entendo como metáforas (como a linguagem sacrificial, por exemplo) ganhará um sentido mais factual. Para mim pode não fazer sentido, ou ser desnecessário, mas se funciona para eles, então qual o problema? Não vejo problema com isso. O problema existiria se quiséssemos impor nossas visões teológicas uns sobre os outros, agredindo a dignidade da fé alheia. Durante os dois milênios de história cristã, tem havido cristãos que abraçam visões opostas para cada pormenor teológico imaginável e, provavelmente, enquanto o(s) Cristianismo(s) existir(em), sempre haverá, já que diferentes seres humanos articulam suas crenças de diferentes formas.

Grande abraço!

+Gibson


domingo, 14 de setembro de 2014

A hibernação da inteligência dos militantes da “religião civil”


A coisa mais triste a respeito do período eleitoral – e, em minha experiência, isso vale tanto para o Brasil quanto para os EUA – é que a inteligência de militantes partidários parece entrar em hibernação. Frequentemente, parece haver uma explicitação de incoerências entre o que geralmente afirmam, em outros momentos, e aquilo ou aqueles que tão vorazmente defendem em sua tola militância partidária.

Bem, como não devo favores políticos a absolutamente ninguém, me permitam ousar dizer o que penso sobre essa hibernação da inteligência militante. Utilizarei o padrão da língua portuguesa e, todos os pronomes, substantivos, adjetivos etc que aparecerem em sua forma masculina também se referem ao feminino.

Para iniciar, é importante deixar claro que, com a idade, background sociocultural, experiência de vida e formação que tenho, não acredito em heróis. Nenhum homem ou mulher que ocupe uma posição política é um herói ou salvador da pátria. No máximo, admiro uma certa posição política num dado contexto. Nem mesmo os autores filosóficos que me influenciaram, por exemplo, são ídolos intelectuais que reverenciaria de forma absoluta. Para mim, todos os “heróis” políticos têm pés de barro.

Isso já é suficiente para me separar desses ativistas que posam como intelligentsia política, afirmando sua religião civil, com seus dogmas políticos sacrossantos, seus rituais revolucionários e suas divindades partidárias (ao mesmo tempo em que, geralmente, condenam as pessoas que professam uma fé religiosa como se essas fossem seres irracionais e ignorantes).

Esses militantes partidários são os que idolatram certos personagens políticos nacionais ou d'alhures, colocando-os sobre altares, onde devem estar intocáveis. Esses ídolos políticos passam, então, por um processo de sacralização ainda em vida, e seus dizeres – independentemente de quão absurdos sejam – passam por um rápido processo de canonização e se tornam dogma da “religião civil” que esses ativistas partidários constroem.

A esta altura, já imagino que tenham dado uma face ao meu comentário (é... se você for um partidário do establishment do dia no Brasil, deve ter se ofendido e imaginado que me refiro a Lula da Silva). Bem, se a carapuça serviu, então que seja! Mas não me refiro apenas a ele, nem apenas ao Brasil. Abraham Lincoln, Getúlio Vargas, John F. Kennedy, Fidel Castro, Che Guevara, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Hugo Chávez, George W. Bush, Barack Obama, Dilma Rousseff, Eduardo Campos, Marina da Silva, Aécio Neves... escolha você mesmo um nome! Todos eles podem estar – e, de facto, estão – sobre o altar de algum devoto partidário.

Bem, se você já se irritou com minha metáfora religiosa, dê-me um desconto. Não consigo subtrair minha formação teológica da linguagem que escolho utilizar para falar daquilo que vejo como uma “religião civil”. Como um teólogo liberal, e como um ministro unitarista, frequentemente critico o dogmatismo cego. Então, você não pode esperar que não criticaria o dogmatismo cego da “religião civil” também.

Voltando ao fanatismo – não, me desculpem, à “hibernação da inteligência” – dos militantes partidários, lembrem-se do que tem ocorrido nos últimos doze anos no Brasil e nos últimos oito anos em Pernambuco.

O Brasil tem sido governado pelo PT desde 2003. O executivo federal tem contado com uma esmagadora aliança no Congresso Nacional, e nos governos e legislaturas estaduais. Os vassalos dos partidos de base dominam as estruturas da máquina pública, dos sindicatos e dos chamados movimentos sociais. Ou seja, o PT e seus aliados reinam quase que absoluta e inquestionavelmente. Mesmo que minha afirmação lhes irrite, isso é um fato.

Agora, pode realmente alguém, em sã consciência, acusar a inútil, ineficiente e patética “oposição” – na verdade, eles nem são dignos dessa alcunha – como os “culpados” pelo que não funciona no país? Que tipo de cegueira estúpida encobre a visão desses militantes partidários?

Só para que se recordem, quem governava o Brasil durante as últimas greves dos diferentes grupos de servidores federais? Eram os “conservadores”, a “direita”, os “fundamentalistas”? Bem, se você também vive no Brasil, terá de concordar comigo e reconhecer que era Dilma Rousseff, com o PT e seus aliados. E se você vive em Pernambuco, terá de reconhecer que nas últimas greves de diferentes grupos de servidores estaduais, era Eduardo Campos (ou seu substituto de última hora), com o PSB (que, na prática, era ele mesmo) e seus aliados.

A crítica, aliás, se estende aos governadores daquilo que por aqui chamam equivocadamente de “direita”, isto é o PSDB, e seus aliados do DEM; assim como de todos os outros partidos nacionais. Se me referi diretamente ao PT e ao PSB, é pelo simples fato de o Governo Federal estar com o PT há três mandatos, e o estadual em Pernambuco estar com o PSB há dois mandatos.

Como os militantes de todos esses grupos podem, honestamente, falar em “mudança”, em “será melhor” etc, quando esses partidos e aliados, e seus candidatos, estão no poder há tanto tempo e, na prática, sem oposição? Quem pode ser tão estúpido a ponto de não perceber que há algo errado na narrativa histórica feita por esses grupos de militantes partidários (de absolutamente todos os partidos)?

Recentemente, li comentários de treze pessoas afirmando que eu estava distorcendo a história quando sarcasticamente postei em minha conta do Twitter: “Em 2013, incendeiam o país protestando contra a corrupção; em 2014, fazem propaganda gratuita p/o Governo protestado... Quem entende isso?

Obviamente, não podia escrever mais que “contra a corrupção” em minha postagem, já que os limites do Twitter não permitiriam mais palavras. Os que se doeram com meu comentário eram militantes da “religião civil” do establishment. Eu, obviamente, havia ofendido a sacralidade de seus ídolos e de seus dogmas. Sua inteligência, aparentemente, fora atingida pelo estado de hibernação do período eleitoral.

Quando, em 2013, o populacho saiu às ruas para “protestar” (e destruir, e queimar, e roubar, e violar direitos, e desobedecer às leis, e desrespeitar a Constituição Federal, etc, etc, etc), contra quem protestavam? Contra alguma entidade imaginária ou contra quem detinha o poder? E quem detinha o poder? Se queriam mais “educação e saúde” e não a “Copa”, contra quem protestavam? Se queriam mais ações governamentais em nome dum “bem-estar social”, contra quem protestavam?... Bem, os militantes que me enviaram mensagens pensam que protestavam contra todos menos os seus respectivos partidos políticos! Não é brilhante isso?!... Para essas pessoas, eu sou ou um ignorante ou um manipulador à serviço “da direita”!... Bravo para eles! Não imaginam o quão envergonhado me sinto por sua letargia cognitiva!

Esses militantes da “religião civil” brasileira são os mesmos que exigem a punição dos envolvidos com a violência da ditadura anuladora das liberdades individuais, como a expressão de opinião, ao mesmo tempo em que exigem a criação de leis que limitariam a liberdade da imprensa que ousa opinar (independentemente do valor de sua opinião) contra as divindades partidárias. Curioso, não?!... Talvez, a melhor classificação para a atitude desses serviçais do Poder seja: HIPOCRISIA. Pura e simples!

O que essa gente não parece compreender é que os governantes e legisladores não nos fazem favores quando realizam obras de qualquer natureza – nas áreas de educação, saúde, segurança, cobertura social etc. Eles simplesmente cumprem a lei – isto é, quando o fazem. Assim, um partido político e um governante não são patriarcas da moralidade; eles são servidores dos cidadãos. Mesmo que, em meu caso, não se tenha votado em quem governa, a partir do momento em que ele ou ela sobe ao poder, estará lá para servir-me enquanto cidadão – e não apenas aos adeptos de sua “religião civil”. Logo, não fazem nada mais além de cumprir com sua obrigação constitucional.

É uma pena que esses militantes – isto é, aqueles que servem entusiasticamente como serviçais gratuitos da máquina eleitoral – não se deem conta das bobagens que gritam por aí, e do papel de tolos que fazem em nome de gente sedenta pelo poder!

+Gibson da Costa

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Oração dos feitores da Paz

Mistério Eterno,
tome esta minha voz e preenche-na com tua presença.
Que ela possa trazer esperança
a todas as pessoas que ouvirem-na.
Tome esta voz, ó Presença Eterna,
e preenche-na Contigo.

Ó Deus,
tome minha vida e preenche-na com tua paz.
Ajude-me a sempre dizer palavras de paz
e a ser um feitor de paz neste mundo.
Tome esta vida, ó Eterno,
e preenche-na Contigo.

Ó Pai de toda a Criação,
tome este lugar e faze dele um abrigo pacífico.
Que ele possa ser um domínio de Tua paz.
Tome este lugar, ó Deus da Vida,
e preenche-no com tua Presença de Paz,
para que seja um refúgio para todos aqueles que buscam
a Tua Paz.


+Gibson

Uma canção para inspirar... Hillsong United canta "Oceans"




Você me chama sobre as águas
O grande desconhecido onde meus pés podem falhar
E lá te encontro no mistério
Nos oceanos profundos
Minha fé continuará

E chamarei teu nome
e manterei meus olhos por sobre as ondas
quando os oceanos se elevarem
minha alma descansará em teu abraço
pois sou teu e tu és meu
 
Teu abraço abunda nas águas profundas
tua mão soberana
será meu guia
onde os pés falham e o mede me cerca
nunca falhaste e não será agora

Então chamarei teu nome
e manterei meus olhos por sobre as ondas
quando os oceanos se elevarem
minha alma descansará em teu abraço
pois sou teu e tu és meu

Espírito, me leve para onde minha confiança não tem limites
Deixe-me andar por sobre as águas
Para onde quer que me chames
Me leve para (um lugar) mais profundo do que meus pés poderiam vagar
E minha fé se tornará mais forte
Na presença de meu Salvador

Chamarei teu nome
manterei meus olhos por sobre as ondas
minha alma descansará em teu abraço
sou teu e tu és meu!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 3


Caro Edgar,

Recebi sua mensagem esta manhã, e aqui tento responder, mais uma vez, aos seus questionamentos – sem esquecer que ainda tenho outras questões que não foram respondidas por falta de tempo.

Se pareço repetitivo, em alguns de meus comentários, é pelo simples fato de minhas respostas serem públicas e por, supostamente, muitos de meus leitores não estarem tão familiarizados assim com a história ou o pensamento teológico unitarista.

Já expliquei, neste blog, a razão pela qual respondo a questões teológicas de forma pública, mas vale repetir aqui. Como todos os questionamentos que frequentemente recebo dos visitantes deste blog se relacionam, majoritariamente, ao que leram aqui, então creio ser razoável supor que outras pessoas poderiam ter questionamentos semelhantes. Ademais, uma comunicação pública ajuda a evitar o alastramento de compreensões errôneas sobre algo que tenha escrito e publicado aqui: alguém poderá sempre se referir ao que escrevi publicamente, e eu não poderei dizer que não escrevi aquilo!

Você me compreende equivocadamente se pensa que tenho uma “antipatia pelo unitário-universalismo”. Não tenho uma “antipatia” pela tradição do Universalismo Unitarista (é assim que traduzo a expressão “Unitarian Universalism”) -, em termos de origens históricas, sou parte dessa tradição. Tenho críticas à maneira como a mesma é compreendida pelos, chamemos, “recém-conversos” à tradição e à maneira como uma tradição de fé se tornou apenas uma ideologia sociopolítica. Minha crítica é de natureza teológica e, especificamente, eclesiológica. No que concerne à fé e à teologia, vejo um grande problema quando se desconstrói demais, e não se constrói nada relevante e duradouro no lugar; quando se faz questão de abrir mão duma identidade própria para fazer com que os “novos” se sintam bem-vindos em nossa própria casa. Novamente, para que você compreenda isso, tem de se dedicar a compreender a história de nossas tradições de fé – assim compreenderia a natureza de minha crítica e de muitos outros.

O termo “Universalismo Unitarista” (ou “unitário-universalismo”, como queira), hoje, se refere a uma tradição desassociada de suas raízes cristãs. O termo Unitarismo, por outro lado, continua a ser – para nós cristãos unitaristas liberais – uma afirmação de nossa lealdade à tradição cristã liberal da qual nossa tradição emergiu. Isso não significa, entretanto, ser adepto de posições teontológicas (sobre Deus) ou cristológicas (sobre Cristo) específicas. O que significa, para mim, é que Universalismo Unitarista é diferente de Unitarismo, e diferente de Universalismo; o fato de haver emergido duma mescla das tradições unitarista e universalista não tornam a tradição “unitário-universalista” sinônimo daquelas duas, que são tradições cristãs. Isso é o que alguns chamariam de “fato” histórico!

Quanto a mim, como já discuti algumas vezes aqui, faço muita pouca questão de me identificar estritamente como membro desta ou daquela tradição cristã – isso em consequência de minhas múltiplas heranças cristãs. Se o faço aqui é para afirmar minha herança teológica. Prefiro reconhecer minha dívida para com todas essas tradições cristãs que moldaram minha fé pessoal (a anglicana, a unitarista, a universalista, a luterana); e, por isso mesmo, me identificar como um cristão livre. E mesmo essa atitude, que marca minha compreensão do Cristianismo, advém da própria tradição unitarista. James Martineau, por exemplo, um teólogo e ministro unitarista inglês do século XIX, usava o termo “cristão livre” com o sentido de ser livre duma imposição de ortodoxia religiosa – ele sugeria que os unitaristas deixassem de usar o adjetivo “unitarista” (que, lembre-se, fora imposto por outros que, equivocadamente, imaginavam que todos os unitaristas fossem adeptos duma compreensão teontológica e cristológica específica) como identificador, em favor da expressão “cristão livre”, que ele acreditava ser mais inclusiva. Assim, as igrejas “unitaristas” poderiam se tornar o lar de cristãos das mais diversas teologias, onde todos seriam bem-vindos. Resta dizer que isso, até certo ponto, realmente aconteceu, mas trouxe consigo um efeito indesejado para os cristãos unitaristas no mundo anglófono: a “descristianização” de nossa tradição. Nos Estados Unidos, especificamente, emergiriam outros movimentos nos meios unitaristas: O Movimento da Religião Livre, e o Movimento Humanista, que influenciariam a união entre as igrejas universalistas e unitaristas, e a formação daquilo que hoje é chamado de Universalismo Unitarista (que não deve ser confundido, em absoluto, com os tradicionais Unitarismo e Universalismo, enquanto tradições cristãs).

Logo, se você perceber, há paralelos entre o que ocorreu com o Movimento do Universalismo Unitarista ("UUismo") e o Unitarismo, um de seus berços. O Unitarismo se esforçou para demolir os edifícios que o separava de outras formas de Cristianismo liberal – assim, podemos ler, por exemplo, um batista como Harry Emerson Fosdick defender, no início do século XX, uma teologia liberal defendida pelos unitaristas há mais de um século, sem, no entanto, se identificar como unitarista; assim, me atrevo a dizer que unitaristas, universalistas, anglicanos, batistas, presbiterianos, e metodistas, por exemplo, ensinavam, na prática, a mesma coisa até meados do século XX (durante o auge da teologia liberal no meio protestante nos Estados Unidos). O “Uuismo”, posteriormente, foi além e derrubou o edifício teológico cristão para tornar-se uma tradição multirreligiosa, na qual, paradoxalmente, a própria identidade religiosa se tornaria sinônimo de quase nada – ou seja, na prática, a tradição do Universalismo Unitarista se fundamenta em negações a, e não em afirmações de. Algo semelhante ao universalismo multirreligioso do (polêmico) Rev. Kirby J. Hensley, fundador da “Igreja da Vida Universal”, cujo dogma era “fazer apenas aquilo que é certo”.

Por isso, faço questão de enfatizar que Universalismo Unitarista e Unitarismo (e Universalismo) não são idênticos. O Cristianismo é a raiz da qual emergiu a tradição unitarista – e também a universalista. Foi daí que emergiu nossa compreensão de Deus, de Jesus, das Escrituras, da dignidade humana, da liberdade espiritual e de consciência, etc. Nossa histórica compreensão de Deus se baseia nos ensinamentos das Escrituras judaico-cristãs sobre a unicidade de Deus. Nosso compromisso com a liberdade espiritual vem da noção de que “onde se encontra o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2 Coríntios 3:17). Nossa crença na dignidade humana e, consequentemente, nossa história de inclusão radical se assenta sobre o espírito das Escrituras que dizem que “não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gálatas 3:28).

Ou seja, as afirmações unitaristas são afirmações cristãs. Nossas compreensões teológicas específicas podem não ser partilhadas por todos os cristãos, mas elas emergem das raízes cristãs. Sua linguagem é cristã, sua narrativa é cristã, sua identidade é cristã. E essa identidade é maior que nossas filiações eclesiásticas particulares – assim, os unitaristas que são membros de igrejas cristãs não-unitaristas não veem isso como um desafio a suas convicções (ao menos no mundo anglófono, já que no Brasil as filiações eclesiásticas tendem a estar atreladas à aceitação de afirmações teológicas específicas, e tendem a não permitir a duplicidade de membresia eclesiástica). Eu, como a maioria dos outros cristãos unitaristas que conheço – sejam eles, nos Estados Unidos, membros de congregações da UUA ou de outras igrejas unitaristas, ou da Igreja Episcopal, da Igreja Unida de Cristo; ou, no Brasil, membros de congregações especificamente unitaristas –, identifico um unitarista como um cristão liberal e livre, mas, mesmo assim, fiel à sua tradição de quase cinco séculos. Não preciso negar essa tradição para ser receptivo a outras pessoas. Prefiro estar aberto e receptivo a todos, ao mesmo tempo em que me mantenho fiel à minha identidade religiosa.

Estero ter conseguido responder à sua mensagem de hoje. Grande abraço!

+Gibson

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sobre o Unitarismo, parte 2


Caro Edgar,

Continuo aqui, depois de mais de um mês, minha tentativa de responder algumas daquelas várias questões levantadas por você. Em minha mensagem anterior, havia tratado sobre algumas informações históricas que julgo importantes para sua compreensão do Unitarismo, enquanto tradição cristã. Aqui, continuarei a tratar algumas das questões subsequentemente levantadas por você.

A maneira mais fácil de descrever nossa tradição é, simples e imperfeitamente, afirmar que há uma grande diversidade entre nós. Isso, basicamente, significa que os unitaristas, individualmente, abraçam uma ampla gama de perspectivas teológicas e estão ligados a diferentes tipos de igrejas.

Eclesiasticamente, também somos muito diversos. Há igrejas unitaristas de governo episcopal, isto é, igrejas com bispos (como nas igrejas unitaristas da Transilvânia e Hungria); há igrejas unitaristas congregacionais (como a maioria das igrejas unitaristas do mundo anglófono, e no Brasil); e há igrejas unitaristas presbiterianas (como algumas nas Ilhas Britânicas). Contudo, é sempre bom lembrar-se que nem todos os unitaristas são membros duma igreja especificamente unitarista. E há muitos auto-declarados unitaristas, especificamente no mundo anglófono (especialmente nos Estados Unidos), que são membros de outras igrejas cristãs – especialmente a Igreja Unida de Cristo, a Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), outras igrejas congregacionais ou a Igreja Episcopal – ou, simultaneamente, membros duma igreja unitarista e de alguma outra igreja cristã (essa é minha experiência pessoal, à propósito), por razões muito específicas à realidade local.

Apesar de nossa diversidade, entretanto, acredito poder apontar convicções que são comuns à maioria dos unitaristas, ao menos da tradição anglófona – o que é o meu caso. Lembre-se, contudo, que entre nós não há a obrigação de se aderir a definições teológicas pormenorizadas, então, os indivíduos são sempre livres para compreenderem a fé de sua maneira. Assim, tradicionalmente, vemos nossa união como sendo mantida por um espírito de simpatia e cooperação, e não pela imposição de fórmulas, de declarações de fé, de credos – nós, entretanto, não rejeitamos essas declarações ou credos necessariamente, rejeitamos apenas sua imposição aos indivíduos como requisito para que sejam parte da mesma comunidade de fé. Essa é a tradição de liberdade de consciência, tão apreciada em nossa tradição.

A tradição unitarista, tradicionalmente, identifica como cristão toda pessoa que se [auto]identifique como um seguidor de Jesus Cristo. Assim, não acreditamos ou ensinamos que alguém tenha de ser um unitarista para ser um cristão “verdadeiro”. Assim como não excluímos ou julgamos pessoas de outras tradições religiosas não cristãs por não serem cristãs ou não serem unitaristas. Não equacionamos o Divino com uma compreensão particular de Deus. Foi dessa compreensão, compartilhada por cristãos unitaristas e universalistas – a seu próprio modo –, aliás, que adveio o espírito de respeito ou “abertura” para com outras tradições de fé que marca a tradição “unitário-universalista” (descendente duma mescla daquelas duas, especialmente do movimento da “Religião Livre” e, posteriormente, do movimento humanista dos unitaristas). Logo, você se equivoca quando afirma que essa atitude seja uma característica originalmente “unitário-universalista” enquanto movimento não cristão, como se diferentes tradições cristãs devessem corresponder a um estereótipo de “fanatismo” ou “fundamentalismo” nascidos de sua própria experiência com o(s) Cristianismo(s) brasileiro(s).

Como cristãos, damos grande ênfase à Bíblia em nossa tradição, mas a maneira como a compreendemos pode soar muito diferente da forma como outras tradições cristãs brasileiras a veem. Nós unitaristas não acreditamos na infalibilidade da Bíblia. Entendemos a Bíblia como um testemunho da relação de certos grupos humanos (a antiga Israel e a “Igreja primitiva”) com Deus; ou seja, a Bíblia é um conjunto de escritos humanos que passou por um processo de canonização até tornar-se Escritura Sagrada. Ou seja, os escritos do apóstolo Paulo, por exemplo, não eram Escritura, não eram textos canônicos, quando ele os escreveu; essa canonização, transformação do texto em Escritura, ocorreu ao longo do tempo e depois de debates e disputas teológicas na Igreja cristã. Nós unitaristas, tradicionalmente, abraçamos essa compreensão histórica em nossa apreciação da Bíblia, que, entretanto, não deixa de ser Escritura sagrada, apesar de sua humanidade!

Para compreender nossa relação de dependência teológica para com a Bíblia, você precisa compreender que, como escrevi na primeira parte desta resposta, as tradições cristãs unitarista e universalista emergiram atreladas ao princípio de “sola scriptura”; ou seja, as compreensões teológicas cristãs, na visão de nossos fundadores, deveriam encontrar sua raison d'être nas Escrituras (Bíblia). O que diferenciava especialmente os primeiros unitaristas de outros protestantes era sua valorização do conhecimento humano e da consciência individual para a leitura das Escrituras – o que, necessariamente, implicaria uma maior diversidade de perspectivas teológicas. Mas o que importa, aqui, é saber que todos os argumentos levantados para as perspectivas teológicas defendidas por unitaristas, e universalistas, advinham de sua leitura professa das Escrituras – obviamente, imersa em certas compreensões filosóficas que marcaram seu próprio tempo, desde o século XVI até hoje.

Logo, apesar de haver princípios comuns aos autores unitaristas ao longo desses séculos, seus argumentos e compreensões mudavam/mudam a depender dos contextos culturais nos quais viviam/vivem. Fausto Sozzini, Joseph Priestley, Thomas Belsham, William Ellery Channing, James Freeman Clarke, Charles Gordon Ames, James Luther Adams, e tantos outros autores de nossa tradição, defendiam visões não plenamente idênticas, mas entrelaçadas na fé cristã que partilhavam. Assim, por exemplo, um cristão liberal unitarista como eu pode não se sentir plenamente confortável com as compreensões esposadas no Catecismo Racoviano (tão influenciado pelas ideias teológicas de Sozzini), ou mesmo abraçar as cristologias de Priestley, Channing ou Clarke, mas reconhecerá que essa diversidade é uma parte essencial de nossa tradição. Apesar da partilha de muitas ideias, os unitaristas poloneses e transilvanos, por exemplo, diferiam em muito de seus correligionários ingleses, que poderiam ser vistos como mais “liberais”. E os unitaristas ingleses, por sua vez, diferiam dos unitaristas americanos em termos teológicos. E, nos Estados Unidos, os unitaristas da Nova Inglaterra diferiam dos unitaristas do Oeste. Todos, entretanto, se viam como coparticipantes da mesma tradição!

À propósito, a diversidade é uma marca necessária das tradições cristãs liberais, sejam elas a unitarista, a universalista, a quaker, a batista geral, a presbiteriana não-subscrevente ou a remonstrante, por exemplo. Como encontrar concordância plena em termos de teologia dogmática é complicado em nosso meio, posso apontar alguns pontos comuns entre nós – e entre nós e outros cristãos (como aqueles grupos citados acima):

1) Para nossas tradições, a união comunitária na Igreja não exige a uniformidade de crenças. Há uma grande valorização do indivíduo, mas o indivíduo transcende seu isolamento por meio do mover do Espírito Santo na comunidade. As posições minoritárias na igreja, em nossas tradições, devem ser protegidas em nome dessa ação do Espírito Santo (que, obviamente, compreendemos de maneiras bem diversas em nossas diferentes tradições). A manutenção da liberdade de consciência individual – talvez a principal bandeira de nossas tradições – era e é vista como uma aliança entre a igreja e Deus, e entre os membros da igreja. Dessa ideia duma aliança particular entre os membros duma igreja, e entre esses e Deus, e o alto grau de autonomia local que dela deriva, vem a essência do que é chamado de “congregacionalismo” – o tipo de eclesiologia mais comum entre nós.

É bom esclarecer, ademais, que a própria democracia política moderna emergiu dessas ideias congregacionalistas, e outras semelhantes. O teólogo unitarista James Luther Adams, por exemplo, chamava esse princípio de “coarquia”, que ele contrapunha à “hierarquia”. Os defensores da autonomia da igreja local consideravam que sua visão de “igreja livre” deveria tornar-se um modelo para um estado democrático. Seus conceitos políticos derivavam, por analogia, de seus conceitos eclesiásticos. O que constituíra, originalmente, elementos duma “eclesiologia” (isto é, duma doutrina sobre a natureza e organização da igreja), era usado agora como ingredientes duma teoria política: o consentimento dos governados, a exigência do sufrágio universal, um executivo sujeito à lei, o princípio da oposição leal. O conceito básico de sociedade democrática, assim, descende do conceito de “igreja livre” defendida pelos nossos ancestrais unitaristas, e de outras tradições cristãs liberais.

2) Uma crença na e afirmação da dignidade humana, e uma confiança na capacidade humana. Isso como uma resposta às noções de natureza humana depravada ou caída características de certos grupos protestantes. Na verdade, essa pode ser apontada como a principal diferença entre os unitaristas e outros cristãos. Apesar de outros cristãos (incluindo os universalistas) terem sempre enfatizado nossas noções mais antigas sobre Deus ou Cristo como sendo nosso principal distintivo, nós unitaristas costumamos apontar nossa visão do ser humano. O Unitarismo rejeita a doutrina do pecado original – e isso, obviamente, tem um enorme impacto sobre como nossa tradição compreende o ser humano. O que isso significa hoje, para nós, é que vemos o ser humano como capaz de fazer tanto o bem quanto o mal, e daí a importância que damos à educação, tanto em nosso meio quanto na sociedade como um todo.

3) Uma valorização e paixão pela racionalidade. A história de nossa tradição é marcada pelo esforço contrário ao tradicionalismo rígido e arbitrário, e contra aquilo que nossos antepassados chamavam de “obscurantismo”. Um encorajamento, apropriação e ênfase de valores da cultura letrada e da ciência, como formas de compreender nossa fé e enriquecê-la em nossas vidas sociais. Assim, a leitura das Escrituras na tradição unitarista foi moldada por essa herança de diálogo entre a fé e a “alta cultura” produzida pelos meios intelectuais, especialmente nos países de língua inglesa.

Esses são apenas alguns dos princípios unitaristas, compartilhados com outros grupos cristãos liberais, que eu poderia apontar. Ainda devo-lhe uma resposta sobre alguns conceitos sobre Deus e Cristo. Mas essa fica para uma próxima mensagem.

Grande abraço e bençãos!

+Gibson

terça-feira, 15 de julho de 2014

Uma fé cristã não exclusivista: uma resposta a Mauro


Caro Mauro,


Agradeço por seus comentários, apesar de nossas diferenças de opinião. Deixe-me responder a algumas de suas provocações da forma “direta e crua”, como me pediu.


Partilho de seu respeito pela Bíblia. Como em seu caso, enxergo a Bíblia como Escritura Sagrada – na verdade, na maioria das vezes, é exatamente assim que me refiro à Bíblia, como “Escrituras” (como pode ver em vários de meus textos aqui) –, como textos canônicos para minha fé.


Diferentemente de você, contudo, não entendo as Escrituras como textos divinos em sua origem. A Bíblia, em minha visão, é um produto humano que emergiu da tentativa de antigas comunidades darem uma resposta à sua experiência com Deus. Ela, a Bíblia, possui um status e desempenha uma função sagrada em minha vida de fé, mas isso não quer dizer que a interprete literalmente, ou que por causa duma interpretação específica dela feche minha mente para outras coisas que sei sobre o Universo do qual sou parte.


Infelizmente, para você, dizer isso é sinônimo de “negar a fé”. Você, aparentemente, só não conseguiu conciliar essa afirmação com o que tinha dito no início de sua mensagem. Pois se não sou um “cristão verdadeiro”, então você não pode, coerentemente, me acusar de estar negando a fé, já que minha fé não seria a mesma da sua, de qualquer forma. Consegue ver a incoerência de sua afirmação?


Não me preocupo muito em discutir teologia dogmática stricto sensu. Isso não quer dizer que não me importe com isso em minha reflexão teológica, já que tudo se relaciona a ela em teologia. Só evito tratar muito disso aqui.


Sua acusação de que eu seja um “acadêmico” tentando desacreditar o Cristianismo é absurda, com todo respeito – ao menos, no sentido em que usou o termo “acadêmico”. Em primeiro lugar, não sou um acadêmico, sou um Ministro religioso; e mesmo meu ensino de Teologia se dá num seminário teológico, num ambiente não-laico. Em segundo lugar, se não percebeu, este espaço tem uma “missão” claramente religiosa, e não “acadêmica” – é só ler a descrição do mesmo.


Minha compreensão do Cristianismo é não exclusivista. O Cristianismo é minha fé, é minha jornada rumo a um encontro com o Divino e com a humanidade. Dizer isso, entretanto, é diferente de dizer que o Cristianismo seja o único caminho válido rumo a esse encontro com o Divino e com a humanidade. Deus, se o compreendesse em termos antropomórficos – o que não é o caso -, não é cristão. Jesus não era cristão. Os primeiros seguidores de Jesus não eram “cristãos”. A maior parte da humanidade não é, nem foi, cristã. Da forma como compreendo Deus, até mesmo o ateísmo pode ser um caminho para um encontro com a Divindade. Então, obviamente, não compartilho de sua visão exclusivista e excludente da fé cristã. O Cristianismo, para mim, é uma jornada de compaixão, de encontro com o Divino e com a humanidade. Nossas concepções particulares de “Deus” ou da “fé” não podem ser mais importantes que aquele “encontro” prometido pela tradição cristã. É esse “encontro” que chamo de “compaixão”.


E, para finalizar da forma mais “direta e crua” possível, devo enfatizar que as pessoas para quem mantenho estas páginas, ou seja, os destinatários deste blog, são pessoas que estão dispostas a questionar, a pensar; são pessoas que estão em busca de algo diferente do que encontram em outros lugares. Ninguém é obrigado a ler o que publico aqui. Se você se indigna tanto com o que escrevo, pode sempre visitar outros sites que exibam um pensamento mais de acordo com suas perspectivas. Seus recorrentes comentários, utilizando uma linguagem tão violenta e grosseira, tão pouco compassiva, não servem como um bom testemunho de sua suposta fé. Espero que possa refletir um pouco sobre isso.


Grande abraço, e bençãos!


+Gibson

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Liberais, fundamentalistas, pentecostais e todos os protestantes brasileiros numa única conversa


Hoje, juntamente com um amigo, tive uma conversa interessante com um desconhecido num café que sempre frequentamos. O desconhecido falava sobre todos os “protestantes” que tentam “arrancar dinheiro dos idiotas” que vão às suas igrejas, e da forma como “essa gente” quer dominar o país com sua bancada no Congresso. Ele referiu-se aos “protestantes” como “um grupinho de gente retrógrada e preconceituosa” que desrespeita as crenças e valores de outras pessoas, e citou vários exemplos para construir seus argumentos.

Ouvi seus comentários respeitosamente. Quando terminou, me apresentei e apresentei meu amigo, um ministro presbiteriano, como (ministros) protestantes. Tentei explicar-lhe sobre a diversidade existente entre nós protestantes, utilizando meu amigo e eu como exemplos. Meu amigo lhe explicou sobre sua própria tradição Reformada, e eu falei-lhe sobre o Unitarismo e o Anglicanismo, minhas tradições pessoais, para tentar mostrar ao nosso novo amigo que não se deve pensar numa comunidade tão diversa como um grupo único. Nossa conversa foi muito agradável a partir dali e espero que tenha contribuído, de alguma forma, para sua compreensão dos riscos das generalizações desinformadas.

Obviamente, não lhe disse que mantenho ligações históricas, emocionais, teológicas e eclesiásticas com diferentes tradições cristãs. Não citei que fui ordenado formalmente, após treinamento teológico num seminário luterano (e em outro judaico), ao sacerdócio de uma igreja episcopal (anglicana), ao sacerdócio duma congregação luterana e ao ministério de uma igreja congregacional unitarista, nos Estados Unidos. Não falei que tenho uma história de ligação a cinco diferentes denominações protestantes norte-americanas – a Igreja Episcopal, a Igreja Unida de Cristo, a Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), a Igreja Evangélica Luterana na América, e a Conferência de Igrejas Cristãs Unitaristas e Universalistas –, e, com essa história pessoal, não poderia deixar de tentar explicar-lhe um pouco sobre a diversidade protestante (por mais que a minha experiência não seja comum à maioria dos protestantes brasileiros).

Qualquer pessoa atenciosa já deve ter percebido que o Protestantismo brasileiro é extremamente cismático e dividido – obviamente, não apenas o brasileiro, mas nos detenhamos ao cenário nacional por agora. Obviamente, essa característica resulta, em parte, do tipo de Protestantismo majoritário no Brasil e não do ser protestante em si, como alguns poderiam sugerir. A maioria dos protestantes brasileiros, com exceção daqueles descendentes de famílias historicamente protestantes (como no caso das colônias de imigrantes ou das famílias “conversas” há pelo menos umas três gerações), são consequência de missões proselitistas de diferentes grupos “protestantes”, especialmente os de tradições evangelicais (os comumente chamados de “evangélicos”).

Essa origem nas missões proselitistas evangelicais – adicionando a isso o fato de os “evangélicos” brasileiros, em sua aparente maioria, estranhamente mesclarem uma mensagem “carismática” (i.e., “pentecostal”) com uma teologia “fundamentalista” – parece ter contribuído, em grande parte, para o espírito de disputa que há entre muitos desses grupos que, particularmente, chamo de “neoprotestantes”.

Como o uso do termo “fundamentalismo” é problemático, devo explicar minha utilização dele aqui. Apesar de ser um cristão liberal, nunca utilizo o termo “fundamentalismo”, e seus adjetivos, como um termo pejorativo – da forma como alguns na imprensa ou na política o utilizam. “Fundamentalismo” aqui refere-se especificamente ao movimento teológico conservador protestante, iniciado pelo teólogo e ministro presbiteriano Charles Hodge no Seminário Teológico de Princeton (nos EUA), na segunda metade do século XIX, como resposta ao modernismo/liberalismo teológico (minha própria tradição teológica) então dominante nas principais denominações protestantes norte-americanas. O movimento recebeu contribuições na obra de John Nelson Darby, e sua doutrina dispensacionalista, e, entre 1910 e 1915, centrou-se em torno da série de panfletos chamados “The Fundamentals” (Os Fundamentos), que – além de originarem o nome do movimento – ajudariam a estabelecer as cinco doutrinas sobre as quais o movimento se firmaria: [1] a inerrância das Escrituras; [2] o nascimento virginal de Cristo; [3] a morte expiatória de Cristo como única forma de salvação; [4] a ressurreição física e corporal de Cristo; e [5] a realidade dos milagres de Cristo e de seu retorno físico.

Diferentemente do que se poderia imaginar, ao se ouvir o termo sendo utilizado na imprensa hoje em dia, o “fundamentalismo” não era um movimento de ignorantes desinformados. Era justamente o contrário disso. Esse movimento teológico emergiu entre teólogos e ministros protestantes conservadores altamente instruídos, como uma resposta a teólogos e ministros liberais também altamente instruídos. A “teologia modernista (ou liberal)” era vista pela “teologia fundamentalista” como uma negação dos “fundamentos” do Cristianismo. O problema é que ambos os grupos entendiam que esses “fundamentos” se constituíam de diferentes coisas. Os liberais pregavam uma mensagem que se preocupava mais com as ações do que com os dogmas – o que nós liberais de hoje chamamos de “ortopraxia” –, isso fez com que, por exemplo, o “Evangelho Social” predominasse em seu meio. Os fundamentalistas, por sua vez, acreditavam que os liberais contribuíam para a dessacralização da fé cristã e, por isso, pregavam o que consideravam um “retorno à fé verdadeira”, ou seja, um retorno àquilo que entendiam como os dogmas essenciais do Cristianismo (aquelas cinco doutrinas que citei acima). Olhando para aqueles grupos com a distância de um século, vejo que ambos estavam certos e ambos estavam errados em alguns de seus princípios e conclusões!

A disputa entre esses dois grupos, que se iniciou na maior denominação Presbiteriana nos Estados Unidos durante as décadas de 1920 e 1930, mais tarde se alastrou para a maioria das denominações protestantes nos Estados Unidos e no Canadá. E como a maioria dos protestantes brasileiros estavam ligados, durante parte do século XX, às denominações em conflito nos Estados Unidos, a disputa foi copiada aqui. Pernambuco foi um importante centro nesse conflito, já que foi aqui que o movimento fundamentalista se organizou, sob a liderança do ministro Jerônimo Gueiros, a partir da década de 1940, no seio da Igreja Presbiteriana do Brasil. Posteriormente, a partir de 1956, o sobrinho do Rev. Gueiros, o também ministro Israel Gueiros (pastor da 1ª Igreja Presbiteriana do Recife) lideraria o movimento, que levou à fundação da Igreja Presbiteriana Fundamentalista do Brasil. As consequências, obviamente, seriam sentidas nas diferentes denominações Presbiterianas no país. O impacto da teologia fundamentalista alcançou grande parte das igrejas protestantes brasileiras além dos Presbiterianos (como alguns batistas, congregacionais, metodistas e muitos anglicanos evangelicais), especialmente no Nordeste.

Apesar das, inicialmente, claras distinções teológicas entre pentecostais e fundamentalistas, o “evangelicalismo neopentecostal” brasileiro conseguiu criar uma combinação das duas visões teológicas. E essa parece ter se tornado o consenso entre grande parte dos “evangélicos” brasileiros, ao menos a julgar por suas publicações e programas de rádio e televisão. Esse “consenso” derruba a distinção de tradições teológicas como a calvinista e a arminiana para os neoprotestantes. E para esses e os protestantes mais tradicionais, sem mencionar os não-protestantes (como o novo amigo que citei no início), esse “consenso” apaga qualquer rastro da existência de protestantes liberais como eu.

O que é mais perturbador, para mim, na maneira como os neoprotestantes são nutridos teologicamente por seus líderes é que se tornam inimigos da diversidade cristã (para não citar da diversidade humana), já que apenas sua forma de interpretar a fé é válida. Isso, obviamente, poderia ser apontado como a grande herança negativa do Fundamentalismo – todos os outros estão errados, menos “nós”, é seu refrão. Uma outra consequência negativa, ao menos para alguns grupos neoprotestantes, é o assalto à autonomia individual, especialmente no que tange à integridade intelectual do indivíduo. O controle do comportamento e crenças pessoais por líderes eclasiásticos entra em contradição com grande parte da herança da qual descendem alguns desses grupos - e poderia citar, mais especificamente, o exemplo dos batistas.

Por outro lado, esses neoprotestantes, apesar de sua não familiaridade com a teologia histórica e com a história da Igreja, praticam em sua vida um misto da ideia do “ethos protestante” de Weber (aparentemente tão presente na tradição fundamentalista) com o Evangelho Social pregado por Walter Rauschenbusch (tão presente na tradição liberal). Isso resulta num compromisso com a Bíblia e com publicações religiosas, mesmo que de maneira para mim equivocada, e consequentemente com o letramento do fiel – o que é importantíssimo para muitos desses grupos. Trata-se duma recriação teológica que tenho curiosidade de saber no que resultará em alguns anos.

Isso só para falar sobre uma família dos protestantes brasileiros. O Protestantismo brasileiro, como expliquei ao meu novo amigo no café esta manhã, tem muitas vozes e muitas faces – algumas mais numerosas, outras nem tanto. Batistas, assembleianos, presbiterianos, luteranos, anglicanos, metodistas, unitaristas, congregacionais, restauracionistas, etc, etc, etc. Nem todos são fundamentalistas, nem todos são pentecostais, nem todos são neopentecostais.

Particularmente, não sou parte de nenhuma das três famílias, mas considero a todos eles como meus “irmãos na fé”, da mesma forma como os católicos, os ortodoxos, e outros grupos cristãos (como considero a absolutamente todos os humanos como meus irmãos). Considerá-los como meus irmãos na fé, contudo, não apaga nossas diferenças, apenas incentiva-me a tentar construir pontes entres nós por meio daquilo que nos une.

Para concluir, devo afirmar que rejeito qualquer crença religiosa, qualquer fé, qualquer comunidade que seja um obstáculo à liberdade de minha própria consciência. Acredito que religião, especialmente aquilo que chamo de "Protestantismos" (no plural), não seja sinônimo necessário de prisão intelectual e de falta de autonomia individual. Logo, não tenho nenhuma tolerância para com o abuso à integridade individual como praticado em algumas comunidades ditas "evangélicas" ou "protestantes" no Brasil. Torna-se necessário redescobrir a diversidade protestante, a multiplicidade de vozes no seio protestante!

+Gibson