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domingo, 6 de janeiro de 2008

Orações a Um Deus Além do Teísmo Sobrenatural (2)

A crença no poder da oração continua a ser característico não apenas da prática cristã, mas também do judaísmo e do islã. A vasta maioria dos cristãos, judeus e muçulmanos vêem Deus como um ser sobrenatural – uma entidade toda-poderosa, onisciente, que esteja em algum lugar “lá em cima”. E sejam as orações dirigidas a Adonai, Alá, ou feitas em nome de Cristo, elas são vistas como um canal de comunicação com Deus.


Quando chove tanto que as encostas dos morros chegam a desmoronar, quando a seca atinge o ápice em nossa região, quando a violência atinge índice alarmantes (como agora), as pessoas caem de joelhos para pedir a intervenção de Deus, para suspender as forças da natureza ou para mudar a natureza humana, para efetuar um milagre. Agora, nesse exato momento, pessoas no interior daqui mesmo de Pernambuco, devem estar pedindo por uma solução para o problema da seca; e aqui na capital, devem estar implorando a Deus uma solução para o problema da violência urbana.


Agora, se, mesmo com todas essas orações, as encostas dos morros de algum bairro do Recife desmoronam e vitimam alguém, um avião cheio de passageiros cai, alguém é assassinado por um assaltante, algumas daquelas pessoas que oram começam a se questionar. Se Deus podia intervir, por que não o fez e preveniu o sofrimento? Talvez seja parte dos propósitos de Deus, mas por que os planos de um Deus de amor incluiriam tais sofrimentos? Por que Deus não respondeu as orações?


Alguém que escreveu, em nome de Paulo, uma carta à antiga comunidade cristã em Tessalônica cria profundamente na oração. Ouçam essas palavras que servem como nosso texto hoje:


1 Tessalonicenses 5:14-17

Por favor, irmãos: corrijam os que não fazem nada, encorajem os tímidos, sustentem os fracos e sejam pacientes com todos. Cuidem que ninguém retribua o mal com o mal, mas procurem sempre o bem uns dos outros e de todos. Estejam sempre alegres, orem sem cessar.


Orem sem cessar” foi o mandamento à antiga igreja. Oração constante era o que eu pensava ser essencial ao cristianismo quando eu era criança. Ficar sozinho, fechar os olhos em silêncio. Mas minha mente sempre esteve cheia de perguntas e dúvidas a respeito da oração. Eu sou um ministro, e vocês pensam que eu deveria entender muito de oração. A psiquiatra Ann Ulanov escreveu: “Muitos de nós sentimos que se temos orado por muito tempo, devemos ter progredido de certos estágios. Deve ter havido alguma grande iluminação”. Bem, isso certamente não aconteceu comigo.


Me consolo com a confissão do Bispo John Spong de que ele tem enfrentado o mesmo desafio. Ele já saiu em retiros de oração, fez cursos a respeito de oração, construiu um cantinho de oração em sua casa, leu tudo quanto é manual de oração – tudo sem muito sucesso. Ele disse: “Minha ambição era ser alguém que vivia com uma significante consciência do divino e que pudesse conhecer a paz que vem da comunhão com Deus”. Mas ele não encontrou essa paz.


Nunca me senti confortável com a noção de um Deus sobrenatural, outra confissão incomum para um ministro cristão, então obviamente a oração a esse Deus – ao menos da forma como tradicionalmente o cristianismo tem ensinado - tem sido um problema também. Durante minha adolescência comecei a buscar outras formas de rezar, outras formas de me sentir envolto pela consciência do divino, e como consequência, me afastei ainda mais das antigas noções de Deus.


Depois de sair do seminário e ser ordenado, e me envolver no ministério, eu abandonei completamente a crença em um Deus teístico, a crença num ser divino exterior e este mundo. Comecei a usar a palavra Deus com novos significados, que eu realmente poderia afirmar. Este foi o tema do meu sermão semana passada a respeito de um Deus além do teísmo sobrenatural.


Agora, eu sei que alguns de vocês se sentem confortáveis com as noções tradicionais de Deus como um ser sobrenatural. Não permitam que eu diminua isso. Se esse senso de Deus funciona para você, se compreensões tradicionais de oração faz sentido para você, então agarrem-se a essa fé. Aqui nesta igreja, não temos que concordar a respeito de todas as coisas.


Mas as noções tradicionais deixaram de funcionar para mim, e suponho que para muitos de vocês também. Como indiquei semana passada, penso que as visões tradicionais de Deus exibam um tipo de super-homem; alguém como eu, mas sem minhas limitações. Nesse tipo de imagem, Deus tem o que falta em nós – Deus é todo-poderoso porque nós não somos; Deus é onisciente porque não somos; Deus pode consertar aquilo que não podemos.


Oração a esse tipo de Deus tem se constituído basicamente em pedir aquilo que queremos ou pensamos precisar. Deus se torna Papai Noel a quem vamos com um lista de pedidos, um escravo de nossos caprichos.


Mas como disse semana passada, tenho uma nova compreensão de Deus. Eu reconheço que qualquer compreensão de Deus será envolvida em mistério, porque há tanto que desconhecemos. Entretanto, eu agora vejo Deus, não como um ser, não como uma entidade que resolve todos os problemas, mas como um processo, uma força, como “a” Força de Vida. Considero a linguagem de Paul Tillich de muita ajuda. Deus não é um ser singular, mas em vez disso é a Base de Todo Ser, Deus é o próprio Ser. Deus não está “lá em cima” em algum lugar, em vez disso, está no âmago de tudo que há.


Como disse o filósofo judeu Martin Buber: “Deus é a experiência de unidade que existe antes de nossas percepções serem divididas em categorias como espaço e tempo”. Deus é a energia criadora que possibilita a vida. Deus é o espírito ou presença eterna de amor que interliga todas as coisas vivas.


Mas como se orar à Força de Vida? Como se reza à Base de Todo Ser?


O Bispo John Spong é um dos vários teólogos a articular hoje o sentido de afirmar um Deus além do teísmo sobrenatural. E em minha opinião, ele desenvolveu um sentido novo e significativo do quem vem a ser a oração. Muito do restante deste sermão se desenvolveu a partir de seu livro de 2001, Um Novo Cristianismo Para Um Novo Mundo.


Ele disse: “Na fase mais tradicional e teísta de minha vida, eu desenvolvi um hábito de passar as primeiras duas horas do dia em oração e estudo. À medida que me movia além do teísmo para um entendimento pós-teísta de Deus, descobri que o compromisso de iniciar meu dia com esse período de duas horas não mudou, mas meu entendimento do que eu estava fazendo, sim - e dramaticamente”.


Ele continua: “A primeira mudança foi em relação ao que eu pensava ser a parte do dia dedicada à oração, que deixou de se restringir às primeiras duas horas e passou a incluir todo o resto do dia”.


Agora essa é a parte crítica para mim. Ele disse: “Minhas ações, meus compromissos com pessoas que enfrentavam problemas concretos – tudo passou a ser, para mim, o verdadeiro momento de oração. Minha oração começou a se identificar com meu viver, meu amar, meu existir, meus encontros, meus confrontos, minhas lutas por justiça, meu desejo de ser um agente de transformação do mundo. Era aí que eu me encontrava e comungava com Deus. Deus não me esperava mais nos lugares silenciosos de retiro - agora Deus estava no tumulto de uma vida de muita atividade e, às vezes, preocupação. Deus não estava nas rochas estáveis, mas na rápida correnteza”.


Ele continua: “Se a oração é o ato de me comprometer com Deus, e se Deus é a fonte da vida, então minha oração se tornou o momento de me comprometer com a vida. O modelo de oração criada por um teísmo que colocava Deus fora da vida – conceito que sugeria que deveríamos nos recolher da vida para orar ou alcançar a santidade – foi virado de cabeça para baixo”.


Aqui está a definição de Spong para a oração que eu abraço como minha. Usando suas palavras, é assim que eu entendo a oração. Oração é a maneira como eu vivo, amo, luto e ouso ser.


Spong disse: “O tempo que eu passava em meu escritório a cada manhã tornou-se preparação para oração, uma forma de me lembrar de quem realmente sou, de onde Deus está e como pode ser encontrado”. Percebem? Ele ainda passa aquele tempo de silêncio todos os dias, como eu faço, mas ele vê esse tempo como uma preparação para a oração, e não como a própria oração – e nos próximos dois sermões desta série, olharemos um pouco para a experiência da preparação.


Dorothee Sölle, uma teóloga da libertação alemã pela qual tenho grande respeito – falecida em 2003, escreveu certa vez: “A oração é uma preparação intensiva para a vida”. Não, orar é o viver a vida, e não uma preparação para ela!


John de Gruchy, um teólogo da libertação sul-africano escreveu: “A vida cristã, enquanto intensamente pessoal, é sempre comunal... A privatização da piedade enfraquece a vida cristã”. Ele entendia que a oração não é um ato privado feito em reclusão, mas é o que fazemos quando vivemos nossas vidas em comunidade. A comunidade de voluntários hoje em nosso programa de distribuição de alimentos estará orando ao servirem o alimento.


Dietrich Bonhoeffer, o ministro luterano executado pelos nazistas na Alemanha, disse certa vez: “Apenas aqueles que elevam suas vozes pelos judeus têm o direito de cantar cantos gregorianos”. Ele via a espiritualidade como ligada ao ativismo por justiça. Nós oramos com nossas vidas.


Karl Barth, um teólogo alemão conservador, disse: “Juntar as mãos em oração é o início de um levante contra a desordem do mundo”. Ativismo ligado à oração.


Dag Hammarskjold, um antigo Secretário Geral das Nações Unidas, de quem sempre se falou como sendo um místico moderno, disse: “Em nossa era, o caminho para a santidade passa pelo mundo da ação”. Orar é agir – viver, amar, lutar e ousar ser.


O Rabino Harold Kushner disse: “Enquanto muitos de nós vêem o mundo dividido entre o sagrado e o profano, tudo no mundo de Deus pode ser sagrado se percebermos seu potencial de santidade. Tudo que fazemos pode ser transformado em uma experiência do Sinai, um encontro com o sagrado”. A oração como a maneira como vivemos, amamos, lutamos e ousamos ser é, dessa forma, um encontro com o sagrado, a Força de Vida.


Deixem-me terminar retornando às palavras do Bispo Spong. Ele se vê como “portador de Deus”, dando testemunho de Deus, a Força de Vida, por meio da maneira como vive e age a cada dia. Ele disse: “Meu momento matutino me prepara mais adequadamente para ser portador de Deus... Também atesto que esse momento privado me capacita para realizar tarefas de maneira mais plena, apropriada e completa. Sei que sou modificado, aberto, sensibilizado e fortalecido para agir durante durante esse tempo reservado diariamente. Mas deixei de considerá-lo tempo de oração. Orar para mim é viver. Tempo de preparação é o tempo necessário para descobrir quem sou e quem Deus é dentro de mim, para que eu possa viver minha vida a partir desse conhecimento.


Ele disse: “Quando alguém pressupõe que eu não oro mais, como insistem os críticos religiosos, o que realmente estão querendo dizer é que eu não entendo nem pratico mais a oração da forma como eles o fazem. Não espero mais que uma divindade teísta trabalhe para mim, mas espero passar meus dias trabalhando pela expansão da vida, pela plenitude do amor e pela intensificação do existir. Isto é, espero realizar o trabalho de Deus – um Deus que creio ser real. Não defino esse Deus em termos de uma pessoa sobrenatural. Creio, contudo, que experiencio esse Deus quando sou agente da vida, do amor, e do existir para alguém. Pois o Deus que venero, que vejo em Jesus de Nazaré, é revelado em cada pessoa. Esse Deus é encontrado no existir de todos nós”.


Esse Deus me chama constantemente para ser a encarnação de seu amor, uma testemunha da realidade de sua própria vida. Consigo realizar isso trabalhando para aumentar ou intensificar a humanidade de cada pessoa, para libertar a vida presente em cada pessoa, para aumentar o amor disponível a cada pessoa e para celebrar o ser de cada pessoa. É através desses atos que consigo discernir a presença das pegadas divinas e ter a certeza de que Deus esteve nesse lugar antes de mim e, às vezes, por minha causa”.


Um Deus além do teísmo sobrenatural – Deus como a Força de Vida, como a Presença Eterna do Amor, como a Base de Todo Ser. E a oração, não como uma prática espiritual privada, mas como a maneira como vivo, luto e ouso ser. É virar as coisas de cabeça para baixo; noções radicais para um novo dia. Amém.


(Sermão pregado por mim em 2007, na Congregação Unitarista de Pernambuco)

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