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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Orações a Um Deus Além do Teísmo Sobrenatural (3)

O sermão de hoje é o terceiro em uma série de quatro a respeito da oração a um Deus além do teísmo sobrenatural. Esses sermões são mais abstratos e acadêmicos do que eu desejaria, mas não sei como olhar para esses assuntos de outra forma. Penso que os dois primeiros sermões foram os desafios mais radicais ao pensamento cristão tradicional que já fiz desde que cheguei aqui.


Lembrem-se que esta congregação tem insistido que cada membro é livre para fazer sua própria jornada religiosa. Eu simplesmente compartilho minhas próprias convicções aqui – vocês enfrentam a difícil tarefa de selecionar o que funciona para vocês.


Se a crença em um Deus sobrenatural que responde orações por meio de intervenções na experiência humana funciona para vocês, se agarrem a ela. Mas essa crença não funciona para mim. Então cheguei a uma nova compreensão de Deus e da oração.


Não concebo mais Deus em termos teísticos, significando Deus como um ser transcendente e imanente que é onipotente (ou seja, todo-poderoso), onisciente (conhecedor de todas as coisas) e onipresente (presente em todos os lugares ao mesmo tempo). Rejeitar o teísmo sobrenatural me torna um ateu? Não. Eu creio num Deus além do teísmo – um Deus que não está “lá em cima”, um Deus que não é nenhum tipo de ser.


Deus para mim é um processo, uma força, na verdade a própria Força de Vida. Concordo com o teólogo anglicano Don Cuppit que usa a palavra Vida com um “V” maiúsculo, em vez de Deus para se referir à força que está por trás de toda vida. Deus é para mim, na linguagem de Paul Tillich, a Base de Todo Ser. Uma amiga chama Deus de a força criativa que possibilita a vida; isso funciona para mim também. Ou Deus é o espírito ou a presença eterna do Amor.


No sermão da semana passada lancei a pergunta: Como oramos a uma Força de Vida? A oração tradicional imagina Deus como um ser todo-poderoso que ouve e responde orações. Mas eu luto com a idéia de por quê um Deus justo, todo-poderoso e amoroso interviria em alguns casos e em outros não. Por que tal Deus toleraria o sofrimento de uma criança? Por que Deus toleraria a perseguição de pessoas inocentes? Por que Deus permitiu que o holocausto nazista, e os genocídios na ex-Iugoslávia e na Ruanda continuassem?


Penso que muitas pessoas usam a oração como se estivessem enviando mensagens a um Deus-Papai-Noel que julga se fomos mal-criados ou bonzinhos. A oração se torna uma lista de compras das coisas que pensamos precisar. Isso não funciona para mim.


Semana passada, compartilhei com vocês uma definição de oração dos escritos do Bispo John Shelby Spong da Igreja Episcopal americana. Por anos, o Bispo Spong passou duas horas cada manhã estudando e orando. Ele agora vê aquelas duas horas como sendo uma outra coisa, e não como oração. Ele diz:


A primeira mudança foi em relação ao que eu pensava ser a parte do dia dedicada à oração, que deixou de se restringir às primeiras duas horas e passou a incluir todo o resto do dia... Minhas ações, meus compromissos com pessoas que enfrentavam problemas concretos – tudo passou a ser, para mim, o verdadeiro momento de oração. Minha oração começou a se identificar com meu viver, meu amar, meu existir, meus encontros, meus confrontos, minhas lutas por justiça, meu desejo de ser um agente de transformação do mundo. Era aí que eu me encontrava e comungava com Deus. Deus não me esperava mais nos lugares silenciosos de retiro - agora Deus estava no tumulto de uma vida de muita atividade e, às vezes, preocupação. Deus não estava nas rochas estáveis, mas na rápida correnteza. Se a oração é o ato de me comprometer com Deus, e se Deus é a fonte da vida, então minha oração se tornou o momento de me comprometer com a vida. O modelo de oração criada por um teísmo que colocava Deus fora da vida – conceito que sugeria que deveríamos nos recolher da vida para orar ou alcançar a santidade – foi virado de cabeça para baixo”.


Essa é a definição de Spong para a oração que agora abraço como sendo minha própria definição: A oração é a forma como vivo, amo, luto, e ouso ser. Temos uma experiência com Deus quando somos agentes de vida, de amor e do ser uns com os outros.


Mas então, o que são aqueles momentos de reflexão e meditação? Eles são a “preparação” para a oração. Spong disse: “O tempo que eu passava em meu escritório a cada manhã tornou-se preparação para oração, uma forma de me lembrar de quem realmente sou, de onde Deus está e como pode ser encontrado... Sei que sou modificado, aberto, sensibilizado e fortalecido para agir durante esse tempo reservado diariamente. Mas deixei de considerá-lo tempo de oração. Orar para mim é viver. Tempo de preparação é o tempo necessário para descobrir quem sou e quem Deus é dentro de mim, para que eu possa viver minha vida a partir desse conhecimento”.


O próprio Jesus se recolheu algumas vezes de um agitado ministério intinerante entre camponeses que sofriam com as exigências do Império Romano. Deixem-me ler três pequenas passagens do Evangelho de Marcos como nosso texto de hoje:


Marcos 1:12-13; 6:45-46; 14:32


Logo depois do relato do batismo de Jesus, o escritor de Marcos diz que Jesus se afastou sozinho: Em seguida o Espírito impeliu Jesus para o deserto, e Jesus ficou no deserto por quarenta dias, e lá foi tentado por Satanás.


Depois, entre relatos a respeito das pregações de Jesus a multidões perto do Mar de Capernaum, o autor de Marcos descreve um outro retiro: Logo em seguida Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e ir na frente para Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. Logo depois de se despedir da multidão subiu ao monte para rezar.


Finalmente, percebendo que sua prisão era iminente, Jesus escolheu o retiro: Eles chegaram a um lugar chamado Guetsêmani. Então Jesus disse aos discípulos: “Sentem-se aqui, enquanto vou rezar”.


Esses relatos implicam que Jesus encontrou nova energia ao se retirar à solidão reflexiva. De sua experiência inicial no deserto, Jesus emergiu com uma agenda de ação, dizendo em uma sinagoga em Nazaré: “O espírito de nosso Deus está sobre mim, pois Deus está me chamando para pregar as boas notícias aos pobres, libertar aqueles que são oprimidos, trazer liberdade aos cativos e recuperar a saúde aos doentes e feridos”. Usando estas novas definições, a vida de oração de Jesus era viver aquela agenda radical; a experiência do deserto foi sua preparação.


Da mesma forma, seu retiro solitário naquele monte galileu o renovou de maneira a permití-lo continuar orando – isto é, continuar seu ministério radical de amor e inclusão.


E ficar sozinho no Guetsêmani foi como ele encontrou forças para lidar com a execução que se aproximava.


Pensem a respeito de algumas pessoa modernas que buscavam a justiça. Dom Hélder Câmara, o já falecido arcebispo de Recife e Olinda, continuamente lutou por liberdade e oportunidades para os pobres daqui de nossa cidade.


Uma pessoa profundamente espiritual, Dom Hélder recusava usar uma limusine, preferindo pegar caronas ou tomar um ônibus. Era em conversas com aqueles que lhe davam caronas ou com aqueles que se sentavam junto a ele no ônibus que ele descobria as dores de seu povo. Dom Hélder se recusava a morar na mansão do Arcebispo, preferindo transformá-la em um centro para os pobres enquanto ele ocupava um minúsculo apartamento de um quarto atrás de uma igreja.


Ele ia para cama toda noite por volta das 23h00, e se levantava às 2h00 da manhã para duas horas do que ele via como oração e reflexão. Eu veria aquilo como preparação para a oração. Então ele dormia mais duas horas, se levantado para celebrar a missa das 6h00 naquela pequena igreja. As horas entre 2h00 e 4h00, que ele chamava de “vigília noturna”, proviam a energia e paixão que o inspiravam a subir e descer os morros para ministrar a seu povo. Os horas de preparação modificaram, abriram, sensibilizaram e fortaleceram-no para desafiar poderosas autoridades a favor dos pobres. O confronto era a oração; a reflexão era a preparação.


Uma outra pessoa que buscava justiça. Martin Luther King, sempre organizava um ofício religioso, cantando e orando, antes de sair em um grande protesto. O ofício de oração era a preparação, o próprio protesto era a oração.


O Rabino Abraham Heschel, um místico, se preparava lembrando de sua admiração por Deus e então ele orava com seus pés enquanto caminhava com Martin Luther King e protestava contra a guerra no Vietnã.


Há muitas maneiras de se experienciar a Força de Vida que é o Deus além do teísmo sobrenatural. Então as pessoas se preparam para a oração em uma variedade de formas igualmente significativas. As pessoas que frequentam nossos ofícios de oração celta se preparam por meio de um tipo particular de canto e ritual. Os que praticam meditação, se preparam de uma outra forma. Os muçulmanos que oram uns ao lado dos outros se preparam de outra forma.


A teoria dos tipos de personalidade desenvolvida por Carl Jung e os indicadores do teste de Myers-Briggs, demonstram de forma clara que todos temos diferentes personalidades. Pessoas introvertidas se dão bem com práticas calmas e meditativas, mas frequentemente têm de lutar mais com o ativismo da oração; pessoas extrovertidas se dão bem com o ativismo, mas têm de lutar mais com a parte preparatória, o lado mais calmo.


Não há uma forma correta de se preparar para a oração. Entretanto, deixem-me sugerir três elementos possíveis de preparação que se baseiam em conceitos tradicionais.


Penso que a ação de graças, a gratidão, precisa ser nossa preparação regular para a oração. A oração tradicional diria algo como: “Ó Deus, sou grato por...”. Ao ver Deus como uma Força de Vida, em vez de uma deidade pessoal, ainda podemos expressar ação de graças, talvez apenas focalizando nossa mente naquilo pelo qual podemos ser gratos. Isso inevitavelmente cria uma atmosfera que reduz um pouco de nosso estresse e nos convida a estender a mão a outros que possam precisar e que têm menos pelo qual possam ser gratos. Haverá ocasiões nas quais nos sentiremos menos gratos que outras pessoas, mas suspeito que todo dia a maioria de nós pode encontrar coisas pelas quais somos gratos. Eu, como Spong, tento separar um tempo a cada manhã para esta preparação. Não dou a esta preparação as duas horas que ele dá, mas tento incluir todos os dias a ação de graças como parte dessa preparação.


Também tento incluir a confissão, que tem sido um elemento importante na oração tradicional. Penso que muitos cristãos liberais frequentemente resistam a confissão. Tantas pessoas se feriram com as noções ortodoxas de pecado original, tantos foram forçados a se sentirem indignos pelas igrejas, que a noção de confissão se torna problemática.


Não é à idéias de indignidade e pecado original que me refiro quando falo em confissão. Vejo a confissão como uma avaliação regular de como estou em termos de oração – de viver, amar, lutar e ousar ser; de como estou em termos de transformar minhas experiências diárias em momentos de Sinai; de como estou em termos de experienciar o Deus além do teísmo sobrenatural enquanto busco funcionar como um agente de vida, amor e ser para outros.


Posso me envolver em confissão com facilidade, pois sei que não sou amaldiçoado com nenhum pecado original, mas sou tocado por uma benção original. Quando falho em algo, sempre há a possibilidade de renovação, de um novo começo. Experiencio o amor no âmago daquela Força de Vida que afirma que estou bem como sou e que posso encontrar Deus em oração enquanto estendo a mão a outras pessoas. Não há julgamento, apenas amor e aceitação.


Meu ritual diário inclui ação de graças, confissão e intercessão. Intercessão significa orar por outros, interceder em seu favor. Faço isso, mas de forma não-ortodoxa. Não espero que um Deus teístico responda adentrando a experiência humana.


Quando digo às pessoas que lembrarei delas em meus pensamentos e orações, realmente faço isso – mas, de fato, é em meus pensamentos e minha preparação para a oração. Se sei que alguem está sofrendo com uma doença, não pedirei que Deus cure aquela pessoa, mas elevarei aquela pessoa em meus pensamentos, em minha meditação, em minha preparação para a oração.


E fazer isso pode me levar a tomar uma ação que se torna a oração. Pode me levar a ligar para a pessoa ou visitá-la, ou fazer com que outros saibam a respeito da situação. E essas ações podem fazer uma diferença. Se uma pessoa sabe que uma comunidade está pensando a respeito dela, se importando com ela, isso transmite o tipo de força e energia que podem curar.


Nossa compreensão é muito limitada sobre como nos ligamos uns aos outros no nível espiritual, mas acredito ser possível que um senso de calma, esperança, possibilidade e energia venham a alguém quando essa pessoa está sendo lembrada amavelmente por outras pessoas – e isso não é Deus intervendo de uma maneira sobrenatural.


Eu tenho ocasionalmente usado a prática sagrada budista da Gentileza Amável em nosso ofício dominical. Em um outro sermão indiquei que aquela é a base corrente de minha própria preparação para a oração.


A intercessão por outros vem quando eu repetidamente uso as três linhas daquela prática, preenchendo os nomes daqueles que necessitam. Recentemente alguém fez algo que me deixou furioso. Eu estava inacreditavelmente bravo com aquela pessoa. Mas quando pus seu nome naquele mantra repetitivo da oração de Gentileza Amável e disse repetidas vezes: “Que fulano esteja seguro e livre de sofrimento, que fulano esteja feliz e em paz, que fulano esteja repleto de gentileza amável e que viva com facilidade”, passei a entender o por quê ele possa ter feito certas coisas e minha raiva diminuiu. Aquela prática, como uma preparação para a oração, pode me ajudar a me relacionar com aquela pessoa no futuro e a ação do relacionamento se tornará a própria oração. Isso é intercessão.


Semana que vem, no sermão final desta série, falarei a respeito das formas nas quais a meditação e a atenção podem ser importantes formas de preparação para a oração.


Sei que a noção de um Deus além do teísmo sobrenatural é um desafio. Sei que a noção da oração com a maneira como vivo, amo, luto e ouso ser é totalmente diferente do que fomos ensinados no passado. Sei que a noção de que momentos de silêncio, de reflexão contemplativa, não sejam oração mas preparação para a oração pode ser confusa.


Mas no final, para mim, estes conceitos são libertadores. Eles fazem com que seja possível que eu veja como a história de Jesus, o sábio campesino humano da Palestina, pode me guiar em ativismo de oração que me ligará à Força de Vida, que me ajudará a descobrir o que trás sentido e realização genuínos em minha vida.


É difícil abandonar conceitos confortáveis passados por gerações, mas não tenho escolha – simplesmente não posso mais acreditar em muitas das noções ortodoxas tradicionais. Meu coração não pode ser movido pelo que minha mente, meu intelecto, não pode aceitar. Então, estou animado com as possibilidades de me preparar para orar, e depois de orar com minha própria vida, a um Deus além do teísmo. Amém.


(Sermão pregado por mim, na Congregação Unitarista de Pernambuco, em 2007)
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