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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Cristianismo e violência homofóbica: respondendo a algumas provocações



“… se aperfeiçoem na prática da hospitalidade.” (Romanos 12:13)


Serei duro em minha resposta a algumas provocações que tenho recebido. Em hipótese nenhuma é minha intenção ferir qualquer um de meus leitores ou leitoras. Mas, a honestidade, às vezes, exige um tanto de rigidez.

Sim, é verdade que há muita falta de compaixão por parte de algumas igrejas e alguns fiéis cristãos para com diferentes grupos ou indivíduos que não se encaixem em suas expectativas. Essa falta de compaixão é, em minha compreensão teológica, pecaminosa, já que trai o espírito da mensagem do Evangelho.

Sim, é verdade que muitos indivíduos LGBT se sentem excluídos da comunidade cristã por conta da falta de compaixão de alguns que se declaram cristãos. Isso, para mim, é triste e inaceitável. Não acredito que pessoas tenham de mudar sua personalidade para sentirem-se respeitadas e protegidas enquanto seres humanos. Isso é algo que elas merecem pelo simples fato de serem humanas e de, na tradicional linguagem cristã, serem filhos e filhas de Deus.

Crer nisso, proclamar isso e viver isso, entretanto, não significa dizer que comunidades de fé (igrejas) não possam fazer exigências comportamentais de seus adeptos. Elas têm esse direito. A vida em comunidade só é possível sob acordos entre seus membros e, no caso de comunidades de fé, esses acordos baseiam-se sobre uma tradição teológica comum – partilhada se não por todos, pelo menos pela maioria.

Quando uma comunidade de fé, de qualquer tradição, acredita e ensina uma certa compreensão da sexualidade humana e das relações maritais que declare práticas homoafetivas como “pecaminosas”, ela não está, com base apenas nisso, sendo “homofóbica” ou cúmplice de “homofobia”. Está, apenas, vivendo suas próprias regras.

Em minha compreensão – e todos vocês sabem a partir de que posição falo nesse conflito –, e na compreensão da lei, a vida religiosa baseia-se, dentre tantas outras coisas, na voluntariedade. Em outras palavras, você só faz parte duma comunidade de fé à qual você queira se juntar. E essa – seja lá qual for – só recebe aqueles a quem queira receber. Uma igreja não é uma loja que venda “Deus” ou a “salvação – ou, pelo menos, não deveria ser –, é, antes, uma comunidade de fiéis.

Assim, mesmo eu sendo quem sou, e mesmo eu crendo no que creio no tocante ao valor e à dignidade humanos, não posso aceitar acusações generalizantes e falsas acerca de pessoas que não pensam como eu. Apesar de, para mim e para minha tradição de fé, a homossexualidade não ser um “pecado”, como o ensinam tantos outros cristãos, dizer que seja e exigir um comportamento “moral” que se afaste de “desejos e práticas homossexuais” não é sinônimo de “homofobia” – é, no máximo, sinônimo de ignorância e preconceito; mas se vamos falar sobre “ignorância” e “preconceito”, também deveremos falar sobre esses dois elementos na visão, declarações e comportamentos de certos ativistas.

Não é verdade que “todas as igrejas cristãs condenam a população LGBT ao inferno”. Na verdade, nem todas as igrejas cristãs pregam sobre o mito do “inferno” – algumas estão ocupadas demais pregando as boas novas de Jesus para se preocuparem com “o diabo”. Para nós, Deus é suficiente; não precisamos do diabo ou do inferno para nos preocuparmos com o serviço ao próximo e com a construção do Reino de Deus aqui e agora.

Sim, é verdade que as igrejas e movimentos mais belicosos no tocante a temas “delicados” como esse são as que têm maior audiência nos meios de comunicação. São elas que aparecem nos noticiários, que têm programas de TV, que vendem revistas nas bancas, e que elegem os tipos de legisladores de certas “bancadas” do Congresso. Elas, contudo, não são “o Cristianismo” – elas são uma parte apenas (a mais poderosa no Brasil atual, mas apenas uma parte).

O Cristianismo é multiforme e polifônico, assim, é injusto acusar-nos todos como coparticipantes duma visão teológica específica. Fazê-lo é não apenas reflexo de desinformação deliberada: é uma desonestidade imoral.

Aos que acreditam na retórica da não compaixão absoluta da Igreja cristã para com qualquer tipo de pessoa, convido-os a procurar com mais cuidado e atenção. Se de fato quiserem ser parte duma comunidade de fé onde possam se sentir bem-vindos, tenho certeza que encontrarão esse lugar. Só não se esqueçam de que da mesma forma como querem ser livres e ser respeitados, outras pessoas que, talvez, pensam de forma diferente da sua também o querem. É uma via de mão dupla! É o preço de construir comunidade!

Se precisar de ajuda em sua busca, ficarei feliz em ajudá-lo(a)!

Sinceramente,

Rev. Gibson da Costa

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Minha resposta ao “Unitarista Mineiro”


Caro “Unitarista Mineiro”,

Li o que você escreveu e confesso que não sabia exatamente por onde começar. Decidi, então, iniciar minhas observações por definições simples – como se deveria fazer em qualquer debate de ideias.

É importantíssimo deixar claro que a razão para a sua suposta “confusão”, em minha opinião, é possuirmos um background religioso/intelectual/sociocultural bem diferente – o que faz com que mesmo que utilizemos os mesmos termos, atribuamo-lhes sentidos muito distintos.

Você me acusa, por exemplo, de rejeitar “a verdade” sobre Deus, citando alguns textos publicados aqui e em um de meus livros. Mas o que lhe pergunto é: você realmente leu minhas perspectivas sobre “verdade” e sobre “Deus”? Os argumentos que você utiliza como apoio às suas observações sugerem que você não tenha lido atentamente aqueles textos – parece, na verdade, ter apenas lido alguns comentários feitos por outros acerca do que eu supostamente penso (comentários esses que se tornaram comuns em alguns meios ditos “evangélicos”). Para mim, seria muito mais interessante dialogar sobre o que escrevi com alguém que tenha, de fato, lido o que escrevi.

Muitas vezes não escrevo de forma tão direta ou objetiva quanto alguns querem pelo simples fato de Deus e fé, por exemplo, não serem temas objetivos, quantificáveis, metrificáveis. Não acredito num Deus que possa ser pesado, metrificado, analisado sob as lentes dum microscópio, já que Deus não é – em minha experiência e compreensão – um objeto! Se uso uma linguagem provocadora é porque, no meu meio religioso e sociocultural, essa é mais compreensível – além de a mesma ser uma marca de minha personalidade. Por isso posso dizer que “não posso acreditar em Deus” – porque a maioria de meus leitores, provavelmente, compreendem minha escolha da metáfora como instrumento para falar sobre certos conceitos teológicos. Quando digo isso, eles entendem que estou fazendo uma crítica ao uso de certos conceitos acerca de Deus com os quais não concordo plenamente.

Sua tática de atacar minha vida pessoal é a menos merecedora de comentários, mas a comentarei assim mesmo. Não o conheço pessoalmente, o que implica que você também não me conhece pessoalmente – se alguma vez, mesmo que improvavelmente, tenhamos estado fisicamente no mesmo local, isso não significaria que você me conheça. Posso citar exatamente as fontes de seus comentários, onde estão e quem os fez originalmente (pessoas, a propósito, que também não me conhecem e que encontraram em teorias da conspiração uma forma infeliz de lidar com a pluralidade religiosa no mundo!).

O joguete de deslegitimar a opinião dum “oponente” com base em acusações contra sua vida pessoal – em meu caso explícito, com base em minha vida eclesiástica – é tão antigo quanto imoral. Foi usado no meio político romano; foi usado nos primórdios da Igreja cristã; foi usado ao longo das eras; e é, infelizmente, ainda usado em nossas sociedades ditas pós-modernas. Meu apelo é à civilidade: se você discorda de minhas ideias ou das ideias teológicas que defendo, ataque-as e não a mim – é isso que faço e que continuarei a fazer, se discordo de algo ou de alguém (deixo os ataques pessoais para as crianças que ainda estão aprendendo a viver em sociedade, e para aqueles que não se esforçam em percorrer a trilha da compaixão).

Sua mensagem é tão incoerente em termos conceituais que não consegui entender se você tenta se identificar como um “unitarista bíblico” ou como um “unitário-universalista”. Esses dois conceitos são contraditórios, mas você defende a ambos simultaneamente! Eu, pessoalmente, não me identifico como nenhum dos dois! Sou, eclesiasticamente, um unitarista – o que identifico, em minha experiência de fé e prática, como um “cristão liberal” herdeiro da tradição unitarista anglófona. Não tenho o mínimo interesse em definir o que isso seja para qualquer outra pessoa – seja membro de minha própria comunidade de fé, seja para alguém de fora. Assim, se você se diz um “unitarista”, mesmo que seu discurso esteja muito alheio à minha tradição e mesmo que você se mostre desinformado quanto à mesma, esse é seu direito – o que eu teria a ver com isso?… Mas, se você escreve para um Ministro de uma igreja unitarista, tentando ensinar-lhe sobre a tradição que você aparentemente desconhece, então você tem de estar preparado para uma resposta que talvez não lhe agrade muito!

Nunca menti sobre [ou omiti] minha história eclesiástica aos meus leitores (nem, muito menos, aos meus paroquianos!). Sempre deixei claro que tenho uma múltipla herança religiosa, já que venho de família multirreligiosa. Sou um unitarista-anglicano, com ligações também às tradições luterana, congregacional, restauracionista e quaker. Além de herdeiro do Judaísmo Reconstrucionista.

É óbvio que alguém com minha experiência religiosa e minha formação teológica não poderia pensar como você pensa acerca da Divindade. Em nenhuma das tradições que me formaram como ser religioso há o predomínio duma visão de Deus, da Bíblia, de Jesus como a que você afirma ser “a verdadeira”. Logo, eu estou sendo “verdadeiro” e “honesto” para com minha própria tradição de fé – que é, em si mesma, polifônica.

Não direi a você no que deve acreditar. Direi, sim, no que acredito eu. Acredito e confio na Realidade de Deus. Sobre essa Realidade, é dito nas Escrituras que é amor. Quando enfatizo essa definição de Deus, alguns insistem que com isso queira dizer que não há “certo” ou “errado”: estão errados – quando digo isso, apenas enfatizo minha compreensão das Escrituras e tradições judaico-cristãs que apontam Deus como cerne da compaixão capaz de nos tornar “humanos”, como “elemento” indispensável na construção das relações entre os seres humanos (os “filhos/as de Deus”). Meus leitores e ouvintes, incluindo você, podem construir suas próprias interpretações de minhas palavras para si, mas – com todo respeito – não podem querer dizer a mim o que minhas palavras devam significar!

Apesar de nossas discordâncias, continuarei a mantê-lo em minhas orações e, humildemente, peço o mesmo de você.

Respeitosamente,

Rev. Gibson da Costa

sábado, 9 de abril de 2016

Esta manhã, bebi água de coco com Deus


Mais uma vez, me perguntam se creio em Deus. Mais uma vez, lhes digo que não sei o que querem dizer. O que significa dizer “Creio em Deus”? Quando alguém diz que crê em Deus, não me diz nada sobre a Realidade Divina, me diz apenas sobre si próprio(a). Ele(a) me diz sobre o que faz, e não sobre a Realidade na qual “crê”.

Ultimamente têm me perguntado em que “Deus” creio: se meu “Deus” era o mesmo da Bíblia; se o meu “Deus” era o mesmo de Joseph Smith; se o meu “Deus” era o mesmo do Corão; ou se era ateu. A verdade é que alguns leitores parecem ter uma obsessão com minha “falta de claridade em definir” minha crença. E eu que sempre imaginei que o que escrevo aqui e que a forma como discuto minha fé – aqui, no púlpito ou em outros espaços – fossem suficientemente claros ou, pelo menos, sugestivos de minha visão teológica (e teontológica)!

Como já escrevi inúmeras vezes, a forma como encaramos questões sobre aquilo que chamo de “aspecto misterioso” da realidade é condicionada pela forma como compreendemos o resto da realidade. Se alguém se preocupa tanto em querer uma definição objetiva sobre quem ou o quê seja o Divino, ao menos em minha visão, é porque tem uma compreensão de “verdade” diferente daquela que abraço.

Para que eu fosse capaz de definir Deus nos termos utilizados por alguns daqueles que me fazem aquele tipo de pergunta, teria de compreender a Divindade como uma entidade objetiva, mensurável, antropomorfa. Essa, entretanto, não é a forma como compreendo “Deus”; é a forma como compreendo você e eu, mas não a Divindade. Logo, aquela pergunta não faz sentido pleno para mim.

Mas se querem tanto saber quem é Deus, para mim, posso lhes garantir que somos relativamente próximos. Na verdade, nos sentamos esta manhã à bancada dum quiosque no calçadão da praia e tomamos uma água de coco gelada, enquanto falávamos sobre sua vida. Como ele estava cansado, ofereci-me para acompanhá-lo até seu edifício, dois quarteirões dali. Ele está, afinal, com quase oitenta anos!... Naquele momento, Deus era, para mim, um homem idoso que me contou suas memórias sobre a exploração imobiliária em seu bairro, e sobre como sua vida estava após a morte de sua esposa (com quem fora casado por cinquenta anos). Conversar com aquele homem foi sentir Aquela Presença que chamo de Deus.

Essa é uma das formas como compreendo “Deus”. Minha fé exige que eu enxergue o Divino em outras pessoas, e que aja para com elas como se elas fossem o “próprio Deus” – algo que parece bem mais difícil do que “acreditar” numa ideia específica do que ou quem seja Deus.

Como a metáfora bíblica do homem ter sido criado “à imagem e semelhança” de Deus é essencial para minha compreensão teológica, amar o ser humano é amar a Deus, e ser violento para com o ser humano é negar o próprio Divino. Assim, para mim, nossa fé em Deus define-se, na verdade, através da forma como nos relacionamos com “sua imagem e semelhança” entre nós: o que inclui as outras pessoas e nós mesmos, além do resto da Criação.

Há variadas formas de compreender o Divino, e todas elas podem ser úteis em diferentes contextos. Mas, na maioria das vezes, Divindade, Presença e Realidade são minhas metáforas favoritas para falar acerca de [daquela outra metáfora] “Deus”.

+Gibson

domingo, 27 de março de 2016

O Jesus que salva: notas sobre temas pascais, dum ministro unitarista


A Paixão comercializada

Como muitos sabem, sou um cinéfilo e, como tal, tendo a não apenas assistir a muitos filmes assim como também a me envolver em conversas sobre eles com meus amigos. Hoje, lembrei-me das acirradas discussões que tivemos, em 2004, acerca do filme A Paixão de Cristo [The Passion of the Christ], de Mel Gibson. Lembro-me que quando o filme foi lançado nos Estados Unidos, centenas e centenas de igrejas cristãs das mais diferentes tradições organizavam idas coletivas ao cinema para assisti-lo. Para muitas daquelas pessoas aquele parecia ser um exercício espiritual, uma forma de experiência sacramental na qual se efetuava um encontro com Cristo. Eu, contrariamente, senti-me majoritariamente ofendido tanto pelo filme quanto pelo que percebi como uma comercialização explícita da fé. [De certa forma, não tão diferente do que ocorre hoje, no Brasil, com o filme Os Dez Mandamentos, de Alexandre Avancini, e não tão diferente do que ocorre com a Paixão de Cristo, de Nova Jerusalém, em Pernambuco.]

As críticas que fiz em 2004, em conversas informais e no púlpito, ainda são válidas. Quando a fé cede à força do consumismo, corre-se o risco de abrir mão do que há de mais belo na tradição, e de deixar de encontrar novos sentidos para o encontro com o Divino. Transformar as narrativas das tradições sagradas em mercadoria que possa ser vendida e comprada, num entretenimento fomentador duma “religiosidade” imediatista, é baratear a experiência com o Divino e, portanto, consigo mesmo – e para mim, como um unitarista, tal tipo de experiência (com o Divino e/ou consigo mesmo) deve envolver tanto as emoções quanto a razão.

Será, então, que filmes, a seleção de astros e estrelas do cinema ou da TV, e o merchandising produzido para acompanhá-los, são realmente feitos com a finalidade primordial de servirem de testemunho religioso e para a “edificação espiritual” dos espectadores?... Eu, com todo respeito às experiências de outras pessoas – e mesmo acreditando firmemente que toda e qualquer experiência possa ser espiritual –, duvido disso! Por mais que as obras possam, sim, ser utilizadas como instrumentos pedagógicos para a espiritualidade de alguém, e por mais que o trabalho dos participantes seja belo, agradável, inspirador e merecedor de reconhecimento, a forma como essas obras muitas vezes são promovidas pode contribuir para a espetacularização duma compreensão literalista da tradição cristã – se foram divulgadas, como muitas vezes o são, como expressão da “verdade da fé”.


A diversidade do Cristo

A observação aparentemente incompassiva que faço sobre esses tipos de entretenimento relaciona-se com as diferentes compreensões que os diferentes cristãos abraçam acerca de sua própria fé. Ela não reflete uma verdade inquestionável; reflete, antes, minhas percepções particulares. E as cito aqui por terem sido tema de conversas que mantive esta semana com amigos e paroquianos. Tenho sempre dito que a diversidade de compreensões na grande tenda da tradição cristã é o que a torna fascinantemente bela para mim. Essa diversidade é o que faz com que me refira a “Cristianismos”, no plural, em vez de “Cristianismo”, no singular. As diferentes tradições teológicas cristãs oferecem as mais variadas compreensões acerca dos mais variados temas, incluindo os concernentes à vida, ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus – temas tão importantes para as diferentes celebrações do calendário da Igreja cristã, como a Páscoa.

Apesar de ser um cristão unitarista – e, por isso, poder ser visto pela maioria como um “heteredoxo” ou “herege” – e, assim, não poder concordar com aqueles meus irmãos cristãos que chamam Jesus Cristo de “Deus”, concordo com o que eles possivelmente queiram dizer quando o identificam dessa forma. Como afirmado pelo unitarista Rev. James Freeman Clarke, em 1841, em Jesus também identifico uma manifestação de Deus. Nele encontro Deus reconciliando o mundo a Si. Em Jesus encontro uma imagem do Deus invisível que não encontro de forma tão explícita em ninguém ou nada mais. Desta forma, as palavras, atos e caráter atribuídos a Jesus Cristo são as palavras, atos e caráter [que atribuo à minha compreensão] de Deus. Como um cristão, posso dizer que ver o Jesus retratado pela Tradição é ver Deus [¹]. Nesse aspecto, pelo menos, como um unitarista, compartilho da fé professada por cristãos de outras expressões – mesmo aqueles que me acusam de heresia e/ou apostasia.

É minha convicção que todas as nossas compreensões da Divindade só podem ser parciais. Nossas ideias sobre Deus e sua relação com a criação – o que inclui nossas ideias sobre Jesus – são contextuais e relativas; isto é, dependem de quem somos e de nossos contextos pessoais e/ou comunitários, sincrônica e diacronicamente considerados [*]. Assim, se você tiver mais de 35 anos, como eu, já deve ter percebido que suas compreensões acerca da Divindade – para não citar aquelas acerca do mundo ao seu redor – mudaram ao longo do tempo. Essas compreensões provavelmente emergiram do encontro entre suas experiências com o Divino e as coisas que você aprendeu sobre o mundo, das ideias teológicas/filosóficas/políticas/científicas às quais foi exposto(a), das comunidades de fé às quais se juntou, dos livros que leu, das pessoas com as quais conviveu ou conheceu, dos desafios que enfrentou, enfim, das suas experiências de vida. Por mais imutáveis que possam parecer nossas diferentes formas de fé religiosa, elas, na verdade, não o são.

Além dessa mutabilidade característica de nossas ideias pessoais, também não se pode desconsiderar a mutabilidade das ideias ensinadas pelas diferentes tradições de fé – o que inclui as diferentes comunhões/denominações cristãs ao redor do mundo e ao longo do tempo, em comparação com as demais e com as diferentes expressões em seu próprio interior. Assim, nunca poderemos conhecer plenamente todas as compreensões cristãs possíveis acerca da própria tradição cristã – a não ser, obviamente, que sejamos suficientemente arrogantes para supor que nossa expressão de fé seja a única “verdadeira”, que apenas a nossa tradição seja “a verdade” de Deus. Nós unitaristas tradicionalmente rejeitamos a essa visão – e eu, pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia para com qualquer dogmatismo exclusivista, seja relativo ao(s) próprio(s) Cristianismo(s), seja no que tange à sua relação com outras tradições religiosas.


Jesus vive e salva

No(s) Cristianismo(s), a ideia de “salvação” relaciona-se diretamente à pessoa de Jesus Cristo. Dependendo da compreensão que se tenha sobre a identidade de Jesus e do sentido de sua morte e ressurreição, se professará uma compreensão soteriológica – isto é, de como ocorre/opera-se a “salvação”. Assim, não há uma visão única do sentido da Páscoa cristã, como, por exemplo, o filme de Mel Gibson ou as diferentes representações populares da “Paixão” Brasil afora poderiam sugerir; há diferentes formas legítimas de compreender Deus, Jesus Cristo, o Espírito Santo, a Páscoa, a salvação etc.

O falecido teólogo e professor Marcus J. Borg, sob quem tive o privilégio de estudar e aprender muitíssimo, discute, num de seus mais populares livros [²], três das grandes tradições teológicas cristãs acerca da morte e ressurreição de Cristo – discutidas pelo teólogo e bispo luterano sueco Gustaf Aulen, num livro publicado em 1931 [**]. A primeira dessas compreensões, chamada, em latim, de Christus Victor [Cristo Vitorioso], mantém uma relação com a narrativa bíblica do êxodo e aponta como a mais importante obra de Cristo sua vitória sobre aquilo que escraviza a humanidade, incluindo o pecado, a morte e o “diabo”. A segunda é chamada de substitutiva ou objetiva, para a qual a morte de Cristo é um sacrifício que possibilita o perdão de Deus, e na qual essa morte é enxergada através da narrativa sacerdotal/sacrificial. A terceira, correlacionada à narrativa do exílio, retrata a Jesus nem como alguém que triunfe sobre o que nos escraviza nem como um sacrifício pelos nossos pecados, mas como um revelador da verdade [***] – isto é, como revelador de Deus, como luz que nos salva da escuridão do exílio, de sua morte e ressurreição como uma revelação do caminho de retorno, como uma revelação do “processo espiritual interno que nos traz a uma relação experiencial com o Espírito de Deus”; ou seja, Jesus é compreendido como a encarnação do caminho de retorno do exílio. [³]

Não é necessário um grande conhecimento de História da Igreja para perceber qual conjunto de compreensões acima parece ser dominante tanto no meio cristão quanto na compreensão que a sociedade como um todo tem do(s) Cristianismo(s). A narrativa sacerdotal – aquela que vê a morte de Cristo como um sacrifício necessário ao perdão da humanidade por Deus, de forma substitutiva (em lugar de outros), isto é, que Jesus teria carregado sobre si a culpa dos pecadores e sofrido a pena que mereciam (a morte) – está explícita na maioria das representações da morte de Jesus (nos hinos, nas declarações de fé, nos sermões, nos filmes, nas peças teatrais etc). Apesar de essa linguagem sacerdotal/sacrificial já estar presente no próprio Novo Testamento, essa compreensão só se tornou dominante na Igreja ocidental a partir duma obra escrita por Anselmo, Cur Deus Homo?, de 1097. Ela resgata e cristianiza não apenas as antigas ideias sacrificiais de tradições religiosas mais antigas, mas também as ideias e linguagem do Direito Romano.

Obviamente, a linguagem sacrificial e legalista utilizada para se referir ao Divino em sua relação com a Criação – quando, por exemplo, se afirma que Deus exigiria a morte dum inocente para que sua ira não se voltasse contra a humanidade pecadora – é uma compreensão legítima da fé cristã. Essa é, também, a compreensão oficial da maioria das tradições cristãs ocidentais. Mas isso não muda o fato de que, para mim, é uma compreensão repulsiva. Pessoalmente, me recusaria a adorar uma deidade que expressasse “seu amor” através da exigência de sacrifícios de sangue – e isso porque, se esse fosse o caso, eu seria mais compassivo que essa deidade. Logo, a linguagem metafórica do “sacrifício” e do “sangue” não apela à minha espiritualidade nem à minha integridade intelectual – independentemente de onde se encontre e de quem a tenha utilizado. Tenho de utilizar outras imagens para me referir ao meu encontro com o Divino.

Como a metáfora do exílio é cara à minha compreensão do Divino – porque apela às minhas próprias experiências de vida –, você pode imaginar qual daqueles conjuntos de compreensões molda minha visão daquilo que é celebrado na Páscoa. Como tenho afirmado muitas vezes, compreender a fé cristã como uma Jornada ou um Caminho é muito importante para a forma como compreendo e falo sobre minha fé. Jesus, em minha compreensão, me salva não por ter sido imolado como sacrifício por meus pecados, mas porque os ensinamentos e as ações que lhes foram atribuídos me mostram o Caminho para Deus, e guiam minha Jornada.

Esse Jesus humano, que possivelmente experienciou muitas das limitações e desafios que eu mesmo experiencio – independentemente de quão factuais ou não factuais sejam os relatos a seu respeito –, é meu Salvador por ser minha janela para a “face de Deus” e minha porta para sua presença. É por isso que sou um cristão, é por isso que celebro a Páscoa. Jesus é meu Salvador porque a tradição a seu respeito faz com que queira abandonar minha indiferença ao sofrimento de migrantes paralegais e refugiados. Ele é meu Salvador porque as narrativas a seu respeito me fazem querer ser mais preocupado com os que sofrem rejeição por não corresponderem às minhas próprias expectativas. Ele é meu Salvador porque o que se diz a seu respeito me faz crer que tenha materializado o amor à humanidade de forma plena – e, assim, me ensina que essa é a única forma de “amar” o Eterno.

Hoje celebro a salvação oferecida pela companhia do homem Jesus em minha Jornada rumo a Deus. Jesus, refugiado, pobre, rabino compassivo e não sofisticado, profeta rejeitado, filho de Deus, Salvador de minha fé e de minha relação com a humanidade.

Ele verdadeiramente vive. Aleluia!

“Cristo nasce em nós quando abrimos nossos corações à inocência e ao amor. Cristo vive em nós quando caminhamos a senda do perdão, reconciliação e compaixão. Cristo morre em nós quando nos rendemos à nossa própria arrogância, egoísmo e ódio. Cristo ressuscita em nós quando nossas almas se despertam da morte espiritual para se unirem à comunidade de amor, para entrar no reino divino aqui mesmo neste mundo. Saiamos em paz. Amém.”



Notas:

[*] Considerar algo de forma sincrônica significa considerá-lo(a) através de seus diferentes aspectos. Considerar algo de forma diacrônica significa vislumbrá-lo(a) através do seu desenvolvimento ao longo do tempo.

[**] A tradução em inglês é referenciada pelo próprio Borg: AULEN, Gustaf. Christus Victor. Tradução ao inglês de A. G. Hebert. Nova York, EUA: Macmillan, 1969. [Originalmente publicado em 1931.]

[***] Aulen a chamara de subjetiva, mas Borg não concordava com a forma como o teólogo sueco a descrevera.


Referências

[1] CLARKE, James Freeman. The Well-Instructed Scribe, or, Reform and Conservatism: A Sermon Preached at the Installation of Rev. George F. Simmons, and Rev. Samuel Ripley, as Pastor and Associate Pastor Over The Union Congregational Society in Waltham, Mass. October 27, 1841. Boston, EUA: Benjamin H. Greene, 1841. p.11.

[2] BORG, Marcus J. Meeting Jesus Again for the First Time: the Historical Jesus & the Heart of Contemporary Faith. Nova York, EUA: HarperCollins, 1994.

[3] Ibid., p.128.


sexta-feira, 4 de março de 2016

Escrituras Sagradas: uma resposta a algumas perguntas levantadas por um amigo ao meu sermão de 28 de fevereiro


Permita-me iniciar dizendo que é necessário, muitas vezes, fazer um exercício de mudança de perspectiva para que possamos construir uma compreensão das crenças de outras pessoas – isto é, quando saímos de nossa própria posição e nos esforçamos para observar algo a partir da posição de outra pessoa, podemos compreender melhor sua visão. Quando, por exemplo, disse o que disse sobre o tema em discussão, estava apenas demonstrando minha compreensão de que minha própria perspectiva não é a única possível – afinal, não posso esperar que todas as pessoas pensem da mesma forma que eu, seja sobre religião, seja sobre qualquer outro assunto.

Interpretar as Escrituras de forma metafórica não é “equivalente a se afastar da Tradição cristã”. A visão de que as Escrituras devam ser interpretadas literalmente por terem sido factualmente ditadas por Deus e por serem sinônimo de “história factual” é uma compreensão moderna tanto de “inspiração” quanto de “história”; uma compreensão que emergiu como resposta ao chamado “Iluminismo”. Assim, é essa visão que se afasta da Tradição, quando abandona a possibilidade de interpretações metafóricas dos textos sagrados, engessando, assim, o sentido do texto a uma interpretação rígida – e não o contrário.

Mas já tratei tanto disso tanto na igreja quanto aqui, que seria repetitivo se abordasse a mesma questão mais uma vez. Contudo, posso explicitar mais diretamente minha visão teológica pessoal sobre “Escrituras”, no contexto da discussão sobre canonicidade que abordei naquele sermão.

Como já deve ser bem conhecido, não compreendo a sacralidade/canonicidade das Escrituras como decorrente duma origem divina, mas, sim, como decorrente dum processo humano de legitimidade da Tradição – visão essa, a propósito, que é dominante em nossa comunidade de fé. Assim, a “Bíblia” não é texto sagrado porque suas palavras foram ditadas por Deus a profetas, mas, antes, porque aqueles conjuntos de textos passaram por um processo de “canonização”/”sacralização por parte das comunidades que os aceitaram como texto sagrado.

Esse mesmo processo esteve presente não apenas nas comunidades [proto-]ortodoxas judaicas e cristãs que proclamaram a Bíblia como Escritura. Processos semelhantes também marcaram a origem de textos sagrados de outras tradições de fé, como o [Al]Corão, o Livro de Mórmon, e Doutrina e Convênios – que foram os textos sobre os quais discuti em meu sermão –, assim como os textos sagrados de outras tradições que não abordei. Assim, esses textos são, sim, sagrados; são, sim, Escrituras. Podem não ser Escrituras sagradas para você ou para mim, mas o são para os adeptos das tradições que os consideram sagrados – e isso é suficiente para que eu me refira a eles como “sagrados”.

A Bíblia é, para minha própria compreensão e experiência de fé, um conjunto de textos sagrados. Apesar de não compreendê-la, necessariamente, como relato factual nem da história humana nem divina, ela é a base de minha compreensão de fé. E isso ocorre porque minha fé – uma expressão do(s) Cristianismo(s) – é uma fé “do Livro” (como, a propósito, a ela se refere a tradição islâmica). Isto é, o(s) Cristianismo(s), assim como o(s) Judaísmo(s) e o(s) Islã(s), é uma tradição construído ao redor de textos religiosos que foram sacralizados pela comunidade de fé.

Assim, aqueles textos que abordei em meu sermão – o Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios (ambos, como editados pela Comunidade de Cristo); e o [Al]Corão – são Escritura Sagrada, apesar de eu não acreditar que tenham uma origem factualmente divina, se por isso quiser dizer que foram ditados por Deus a seres humanos ou que tenham caído miraculosamente do céu, ou que anjos os tenham depositado em mãos humanas. Também não acredito nisso no que concerne à Bíblia!... Isso, porém, não muda em nada seu status canônico para aqueles que os aceitam como Escritura – não muda, pelo menos, minha aceitação da Bíblia como Escritura Sagrada. Para entender minha posição, você só precisa se lembrar de onde emerge a “sacralidade”, em minha compreensão: da Tradição construída, vivida e transmitida pelo corpo de fiéis – isto é, para mim, a fé religiosa tem uma história; ela é a resposta humana ao seu encontro com o Divino. As Escrituras são a resposta dada por diferentes autores, em diferentes lugares, em diferentes línguas, a partir de diferentes experiências culturais e espirituais ao Mistério que eu chamo de Deus.

Reconhecer e considerar como legítimas as experiências e perspectivas de outras tradições não diminui minha crença em minha própria fé. O que faz é ampliar minha compreensão tanto da humanidade quanto da Divindade. Obviamente, ainda discordo das compreensões de fé que colidem com as minhas próprias – e continuarei a criticá-las, se necessário –, mas isso não significa que me recusarei a reconhecer a “verdade” quando ouvi-la a partir da voz de outra tradição. É uma questão tanto de maturidade quanto de integridade intelectual.

Grande abraço!

+Gibson

sábado, 30 de janeiro de 2016

Somos inimigos por discordarmos em nossas crenças?




[*Correção da tradução: “Apenas um estranho no ônibus, tentando fazer seu caminho de casa” → “...tentando voltar para casa”.]


Sempre serei grato por duas pequenas [grandes] coisas que me foram ensinadas desde cedo: 1) que podemos pensar/acreditar de forma diferente de outras pessoas – essa é uma liberdade concedida por Deus e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos; 2) que ninguém é meu inimigo simplesmente por discordar de minhas posições/crenças, e vice-versa.

Sendo quem sou, é difícil não olhar para o mundo ao meu redor sem me lembrar dos chamados “conflitos religiosos” que têm marcado a história humana. As aspas (“ ”), a propósito, indicam minha discordância com a adjetivação daqueles tipos de conflito que tão prontamente indicam como “religiosos”: isso porque chamá-los de “religiosos” implica num reconhecimento, mesmo que involuntário, ou de que a “religião” (que muitos interpretam como sendo uma “religação” ou “retorno” ao Divino) seja um fenômeno fundamentalmente violento, ou de que a violência possa ser legitimamente designada como “religiosa” (ou seja, que possamos nos relacionar com o Divino por meio da violência) – eu, obviamente, rejeito as duas premissas.

Observando o que tem ocorrido ao meu redor, não posso deixar de perceber o quão difícil é ver aqueles dois princípios que me foram ensinados sendo aplicados no mundo, e o quão difícil é manter a lealdade a eles. Isso porque hoje, mais do que em qualquer outra época em minha relativamente curta vida, pensar/crer diferentemente de outros parece ser encarado como uma ameaça beligerante – seja em termos de fé religiosa, em termos de política ou de qualquer outra coisa.

Pessoalmente, aprecio muito a diversidade do [e no] mundo. Prefiro uma realidade multicolor à bicoloridade que alguns impõem ao mundo. Tudo é muito mais “belo” por haver cores, formas, sons, aromas, crenças diferentes. A vida espiritual é muito mais rica por haver milhares de formas diferentes de compreender a relação entre o “objetivo” e o “misterioso”, entre a “Criação” e o “Criador”. Mesmo o Cristianismo é muito mais belo, e muito mais vivo, justamente por haver centenas de formas distintas de compreendê-lo e de praticá-lo.

Quando olho para essa diversidade e me reconheço como um dos elementos para as diferenças de tonalidade, não posso ver outras pessoas como minhas inimigas – por mais que discorde de suas crenças e, intelectualmente, as critique. Como eu, no que tange à experiência “religiosa”, elas são viajantes numa trilha de descoberta do Divino. Elas mesmas podem não interpretar suas e minhas experiências dessa forma, mas, ao menos em nossa experiência de busca, compartilhamos semelhanças.

Pessoalmente, acredito em revelação divina. Acredito que aquela Realidade que chamo de Deus se revela ao ser humano de inúmeras formas. A maioria dos cristãos, talvez, diria que Deus se revela por meio das Escrituras (a Bíblia). Eu também acredito nisso. Mas, para mim, Deus se revela também por meio de nossas relações com as outras pessoas; por meio da comunidade de fé; por meio da natureza; por meio da oração; por meio do trabalho; por meio da arte e do entretenimento; por meio da ciência e do conhecimento intelectual; enfim, por meio da história humana.


Deus está sempre falando. Nós, talvez, é que não ouvimos. Deus fala, algumas vezes, inclusive por meio das vozes daqueles de quem discordamos. Por isso, não posso vê-los como meus inimigos.

+Gibson

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O teólogo entrevistado, o Islã e a mentecapta naturalidade


Ontem, ouvi um comentário que me fez não saber se ria ou se chorava, enquanto ouvia uma entrevista. Aquele entrevistado, apresentado como “teólogo”, resumia o cenário dum capítulo infeliz da história de 2015 – um capítulo que parece querer reescrever uma narrativa já conhecida de “caça às bruxas”. O “teólogo”, fazendo uma comparação histórica e teologicamente desinformada entre o Islã e o Cristianismo, dizia que não havia nada de naturalmente pacífico no Islã, já que – em sua opinião – só o Cristianismo era naturalmente pacífico!

Sua infeliz afirmação continha uma verdade inegável: não há nada de naturalmente pacífico no Islã!... E considero-a inegável porque, em minha visão, ideias não são naturais, conceitos não são naturais, crenças não são naturais... Logo após esse reconhecimento da não-naturalidade das ideias islâmicas, entretanto, ele inadvertidamente se contradisse, cometendo o equívoco de afirmar que essa naturalidade podia ser encontrada em sua própria tradição religiosa (da qual também partilho)!

O indivíduo cuja entrevista ouvi, aparentemente não compreendia que o Islã é uma noção contestada – assim como o Cristianismo (e mesmo a Paz). E isso porque o uso de todas essas noções é reflexivo: isto é, seu uso reflete mais o lugar onde o usuário se encontra no espectro do debate religioso/político/ideológico do que, propriamente, as continuidades e mudanças de sentido dado a eles (Islã e Cristianismo) por todo o diverso corpo de seus adeptos ao longo do tempo.

Assim, se dissermos que o Cristianismo (uma noção contestada ao menos pelas diferentes tradições autoidentificadas como “cristãs”) é “naturalmente” pacífico, a qual versão do mesmo estaríamos nos referindo? [Não poderia ser a de Jesus, já que ele não era cristão!]: À versão do imperador romano que o oficializou? À versão dos cavaleiros cruzados que dizimaram populações não cristãs? À versão dos inquisidores católicos que caçaram não-conformistas no mundo ibérico? À versão dos calvinistas bôeres que criaram/apoiavam o sistema do apartheid na África do Sul? À versão dos quakers (quacres) que proclamaram e viveram uma versão extremada de pacifismo?... É impossível falar em “naturalidade” duma mensagem quando não se consegue nem definir quem sejam seus agentes. [Para que não reste dúvida quanto à minha visão: o Cristianismo – minha fé – é uma criação histórica múltipla, e todas as suas faces são “cristãs”! Não é uma entidade ou objeto “natural”, que caiu pronto do “céu”. O Cristianismo, enquanto existir, continuará a seguir seu processo de formação – como toda e qualquer tradição de fé existente.]

É “interessantíssimo” que a maioria dos denunciadores do Islã que aparecem nos meios midiáticos, incluindo a internet, tenham uma leitura bem seletiva das fontes islâmicas. Isto é, facilmente citam trechos descontextualizados do Corão para “provar” o quão violenta é a mensagem do Islã. E isso é ainda mais “interessante” quando o assunto é política (e não exatamente religião).

Uma contextualização intelectualmente íntegra do Islã exige que incluamos aqueles antecedentes que os próprios muçulmanos utilizam como fonte para a interpretação de sua própria fé: a narrativa sobre Muhammad e os primeiros muçulmanos; a perspectiva teológica mediada pelo Corão e pelos ditos de seu Profeta; os arranjos institucionais e legais que se desenvolveram ao longo da emergência do Islã como uma força política e sociocultural; e sua própria experiência contemporânea. Grupos de fanáticos “terroristas” (lembre-se que mesmo esse conceito é contestável, se estivermos dispostos a analisar cuidadosamente a raison d'être de seu uso!) não podem ser os definidores do que mais de 1 bilhão e meio de pessoas acreditam – são elas, a partir de suas diferentes tradições e de suas próprias convicções e práticas, que devem definir suas próprias crenças.

Por que utilizaríamos citações da al-Qa'ida ou do Da'ish para definir o que os muçulmanos acreditam ser o Islã ou sua relação com a paz e com o mundo em geral? Por que nenhuma citação do atual establishment ortodoxo sunni ou shia? Por que toda uma tradição – que, na verdade, é multifacetada – seria definida por vozes marginais em seu próprio interior?

A equalização desinformada do Islã com o terrorismo e a violência é tão absurda quanto afirmar que o Cristianismo e o Fascismo, por exemplo, sejam sinônimo. O Fascismo pode ter emergido no seio duma sociedade majoritariamente (ao menos nominalmente) cristã; seus líderes podem ter se apropriado de símbolos cristãos; muitos cristãos podem ter abraçado o Fascismo; mas nada disso é suficiente para supor ou afirmar que o Cristianismo e o Fascismo sejam o mesmo – o Cristianismo é muito mais do que o pensamento ou a experiência de um certo grupo de fieis. [A comparação aparentemente exagerada, a propósito, se justifica pelo simples fato de os movimentos jihadistas serem movimentos políticos – e politizarem o Islã, utilizando-o a seu próprio favor –, de forma semelhante ao que ocorreu entre movimentos fascistas e membros do clero ou fiéis católicos italianos, eslovacos e croatas.]

O Islã não é “naturalmente” nem violento nem pacífico. Isso porque, para um não-muçulmano como eu, o Islã não é uma entidade ou objeto “natural”. É uma construção histórica. E, como construção histórica, pode ser tanto pacífico quanto violento. Tudo depende a partir de que perspectivas olhemos para seus frutos.

O Islã é uma tradição viva e multifacetada, na qual a maioria dos fiéis se esforça para discernir as ligações entre a narrativa histórica tomada como padrão exemplar e sua experiência contemporânea. Exatamente o que fazem os seguidores de todas as demais tradições enraizadas no texto escrito. Seus textos sagrados, as interpretações desses feitas pelas primeiras autoridades da tradição, as narrativas das experiências das primeiras comunidades de seguidores, e as ideias e práticas que se desenvolveram ao longo do tempo, contribuem para que os fieis judeus, cristãos, muçulmanos, etc, etc, etc, construam uma interpretação de sua fé relevante para sua experiência contemporânea – mesmo quando pensam que a única coisa que fazem é seguir o que já foi dado!... Ignorar isso, enquanto se apresenta como “teólogo”, é uma estarrecedora manifestação de ignorância voluntária!

+Gibson

sábado, 26 de dezembro de 2015

Um breve resgate da origem judaica do Natal: O mito natalino para um ministro cristão unitarista



[NOTA: Os termos e/ou trechos em grego e hebraico, ao longo do texto, são apenas transliterações.]

Começo com uma afirmação básica necessária: pouquíssimos estudiosos sérios questionam a existência de Jesus como um personagem real da história. São numerosas as fontes romanas, judaicas e cristãs sobre Jesus. Elas, obviamente, afirmam opiniões diversas a seu respeito, mas são aceitas como evidências suficientes de sua historicidade.

Quando Yeshua – o nome de Jesus em sua provável língua nativa, o aramaico (apesar de nenhum dos evangelhos explicitarem a língua falada por Jesus, pouquíssimas pessoas, além da elite dos escribas, podiam, àquela época, falar, ler ou escrever o hebraico bíblico; e os galileus falavam aramaico, não hebraico) – nasceu, seus conterrâneos viviam sob a tirania de conquistadores estrangeiros e sob o que entendiam como uma ameaça à sua identidade israelita advinda da assimilação cultural (uma ameaça recorrente à ideia duma identidade israelita ou judaica). A identidade israelita de seu povo enraizava-se na terra e no “mito” duma aliança que tornara aquela terra sua. Essa aliança mitológica era o escudo e a resistência que aquele povo tinha contra as forças imperiais romanas – uma fortaleza cultural que permaneceu de pé, mesmo depois de todas as instituições políticas e militares de Israel terem sido derrotadas.

A mitológica aliança que ligava aquele povo à sua terra emergira da compreensão que tinha das tradições israelitas. Essa compreensão advinha não do texto escrito da Torá e dos Profetas em hebraico – que pouquíssimos eram capazes de ler, de qualquer forma –, mas de seu “targum” oral. Um “targum” era uma tradução oral do texto das Escrituras que era memorizada e enriquecida por comentários, e recitada pelo “targeman” da comunidade. Essa recitação interpretativa das Escrituras contextualizava a tradição espiritual israelita para as circunstâncias de seu tempo, fazendo um amplo uso de leituras metafóricas. Dentre as muitas imagens enfatizadas por essa tradição interpretativa estava aquela do “Reino/Domínio de Deus” [basileia tou theou, no grego do Novo Testamento], que sobrepujaria todas as outras formas de reino ou domínio humano – uma forma de resistência poderosa para um povo que vivia sob o domínio estrangeiro.

Foi nesse contexto sociocultural que Miriam (Maria, em aramaico) e Yosef (José, em aramaico) conceberam a Yeshua (Jesus).

O texto grego de Mateus afirma:


“tou de iesou christou he gennesis houtos en mnesteutheises gar tes metros autou marias to ioseph prin e sunelthein authos heurethe en gastri echousa ek pneumatos hagiou.” [A origem de Jesus, o ungido, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo.] (Mateus 1:18)


O mito que envolve a narrativa natalina pode obscurecer o sentido histórico das palavras acima, extraídas do Evangelho de Mateus (“...antes de viverem juntos, ela ficou grávida por ação do Espírito Santo”). Em nossa cultura, afinal, a maioria de nós foi condicionada a interpretar aquelas palavras com base nos dogmas da Encarnação e da Trindade desenvolvidos posteriormente. Mas a tradição presente nos diferentes Evangelhos testifica sobre a recorrente acusação de que Jesus fora concebido de forma supostamente ilícita. Em sua vila de origem, de acordo com o autor do Evangelho de Marcos, ela era conhecido não como filho de José, mas como “o filho de Maria” [ho huios marias] (Marcos 6:3) – o que, se factual, seria uma evidência de seu status de ilegitimidade, já que as noções de “encarnação” e “trindade” ainda não haviam sido desenvolvidas. Mesmo longe de sua vila de origem, por exemplo, quando já era um rabino conhecido, Jesus foi ridicularizado, em Jerusalém, por haver nascido como fruto de “porneias” [fornicação] (João 8:41). Os séculos de dogmas acerca duma concepção e nascimento miraculosos obscureceriam dois pontos importantes sobre a narrativa que temos sobre Jesus: 1) Por que Jesus era insultado por supostamente ser filho ilegítimo?; e, 2) Por que se desenvolveu a narrativa de que teria nascido duma mãe virgem?

Aquela pequena frase em Mateus 1:18, enfatizada acima, é uma explicação suficiente para as acusações que marcariam a vida de Jesus de que seu nascimento possuía uma origem irregular. Ao mesmo tempo, também é suficiente para explicar a origem da lendária narrativa de que sua origem era miraculosa. Os seguidores posteriores de Jesus usariam a narrativa atribuída a Mateus como base para afirmar que Maria era biologicamente virgem quando do nascimento de seu filho. E por causa disso, em nossa própria época, os leitores teologicamente não ortodoxos podem se sentir tentados a descartar o valor histórico do Evangelho de Mateus. Mas, apesar de o texto daquele Evangelho e de outros estarem repletos de elementos não factuais, ele não pode ser responsabilizado pela leitura mítica que lhe foi imposta após sua escrita.

Um exemplo da compreensão mitológica posterior do texto encontra-se em Mateus 1:23 – “...he parthenos en gastri exei kai texetai huion...” [a solteira na barriga terá e dará à luz filho] –, quando afirma que uma mulher solteira [parthenos] conceberia um filho. Na tradução daquele texto grego à língua latina, no século II, “parhenos” tornou-se “virgo”, e essa tradução posteriormente alimentou a ideia de que Maria teria sido biologicamente virgem quando concebeu e deu à luz a seu filho Jesus. O problema com esse sentido, contudo, é que os termos “parthenos” e “almah” [“mulher jovem” – o termo hebraico que aparece na referência ao texto de Isaías 7:14] não significavam “virgem” como esse termo é utilizado na tradição cristã – na verdade, nem mesmo “virgo” significava isso exclusivamente; a expressão utilizada pelos romanos para “virgem”, no sentido relativo a “castidade”, era “virgo intacta” (por que não foi utilizado na tradução latina da Bíblia?!).

Uma razão que pode ser apontada para o uso de “parthenos” para referir-se a Maria é o fato de o(s) autor(es) de Mateus querer(em) fazer uma ligação entre Jesus e antigas profecias israelitas, para substanciar a afirmação de que ele seria o Messias esperado. Assim, seu passado é ligado ao passado de Israel. Note que sua mãe se chamava Maria [Miriam, em aramaico], e Maria [ou Miriam] era também o nome da irmã de Moisés, que salvou sua identidade israelita e, consequentemente, seu chamado profético (Êxodo 2:1-10), e que também foi chamada de “profetisa” (Êxodo 15:20). Essa Maria, irmã de Moisés, era descrita também como uma “almah” [parthenos, na tradução grega]. Assim, a mãe de Jesus possuía dois traços em comum com a irmã do libertador do povo de Israel, Moisés: o nome e a condição. Se a mais antiga Maria tivera a missão de assegurar que seu irmão manteria sua identidade como um israelita e, consequentemente, se tornaria o libertador de seu povo – sendo ela mesma uma profetisa –, a mãe de Jesus tinha a missão de trazer o Messias (o Cristo) ao mundo... Pequenos detalhes na narrativa que se tornaram essenciais para a forma como a maioria dos cristãos entenderia o Natal, mas aos quais poucos estão atentos!

Obviamente, a forma como a ortodoxia cristã lidou com isso tem muito mais a ver com as influências das ideias greco-romanas no pensamento da Igreja que emergia – pense, por exemplo, nos dogmas da Encarnação e da Trindade – do que propriamente com o que os textos originais das Escrituras ou a tradição judaica tinham a dizer. Assim, ao longo dos séculos, os cristãos não teriam a mínima necessidade de conciliar algumas afirmações feitas sobre Jesus, nos Evangelhos, com o todo da tradição judaica da qual ele era parte. E a ênfase no sobrenatural, no que tange à história de Jesus de Nazaré, pode ter contribuído para que a tradição cristã perdesse contato tanto com a cultura religiosa da qual emergiu quanto com a poderosa mensagem humana presente nos relatos, mesmo que míticos, sobre sua vida.

A questão sobre a concepção de Jesus – quem era seu pai, afinal de contas? – encontra três explicações diferentes no Novo Testamento (e essas podem se entrelaçar, nas mesmas fontes, com explicações conflitantes):

  • 1) Jesus teria sido concebido através da intervenção do “espírito santo” (ainda não necessariamente entendido como uma “pessoa”), por meio dum mecanismo desconhecido. Sua mãe, assim, não tivera relações sexuais com um homem: Lucas 1:34-35 e Mateus 1:18-25.

  • 2) Jesus era, de fato, filho de José: João 1:46; 6:42; Lucas 4:22; Mateus 1:1-17 e Lucas 3:23-38 (genealogias que só poderiam ter sido desenvolvidas com base nessa suposição) – os ajustes em Mateus 1:16 e Lucas 3:23 parecem ser posteriores. A identidade de Jesus como “filho de Davi” – Mateus 1:1; 9:27; 12:23; 15:22; 20:30-31; 21:9, 15; Marcos 10:47-48; Lucas 18:38-39; Romanos 1:3; 2 Timóteo 2:8; Apocalipse 5:5, e 22:16 – implicitamente invoca essa noção, já que apenas José poderia mediar essa linhagem (Mateus 1:20; Lucas 1:27, 32, e 2:4).

  • 3) Jesus foi acusado, por alguns de seus adversários, de ser fruto de “fornicação” [porneia, no texto grego] – João 8:41 –, e tal acusação é frequentemente vista como a base para a omissão de José na identificação de Jesus em Marcos 6:3, como já apontado anteriormente.


Ou seja, os próprios livros do chamado Novo Testamento – quando compreendemos sua historicidade (a forma como foram compostos e, posteriormente, ajustados para conformarem-se à ortodoxia desenvolvida posteriormente) – oferecem uma multiplicidade de pistas sobre o personagem histórico cuja memória nós cristãos, das mais variadas expressões, honramos no Natal. Essa multiplicidade contraditória, dentre tantas outras razões, resulta do simples fato de esses escritos não terem sido compostos como registros históricos como entendemos “História” e/ou “históricos” em nossos dias. As finalidades que tinham e os públicos aos quais se dirigiam não exigiam a noção de “factualidade”.

Mas, além daqueles escritos, podemos também acessar as pistas deixadas por outros textos importantes para entender a cultura religiosa na qual Jesus cresceu. Aquela pequena e simples frase em Mateus 1:18, assim como as expressões utilizadas nos trechos citados de Marcos e João (“filho de Maria” e “fornicação”) como referência a Jesus, pode(m) ser explicada(s) pela tradição talmúdica israelita. Por “talmúdica”, a propósito, quero me referir ao Talmud, um registro de discussões rabínicas acerca da Lei, exegese, costumes, história e tradições judaicas. O Talmud é composto pela Mishnah e pela Guemara e, apesar de os registros escritos mais antigos serem posteriores ao registro dos Evangelhos, aquela tradição da Torá Oral do judaísmo rabínico já existia antes de Jesus – estando presente em trechos dos Evangelhos.

Se voltarmos à tradição de José como originário duma cidade diferente da da jovem Maria (Lucas 2:4-5) – há, hoje, o conhecimento da existência prévia duma Belém na própria Galileia, próximo a Nazaré, mas evitarei entrar nessa questão aqui –, poderemos compreender um pouco da desconfiança sobre a paternidade de Jesus levantada por seus adversários.

Independentemente de quem tenha sido o pai de Jesus, as condições sob as quais foi concebido, de acordo com o(s) autor(es) do Evangelho de Mateus, o tornariam um “mamzer”, alguém gerado através de relacionamentos proibidos (e seus descendentes até a décima geração) pela lei judaica. A não ser que Maria pudesse apresentar testemunhas de que o pai de seu filho era um parceiro lícito, de acordo com a lei, se consideraria que o pai de sua criança era um “mamzer”, um filho de “mamzer” ou outro tipo de pessoa proibida, o que automaticamente também tornaria Jesus um “mamzer” (Mishnah Ketubot 1:8-9). E isso ocorreria tanto se José fosse o pai – já que, de acordo com o(s) autor(es) de Lucas, ele vinha de outra região e, assim, não poderia haver uma testemunha confiável de sua licitude como não “mamzer” para a comunidade de Maria –, quanto, e especialmente, se o “Espírito Santo” fosse o pai de Jesus – já que não poderia haver uma testemunha da licitude dessa paternidade!

Encontrar uma tradução apropriada para o termo “mamzer”, em português, é difícil. Algumas vezes, utiliza-se “ilícito” ou “ilegítimo(a)”, mas deve-se ter em mente que o termo hebraico não se refere a uma criança nascida fora do casamento – refere-se ao fruto duma relação sexual com a pessoa errada. As relações sexuais entre pessoas não casadas, a propósito, eram toleradas, e não afetavam o status da criança – só afetariam se um dos parceiros fosse “ilícito”. Muitas traduções, em português, da primeira referência ao “mamzerut” (a condição de um[a] “mamzer”) na lei judaica, traduzem “mamzer” como “bastardo”:


Não entrará bastardo na congregação do Eterno, nem ainda a décima geração dele não entrará na congregação do Eterno. [Deuteronômio 23:3 – da tradução da Editora Sêfer]


O Talmud esclarece que essa proibição de entrada na congregação significa a proibição de casamento com um[a] israelita. Os filhos duma união sexual entre um “mamzer” e uma mulher israelita estariam, igualmente, proibidos de se unirem a mulheres israelitas. No caso específico de Jesus, a ausência de provas de que era filho de um pai lícito – fosse seu pai divino ou um forasteiro na Galileia sem referências – o tornava um “mamzer”. O que significaria que, além de ser proibido de unir-se licitamente a uma mulher israelita, estava condenado a não ter voz na comunidade. [Você poderia me questionar sobre que garantias teríamos que José, por exemplo, não teria testemunhas reconhecidas de sua licitude para unir-se a Maria. Realmente não temos. Mas as evidências nos textos apontam para o fato de que Jesus foi acusado de “mamzerut” por seus adversários – e isso, se considerarmos o testemunho dos textos evangélicos, seria uma evidência de que haveria rumores a seu respeito!]

Olhar para os relatos da vida e dos ensinamentos de Jesus considerando as diferentes possibilidades permitidas pelos textos sagrados, cotejados com outras fontes do mesmo contexto sociocultural, pode parecer simples especulação para aqueles que abraçam o mito natalino como um relato factual. Mas, para mim, abre outras portas para compreender a tradição cristã. Ajuda-me, por exemplo, a compreender melhor a ênfase na visão de Deus como “paizinho” com o qual se pode manter relação pessoal – se Jesus foi um mamzer, e sofreu discriminação por isso, seu suposto uso do termo “Abba” para referir-se a Deus teria um impacto muito maior; suas fábulas sobre crianças teriam um peso muito mais profundo.

Assim, em minha experiência espiritual, humanizar Jesus, por meio da análise de possibilidades históricas, não equivale a diminuir sua importância. Muito pelo contrário. Significa alargar o sentido da tradição. Jesus deixa de ser apenas um mito etéreo – o Cristo construído pela ortodoxia –, e se torna o homem real, que iniciou sua vida como “refugiado”, viveu como um “excluído” e, por isso mesmo, sabia do que estava falando!

+Gibson

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Feliz Natal!




Independentemente de como compreendamos as narrativas acerca do nascimento de Jesus de Nazaré, a maioria de nós cristãos, em todas as eras e terras, honra o Natal ao menos como uma celebração memorial importante para a Igreja – a comunidade dos seguidores de Jesus. Como meus irmãos e minhas irmãs de outras tradições cristãs, também celebro o nascimento e a vida de Jesus de Nazaré, o Cristo.

Confesso que, como um unitarista, não me interessam muito as narrativas lendárias sobre um suposto nascimento sobrenatural. Tenho muito mais interesse nas condições dum nascimento humano comum. A humanidade de Jesus ressoa aos meus ouvidos e me faz desejar seguir seu exemplo.

Assim, esta noite, interessa-me celebrar o nascimento do menino que seria acusado de ilegítimo, fruto de fornicação. Do garoto que, como consequência do preconceito que sofrera, ensinou uma noção acerca de Deus como um “paizinho” do qual poderíamos nos aproximar sem medo. Do rabino que ousou caminhar com aqueles menos desejados. Do Messias que me salva por meio de seu ensinamento duro e de suas exigências pesadas de amor incondicional.

É esse o nascimento que escolho celebrar no Natal. Não o nascimento dum “menino deus”; o nascimento dum menino como todos os outros meninos, que viveria a vida que todos nós poderíamos viver em nossos próprios contextos – uma vida baseada numa forma de compaixão salvadora.

No Natal, celebro o nascimento do menino que começou sua vida como um refugiado – refugiado como aqueles que deixam, hoje, regiões da África e da Ásia em busca de humanidade na Europa, nas Américas ou outras regiões de seu próprio continente de origem. Se os pais de Jesus se refugiaram no Egito, buscando escapar de perseguições, então esse Jesus humano compreenderia todos aqueles que buscam uma vida mais segura, pacífica ou próspera em outras terras.

Celebro o nascimento do homem que segurou as mãos, abraçou, beijou e comeu com as pessoas tidas como mais indignas. O homem que chamou como seus “talmudim” (discípulos) pessoas que outros mestres desprezariam...

É o nascimento desse personagem que celebro esta noite. É esse Jesus que celebro como o Rei de minha fé, como o mestre que me sinto convidado a seguir.

Vem, ó homem de Nazaré, e me ensina a encarnar tua mensagem de compaixão!

Feliz Natal a todas e todos!

+Gibson

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A "Palavra de Deus": uma resposta a Pedro


Caro Pedro,

Você está equivocado quanto à minha compreensão das Escrituras. O problema está na forma como compreendemos certos conceitos que você utilizou. O mais importante deles é o conceito de “Palavra de Deus”. Você, aparentemente, define esse conceito como sendo sinônimo exclusivo de “Bíblia”. Assim, para você, por a Bíblia ser a “Palavra de Deus”, ela teria uma origem divina – de alguma forma, tudo o que esteja escrito naquele conjunto de livros, para você, é originalmente divino. É esse seu sentido de “divindade” original que não abraço. Para mim, a Bíblia é, sim, um conjunto de textos “divinos”, mas não porque os textos tenham sido escritos já como “divinos”. As Escrituras (prefiro chamar a Bíblia de “Escrituras” para reforçar a sua multiplicidade) passaram por um processo de “divinização” – isto é, o texto originariamente humano é reconhecido como “divino” porque, para os ouvintes (a maioria dos primeiros cristãos era de ouvintes, e não de leitores das Escrituras), aquelas palavras os aproximavam do Divino e lhes mostravam o caminho,

Você consegue perceber a diferença em nossa compreensão?

Para mim, a “Palavra de Deus” é Jesus Cristo, e não a Bíblia em si. Obviamente, “Palavra de Deus” é apenas uma metáfora, não uma declaração literal. Por isso, poderia ser aplicada igualmente à Bíblia. Mas eu, pessoalmente, prefiro utilizar a metáfora apenas quando me refiro a Jesus. É por essa razão que você – como me escreveu – possivelmente nunca leu nada que eu tenha escrito se referir à Bíblia como “Palavra de Deus” (bem, você pode nunca ter lido ou ouvido, mas, na verdade, eu já me referi algumas vezes às Escrituras como tal, em contextos muito específicos). A Bíblia não pode dizer ser ela a “Palavra de Deus” por duas razões simples: 1) a Bíblia não diz absolutamente nada, quem diz são seus autores – isso parece ser uma banalidade, mas é essencial para que você desenvolva uma compreensão mais madura de sua leitura; 2) não pode haver uma afirmação na Bíblia de que ela seja a “Palavra de Deus”, no sentido que você dá ao termo, porque os autores da “Bíblia” não sabiam sobre a existência da “Bíblia”! A Bíblia, enquanto livro unitário, no singular, é uma invenção recente. As Escrituras surgiram como um conjunto de textos distintos, escritos em lugares e contextos diversos, por autores diversos, em línguas diversas e até, pelo menos, o século XVI ainda não havia sido estabelecido o cânon definitivo dos livros daquilo que hoje lemos como um livro unitário. E os homens foram não apenas os autores e tradutores dos escritos, mas também aqueles que decidiram quais desses escritos estariam nas traduções que lemos hoje!

E essa é uma das razões mais importantes para que eu não abrace sua perspectiva de origem divina das Escrituras – há muitas outras razões, mas já escrevi sobre elas naqueles textos que você citou em sua mensagem.

Ler é interpretar, e a interpretação é um processo. E nenhum cristão lê a Bíblia por si só – ou seja, o sentido que dá à sua leitura não advém apenas das palavras que encontra impressas sobre as páginas. Todos nós, quando lemos as Escrituras – ou qualquer outro texto escrito –, utilizamos em nossa ação interpretativa as ferramentas que encontramos em nosso próprio “universo cultural”. Dentre essas ferramentas estão os conceitos que já internalizamos – voluntária ou involuntariamente – sobre, por exemplo, Deus, Jesus Cristo, a humanidade, a vida, a morte etc. Assim, um católico romano, um luterano, um presbiteriano, um unitarista, um santo dos últimos dias, ou um pentecostal, podem ler a mesma porção dum texto bíblico e compreendê-lo de formas diferentes e, muitas vezes, conflitantes.

Essa noção de que as Escrituras são interpretadas, ao menos parcialmente, com base naquilo que trazemos em nossa visão de mundo, obviamente, não é geralmente aceita por aqueles que acreditam na Bíblia como tendo uma origem literalmente divina. É por essa razão que, para eles, há apenas uma interpretação válida da coleção de livros que chamamos de Bíblia – e que alguns tratam como se fora um único livro, com uma única mensagem, com uma única intenção, com uma única origem.

A multiplicidade de fontes para a ação de interpretar as Escrituras inclui o próprio texto, a tradição, a razão, e ação divina. Isto é, a maioria das tradições teológicas cristãs reconhece que há no processo de engajamento com o texto bíblico uma multiplicidade de relações. Mesmo você reconheceu isso, quando escreveu sobre a ação do Espírito Santo.

O relato que você me fez de sua experiência de “conversão” já me dá pistas sobre a origem de sua compreensão sobre a Bíblia. Se você fosse um católico romano ou um luterano, por exemplo, suas perguntas seriam diferentes e, possivelmente, as respostas às quais chegaria também seriam diferentes daquelas que abraça hoje. Da mesma forma, eu também tenho perguntas que são muito diferentes das suas quando leio as Escrituras, e, provavelmente, chego a conclusões bem diferentes das suas.

Para mim, isso não significa que você esteja essencialmente errado e eu esteja essencialmente certo em termos das questões levantadas e das conclusões às quais chegamos. Significa, apenas, que partimos de lugares diferentes; lugares que não são melhores ou piores que o do outro, são apenas diferentes. O esforço que eu, pessoalmente, faço, tanto em minha vida ministerial quanto devocional, é tentar entender o lugar de onde as outras pessoas partem. E posso garantir a você que, quando fazemos isso, nós aprendemos que é possível viver com a diferença. É só tentar mudar um pouco a perspectiva e se colocar no lugar do outro – especialmente quando esse outro busca a mesma coisa que você.

Grande abraço!

+Gibson